quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rosa Maria Martelo sabe falar de poesia

hoje pode-se ler no blog da Documenta, em grande como sempre.



«L’homme est le seul être qui s’intéresse aux images en tant que telles.»
Giorgio Agamben, Image et Mémoire

Que carga e equilíbrio de forças são esses que atravessam o universo lírico, as suas ameaças e imagens, e nos depõem na órbita da palavra, da figuração, da música?

Herberto Helder, «O Nome Coroado»


«Os ensaios reunidos neste livro constituem diferentes tentativas de aproximação aos processos de fazer imagem na poesia moderna e contemporânea. Embora trabalhem obras e questões diferenciadas, todos incidem sobre formas de conceber e articular as imagens na poesia, ou sobre os modos como o texto poético se pensa em diálogo com outras artes da imagem, especialmente o cinema.

[...]
 Ao acentuar a visualidade e o visionarismo das imagens verbais, ou a sua tensão e rapidez, a poesia de tradição moderna apresenta-se muitas vezes como uma espécie de cinema, uma arte na qual o fluxo das imagens desempenha um papel determinante. «O cinema extrai da pintura a acção latente de deslocação, de percurso. Tome-se um poema: não há diferença», escreveu Herberto Helder. Como pensar esta similaridade, esta convergência? Em que consiste o cinematismo da poesia? Os autores estudados neste livro encaminham-nos para algumas respostas.
[…]
Quando são tidos em conta os diálogos da poesia com o cinema, a presença temática do universo cinematográfico é normalmente destacada, pelo que ganham especial relevância os poemas dedicados a filmes, realizadores e actores, ou os poemas que funcionam por processos ecfrásticos e por transposição narrativa.
[…]
Há um outro tipo de relação entre a poesia e o cinema que diz respeito às cumplicidades entre duas artes que partilham uma extensa e multímoda reflexão sobre os processos de fazer imagem. Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge, Al Berto, Luís Miguel Nava, Fernando Guerreiro ou Manuel Gusmão desenvolvem formas de intermedialidade situáveis nesse plano, que este livro procura apreender.»




Rosa Maria Martelo é professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se doutorou em 1996, e investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Tem colaborado em diversas revistas e publicou vários livros de ensaios, entre os quais A Forma Informe — Leituras de Poesia (2010). Organizou, com Joana Matos Frias e Luís Miguel Queirós, a antologia Poemas com Cinema.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

baú do meu palácio #2

José Donoso é o segundo livro sacado do baú e na verdade é sacado muitas vezes. José Donoso é um escritor chileno e por isso é um dos escritores de que falo no Curso de Literatura Hispano-americana (já com nova edição a espreitar).
Este livro conta uma hisória sem data nem local. Podemos imaginar, pelas descrições, que estamos algures na América Latina, ali pelo início do século passado.
Numa casa de campo passam férias vários casais de uma mesma família com os seus filhos, todos primos ou irmãos entre eles, com idades que vão, sensivelmente, dos 4 aos 17 anos. de manhã os pais saem e deixam as crianças sozinhas. é aí que entramos num não-tempo, apenas dominado pelas crianças e pelo seu entendimento que faz com que aquele tempo que passam sozinhos se estenda por aquilo que parecem ser muitos dias. as crianças, sozinhas com os empregados da casa, organizam-se anarquicamente e de uma forma tão selvática como natural, sempre com o lado de lá do muro da casa como o local proibido e desejado. assistimos nesta organização e vivência anárquica ao desabrochar de pulsões eróticas e violentas, num ambiente febril que se vai enevoando e tornando intransponível. desengane-se quem espera uma história com uma confortável lógica final, este livro constrói-se em espiral e uma vez lançados os dados da auto-gestão e total autonomia do controlo do espaço pelos miúdos dificilmente será possível voltar à ordem estipulada. uma metáfora? claro. e uma metáfora do caraças.

o LEVA no Notícias Magazine


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criatividade na primeira pessoa

já aqui disse muitas vezes que penso muito. saio de casa sozinha ao fim de semana e ando a pé a ouvir música. penso no sentido da solidão (assunto para outro texto). penso no que gostaria de estar a fazer se não estivesse ali. e hoje pensei como muitas vezes penso que a vida tem de ser um bocadinho mais do que isto. e pela primeira vez isso aconteceu-me numa altura de conforto. o que normalmente não acontece.
passo os dias apaixonada. passo os dias a ler, a escrever, a pensar. a pôr o LEVA a andar. a jantar com amigos, a pôr a minha casa bonita. a estar com a família, a atravessar o rio para os ver, ou a ir aos subúrbios. mas há uma coisa que nunca faço, nunca. ser criativa. tenho muita confiança em muitas áreas da minha vida mas não tenho nesta. tenho muito medo de que a minha criatividade faça apenas sentido para mim. na entrevista que dei pelo LEVA ao DN perguntaram-me como ia conseguir levar isto avante se ia ser como ter outro emprego. pensei que não custava nada, que com todas as horas que dou a isso, aos cursos e a tudo o resto de que falei sobra-me tempo e tempo e tempo. onde sou feliz a olhar para a parede, mas que posso encher com essa criatividade.
e lembrei-me do boris vian. do espectáculo que estava a construir para o boris vian. e lembrei-me da vontade gigante de voltar a estar num palco, não no sentido de lá estar como um produto acabado mas no sentido da construção. quem já fez teatro comigo sabe que construo o espectáculo como um todo estético antes de pensar nas palavras. penso nas roupas e nas maquilhagens, na entrada, no cenário, nas salas, no público. porque um espectáculo constrói-se como um todo desde o início. eh pá arrisco tanto a ser agora muito pirosa mas até senti fogo de artifício dentro da cabeça, do estômago e do coração. o boris vian. não é uma peça de teatro. é um espectáculo onde mostro quem ele foi, com cenas e textos e músicas dele. interrompi a construção deste espectáculo quando vim morar para aqui, precisei de enfiar a cabeça também dentro de caixotes (malino 2012). e hoje, quando preparei a mochila para as minhas deambulações pus lá o meu querido boris. e a cabeça a repetir ena pá ena pá ena pá.
já tenho alguma coisa feita mas falta muito trabalho, muitas leituras, muitas pesquisas mas ele vai chegar. faço esta parte mais sozinha para que ninguém me faça desistir. depois pego nos meus miúdos e vamos todos subir ao palco e vamos borisvianar. vamos borisvianar. vamos borisvianar. vamos borisvianar. ena pá.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

LEVA no DN

a quem tiver interesse o DN deste Domingo traz uma reportagem sobre o LEVA. na próxima semana vou digitalizar para todos lerem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

a ler surrealistas com os cabeçudos

pois é, o tempo voa e já falta muito pouco.
a Cabeçudos vai receber os "grandes" (e os pequeninos também que eles adoram surrealisticar) para lermos os meus queridos surrealistas.
então agarrem nos vossos surrealistas, no que para vocês forem surrealistas, que isto os surrealistas adoram não ter muitas regras. eu levo os meus e falo um bocadinho deles, não muito, qb, vá, e ainda vou preparar uns surrealismos para surrealisticarmos surrealisticamente. cliquem aqui para saber o que por este blog já se andou a falar de surrealistas.
podem vir só ler, podem vir só ouvir, podem vir ao contrário, podem não vir.

8 de Fevereiro
22h
Livraria Cabeçudos
Rua António Lopes Ribeiro, 7A - 1750-312 Lisboa
Mapa 
Entrada: 5€

surrealistiquemos!





terça-feira, 22 de janeiro de 2013

o que já está a correr mal

nas resoluções de ano novo, que podem ver aqui.

etiquetas no blog - check (com uma pequena batota que não interessa a ninguém)
entregar a proposta dos livros no metro à EGEAC (falha apocalíptica)
acabar o Liberdade (falha apocalíptica)
acabar o Lobo Antunes (ahahahahahahahahahahah)
acabar o Banquete (falha apocalíptica)


circunstâncias da vida 4 - 1 rosa

volto no final de fevereiro. duvido que melhore.

 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

baú do meu palácio #1

(a partir de hoje, às segundas-feiras livros que me dão ganas de ler outra vez)



A Metáfora do Coração e outros escritos
de Maria Zambrano 
Edição/reimpressão: 1993
Páginas: 160
Editor: Assírio & Alvim
 
Li esta bonita filósofa espanhola que viveu em muitos países europeus e da América Latina com uma emoção que não vos sei reproduzir. Sem lírismos excessivos, sem palavras a mais, sem ideias encriptadas escreve poesia filosófica e diz mais do que o essencial, diz verdades que se atropelam. Sobre vários temas, mas este é sobre a escrita, sobretudo. Prometo que nas próximas segundas-feiras serei mais escorreita a falar dos livros. Este é isto. Este e os outros. Agora ando a ler o Homem e o Divino, título que poderia ser, segundo a própria autora, o título de tudo o que escreveu. É disso que ela fala, da relação do que somos com esse divino que não é religioso mas com o qual convivemos tantas vezes com tanta dificuldade. Mais do que isto só o que diz Cioran, era mesmo isso que queria dizer, ele disse primeiro:

"Quem como ela, adiantando-se à nossa inquietação e à nossa busca, tem o dom de deixar cair a palavra imprevisível e decisiva, a resposta de subtis repercussões? Por isso desejaríamos consultá-la ao chegarmos a uma encruzilhada da vida, ao limiar de uma conversão, de uma ruptura, de uma traição, numa hora de íntimas confidências, grávidas e comprometedoras, para que ela nos revele e explique a nós próprios, para que nos conceda uma espécie de absolvição especulativa e nos reconcilie tanto com as nossas impurezas como com as nossas indecisões e perplexidade."
E. M. Cioran
 
"[o escritor] Quer dizer o segredo; o que não pode dizer-se com a voz por ser demasiado verdade; as grandes verdades não costumam dizer-se a falar. A verdade do que se passa no secreto seio do tempo é o silêncio das vidas, e que não pode dizer-se. «Há coisas que não podem dizer-se», e é verdade. Mas isto que não pode dizer-se é o que tem de escrever-se."  
in A Metáfora do Coração e outros escritos

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

a melancolia escreve?

há assuntos recorrentes, seja em conversas sérias seja na reinação com os amigos escritores. este é um deles.
começo já por ser suspeita porque dediquei o primeiro livro que (não) escrevi à melancolia. para verem que terei de sair um bocado da minha realidade para conseguir pensar bem sobre isto.
será que um bom escritor não pode ser feliz? será a felicidade inimiga da criatividade?
vamos primeiro a factos (sim, muita gente move-se a factos científicos por isso venham eles). há realmente um grande número de escritores que se suicidou e é ainda maior a lista de escritores com perturbações mentais. para além disso as doenças mentais sempre tiveram uma relação estreita com a criatividade e a criação.
depois há outros factos menos exactos mas que são os que observo. a felicidade leva-nos para uma realidade mais quotidiana. torna-nos mais confortáveis e apaziguados com a nossa realidade. para além disso torna-nos mais predispostos ao contacto humano e social. a melancolia e a tristeza (que, atenção, não são de todo a mesma coisa!) levam-nos a um questionamento constante, o questionamento leva-nos à necessidade de olharmos para dentro, de nos tornarmos um novelo enrolado para dentro, e a escrita, em última instância (excluindo escritas que agora vou fingir que nem existem) vem dessa necessidade de verbalizar um questionamento interior. a escrita criativa entenda-se.
não vou fazer declarações preto no branco porque não é o meu género ou não quero que seja. mas a melancolia e o estado de questionamento estão definitivamente ligados a uma escrita que cumpre esse propósito de questionamento.
se podemos ser felizes e escrever? podemos, claro e muitos podem fazê-lo e fazem-no. mas o exercício da escrita será muitas vezes, nesses casos, muito mais cansativo e doloroso porque teríamos sempre de forçar esse questionamento melancólico.

(antes da chuva de pedras volto a referir que falo apenas de um tipo de escrita, que não preciso de dizer qual é, vocês são espertos)


"Even as adults, some writers take the easiest route through life—avoiding risks, playing it safe, and being nauseatingly wholesome. Can they be great writers? Sure... but only if they want to write that marketing copy for a yogurt company. Being a great writer in the sense that you understand the intricacies of grammar and are able to convey your thoughts with clarity is different from being an outstanding storyteller. Being a storyteller requires you to truly live, to go out on the edge, to deal with the pain when it comes, to fight through the sadness, to embrace the joy, and to come out the other side with amazing stories to tell. "

(este parágrafo, ilustração e tudo o que me fez pensar nisto aqui, neste artigo. sublinhados meus)

eu sei que roça o ser ruim

mas quando leio que o problema do tolstoi é usar "nomes esquesitóides" vou às lágrimas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Na folha de São Paulo

"Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas
(clicar para ler a página)


Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).
Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a "linguagem coloquial".
Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico "Daily Telegraph", mostram que a atividade do cérebro "dispara" quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.
Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.
Os especialistas descobriram que a poesia "é mais útil que os livros de autoajuda", já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.
"A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças", explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.
Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens."

my new blog

http://mal-comportados.blogspot.pt/

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

temos site!




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e-mail em jeito de carta aberta para os voluntários do LEVA

se é voluntário ou pretende ser e não recebeu este e-mail entre em contacto connosco através do leremvozalta@gmail.com

Caros voluntários do LEVA,
antes de qualquer outra questão quero pedir desculpa pela demora desta resposta. Não me esqueci de vocês, estava só à espera de ter tudo mais certo e de alguma forma ter notícias concretas.
Primeiro esclarecer que recebi e registei todos os pedidos de voluntariado sem ter ainda entrado em contacto com nenhum de vocês.
O nosso primeiro livro vai ser gravado já e as gravações começam já na 3ª. Foi um livro encomendado pela Escola Superior de Dança. Como é o primeiro livro gostaria muito de ser eu a gravar. No entanto assim que as encomendas começarem a ser processadas vou precisar de vocês.
Este e-mail segue para voluntários de todas as áreas por isso seguem agora algumas questões que podem dizer respeito mais a uns do que a outros:
- os direitos de autor serão tratados de forma igual para todos os livros, contacto as editoras a pedir os direitos e forneço-lhes uma declaração onde o cliente se compromete utilizar o livro apenas para uso pessoal. Está salvaguardado no site que não nos comprometemos conseguir direitos de qualquer livro encomendado.
- por enquanto estamos a processar apenas encomendas mas não estão esquecidos os editores e autores que nos cederam gratuitamente os seus direitos. Vou pensar numa segunda fase do projecto onde possamos introduzi-los.
- a ETIC associou-se a este projecto cedendo estúdios e alunos. No entanto não vou deixar de precisar de técnicos. Era interessante e dava alguma dinâmica ao LEVA ter alguns técnicos associados a leitores, por relações de proximidade, de forma a que fosse possível entregar-lhes um livro sabendo que ele seria gravado com agilidade na relação dos dois. Se for o vosso caso informem-me para eu registar. Os que não têm continuam como voluntários e juntam-se consoante a disponibilidade.
- preciso da maior ajuda na comunicação do projecto porque vamos tendo alguma visibilidade mas não muitas encomendas ainda. Agora com o site vou começar a apresentar o projecto a instituições que faça sentido apresentá-lo. Alguns de vocês ofereceram-se para ajudar nessa parte por isso peço que entrem em contacto comigo. Preciso de toda a publicidade possível, e divulgação.
- para os leitores que agarrem um dos livros terei de fazer um teste de leitura, de forma a garantir que tudo corre bem. Depois conforme forem demonstrando disponibilidade para gravar falamos nisso, até porque alguns de vocês ou já enviaram testes ou trabalham na área com qualidade comprovada.
- o nosso site, fresquinho e acabado de sair: www.leremvozalta.org
- sugeriram-me que fizesse uma apresentação pública do projecto. Estou a magicar forma de o fazer. Têm ideias?
- precisamos sempre de voluntários, se conhecerem mais gente escrevam-me.
- as novidades do LEVA continuam a aparecer no blog www.estoriascomlivros.blogspot.com e no nosso facebook.

E acho que é tudo. Desculpem um mail tão grande depois de tanto tempo sem notícias. Não posso desperdiçar o momento de mais uma vez vos agradecer a disponibilidade e o entusiasmo. Estou verdadeiramente feliz por ter tido a possibilidade e privilégio de conhecer e lidar com as dezenas de voluntários que me levaram ao colo desde o início. Um bem haja de verdade. Assim é mais fácil ter fé e vontade de não ficar a ver os dias passar.

Um até já
rosa

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

o raio do guito

estou há uns tempos para escrever sobre o dinheiro e os trabalhos remunerados mas tem-me faltado a coragem. coragem é a palavra certa. mas já que entrei numa sequência de batalhas perdidas entro nesta também que não sendo bem uma batalha é polémico qb para dar más respostas ou, pelo menos, silêncios sepulcrais que é o que tenho recebido quando a polémica ultrapassa o risco. tentarei não o fazer. avante.
primeiro vamos ao mote disto. ontem, numa entrevista, perguntavam se o meu objectivo com o LEVA era fazer dinheiro com ele numa fase posterior. gaguejei um bocado e respondi que não, porque se o fizesse, não era o LEVA, era outra coisa. de todos os aspectos do LEVA o que tem sido mais difícil de explicar e até de aceitar (houve quem achasse um verdadeiro disparate, que "assim não pode ser") é o facto de o trabalho não ser remunerado, ser tudo feito com voluntariado. na verdade esta questão tem dois lados, uma que me faz sentido a mim enquanto pessoa que trabalha e não recebe e outra para o cliente, que não paga. não se trata aqui de grandes altruísmos ou sentimentalismos. eu diria que é uma questão de equilíbrio. o facto de termos uma incapacidade qualquer que não resulta de uma opção nossa não deveria limitar-nos mais do que aquilo que seria absolutamente indispensável. era incapaz de dizer que fazia audio-livros por encomenda e cobrar por eles, sabendo que o preço seria um disparate porque, e como exemplo, este livro que vou gravar agora tem 400 páginas e possivelmente umas 30 horas de gravações e sei lá quantas mais de estúdio. seria um produto de luxo e eu não creio que um livro deva ser um produto de luxo para quem não o pode ler em papel uma vez que não o é para quem pode. não posso alimentar esse mercado nem cometer esse género de exploração financeira de um tipo de clientes que não escolheu a razão pela qual necessita desse tipo de luxos.
por outro lado eu não quero receber dinheiro por este trabalho. uma das grandes razões de frustração em relação ao que sou e à vida que tenho hoje é sentir que o dinheiro se tornou em muitos casos um veículo de decisão para aquilo que é a minha vida, uma vez que preciso da independência, autonomia e liberdade que o facto de ter o trabalho que tenho me dá. na verdade faço muitos trabalhos e sempre fiz que não são remunerados, talvez quase a totalidade dos eventos que organizei e projectos em que me envolvi não eram remunerados. e na verdade é interessante ver como o máquina se transforma e aquilo que fazemos passa a ter o único propósito da finalidade do projecto. e isso, posso-vos garantir, é único. o amor que ganhamos ao que fazemos, a dedicação, a alegria de ver os resultados é incomparável.
no entanto não sou fundamentalista nem anti-remuneração. os cursos que dou são sempre pagos e isso tem a ver com uma razão muito simples. quando prestamos um serviço profissional a alguém ele é validado pela remuneração (e nem imaginam o que me choca dizer isto mas tive provas disto muitas vezes). ninguém se choca que uma conferência seja gratuita, ou um concerto, ou algo que entre na categoria dos tempos livres (daí alguns concertos serem obviamente pagos e outros não, mas isso era outra conversa). no entanto quando vamos para aprender alguma coisa, como é o meu caso, o pagamento valida a minha actividade. quem confiaria num dentista gratuito? ou num explicador de matemática? e depois há o outro lado dos pagamentos que nos casos dos meus cursos também se aplica - a sustentabilidade de alguns negócios que por mais válidos que sejam longe da máquina financeira têm de sobreviver - e neste caso faz sentido que um curso feito numa livraria seja pago.
com isto tudo o que quero dizer é que é importante aprendermos a viver à margem da remuneração. sei que para muita gente não é possível, mas não é por isso que não é uma experiência fundamental. o dinheiro é tóxico. aqui não cedo. e se calhar tudo isto que faço é para me esquecer que é o dinheiro quem me prende há muito tempo a uma vida que não gosto e que durante muito tempo me impediu de ter a vida que eu quis o que me marcou de uma forma muito mais violenta do que imaginam. e sabem que não me fico. e fui criando uma forma de estar em que, invariavelmente, não penso que um pedido de ajuda ou uma hipótese de uma organização de evento, ou uma perninha num sítio qualquer seja remunerado. e não digo que não quando o é, claro. e sei que não abdico da minha viagem anual a países cada vez mais estranhos ou dos meus três ou quatro livros por mês e dos infindáveis jantares em minha casa com as oito pessoas que lá cabem. mas isso é porque tento o equilíbrio. porque tenho a sorte de o ter conseguido.

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997