sexta-feira, 23 de abril de 2010

caim

Caim não matou Abel por ser mau, ou cruel ou insensível. Foi exactamente pelo contrário, por uma sensibilidade descabida e irracional. Foi a primeira vítima de Deus que não soube amar os seus filhos por igual mesmo que o amor paternal possa ter e tem várias formas. No A Leste do Paraíso de Steinbeck, Caim (aqui Caleb) acaba por ter o destino marcado no nome, tentando sempre não "matar" o irmão, apesar dos impulsos que o perturbam. No entanto aqui o pai tem a crueldade justificada na história e no caminho que percorreu. E sente-se no texto o amor do pai, amor esse que não se sente na leitura da Bíblia. E Deus não tem essa justificativa. Não tem nem justificativa para recusar as oferendas de Caim nem para o preterir a Abel, de forma tão clara e visível. Aqui a Bíblia não mente, só nos dá algumas ferramentas para interpretar o que lá está. Saramago, em Caim, mostra bem esta crueladade do Grande Pai, que deixa o filho sofrer e não lhe permite humanidade. E é isso que Caim mostra ao matar o irmão - que é humano, assim como Adão, pai de Caim, foi humano ao comer a maçã. E Deus não lhes permite essa humanidade nem perdoa ou compreende o erro. O Deus criador é aqui um Deus castrador. No entanto (e vá-se lá saber se era essa a intenção dele) Caim ao ver-se obrigado a errar pela terra ("E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.” O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, a Leste do Paraíso.") teve de saber escolher, agora sim, livremente, o seu caminho, com a memória de um crime que, no limite, não seria só seu, seria da raiva que Deus plantou nos seus gestos ao recusar o amor filial.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.

terça-feira, 13 de abril de 2010

ISTO NÃO FICA ASSIM

O blog do encontro livreiro em Setúbal, na mítica Culsete com o livreiro Manuel Medeiros já está disponível aqui. Desta vez não consegui mesmo ir, fico à espera do próximo.

No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.

About Steinbeck

Fui ver as Vinhas da Ira do John Ford e fiquei a pensar no Steinbeck, um dos amores da minha vida.
Há qualquer coisa que ele sabe e que nós não sabemos. E que ele nos ensina, mesmo que nunca o nomeie. Fala dos laços. Da família que pode ser qualquer uma. Nas Vinhas da Ira é a família de sangue, que se une numa sobrevivência cega. No A Um Deus Desconhecido é o amor à terra, à famíla que nasce e morre num só sítio, onde a terra é o sangue. No Ratos e Homens é a amizade e a irmandade tão forte que nos permite escolher pelo nosso "irmão" entre a vida ou a morte, se ele não o consegue fazer sozinho. Em O Inverno do Nosso Descontentamento é a família que nos vê mais do que é desejado. No Batalha Incerta é a união dos trabalhadores numa greve que só termina com a morte ou a vitória, numa união intrinsecamente inquebrável, onde ninguém cede. E no maravilhoso A Leste do Paraíso é o amor fraterno que resiste ao destino de um nome, é Caim que não quer matar Abel mesmo que essa morte esteja escrita à partida. É um pai que não percebe o amor, nem as formas que ele tem.
A arte de Steinbeck está em ver estas ligações tão invisíveis e tão viscerais numa altura em que desacreditamos a resistência da amizade e da família (a nossa e a que escolhemos) a qualquer preço. Em que a insegurança é o mote dos dias e das crenças. Steinbeck conta-nos outra coisa. Ensina-nos sem ser dogmático. Mostra-nos e conta-nos histórias que podiam as histórias da porta ao lado.

É disto que vou falar hoje na Trama (II)

Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há dos nossos actos um sequer que ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo, é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade.

Jean Paul Sartre, Existencialismo é um Humanismo

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os disparates que se vêem escritos por aí...

Na revista LER, num anúncio a um livro, O Vale das Bonecas de Jaqueline Susann, lê-se:

"A combinação de fragilidade emocional com abuso de drogas é ainda mais chique hoje do que quando foi publicado pela primeira vez."


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Escritoras esquecidas do séc XX

As leituras que faço levam-me por muitos caminhos, diferentes uns dos outros. E às vezes há sítios onde me deixo ficar, desenvolvendo uma pe...