quarta-feira, 6 de novembro de 2013

oh Bandini, Bandini...

em Estrada para Los Angeles (edição Alfaguara 2013, primeira em Portugal) Arturo Bandini é um adolescente. pareceu-me durante toda a leitura que era neste livro que Fante o apresentava como figura tão indescritível como incómoda. não há nada de doce em Bandini. não há amabilidade ou cortesia ou sociabilidade. Bandini é o escritor por conceito sem ser de todo conceptualizado ou encaixado em categorias.
este livro poderia ser (e será) como um prólogo dos outros. o livro posiciona-se no olhar do jovem escritor que deverá sustentar a mãe e a irmã e deixa-nos perceber sem qualquer momento obscuro ou misterioso o caminho absolutamente quotidiano de Bandini. e esse absolutamente quotidiano é sempre extraordinário. com absoluto desprezo pelo maquinal e pelo funcional Bandini é um escritor violento, opressivo, contra a igreja e acérrimo defensor do seu génio. a mãe e a irmã são personagens de grande importância ainda que inicialmente pareçam estar caricaturadas. por um lado Mona, a irmã, católica fervorosa (e será assim tanto ou é o que o irmão nos faz entender?) sempre pronta para mostrar ao irmão que a realidade não é aquela onde ele vive com a crueldade natural dos irmãos mas, claro, com o exagero certo de Fante. a mãe é a protectora, angustiada entre os dois e com a falta de dinheiro, personagem aparentemente plana que é apenas mãe mas com quem Bandini é capaz de algum carinho, muito leve, mas exemplar face à crueldade da sua convicção diária e vontade de destruição.
Bandini é incrível. Fante criou uma personagem incómoda, doente, violenta mas coerente. Este livro é o momento em que se forma assim, insuportável e surpreendente, sempre na calha de algo insuspeito e, no final, nada perigoso, ao contrário do que anuncia.
Fante é um escritor sem floreados, simples e quotidiano (no que isto pode ter de bom, note-se). parecendo (e por muitos criticado por isso) estar a escrever um romance do dia a dia está, na verdade, a criar uma personagem inesquecível cujo nome lhe sobrevive. eu tenho um fraquinho por personagens fortes, já sabem. e isto de criar uma personagem forte, insuportável, que nunca é descrita mas também não é narradora e que apenas vive (e é suficiente) de actos e diálogos, é criar uma obra de arte.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO | 2013

No próximo dia 30 de Novembro vamos festejar o Dia da Livraria e do Livreiro.


Depois de, no ano passado, ter sido assinalada a primeira edição do Dia das Livrarias, inspirada por ventos vindos do país vizinho e assinalando o aniversário da morte de Fernando Pessoa e de Fernando Assis Pacheco (este último, precisamente numa livraria de Lisboa), a Fundação José Saramago e o movimento Encontro-Livreiro estabeleceram uma parceria que passará a assumir a organização e a dinamização do a partir de agora designado Dia da Livraria e do Livreiro, tornando-o mais abrangente e destacando sobretudo o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e na promoção da leitura.

O Dia da Livraria e do Livreiro é um dia de Festa! Festa da livraria! Festa do livreiro! Festa do leitor!

O leitor, que para nós não é apenas um cliente, é o convidado de honra deste e de todos os dias e quem verdadeiramente justifica a livraria e o livreiro e garante, não só o futuro do livro e das gentes do livro, mas também o progresso, esclarecido e em liberdade, do(s) país(es).

Apelamos a que todas as livrarias, que queiram fazer deste dia o seu dia de festa, comecem, desde já, a preparar uma iniciativa especial para assinalar a data.

Apelamos a todos os leitores que, nas suas agendas, assinalem o dia 30 de Novembro como um dia de visita a, pelo menos, uma livraria, associando-se à festa do(s) seu(s) livreiro(s).

Vamos encontrar formas de divulgar todas as iniciativas que surjam neste âmbito e com este espírito e voltaremos com mais notícias.

Boas leituras e até breve!


Lisboa | Setúbal, 1 de Novembro de 2013

Fundação José Saramago | Encontro-Livreiro

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a genialidade

tudo o que aqui for dito a respeito da literatura é favor adaptar para a área que vos interessar. este blog só não se chama é estórias com outra coisa qualquer.

ando há uns tempos a pensar na genialidade. tenho chegado a algumas conclusões não muito pacíficas mas tentarei, como sempre, expor isto que penso da forma mais pacífica que existe, ou seja, soando a elogio a todas as partes para depois continuarmos todos amigos. não é fácil.
passo os dias todos de cabeça enfiada nos livros. e por livros leia-se cenas com folhas e coisas escritas, poderá até ser, como ontem no barco, um folheto do LIDL com umas cenas gourmet para o natal. tenho pouco tempo para tudo o que queria ler. andamos sempre a pedir uma entorce não dolorosa que nos mande para a cama de baixa para pormos algumas leituras em dia. não resulta. lembro-me a famosa frase que é tantas vezes referida na minha família "cuidado com o que desejas que pode acontecer-te". é verdade. fui lançada para um hospital durante vinte dias sem qualquer sintoma e nem uma linha li (se bem que não ter sintomas físicos é outra história mas avante). havendo pouco tempo tento sempre ler os melhores. e tento ler os melhores em todos os momentos que posso do meu dia. mas.
tenho encontrado na vida muitas pessoas que procuram a perfeição na leitura. uma perfeição certeira e subjectiva mas uma perfeição. recusam-se na sua maioria a ler livros que considerem comerciais, artificiais, e que sirvam outro propósito que não a arte da literatura. não podia estar mais de acordo. não leio livros maus, nunca, e desisto de livros a meio, mais vezes do que gosto de admitir. procuro o meu sítio certo da leitura, e está a ser tramado de encontrar, ando às aranhas.
mas não me identifico com a procura da genialidade. com o patamar onde às vezes subimos e não conseguimos descer. não quero subir a fasquia a um sítio onde grande parte dos livros que me foram importantes não caibam. acho que a qualidade literária se mede por faixas. quando começo a ler um autor encaixo-o numa faixa. se está numa faixa que considero má não o leio. um dia em que um autor suba de faixa é um dia feliz. no dia em que desce sinto-me desiludida como uma traição pessoal. aconteceu com paul auster por exemplo, desceu umas três ou quatro faixas.
no entanto eu quero que essas pessoas existam. esses leitores que procuram a perfeição. às vezes temos de sacrificar muito conforto para atingir um nível semelhante a esse. esses leitores sacrificam. conforto e amabilidade. tornam-se irritantes, roçam o pedantismo e tornam-se insuportáveis, na maior parte do tempo. como muitas vezes nos meus cursos disse relativamente a muitos livros, é importante que estes nos causem sensações extremas, seja de amor ou ódio. a indiferença perante um livro é a pior das leituras. e eu tanto odeio estes leitores como me apaixono tolamente por eles. e o que me apaixona é que eles sacrificam a amabilidade e o conforto mas eu aprendo com eles muito mais do que com leitores como eu. por isso deixem-se estar, irritantes, pedantes e insuportáveis. porque no dia em que acertam é mesmo no sítio certo. e isso é insubstituível. 

ai pá! adquirido.

Berkeley, California, otoño de 1980. En la cima de su carrera y después de años de negativas, Julio Cortázar acepta dar un curso universitario de dos meses en los Estados Unidos. Como cabía esperar, no se tratará de conferencias magistrales sino de una serie de charlas sobre literatura, y sobre todo acerca de su experiencia de escritor y la génesis de sus obras.

Las clases tratan gran diversidad de temas: aspectos del cuento fantástico; la musicalidad, el humor, el erotismo y lo lúdico en la literatura; la imaginación y el realismo, la literatura social y las trampas del lenguaje, todos ellos encarnados en lecturas y ejemplos tomados de la cultura universal. Las clases llegan a su punto máximo de interés cuando Cortázar, ya en la edad de los balances, se refiere a su evolución de escritor y analiza su obra: cómo nacieron los cronopios y cuentos insuperables como “La noche boca arriba” o “Continuidad de los parques”; el sentido de Rayuela y su proceso de escritura; el desafío de Libro de Manuel.

Quien lea la minuciosa y fiel transcripción de trece horas de grabaciones, al cabo de este encuentro con el Cortázar oral, valorará lo mismo que en sus textos: la soltura y cercanía, la vastedad de lecturas, la honestidad intelectual, la imaginación y el rigor de tamaño profesor. El Cortázar que nos quedaba por conocer, este que ya entra en el aula y sonríe.

as palavras que levam os leitores a este blog


 
que orgulho pá!
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ainda sobre o ser surrealista, que não se escolhe, é-se, como dizia o outro

A actividade surrealista não é como Jorge de Sena quer (e outros também) uma simples libertação de coisas que chateiam, mas um golpe fundo, e de cada vez que é dado na realidade presente. Não é mero exercício para se dormir melhor na noite seguinte, mas esforço demoníaco para se dormir de maneira diferente.
António Maria Lisboa



Porquê a adesão ao surrealismo? Porque ao sórdido amor mesa-de-família-cama-de-casal e às convenientes - e, muitas vezes, adversárias - instituições que o servem e que serve, oponho, tanto em mim como nos outros, a feroz realidade do DESEJO.
Alexandre O'Neill

em centrifugação literária

cen·tri·fu·ga·ção
(centrifugar + -ção)
substantivo feminino
Separação dos elementos de uma mistura pela aplicação da força centrífuga.

domingo, 27 de outubro de 2013

"Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luís José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego... Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma...) também já por cá passaram...) Viram? É horrível!... A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho... Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola."

(Alocução de Luís Pacheco numa conferência pública)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

a despedida do livreiro velho

hoje em setúbal o assunto era o mesmo - o que tu querias ou pensavas ou dizias. rimo-nos e deixamo-nos no abraço. falámos sem constrangimentos. ouvimos a fátima a fazer planos devagar, mas sem medo. o dia mais triste de outono foi tudo menos o final de algum ciclo. sim, manuel, tens razão, tiveste um fim de vida incrível. e de certeza que adoraste a tua despedida. saímos de lá com ideias e com a reformulação das tuas. saímos de lá com histórias e memórias. eu saí de lá mais família, mais livreira, mais amiga. sinto-me estupidamente sortuda por ter feito parte disto. um velório é triste triste triste. espero que sejam todos como o teu. houve alguma coisa que começou hoje, na tua despedida. e poucas pessoas teriam conseguido isso, mas de ti, não me surpreende.


perder um amigo como quem perde parte de todos os quotidianos





a primeira vez que vi o manuel foi à porta da Culsete. ele olhou para mim com aquele ar malandro e disse "ah tu é que és a rosa!" e eu disse "e tu é que és o livreiro velho.". a primeira de muitas visitas ao manuel e à fátima, em poucos anos, que parecem mesmo poucos.

a última vez que o vi foi em casa dele. sentámo-nos no meio dos livros e falámos um bocado. falámos de surrealistas e da leitura, como sempre. falámos de como era importante não deixar cair o Dia da Livraria e do Livreiro, não sabendo ele que era nesse dia, 30 de Novembro, que teríamos uma grande homenagem preparada.
tenho poucas palavras e sei que com o tempo terei muitas. desde que soube que ele estava pior e que teria pouco tempo que me tenho lembrado de muitos episódios. há um que é para mim o mais bonito e que tenho de falar aqui. o manuel foi o primeiro a ligar-me quando saí do hospital na véspera de Natal. disse-me que uma vez, das muitas vezes que já tinha estado internado, também tinha saído naquele dia. e disse-me que no final não eram as más memórias que interessavam, era o voltar para casa.
o manuel era e é imortal, ia sempre sobrevivendo e nós íamos rindo com ele. ele que dizia e garantia que já tinha estado morto umas três vezes mas que pregava sempre partidas ao destino. há notícias que não acreditamos que cheguem nunca, esta era uma delas.
agora quero ir para setúbal dar um abraço à família-maravilha. porque hoje não há outro sítio para estar.






Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...