quarta-feira, 5 de junho de 2013

quando este herberto helder me andava a deixar ligeiramente ansiosa pela falta de bombas eis que esta rebenta no meu colo


nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça, 
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence, 
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio

Herberto Helder 
Servidões
2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

carreirismo(s)

há muitas formas de ver o trabalho. a forma como vivi estes últimos dez anos foi exactamente a tentar perceber de que forma eu queria viver o meu trabalho. e ultimamente têm acontecido muitas coisas que me têm feito pensar muito nisto. estar num trabalho do qual não consigo sair por ter boas "condições". o falar hoje de utopia e do que seria uma sociedade utópica para nós. a falta de dinheiro ao fim do mês. o ter amigos que arriscam muito mais do que eu conseguirei alguma vez arriscar. o terem-nos perguntado hoje que legado queremos deixar depois de morrer - pelo que queremos ser lembrados.
eu gosto de trabalhar. gosto da ideia de criar, construir um produto. mas gosto da ideia de o passar aos outros depois. de haver algo de comunitário no que estou a fazer. na construção de um produto útil que acrescente algo importante a quem o recebe. para além do meu emprego todo o trabalho que eu faço é criado por mim, não é encomendado ou pedido externamente. isto tem dois lados muito importantes que não podem ser esquecidos: por um lado é uma liberdade imensa porque depende só de mim (e eu não preciso de "obrigações" ou "prazos" para me meter na arena); por outro lado o meu trabalho não é procurado por ninguém (pelo menos não na larga maioria das vezes) - é procurado depois do produto terminado mas ninguém me procura para que crie esse produto. são dois lados que se equilibram e o resultado final do que tenho feito supera em absoluto qualquer expectativa ou hesitação. ver que nos cursos vão pessoas de outros cursos que compraram os livros de que lhes falei, vê-los a tratar os meus autores por tu. ver que de uma semana para a outra leram livros de que falei para ainda poderem falar deles em aula. ver os eventos cheios de gente que quer que existam mais. ver as perguntas que suscitam, os e-mails, o reconhecimento através da leitura.
hoje pensei muito nisto - muitos acreditam que a carreira é o oposto da vida pessoal. eu não criei uma crença do contrário, criei uma vivência do oposto. eu sou os meus livros, as minhas pessoas e os meus eventos. o meu boris vian e o meu cesariny. e sou a minha família, os meus amigos e os meus filmes. e as minhas viagens. mas neste sítio onde estou agora poucas coisas me agradam mais do que estar aqui uma noite em silêncio de volta dos meus surrealistas a ter, numa noite, um curso inteiro desenhado. há tempo para tudo nos meus dias mas estes são os dias mais meus.
se a minha carreira for ler e pôr pessoas a ler então não é em nada um oposto da minha vida pessoal e emocional. mesmo que não venha daí o dinheiro das contas. e o único legado que pretendo deixar é ter posto pessoas a ler, em bom. e isso é do caraças.

nem há outra maneira

on surrealismo

e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir
      é preciso suor
é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda
      o fogo de artifício
é preciso o demónio ainda corpulento
é preciso a rosa sob o cavalinho
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
é preciso a relva de bichos ignotos
e o lago é preciso digam que é preciso
é preciso comprar movimentar comércio
é preciso ter feira nas vértebras todas
é preciso o fato é preciso a vida
da mulher cadáver até de manhã
é preciso um risco na boca do pobre
para averiguar de como é que eles entram
é preciso a máquina a quatro mil vóltios
é preciso a ponte rolante no espaço
é preciso o porco é preciso a valsa
o estrídulo o roxo o palavrão de costas
é preciso uma vista para ver sem perfume
e outra menos vista para olhar em silêncio
é preciso o logro a infância depressa
o peso de um homem é demais aqui
é preciso a faca é preciso o touro
é preciso o miúdo despenhado no túnel
é preciso forças para a hemoptise
é preciso a mosca um por cento doméstica
é preciso o braço coberto de espuma
a luz o grito o grande olho gelado

E é preciso gente para a debandada
é preciso o raio a cabeça o trovão
a rua a memória a panóplia das árvores
é preciso a chuva para correres ainda
é preciso ainda que caias de borco
na cama no choro no rogo na treva
é precisa a treva para ficar um verme
roendo cidades de trapo sem pernas



  
mário cesariny
manual de prestidigitação
assírio & alvim
1981

domingo, 26 de maio de 2013

rui nunes

F. - sonho os pormenores do corpo de Manuel: a pele suja, os dentes cariados, as mãos oleosas, os dedos picados dos anzóis, cheios de calos, de por eles passar o estralho, os movimentos de Manuel a consertar as redes, a iscar o aparelho, Manuel calado, no silêncio como em uma casa.

M. - Olho-te da minha fome, sítio só meu e que me perturba, devorador de ti. Tudo o que falas é comido pela fome que eu tenho. Só te vejo nela, como a tua atmosfera. O ar que respiras está cheio de veneno, respiras um ar que te assassina.

F. - amo-te o silencioso dessa fome. O seu lado de contínua devoração.

M. - amas o quê, Francelina? amas isto, olha, os meus braços, pernas, o caralho, é o que tu amas.

não desviou a mão do peito que a mão tocava. Abandonou-a. E no mesmo lugar a mão lhe ficou exterior.

F. - Todos os dias uma nova morte. Um fim que se repete.

Francelina lambe o corpo de Manuel, nu, na enxerga.

F. - o teu corpo sabe a sal.

Grito
Rui Nunes  

há dois tipos de escritores. os que são como o rui nunes e os outros, todos. 

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...