Caim não matou Abel por ser mau, ou cruel ou insensível. Foi exactamente pelo contrário, por uma sensibilidade descabida e irracional. Foi a primeira vítima de Deus que não soube amar os seus filhos por igual mesmo que o amor paternal possa ter e tem várias formas. No A Leste do Paraíso de Steinbeck, Caim (aqui Caleb) acaba por ter o destino marcado no nome, tentando sempre não "matar" o irmão, apesar dos impulsos que o perturbam. No entanto aqui o pai tem a crueldade justificada na história e no caminho que percorreu. E sente-se no texto o amor do pai, amor esse que não se sente na leitura da Bíblia. E Deus não tem essa justificativa. Não tem nem justificativa para recusar as oferendas de Caim nem para o preterir a Abel, de forma tão clara e visível. Aqui a Bíblia não mente, só nos dá algumas ferramentas para interpretar o que lá está. Saramago, em Caim, mostra bem esta crueladade do Grande Pai, que deixa o filho sofrer e não lhe permite humanidade. E é isso que Caim mostra ao matar o irmão - que é humano, assim como Adão, pai de Caim, foi humano ao comer a maçã. E Deus não lhes permite essa humanidade nem perdoa ou compreende o erro. O Deus criador é aqui um Deus castrador. No entanto (e vá-se lá saber se era essa a intenção dele) Caim ao ver-se obrigado a errar pela terra ("E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.” O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, a Leste do Paraíso.") teve de saber escolher, agora sim, livremente, o seu caminho, com a memória de um crime que, no limite, não seria só seu, seria da raiva que Deus plantou nos seus gestos ao recusar o amor filial.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
sexta-feira, 23 de abril de 2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
ISTO NÃO FICA ASSIM
O blog do encontro livreiro em Setúbal, na mítica Culsete com o livreiro Manuel Medeiros já está disponível aqui. Desta vez não consegui mesmo ir, fico à espera do próximo.
No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.
No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.
About Steinbeck
Fui ver as Vinhas da Ira do John Ford e fiquei a pensar no Steinbeck, um dos amores da minha vida.
Há qualquer coisa que ele sabe e que nós não sabemos. E que ele nos ensina, mesmo que nunca o nomeie. Fala dos laços. Da família que pode ser qualquer uma. Nas Vinhas da Ira é a família de sangue, que se une numa sobrevivência cega. No A Um Deus Desconhecido é o amor à terra, à famíla que nasce e morre num só sítio, onde a terra é o sangue. No Ratos e Homens é a amizade e a irmandade tão forte que nos permite escolher pelo nosso "irmão" entre a vida ou a morte, se ele não o consegue fazer sozinho. Em O Inverno do Nosso Descontentamento é a família que nos vê mais do que é desejado. No Batalha Incerta é a união dos trabalhadores numa greve que só termina com a morte ou a vitória, numa união intrinsecamente inquebrável, onde ninguém cede. E no maravilhoso A Leste do Paraíso é o amor fraterno que resiste ao destino de um nome, é Caim que não quer matar Abel mesmo que essa morte esteja escrita à partida. É um pai que não percebe o amor, nem as formas que ele tem.
A arte de Steinbeck está em ver estas ligações tão invisíveis e tão viscerais numa altura em que desacreditamos a resistência da amizade e da família (a nossa e a que escolhemos) a qualquer preço. Em que a insegurança é o mote dos dias e das crenças. Steinbeck conta-nos outra coisa. Ensina-nos sem ser dogmático. Mostra-nos e conta-nos histórias que podiam as histórias da porta ao lado.
Há qualquer coisa que ele sabe e que nós não sabemos. E que ele nos ensina, mesmo que nunca o nomeie. Fala dos laços. Da família que pode ser qualquer uma. Nas Vinhas da Ira é a família de sangue, que se une numa sobrevivência cega. No A Um Deus Desconhecido é o amor à terra, à famíla que nasce e morre num só sítio, onde a terra é o sangue. No Ratos e Homens é a amizade e a irmandade tão forte que nos permite escolher pelo nosso "irmão" entre a vida ou a morte, se ele não o consegue fazer sozinho. Em O Inverno do Nosso Descontentamento é a família que nos vê mais do que é desejado. No Batalha Incerta é a união dos trabalhadores numa greve que só termina com a morte ou a vitória, numa união intrinsecamente inquebrável, onde ninguém cede. E no maravilhoso A Leste do Paraíso é o amor fraterno que resiste ao destino de um nome, é Caim que não quer matar Abel mesmo que essa morte esteja escrita à partida. É um pai que não percebe o amor, nem as formas que ele tem.
A arte de Steinbeck está em ver estas ligações tão invisíveis e tão viscerais numa altura em que desacreditamos a resistência da amizade e da família (a nossa e a que escolhemos) a qualquer preço. Em que a insegurança é o mote dos dias e das crenças. Steinbeck conta-nos outra coisa. Ensina-nos sem ser dogmático. Mostra-nos e conta-nos histórias que podiam as histórias da porta ao lado.
É disto que vou falar hoje na Trama (II)
Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há dos nossos actos um sequer que ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo, é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade.
Jean Paul Sartre, Existencialismo é um Humanismo
Jean Paul Sartre, Existencialismo é um Humanismo
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Os disparates que se vêem escritos por aí...
Na revista LER, num anúncio a um livro, O Vale das Bonecas de Jaqueline Susann, lê-se:
"A combinação de fragilidade emocional com abuso de drogas é ainda mais chique hoje do que quando foi publicado pela primeira vez."
????
"A combinação de fragilidade emocional com abuso de drogas é ainda mais chique hoje do que quando foi publicado pela primeira vez."
????
quinta-feira, 8 de abril de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
Luiz Pacheco e a sua Comunidade
Todos nós temos com os livros falhas de estimação. Eu nunca tinha lido a Comunidade. O livro esgotado há anos. E há livros que não se pedem emprestados, porque são raros, e um dia chegamos à estante e o livro não está lá e não nos lembramos a quem emprestámos e há aquela tristeza [barra] frustração de quem tem nos livros uma continuidade dos dedos, da cama, do lavatório da casa de banho, do fogão, do sofá da sala, do candeeiro antigo. De quem tem nos livros a propriedade maior.
O que é especial neste livro é que é certo que o Pacheco não se tenha esforçado por escrever aquilo. E quando a escrita não é pensada para ser uma escrita de amor e é, torna-se muito mais verdadeira. Quando não se ama obrigatoriamente um filho porque é um filho e mesmo assim se escreve o que ele escreveu é ainda uma escrita mais preciosa. Quando se é o Pacheco e quando é o Pacheco quem escreve a Comunidade torna-se ainda mais arrebatador. Não porque o Pacheco não fosse capaz de escrever este livro mas porque não seria de esperar que o fizesse e, certamente, não fez qualquer esforço para o fazer. Há qualquer coisa de visceral. Aquilo é assim. Foi assim que aquilo se passou. E aquela família é tão triste como luminosa. E real é a palavra certa para este livro se todos os livros tiverem uma palavra. E a força dele vem desse real inesperado e despido que nos deixa a todos surpreendidos com a vontade que temos em ter um dia uma família [barra] uma cama assim.
Texto integral da Comunidade e tantas outras coisas do Pacheco aqui.
O que é especial neste livro é que é certo que o Pacheco não se tenha esforçado por escrever aquilo. E quando a escrita não é pensada para ser uma escrita de amor e é, torna-se muito mais verdadeira. Quando não se ama obrigatoriamente um filho porque é um filho e mesmo assim se escreve o que ele escreveu é ainda uma escrita mais preciosa. Quando se é o Pacheco e quando é o Pacheco quem escreve a Comunidade torna-se ainda mais arrebatador. Não porque o Pacheco não fosse capaz de escrever este livro mas porque não seria de esperar que o fizesse e, certamente, não fez qualquer esforço para o fazer. Há qualquer coisa de visceral. Aquilo é assim. Foi assim que aquilo se passou. E aquela família é tão triste como luminosa. E real é a palavra certa para este livro se todos os livros tiverem uma palavra. E a força dele vem desse real inesperado e despido que nos deixa a todos surpreendidos com a vontade que temos em ter um dia uma família [barra] uma cama assim.
Texto integral da Comunidade e tantas outras coisas do Pacheco aqui.
quinta-feira, 18 de março de 2010
O João Paulo Borges Coelho é o maior!
A entrevista completa aqui.
A sua prosa é clássica, não há qualquer esforço para encaixar no estereótipo do escritor africano. É deliberado?
A minha escrita é clássica mas há, por vezes, um desvio do cânone. Não sou um purista. É verdade que neste livro há uma abordagem mais neutra da língua, como se dissesse que a questão do livro não é a língua.
O facto de o protagonista e narrador ser um alemão também pede essa abordagem mais neutra.
Do ponto de vista daquilo que está construído como sendo a literatura moçambicana, meter uma personagem alemã deixa as pessoas perplexas. É um atentado ao formato clássico. Se calhar devia pôr um colonialista férreo, maléfico, ou então um libertador puro. Mas não é isso que me interessa.
Interessa-o mais a literatura do que esse tipo de discurso?
Desconfio da literatura enquanto arma para educar as pessoas. As pessoas educam-se a si próprias. O livro tem de ser suficientemente aberto para que o usem como entenderem, até para declararem a nulidade dele. Se não há liberdade, perde o interesse. Como tal, resisto muito a que este livro seja considerado um romance histórico.
Domingo na Fnac do Chiado | Hermínio Monteiro


"O Hermínio gostava de partilhar os seus segredos. Trás-os-Montes era um segredo, como a noite de Lisboa. A comida era um segredo, como o vinho e os charutos. Os amigos eram um segredo, como os poetas, que também eram os amigos. E os livros eram o maior segredo."
Apresentação do filme de André Godinho, um filme fantástico, humano, visceral. Sobre o grande editor Hermínio Monteiro, o nosso editor de poesia, no Dia Mundial da Poesia, às 18h30. eu vou lá estar!
quarta-feira, 17 de março de 2010
E só porque é o João Paulo fecho os olhos à Leya. Ele merece... Amanhã lá estarei.
Lançamento de O Olho de Hertzog
João Paulo Borges Coelho
pela Leya
Lisboa
Sociedade de Geografia
18 de Março, 19h
Rua das Portas de Santo Antão, nº 100
com Fernando Rosas
Esta semana é a escondida polémica dos livros - mais uma vez a Leya a protagonizar a visão do livro como mercadoria
Pode-se ler no último JL:
"José da Cruz Santos denunciou recentemente a destruição de 40 mil exeplares de 96 títulos por si publicados na ASA ao longo da última década. Entre eles contam-se obras de autores tão importantes como Vasco Graça Moura (12 títulos), António Ramos Rosa (8), Eugénio de Andrade (5), Urbano Tavares Rodrigues (5), Maria Helena Rocha Pereira (2), Fernão Lopes, Almeida Garret, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Paulo Quintela, Mário Cláudio, Albano Martins, Manuel António Pina, J. M. Fernandes Jorge, Maria Alzira Seixo, etc. etc., etc..
(...) José da Cruz Santos afirma que a Leya lhe terá enviado uma carta, em Março de 2008, com uma proposta de livros para abate, a que o editor respondeu criticando a medida e sugerindo a oferta das obras a instituições como escolas, prisões e hospitais. "Provavelmente não o quiseram fazer devido aos problemas fiscais e económicos que isso representaria. Mas com o tamanho e importância que o grupo tem, poderiam ter negociado com o Ministério das Finanças." Vasco Graça Moura é um dos autores que viu as suas obras guilhotinadas. Ouvido pelo JL, revelou-nos que não foi avisado pela editora, ficando impossibilitado de comprar os livros que quisesse."
"José da Cruz Santos denunciou recentemente a destruição de 40 mil exeplares de 96 títulos por si publicados na ASA ao longo da última década. Entre eles contam-se obras de autores tão importantes como Vasco Graça Moura (12 títulos), António Ramos Rosa (8), Eugénio de Andrade (5), Urbano Tavares Rodrigues (5), Maria Helena Rocha Pereira (2), Fernão Lopes, Almeida Garret, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Paulo Quintela, Mário Cláudio, Albano Martins, Manuel António Pina, J. M. Fernandes Jorge, Maria Alzira Seixo, etc. etc., etc..
(...) José da Cruz Santos afirma que a Leya lhe terá enviado uma carta, em Março de 2008, com uma proposta de livros para abate, a que o editor respondeu criticando a medida e sugerindo a oferta das obras a instituições como escolas, prisões e hospitais. "Provavelmente não o quiseram fazer devido aos problemas fiscais e económicos que isso representaria. Mas com o tamanho e importância que o grupo tem, poderiam ter negociado com o Ministério das Finanças." Vasco Graça Moura é um dos autores que viu as suas obras guilhotinadas. Ouvido pelo JL, revelou-nos que não foi avisado pela editora, ficando impossibilitado de comprar os livros que quisesse."
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Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o...