terça-feira, 6 de julho de 2010

Ai que eles continuam a fazer tudo bem

Alberto Manguel defende como ninguém a leitura. Vale mesmo a pena ler.

Todo o artigo aqui.

Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.

Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.

É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Leandro Morgado vence o 1º Prémio de Slam Poetry do Festival Silêncio

Durante o concurso de Slam Poetry, onde Leandro Morgado venceu de forma largamente merecida o 1º Prémio, pensou-se entre risos e disparates o que é Slam Poetry e o que é só a Poetry. A poesia pode dizer-se. Aqui não cedo. Toda a poesia pode ser dita mas de forma diferente, pensada e sentida de forma diferente. Eu sempre disse poesia, em caves de bares na Bica, no meu sótão em festas de anos, em galerias de arte em comemorações de dias especiais. E sempre disse mal, e nunca passaria nem à primeira fase de um concurso deste género. Mas "aquilo" funcionava. Porque as pessoas estavam ali para receber aquela poesia directamente da nossa voz. É uma questão de poesia.
Com o Leandro e o Slam Poetry do Festival Silêncio foi diferente. Ali tínhamos a poesia mais a forma como é dita. Tínhamos o texto e a performance. E foi imperdoável quem disse poemas sem a performance. E vice-versa. E se o Leandro não é o melhor dos poetas é o melhor dos escritores de comédia porque atinge, na mouche, todos os seus objectivos. Os textos do Leandro funcionam. E é isso a Slam Poetry - bons textos ditos de forma funcional (mesmo que a palavra seja feia). Quem passou no Music Box (ou quem viu o Status) sabe quem é a Alice em todas as suas variações, significados e intenções. Não deixou de ouvir, não se distraiu, não se esqueceu de que o Leandro estava ali a dizer um poema. E quis ouvir mais. Foi delicioso e como alguém disse, "faz lembrar o Mário Viegas, na sua melhor fase". Para mim que vivo com e para o texto escrito fico feliz que alguém o consiga fazer chegar tão rápido à nossa cabeça. Com deleite e sem esforço. Como o Mário Viegas fazia. Só de escrever isto oiço logo a voz dele em frases, tons, expressões que se tornaram inesquecíveis.
É preciso não deixar de dizer. E o Leandro diz, sempre, e nós ouvimos, sempre. É impossível sair do espetáculo Status sem comichão no estômago com a sensação maravilhosa de "é mesmo isto". Para não deixarmos de pensar nem nos deixarmos encadear em comboios monótonos. Ficamos à espera de mais.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A nossa Trama vai viajar! Sábado vamos todos despedir-nos do 25B.


Consumo mínimo 1 livro! Vamos "aliviá-los" da tralha dos bons livros e ajudá-los a abrir as portas rapidinho num sítio pertinho de nós.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sempre vivemos no Castelo

Este é um livro que nos envolve, que se mastiga lentamente. Num ambiente negro tão norte-americano duas irmãs e um tio doente vivem numa casa onde uns anos antes toda a família morreu envenenada. A questão não será nunca o descobrir o assassino da família, que se vai adivinhando desde o início, mas antes descobrir como as duas irmãs recriam o ambiente perfeito para uma vivência doce e apaixonante vivendo numa casa que, após uma noite trágica, anos depois da morte da família, se transforma num castelo solitário. Shirley Jackson é um nome a decorar.
O ambiente inicial faz lembrar outro livro da Cavalo de Ferro, dos livros mais fortes e perturbantes que já li, o Casa de Campo de José Donoso. Pode-se ler no site da Cavalo de Ferro:

Uma obra magistral, considerada uma das obras-primas da literatura sul-americana. Finalmente em português.

Ambientado no século XIX, este magnífico romance retrata os acontecimentos passados num dia muito especial de uma mansão senhorial. A ausência inesperada dos proprietários adultos origina que as crianças assumam o controlo da casa e, juntamente com os servos e indígenas que trabalham nas minas da propriedade, a transformem em domínio erótico e febril. Esta festiva irrupção de pulsões reprimidas propiciará uma ruptura radical com a ordem social e a instauração de um novo mundo mágico, anárquico, exuberante, mas igualmente doloroso.

Expoente máximo da narrativa latino-americana contemporânea, «Casa de Campo» constitui uma parábola moral sobre a sociedade humana, comparável ao famoso romance «O Senhor das Moscas» de W. Golding.

Uma alegoria da anarquia, uma anarquia animal e descontrolada, numa viagem espiral de terror e liberdade. Um romance imperdível da grande literatura hispano-americana, desvendada aqui pela Cavalo de Ferro, a mostrar-se mais uma vez essencial no descobrir de pérolas da mais bela literatura.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

É bom bom bom...

... o Miguel Guilherme no Cabaret Maxime com o espetáculo "Que vergonha rapazes...".
Com textos de Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, O'Neill, O Meu Pipi, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, Adília Lopes. É incrível que os textos são bons e ele lê-os muito bem, com a arte de quem percebe mesmo o que está a ler. A ver, imperdível.
A maior parte dos textos foi escolhida a partir deste maravilhoso e muito bem conseguido livro da Texto Editora:

que na verdade dá pelo fantástico título de ANTOLOGIA DO HUMOR PORTUGUÊS MAS SÓ O QUE SAIU EM LIVRO E MESMO ASSIM HÁ UNS QUE, SE CALHAR, NÃO DEVIAM AQUI ESTAR E OUTROS QUE NÃO ESTÃO E DEVIAM ESTAR, É COMO EM TUDO. 1969-2009 MAIS OU MENOS, ENFIM, 18 DE ABRIL DE 2008, ATÉ À HORA DE ALMOÇO O MAIS TARDAR, um livro que comprei uns dias antes de ver o espetáculo (há coincidências felizes) naquela trapalhada que dá pelo nome de Hora H da Feira do Livro de Lisboa.
Confesso-vos que há surpresas que me enchem a alma e as medidas e a descoberta com o espaço de dois dias deste livro e deste espetáculo foi sem dúvida uma delas. Fiquei algumas horas em estado de euforia (sou tão esquisita às vezes...)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Isto deve ser giro "todos os dias", "nas horas" e expressões que tais. Deve ser giro giro.

É na Comuna! Vamos, vamos, vamos?

O Craque vem a Lisboa e eu vou lá estar!



No próximo dia 13 de Maio,
no Parque Eduardo VII
(esplanada laranja)
às 18h30

a 80ª Feira do Livro de Lisboa recebe a Visita do Craque

Referimo-nos a Fernando Assis Pacheco em seu glorioso autoretrato desportivo enquanto infante conimbricense: 30 crónicas publicadas há 38 anos no Record, reunidas em livro há cinco, pela Assírio & Alvim, e agora gravadas alto e bom som pelo poeta e recitador Nuno Moura para a Boca (www.boca.pt).

A edição inclui fotografias inéditas e textos de Mário Zambujal, José Carlos Vasconcelos, Nuno Costa Santos e o já referido Nuno Moura. São, aliás, estes os craques que, juntamente com Ana Assis Pacheco, nos falarão destas Memórias de um Craque, autor e obra.

Agradecemos a vossa presença e divulgação.

Sugerimos que tragam um agasalho, que a conversa vai ser boa e as noites andam frescas.
Acrescentamos que a FLL este ano está uma animação e que a BOCA está presente na Tenda dos Pequenos Editores, uma em estilo árabe, à direita de quem sobe.

Pela concorrência desleal, pedimos desculpa ao Papa.

(texto Oriana Alves)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

caim

Caim não matou Abel por ser mau, ou cruel ou insensível. Foi exactamente pelo contrário, por uma sensibilidade descabida e irracional. Foi a primeira vítima de Deus que não soube amar os seus filhos por igual mesmo que o amor paternal possa ter e tem várias formas. No A Leste do Paraíso de Steinbeck, Caim (aqui Caleb) acaba por ter o destino marcado no nome, tentando sempre não "matar" o irmão, apesar dos impulsos que o perturbam. No entanto aqui o pai tem a crueldade justificada na história e no caminho que percorreu. E sente-se no texto o amor do pai, amor esse que não se sente na leitura da Bíblia. E Deus não tem essa justificativa. Não tem nem justificativa para recusar as oferendas de Caim nem para o preterir a Abel, de forma tão clara e visível. Aqui a Bíblia não mente, só nos dá algumas ferramentas para interpretar o que lá está. Saramago, em Caim, mostra bem esta crueladade do Grande Pai, que deixa o filho sofrer e não lhe permite humanidade. E é isso que Caim mostra ao matar o irmão - que é humano, assim como Adão, pai de Caim, foi humano ao comer a maçã. E Deus não lhes permite essa humanidade nem perdoa ou compreende o erro. O Deus criador é aqui um Deus castrador. No entanto (e vá-se lá saber se era essa a intenção dele) Caim ao ver-se obrigado a errar pela terra ("E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.” O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, a Leste do Paraíso.") teve de saber escolher, agora sim, livremente, o seu caminho, com a memória de um crime que, no limite, não seria só seu, seria da raiva que Deus plantou nos seus gestos ao recusar o amor filial.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.

terça-feira, 13 de abril de 2010

ISTO NÃO FICA ASSIM

O blog do encontro livreiro em Setúbal, na mítica Culsete com o livreiro Manuel Medeiros já está disponível aqui. Desta vez não consegui mesmo ir, fico à espera do próximo.

No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.

About Steinbeck

Fui ver as Vinhas da Ira do John Ford e fiquei a pensar no Steinbeck, um dos amores da minha vida.
Há qualquer coisa que ele sabe e que nós não sabemos. E que ele nos ensina, mesmo que nunca o nomeie. Fala dos laços. Da família que pode ser qualquer uma. Nas Vinhas da Ira é a família de sangue, que se une numa sobrevivência cega. No A Um Deus Desconhecido é o amor à terra, à famíla que nasce e morre num só sítio, onde a terra é o sangue. No Ratos e Homens é a amizade e a irmandade tão forte que nos permite escolher pelo nosso "irmão" entre a vida ou a morte, se ele não o consegue fazer sozinho. Em O Inverno do Nosso Descontentamento é a família que nos vê mais do que é desejado. No Batalha Incerta é a união dos trabalhadores numa greve que só termina com a morte ou a vitória, numa união intrinsecamente inquebrável, onde ninguém cede. E no maravilhoso A Leste do Paraíso é o amor fraterno que resiste ao destino de um nome, é Caim que não quer matar Abel mesmo que essa morte esteja escrita à partida. É um pai que não percebe o amor, nem as formas que ele tem.
A arte de Steinbeck está em ver estas ligações tão invisíveis e tão viscerais numa altura em que desacreditamos a resistência da amizade e da família (a nossa e a que escolhemos) a qualquer preço. Em que a insegurança é o mote dos dias e das crenças. Steinbeck conta-nos outra coisa. Ensina-nos sem ser dogmático. Mostra-nos e conta-nos histórias que podiam as histórias da porta ao lado.

Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a  Snob  e o...