sexta-feira, 20 de setembro de 2013

love love love

está decidido só volto a dormir domingo à noite. in love pelos surrealistas e atolada neles até ao pescoço.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

do documento à ficção real

Autismo
Valério Romão
Abysmo

cada vez que escrevo sobre um novo livro penso numa questão que tem sido fundamental em muitas discussões que tenho tido sobre isto de "avaliar" ou até apenas "gostar" de um livro. quando leio um livro leio-o dentro de um contexto próprio e em categorias não claramente definidas mas que existem. autores com pouca obra publicada é uma dessas categorias. gosto de ler e acompanhar novos autores para adivinhar o que prometem, o que trazem de novo, se têm ou não medo de influências (têm quase sempre). o valério romão é um desses novos autores. tem dois livros publicados. já aqui falei do segundo, agora li o primeiro, o Autismo.
a primeira sensação que tive ao ler o Autismo foi de alguma asfixia. percebemos a tragédia tão cedo como percebemos n'O da Joana e há ali um sentimento de ligação e de ponte que se torna irrespirável, logo nas primeiras páginas. não fossem parte de uma trilogia chamada "paternidades falhadas", que claramente testam os limites dessa mesma paternidade, e seria de questionar de forma mais profunda a necessidade desta ligação à tragédia.
não vou falar de forma convencional do Autismo, vi antes de ler demasiadas referências que me deixaram a leitura suspensa. por isso vou apenas pegar no lado documental do livro que, a meu ver, ganha em dois pontos muito fortes. por um lado o autismo, essa doença que não é doença, essa perturbação do comportamento que tem tantas variantes que se torna indefinível. este livro documenta o autismo em primeiro lugar textualmente, com algumas referências claras e fundamentais para quem quer conhecer a doença e, depois, é fundamental sabermos que o autor experienciou esta realidade, o que torna o livro, em absoluto, credível. no entanto é exactamente nessa credibilidade que o livro fere mais e nos faz ter a necessidade de relembrar, em todos os momentos, que não estamos perante uma reportagem sobre a vida do autor. e não queremos estar, pedimos para não estar tal é a violência do que é dito.
é muito comum assistirmos a uma grande dificuldade em assumir que aqueles que amamos muitas vezes nos cansam, complicam a vida. é difícil viver com essa aceitação, a culpa que nos é imposta, a ideia de que não nos devemos queixar, e que, como marta (a mãe) no romance parece acreditar, ou se ama a pessoa por quem aparentemente nos sacrificamos ou vivemos em sacrifício por ela. rogério, o pai, mostra o contrário, põe a nu o sofrimento e os "ses", e o que é mais interessante no livro é ver que não o faz para nós, fá-lo em privado. para a mulher, para um blog que ninguém sabe que escreve, para si próprio, para o pai. conseguimos perceber que o rogério, ao contrário da marta, avalia as imensas possibilidades que existem para além do henrique, o filho, numa desesperada procura de redenção e sobrevivência. rogério só quer estar à tona de água. é uma personagem ambígua e obscura, com uma forma que se vai desenhando dolorosamente até ao final.
e, segundo lugar, este é um livro que não documenta só o henrique, documenta o rogério e a marta. coloca em discurso directo questões que nunca são do domínio público e que ninguém conhece estando do lado de fora. mostra como o sofrimento profundo e a falta de esperança, quando chega ao limite, não procura ninguém que esteja fora desse mesmo caminho. a energia da marta não se pode dispersar. a do rogério também não. e não estão aparentemente (ressalvo o aparentemente) no mesmo sítio.
este é um romance poderoso. tive com ele semanas difíceis em que me foi difícil virar as páginas. tive com ele uma relação de angústia e violência. é um romance obrigatório para quem não tem medo da verdade. é a ferida que realmente existe neste romance - por mais que tentemos fingir e procurar zonas de conforto, este romance está pejado de verdade. e se o rogério e a marta não têm direito a zonas de conforto, nós também não podemos ter, não enquanto lermos a história deles. e a respiração demora a voltar mas com ela volta uma maior empatia com tanta gente que precisa dela. este romance cumpre assim o que para mim deverá ser um dos mais importantes objectivos da literatura - abrir as nossas janelas e tornar-nos empáticos com os outros, aqueles que normalmente vemos rápido passar por nós e nos esquecemos uns minutos depois.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

o que é o surrealismo?

"Como definir esta originalidade, este novo estado de espírito que permitirá a estes temperamentos tão diversos comunicar na mesma aventura? O que é ser surrealista? Breton responde: 'Durante séculos ainda, será surrealista em arte tudo o que, por caminhos novos, visar a uma maior emancipação do espírito.' Isto significa, de imediato, um ataque em regra contra a lógica, a moral e o gosto."


O Surrealismo
Gerard Durozoi e Bernard Lecherbonnier
Livaria Almedina, Coimbra

ainda falta uma semana e há muitas inscrições!


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Congresso Nacional "Surrealismo(s) em Portugal. Nos 60 anos da morte de António Maria Lisboa"

No sexagenário da morte de António Maria Lisboa, um dos principais nomes do Surrealismo em Portugal, o CLEPUL, a Galeria Perve e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes promovem um Congresso Nacional dedicado à exposição do percurso do Surrealismo em Portugal, num debate que contemplará uma reflexão alargada que se estenderá dos precurores e influências nacionais e internacionais ao itinerário dos grupos surrealistas em Portugal, à discussão da relevância do termo “Abjeccionismo” e às heranças surrealistas em Portugal.

O Congresso decorrerá nos dias 19 (Galeria Perve) e 20 a 22 (Anfiteatro III da FLUL) de Novembro de 2013. As inscrições (20 euros) estender-se-ão até 15 de Novembro de 2013, podendo quem o desejar fazer uma pré-encomenda das actas (50 euros no total), por via do email do CLEPUL (clepul@gmail.com).

Estarei por lá numa das mesas, mais notícias em breve!




terça-feira, 27 de agosto de 2013

CABUUUUUUM!!!

“os prémios literários significam sempre o prémio do bem escrever e são sumamente ridículos pois se, como creio, o génio é incompatível com a habilidade, à humanidade só os génios interessam por muito que se esfreguem os talentos à porta da humanidade” Cesariny
o surrealismo é a verdadeira revolução. a que começa de dentro da cabeça para fora. sem panfletos.

surrealisticando

You are welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny
Pena Capital
Lisboa, Assírio & Alvim, 1982

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...