Hay en el mundo poetas que jamás escribieron versos. Y tampoco los leyeron. Poco saben de leer, y aún menos de escribir. Mi idioma ellos no hablan, pero nombran los pajaros las hierbas del campo... Con los árboles conversan, a su sombra agradecen y sus memorias escuchan.
Saben el rumbo del viento y el color de la lluvia, el tiempo de la sembradura y el tiempo de los frutos. Las huellas de las fieras reconocen y cuidan.
Nunca entraron en una iglesia. Rezan al sol y a la tierra, saben cantos de otras eras, pieles tocan y maderas. No hay cuerdas que no desvelen, sus ojos mirando en la danza no el cielo sino la arena.
Y cuando alfin acaban sus andares en los días, de todo se despiden sin amargura y sin pena. Sabiendo que serán tierra luz hojas semillas ojos de niños abrazos agua del río panteras.
Y los versos que escribieron son sus pasos en la vida, marcas que no tienen olvido.
Anna Fresu
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Finalmente nas mãos dos apaixonados do nosso Vergílio
Chega agora às livrarias o livro Promessa de Vergílio Ferreira, pela Quetzal, em edição crítica de Helder Godinho e Fernanda Irene Fonseca.
Mais um livro que levanta a velha questão discutida sem fim: até que ponto é legítimo editar um livro que um autor optou por não editar? Neste caso há alguns argumentos a favor da edição. Primeiro o autor deixou o espólio muito organizado. Como ele próprio disse, se ele não quisesse que as obras fossem descobertas tinha-as destruído. Como fez Santa-Rita Pintor. Ou tinha deixado instruções para que não fosse publicado. Acho que neste caso devemos ler este livro como ele é: um livro da sua fase pós neo-realista, em transição para o existencialismo (e só por isso é já um documento histórico), um livro que ele amou e depois considerou medíocre.
Não é o grande livro de Vergílio Ferreira, mas é um bom romance-problema. E nesta categoria mais do que ser o melhor, Vergílio Ferreira é único. Tem algumas frases de construção duvidosa e gralhas imperdoáveis numa edição de Helder Godinho, que, a querer manter o texto como o encontrou (o que seria estranho visto ele mesmo ter concluído que o texto que lhe chegou às mãos já teria sido copiado por um dactilógrafo) deveria ter assinalado as mesmas como já presentes no original.
No entanto nada mancha o facto de termos nas mãos do público uma edição crítica como única edição desta obra, o que em muito a valoriza. Normalmente as edições críticas só circulam dentro de um público específico. Aqui e com muito rigor qualquer leitor pode ter acesso a que palavras foras rasuradas, emendadas e acrescentadas pelo autor (entre outras particularidades do texto encontrado) numa terminologia definida pelos críticos Pessoanos. Essa riqueza de conhecimento à volta de um livro começa já a desaparecer com a escrita digital. Neste caso temos um texto dactilografado revisto e emendado pelo autor, sendo que todas as emendas são registadas no final do livro, o que simplifica a leitura.
Como dizem os editores na excelente introdução à obra, esta não é uma obra menor de Vergílio Ferreira nem deve ser vista como tal. É um romance de aprendizagem da personagem Flávio e um romance transitório para o autor. É um ponto a mais na sua obra, que não deverá ser, a meu ver, o romance de quem começa agora a ler Vergílio Ferreira. Mas isso digo eu, que procuro nos autores que leio um caminho ideal entre as suas obras, juízo que dificilmente seria mais subjectivo.
Concluindo: a ler, sim. É o veredicto final.
Não é o grande livro de Vergílio Ferreira, mas é um bom romance-problema. E nesta categoria mais do que ser o melhor, Vergílio Ferreira é único. Tem algumas frases de construção duvidosa e gralhas imperdoáveis numa edição de Helder Godinho, que, a querer manter o texto como o encontrou (o que seria estranho visto ele mesmo ter concluído que o texto que lhe chegou às mãos já teria sido copiado por um dactilógrafo) deveria ter assinalado as mesmas como já presentes no original.
No entanto nada mancha o facto de termos nas mãos do público uma edição crítica como única edição desta obra, o que em muito a valoriza. Normalmente as edições críticas só circulam dentro de um público específico. Aqui e com muito rigor qualquer leitor pode ter acesso a que palavras foras rasuradas, emendadas e acrescentadas pelo autor (entre outras particularidades do texto encontrado) numa terminologia definida pelos críticos Pessoanos. Essa riqueza de conhecimento à volta de um livro começa já a desaparecer com a escrita digital. Neste caso temos um texto dactilografado revisto e emendado pelo autor, sendo que todas as emendas são registadas no final do livro, o que simplifica a leitura.
Como dizem os editores na excelente introdução à obra, esta não é uma obra menor de Vergílio Ferreira nem deve ser vista como tal. É um romance de aprendizagem da personagem Flávio e um romance transitório para o autor. É um ponto a mais na sua obra, que não deverá ser, a meu ver, o romance de quem começa agora a ler Vergílio Ferreira. Mas isso digo eu, que procuro nos autores que leio um caminho ideal entre as suas obras, juízo que dificilmente seria mais subjectivo.
Concluindo: a ler, sim. É o veredicto final.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Alberto Manguel defende como ninguém a leitura. Vale mesmo a pena ler.
Todo o artigo aqui.
Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.
Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.
É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.
Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.
Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.
É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Leandro Morgado vence o 1º Prémio de Slam Poetry do Festival Silêncio
Durante o concurso de Slam Poetry, onde Leandro Morgado venceu de forma largamente merecida o 1º Prémio, pensou-se entre risos e disparates o que é Slam Poetry e o que é só a Poetry. A poesia pode dizer-se. Aqui não cedo. Toda a poesia pode ser dita mas de forma diferente, pensada e sentida de forma diferente. Eu sempre disse poesia, em caves de bares na Bica, no meu sótão em festas de anos, em galerias de arte em comemorações de dias especiais. E sempre disse mal, e nunca passaria nem à primeira fase de um concurso deste género. Mas "aquilo" funcionava. Porque as pessoas estavam ali para receber aquela poesia directamente da nossa voz. É uma questão de poesia.
Com o Leandro e o Slam Poetry do Festival Silêncio foi diferente. Ali tínhamos a poesia mais a forma como é dita. Tínhamos o texto e a performance. E foi imperdoável quem disse poemas sem a performance. E vice-versa. E se o Leandro não é o melhor dos poetas é o melhor dos escritores de comédia porque atinge, na mouche, todos os seus objectivos. Os textos do Leandro funcionam. E é isso a Slam Poetry - bons textos ditos de forma funcional (mesmo que a palavra seja feia). Quem passou no Music Box (ou quem viu o Status) sabe quem é a Alice em todas as suas variações, significados e intenções. Não deixou de ouvir, não se distraiu, não se esqueceu de que o Leandro estava ali a dizer um poema. E quis ouvir mais. Foi delicioso e como alguém disse, "faz lembrar o Mário Viegas, na sua melhor fase". Para mim que vivo com e para o texto escrito fico feliz que alguém o consiga fazer chegar tão rápido à nossa cabeça. Com deleite e sem esforço. Como o Mário Viegas fazia. Só de escrever isto oiço logo a voz dele em frases, tons, expressões que se tornaram inesquecíveis.
É preciso não deixar de dizer. E o Leandro diz, sempre, e nós ouvimos, sempre. É impossível sair do espetáculo Status sem comichão no estômago com a sensação maravilhosa de "é mesmo isto". Para não deixarmos de pensar nem nos deixarmos encadear em comboios monótonos. Ficamos à espera de mais.
Com o Leandro e o Slam Poetry do Festival Silêncio foi diferente. Ali tínhamos a poesia mais a forma como é dita. Tínhamos o texto e a performance. E foi imperdoável quem disse poemas sem a performance. E vice-versa. E se o Leandro não é o melhor dos poetas é o melhor dos escritores de comédia porque atinge, na mouche, todos os seus objectivos. Os textos do Leandro funcionam. E é isso a Slam Poetry - bons textos ditos de forma funcional (mesmo que a palavra seja feia). Quem passou no Music Box (ou quem viu o Status) sabe quem é a Alice em todas as suas variações, significados e intenções. Não deixou de ouvir, não se distraiu, não se esqueceu de que o Leandro estava ali a dizer um poema. E quis ouvir mais. Foi delicioso e como alguém disse, "faz lembrar o Mário Viegas, na sua melhor fase". Para mim que vivo com e para o texto escrito fico feliz que alguém o consiga fazer chegar tão rápido à nossa cabeça. Com deleite e sem esforço. Como o Mário Viegas fazia. Só de escrever isto oiço logo a voz dele em frases, tons, expressões que se tornaram inesquecíveis.
É preciso não deixar de dizer. E o Leandro diz, sempre, e nós ouvimos, sempre. É impossível sair do espetáculo Status sem comichão no estômago com a sensação maravilhosa de "é mesmo isto". Para não deixarmos de pensar nem nos deixarmos encadear em comboios monótonos. Ficamos à espera de mais.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A nossa Trama vai viajar! Sábado vamos todos despedir-nos do 25B.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Sempre vivemos no Castelo
Este é um livro que nos envolve, que se mastiga lentamente. Num ambiente negro tão norte-americano duas irmãs e um tio doente vivem numa casa onde uns anos antes toda a família morreu envenenada. A questão não será nunca o descobrir o assassino da família, que se vai adivinhando desde o início, mas antes descobrir como as duas irmãs recriam o ambiente perfeito para uma vivência doce e apaixonante vivendo numa casa que, após uma noite trágica, anos depois da morte da família, se transforma num castelo solitário. Shirley Jackson é um nome a decorar.O ambiente inicial faz lembrar outro livro da Cavalo de Ferro, dos livros mais fortes e perturbantes que já li, o Casa de Campo de José Donoso. Pode-se ler no site da Cavalo de Ferro:
Uma obra magistral, considerada uma das obras-primas da literatura sul-americana. Finalmente em português.
Ambientado no século XIX, este magnífico romance retrata os acontecimentos passados num dia muito especial de uma mansão senhorial. A ausência inesperada dos proprietários adultos origina que as crianças assumam o controlo da casa e, juntamente com os servos e indígenas que trabalham nas minas da propriedade, a transformem em domínio erótico e febril. Esta festiva irrupção de pulsões reprimidas propiciará uma ruptura radical com a ordem social e a instauração de um novo mundo mágico, anárquico, exuberante, mas igualmente doloroso.
Expoente máximo da narrativa latino-americana contemporânea, «Casa de Campo» constitui uma parábola moral sobre a sociedade humana, comparável ao famoso romance «O Senhor das Moscas» de W. Golding.
Uma alegoria da anarquia, uma anarquia animal e descontrolada, numa viagem espiral de terror e liberdade. Um romance imperdível da grande literatura hispano-americana, desvendada aqui pela Cavalo de Ferro, a mostrar-se mais uma vez essencial no descobrir de pérolas da mais bela literatura.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
É bom bom bom...
... o Miguel Guilherme no Cabaret Maxime com o espetáculo "Que vergonha rapazes...".
Com textos de Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, O'Neill, O Meu Pipi, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, Adília Lopes. É incrível que os textos são bons e ele lê-os muito bem, com a arte de quem percebe mesmo o que está a ler. A ver, imperdível.
A maior parte dos textos foi escolhida a partir deste maravilhoso e muito bem conseguido livro da Texto Editora:
que na verdade dá pelo fantástico título de ANTOLOGIA DO HUMOR PORTUGUÊS MAS SÓ O QUE SAIU EM LIVRO E MESMO ASSIM HÁ UNS QUE, SE CALHAR, NÃO DEVIAM AQUI ESTAR E OUTROS QUE NÃO ESTÃO E DEVIAM ESTAR, É COMO EM TUDO. 1969-2009 MAIS OU MENOS, ENFIM, 18 DE ABRIL DE 2008, ATÉ À HORA DE ALMOÇO O MAIS TARDAR, um livro que comprei uns dias antes de ver o espetáculo (há coincidências felizes) naquela trapalhada que dá pelo nome de Hora H da Feira do Livro de Lisboa.
Confesso-vos que há surpresas que me enchem a alma e as medidas e a descoberta com o espaço de dois dias deste livro e deste espetáculo foi sem dúvida uma delas. Fiquei algumas horas em estado de euforia (sou tão esquisita às vezes...)
Com textos de Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, O'Neill, O Meu Pipi, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, Adília Lopes. É incrível que os textos são bons e ele lê-os muito bem, com a arte de quem percebe mesmo o que está a ler. A ver, imperdível.
A maior parte dos textos foi escolhida a partir deste maravilhoso e muito bem conseguido livro da Texto Editora:
que na verdade dá pelo fantástico título de ANTOLOGIA DO HUMOR PORTUGUÊS MAS SÓ O QUE SAIU EM LIVRO E MESMO ASSIM HÁ UNS QUE, SE CALHAR, NÃO DEVIAM AQUI ESTAR E OUTROS QUE NÃO ESTÃO E DEVIAM ESTAR, É COMO EM TUDO. 1969-2009 MAIS OU MENOS, ENFIM, 18 DE ABRIL DE 2008, ATÉ À HORA DE ALMOÇO O MAIS TARDAR, um livro que comprei uns dias antes de ver o espetáculo (há coincidências felizes) naquela trapalhada que dá pelo nome de Hora H da Feira do Livro de Lisboa.Confesso-vos que há surpresas que me enchem a alma e as medidas e a descoberta com o espaço de dois dias deste livro e deste espetáculo foi sem dúvida uma delas. Fiquei algumas horas em estado de euforia (sou tão esquisita às vezes...)
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O Craque vem a Lisboa e eu vou lá estar!

No próximo dia 13 de Maio,
no Parque Eduardo VII
(esplanada laranja)
no Parque Eduardo VII
(esplanada laranja)
às 18h30
a 80ª Feira do Livro de Lisboa recebe a Visita do Craque
Referimo-nos a Fernando Assis Pacheco em seu glorioso autoretrato desportivo enquanto infante conimbricense: 30 crónicas publicadas há 38 anos no Record, reunidas em livro há cinco, pela Assírio & Alvim, e agora gravadas alto e bom som pelo poeta e recitador Nuno Moura para a Boca (www.boca.pt).
A edição inclui fotografias inéditas e textos de Mário Zambujal, José Carlos Vasconcelos, Nuno Costa Santos e o já referido Nuno Moura. São, aliás, estes os craques que, juntamente com Ana Assis Pacheco, nos falarão destas Memórias de um Craque, autor e obra.
Agradecemos a vossa presença e divulgação.
Sugerimos que tragam um agasalho, que a conversa vai ser boa e as noites andam frescas.
Acrescentamos que a FLL este ano está uma animação e que a BOCA está presente na Tenda dos Pequenos Editores, uma em estilo árabe, à direita de quem sobe.
Pela concorrência desleal, pedimos desculpa ao Papa.
(texto Oriana Alves)
(texto Oriana Alves)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
caim
Caim não matou Abel por ser mau, ou cruel ou insensível. Foi exactamente pelo contrário, por uma sensibilidade descabida e irracional. Foi a primeira vítima de Deus que não soube amar os seus filhos por igual mesmo que o amor paternal possa ter e tem várias formas. No A Leste do Paraíso de Steinbeck, Caim (aqui Caleb) acaba por ter o destino marcado no nome, tentando sempre não "matar" o irmão, apesar dos impulsos que o perturbam. No entanto aqui o pai tem a crueldade justificada na história e no caminho que percorreu. E sente-se no texto o amor do pai, amor esse que não se sente na leitura da Bíblia. E Deus não tem essa justificativa. Não tem nem justificativa para recusar as oferendas de Caim nem para o preterir a Abel, de forma tão clara e visível. Aqui a Bíblia não mente, só nos dá algumas ferramentas para interpretar o que lá está. Saramago, em Caim, mostra bem esta crueladade do Grande Pai, que deixa o filho sofrer e não lhe permite humanidade. E é isso que Caim mostra ao matar o irmão - que é humano, assim como Adão, pai de Caim, foi humano ao comer a maçã. E Deus não lhes permite essa humanidade nem perdoa ou compreende o erro. O Deus criador é aqui um Deus castrador. No entanto (e vá-se lá saber se era essa a intenção dele) Caim ao ver-se obrigado a errar pela terra ("E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.” O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, a Leste do Paraíso.") teve de saber escolher, agora sim, livremente, o seu caminho, com a memória de um crime que, no limite, não seria só seu, seria da raiva que Deus plantou nos seus gestos ao recusar o amor filial.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.
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Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o...


