quinta-feira, 11 de março de 2010

Discurso lido por João Paulo Borges Coelho quando recebeu o prémio das mãos de Armando Guebuzado




Desde tempos recuados que o continente africano se tornou famoso como fonte de matérias-primas. Por elas se matou e se morreu. No princípio foi o ouro da bíblica Ofir e do Mwenemutapa, depois o marfim, o corno de rinoceronte capaz de operar maravilhas no Oriente, e até a energia humana por meio do hediondo comércio de escravos e dos trabalhos forçados. África forneceu pois, ainda que de forma involuntária e nem sempre com proveito, o combustível das grandes revoluções que fizeram o mundo avançar para aquilo que é hoje. À medida que este avançava, novas matérias-primas nela foram sendo descobertas, assim como se apuraram novas maneiras de as pesquisar: o cacau e a borracha, o petróleo, os diamantes, e até o coltan, o chamado “ouro azul” do sul do Congo, sem o qual os notebooks e os telefones celulares não poderiam funcionar.

Todavia, há uma matéria-prima que desde sempre foi passando despercebida às pesquisas, apesar das esforçadas expedições, da sofisticação das análises e dos testes, dos radares e sondas, enfim, dos satélites.
A matéria-prima a que me refiro, em estado bruto parece uma pedra vulgar em nada distinta das outras pedras. É uma pedra feita das histórias das pessoas deste país Moçambique, e desta região: dos seus desejos e sonhos, das suas memórias e disputas, dos lugares que habitam e do que fazem no seu dia-a-dia – enfim, da vida que têm. Talvez (e porque é esta a ordem do mundo enquanto a não conseguirmos mudar), uma pedra mais despojada, mas ainda assim capaz de uma beleza e força singulares.
A par de me desbravar os meus próprios interiores e de me confrontar com a minha própria língua, entendo a escrita literária como o ofício de polir essa pedra. Todavia, dado que para polir cada pedra há primeiro que achá-la, é um ofício que depende também, em grande medida, de mestres garimpeiros. No meu caso tem havido muitos, e quero deixar aqui o nome de três.
O primeiro nome é o de Joaquim Soto, velho camponês das montanhas de Chimanimani, que em certa data do longínquo ano de 1970 que já não consigo precisar, me abrigou de uma chuva torrencial na sua palhota, comigo partilhou o seu milho assado, me ofereceu uma esteira e uma capulana com que passar a noite, ao mesmo tempo que me chamava de seu neto. Revelando-me como vivia e como pensava, entregava-me, com paciência e generosidade infinitas, uma pequena pedra para que eu a polisse.
O segundo nome é o de Suzé Mantia, que no início da década de 1980, nas aldeias de Mavago, Chilolo e Nkalapa, me ensinou o significado do som de cada tambor e como se montava a armadilha dos pássaros; e me indicou a específica rocha, junto ao rio, onde Samora e Josina se sentaram a descansar, a meio da difícil marcha para sul. Em palavras cantantes de uma minúcia real e ao mesmo tempo imaginária, descreveu-me os acontecimentos todos que couberam dentro desse dia. Lenhador fortíssimo, capaz de derrubar uma árvore grossa com três machadadas, era também o marceneiro exímio que fabricava uma porta com pormenores de espantosa subtileza. Homem de um riso límpido como nunca vi igual, e que infelizmente a malária levou.
O terceiro nome é o de Joaquina Mboa, camponesa e sacerdotisa da aldeia de Bawa, que em meados da década de 1990 me contou a saga do Kanyemba, velha de mais de cem anos, com uma precisão que os documentos de arquivo só vieram comprovar – facto que ainda hoje não deixou de me intrigar.
São inúmeros os exemplos destes meus mestres garimpeiros, tantos que é impossível enumerar. Muitos deles provenientes até da imaginação.
Tal como são inúmeros os mestres ourives que, a partir das pedras que lhes chegaram ou chegam às mãos se têm dedicado a minucioso polimento, com isso ajudando a entender os meandros do ofício de que falo: o Craveirinha, a Noémia, o Knopfli, o Luís Bernardo, o Mia, a Paulina, o Ungulani, o Patraquim, o White, o Suleiman. E, em particular, o jornalista e escritor João Albasini, que me levou pela mão a espreitar segredos antigos desta cidade, alguns dos quais este livro, indiscreto, revela.
Tantos são os mestres ourives que é pois também difícil enumerar. Estes e outros por esse mundo fora, que ao longo dos tempos e nos mais diversos lugares nos têm oferecido à leitura as suas jóias particulares. Porque é de leitura que falo, dado que é através dela que podemos chegar à miríade de brilhos e reflexos que de cada jóia emana.
Este livro, “O Olho de Hertzog”, que o júri do Prémio Leya resolveu premiar, conta uma história que curiosamente gira também ao redor de uma pedra. Uma pedra que eu – ourives não de primeira, mas de recente viagem – formalmente hoje devolvo ao lugar onde a fui buscar. Pretendo que o gesto seja um contributo no esforço de tantos mestres garimpeiros e ourives que se dedicam a levantar a parede – que já vai alta – da literatura moçambicana. Desejo também que essa parede seja parte integrante e importante daquilo a que podemos chamar simplesmente a Casa da Literatura.


João Paulo Borges Coelho
Maputo, 4 de Março de 2010

Já saiu já saiu já saiu já saiu já saiu


"O que procura Hans Mahrenholz, um oficial alemão que se faz passar por empresário e jornalista inglês, nas ruas da Lourenço Marques de 1919, ainda no rescaldo da Grande Guerra? E por que não assume a sua verdadeira identidade? E por que procura desesperadamente um mulato com nome grego e uma longa cicatriz? E como o pode ajudar um dos mais famosos jornalistas dessa cidade, um mestiço assimilado e carismático? Hans Mahrenholz (ou Henry Miller) chega ao norte de Moçambique num zepelim e é largado de pára-quedas, sozinho, em plena selva, com a missão de se juntar ao contingente do general Lettow. Consegue-o. Mas todo o resto da campanha militar é assombrada pela estação das chuvas, a floresta virgem, a malária e os confrontos com os exércitos inglês e português. Quando chega a Lourenço Marques, Hans já não é o herói ingénuo e corajoso que se juntou a Lettow. É uma personagem misteriosa com uma missão misteriosa…"

quarta-feira, 10 de março de 2010

e porque estou numa de Mário-Henrique Leiria, e porque comprei ontem na valiosa Trama os Novos Contos do Gin...

...e porque está esgotado em todo o lado os Contos do Gin-tónico e o meu desapareceu de minha casa, e porque a última vez que fui à BN vi estes desenhos na minha mão e comovi-me porque sou uma menina no que toca aos meus surrealistas, e tudo e tudo e tudo cá fica este desenho do MHL



uma delícia - Júlio Cortazar explica a origem dos seus míticos personagens - os cronópios e as famas

Um livro I-N-D-I-S-P-E-N-S-Á-V-E-L em todas as mesas de cabeceira, aqui as duas edições, espanhola (Punto de Lectura) e portuguesa (Estampa). O requinte do humor com a arte única da escrita de Cortázar. Bom, bom, bom!


uma pérola = Mário-Henrique Leiria + Mário Viegas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

os movimentos de ruptura (ainda os "mal comportados")

Enquanto me misturo em folhas e livros para o workshop que aí vem penso nas rupturas que os "mal comportados" procuram. Tudo o que hoje nos chega da Literatura Portuguesa do século passado é fruto de rupturas, manifestos que contestam a literatura anterior. O Realismo (ainda no século XIX) e a Geração de 70 contestam o Romantismo, o Modernismo contesta o Realismo, a Presença o Modernismo, o Surrealismo a Presença, o Neo-realismo o Surrealismo... (isto claro na vertente simplista da "coisa" que nada disto é bem assim). Seja como for vê-se o que é original, lê-se o que é novo e que provoca os espíritos. O Surrealismo poderia ser mais provocador do que o Neo-realismo mas o Neo-realismo era mais importante naquela fase, mais necessário. O mesmo se passou no cinema, nas artes plásticas. O mesmo acontece na vida de todos os dias, onde os momentos que nos definem acabam por ser os movimentos de ruptura e revolta, não necessariamente negativos. Aliás na literatura quase nenhum movimento foi na verdade um movimento de ruptura negativa. Cesário Verde considerado muito próximo do Realismo, chamou a atenção para a Teoria das Correspondências, de Baudelaire, que fez nascer o Simbolismo cujo principal autor foi Camilo Pessanha que foi editado pela primeira vez pelos Modernistas.
O que importa aqui é que as rupturas são necessárias, saudáveis e as melhores amigas da criatividade e da arte original. Há décadas que não assistimos, aqui e no resto do Mundo, a verdadeiros movimentos de ruptura literária. Talvez porque esta democratização da Literatura (tão ambígua que ela é) onde tudo se lê e todos lêem dispersou a Literatura por aí. Ou então porque esta mesma democratização permitiu que o que se faz chegue a um maior número de pessoas. Porque na primeira metade do século passado muito do que se escreveu não chegou até nós.
É dessa ruptura que estamos a precisar. Em todas as áreas. Estamos artística e ideologicamente adormecidos, reeditam-se dinossauros mal comportados mas arrisca-se pouco ou nada em novos nomes mal comportados. Temos de os encontrar. Eles estão por aí.

MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA





... ganhou o Prémio Correntes d'Escritas! Deste prémio eu gosto, e gosto tanto tanto tanto do livro! Não consigo agora ser mais científica do que isto, estou tão entusiasmada, é tão bom ver BONS livros lidos e reconhecidos. É grande, este livro. Todos ao MYRA!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

enviaram-me esta foto com o seguinte comentário:




"E eu a pensar que aquilo até era uma literatura à séria, pesada! Afinal não, é só 2,28€."

Delicioso.

oh... Tão bom e eu a trabalhar, não posso ir, alguém me conta como foi?


Encontros IELT 2010 – Máscaras , mistérios e segredos FCSH/UNL


25 de Fevereiro

10H00
Das máscaras e dos processos
- Figuras do outro: máscaras, efígies e segunda pele – Carlos Augusto Ribeiro
- Do rosto como máscara no teatro latino – Inês de Ornellas e Castro
- A máscara: do rito ao teatro – André Gago
- A máscara da identidade: donzela ou guerreiro? Reminiscência de mitos e de
cultos ancestrais – Natália Nunes
- Máscaras Transmontanas: do registo escondido à emblematização – Paula
Godinho

15H00
A máscara no modernismo português
- Fernando Pessoa: Introdução ao uso da máscara - Teresa Rita Lopes
- "Brincar a ser muitos". Máscaras do policial pessoano - Ana Freitas
- Fernando Pessoa: A Arte de se "outrar" - Luísa Medeiros
- A Escrita epistolar: Entre o rosto e a máscara - Manuela Parreira da Silva

17h30
Apresentação pública do no 24 da Sigila - revista transdisciplinar luso- francesa sobre o segredo, com Florence Lévi, Carlos Carreto e Bracinha Vieira

26 de Fevereiro

10H00
Segredos e mistérios
- Metáforas de origem, instrumentos de poder e identidade: "mistérios e segredos" na tradição oral entre os Bunak, Timor-Leste – Lúcio Sousa
- Segredinhos, segredos e enigmas - Ana Paula Guimarães • Imagens, enganos e desenganos – a neutralização da fábula nas «fábulas
tradicionais» - Ana Paiva Morais
- Revelar segredos em web vídeo- Filomena Sousa

12H00
Conferência de encerramento: O rosto e a máscara – Jorge Crespo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

E junto aos arquitectos eis que surge José Tolentino Mendonça, com uma tirada destas:


A arte nasce de um mal estar. A fé nasce de uma ferida. Nascem os dois de uma procura de algo mais. Como dizia Sá-Carneiro, precisamos de "um pouco mais de azul"
.

Não é facil falar de religião num momento em que a religião ou nos cega ou nos revolta. Torna-se cada vez mais difícil reconhecer na religião uma espiritualidade desinteressada. O Tolentino ainda consegue. Ainda assim, e quando fala da poesia, considera-se um "poeta profano".

É esta a escrita dele:
"Acho que o sentido por excelência de um escritor é o ouvido. E, mesmo se não escrevo todos os dias, estou sempre atento à conversa humana, às palavras, ao seu ritmo, à sua temperatura. Estou sempre a tomar apontamentos, pequenas anotações. E daí parto para outras associações, preencho lacunas, continuo frases. Essa é a minha oficina."

Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a  Snob  e o...