quarta-feira, 25 de junho de 2014

narrativa poética

é difícil falar de literatura. com a (boa) e plural transformação dos géneros literários tradicionais ficámos de mãos atadas. os hispano-americanos deram-nos a volta com a introdução do conto como género maior e vencedor. os hipsters introduziram a micro-narrativa que se mistura com a ficção mas que se liga ao pensamente e reflexão. os asiáticos chamam à poesia haiku. e porquê tantos nomes? já não há nomes estranhos e indefinidos há variações de nomes estabelecidos há mais de um século: micro-contos, micro-narrativas, poemas narrativos, narrativa poética, romance filosófico, poesia experimental. mas as categorias estão cá de finca-pé: poesia, ficção, ensaio. na ficção o conto, o romance, a novela (tão esquecida a novela, esse género tornado rei através da ana teresa pereira).

não existem em vão estas definições. existem para nos organizar o pensamento (e organizar o pensamento para quê e para quem?). hoje venho falar da definição de narrativa poética. a narrativa prende-se muitas vezes com a ficção se bem que não obrigatoriamente. pode ser ensaística ou auto-biográfica, esse meio caminho entre o ensaio e a ficção. a poesia é sempre difícil de definir, mas a definição mais imediata é com a forma. nada mais criminoso, claro. para mim a poesia define-se (incorrendo em dúvidas e desconfianças) pela posição do leitor perante um texto simbólico, mesmo que numa primeira leitura não pareça. e, em consequência, a narrativa que tem um forte pendor simbólico poderá ser considerado narrativa poética. ah, antigamente é que era fácil quando podíamos recorrer ao termo "lírico" já tão orgânico no nosso pensamento. já não podemos, aliás, é uma palavra a abolir do dicionário.

e pronto, este texto não serviu para nada, efectivamente, porque os estudos literários não deverão servir para dar respostas e sim fazer-nos pensar. preferia que cada leitor atento pegasse numa narrativa e me dissesse qual o seu ponto de equilíbrio entre narrativa e poesia, longe de conceitos esclerosados. afinal estamos no séc XXI, aquele que nasceu para ver uma literatura que não tem pontos de ligação, linhas de continuidade, num grande sofrimento com a angústia da influência. um leitor tem de saber equilibrar autonomia com história literária e fazer das suas leituras não uma leitura isolada e única - porque nada cresce do isolamento absoluto - mas antes uma leitura integrada e atenta. e a partir de agora que comece a discussão sobre narrativa poética.

e deixo um conselho, em caso de dúvida não consultar a wikipédia. assim como não devemos pesquisar doenças porque todas acabam com mortes lentas e dolorosas, também no caso dos géneros literários as consequências não são menos sangrentas. qualquer dúvida enviem-me um mail. eu tratarei de vos dizer que não vos posso ajudar e a pedir-vos para formularem vocês um olhar sobre a vossa própria interpretação do texto que acabaram de ler.

Poesia narrativa 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Poesia narrativa é uma forma de poesia que conta uma história1 , geralmente fazendo uso de vozes de um narrador bem como de personagens; sendo toda escrita em verso. Os poemas que constituem esse gênero podem ser longos ou curtos, em diversos metros. Inclue poesia épica, idílio, balada e poesia lírica.

terça-feira, 17 de junho de 2014

nova página fb que acompanha os meus desvarios


clicar para link

do Fontelo e do gonçalo

anda por aí um poeta que é poeta há muito tempo. um poeta que luta com a sua própria poesia já há muito tempo. que a escreve muitas vezes, tanto a poesia como cada uma das palavras.

chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.

há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?

no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.

"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"

"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"

"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."

o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?

Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.

para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

as editoras emergentes e os seus autores

na área das humanidades e estudos literários e sociais (assim como em muitas outras áreas, mas avante) há sempre dois momentos que podem ser abordados e estudados: um primeiro sobre o qual já muito se disse e escreveu e um outro, contemporâneo, recente, que se vive agora, no presente, assistindo na primeira fila a mutações contextuais que por serem pensadas no presente têm formas de trabalho próprias e particulares.

na área da edição assistimos hoje a uma explosão de pequenas editoras que não visam o lucro, apenas a sustentabilidade da própria editora no sentido em que se consiga com a venda de livros financiar novas edições. assim, e não tendo o lucro como pano de fundo, estas editoras podem arriscar mais, fugir à visão comercial e à leitura imediata. de repente surgem novos autores com livros publicados. a área da poesia é a mais forte mas não é exclusiva. são editoras que têm no seu centro o autor que publicam pela sua qualidade e pertinência literária e não pelo seu potencial de venda.

durante o próximo ano vou tentar desenhar uma cartografia destas editoras e destes autores. quem são eles? o que pretendem? em que nome publicam / escrevem? quais são, se existem, perspectivas de futuro? vou tentar perceber o impacto que estas editoras estão a ter neste constante mercado em mutação, percebendo como um mercado que muitos acreditam ser cada vez mais comercial vive o surgir destas novas editoras que estão na outra ponta da linha. acredito que o impacto não seja menor e que, apesar disso, há ainda um desconhecimento deste fenómeno, desconhecimento esse que deve também ser combatido.

para isso proponho-me entrevistar os agentes desta mudança, numa primeira fase. depois promover um ciclo de debate e conversas em volta destas novas editoras / autores e por fim publicar conclusões e as entrevistas autorizadas e revistas pelos entrevistados. durante o ano serão promovidos vários eventos paralelos dentro desta área como feiras, conversas, leituras entre outros.

para isso peço a a colaboração de todos. por mais investigação que tenha feito até agora faltam sempre algumas editoras e autores à minha lista. se conhecerem alguém que se encaixe neste quadro, agradecia que me enviassem um email para rosa.b.azev@gmail.com com o nome e, se o puderem disponibilizar, contacto da editora ou autor. gostava que esta investigação fosse o mais alargada, plural e rica possível.

de resto é esperarem por novidades. aqui no blog vou colocar tudo na etiqueta  "editoras independentes". aceitem, como sempre, o meu gigante e festivo obrigada!



Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997