quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

(creio que terei umas próximas noites do caraças)

"Este termo, hesitante, parece-nos fundamental. Um avanço hesitante: eis um método; avançar, não em linha recta mas numa espécie de linha exaltada, que se entusiasma, que vai atrás de uma certa intensidade sentida; avanço que não tem já um trajecto definido, mas sim um trajecto pressentido, trajecto que constantemente é posto em causa; quem avança hesita porque não quer saber o sítio para onde vai - se o soubesse já, para que caminharia ele? Que pode ainda descobrir quem conhece já o destino?"

(é que vou já escrever sobre isto)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

um poema da margarida

Escadas de incêndio

Desci a correr pelas escadas de incêndio
de betão, expostas ao vento mais do que ao sol.
Suportei a velocidade áspera na mão esquerda
dei a um filho o flanco,
outra criança por um braço,
e provavelmente um par de asas seguiu-nos
mas não ousei virar-me porque diante de mim uma
outra perspectiva da cidade.

Caminho agora de igual modo todas as horas,
repito os gestos essenciais
com esmero, a melhor memória, desvelo.
Sei-os de cor e desenho-os
com os meus dedos, como novos.
Confirmo: sou a mesma que cozinha no mesmo fogão
a gás, outra água, outro combustível,
tomilho, a pedra mármore intemporal.
Mais eficaz do que essa escada secreta e tosca,
a repetição salva-nos. Um erro
nunca pode ser emendado, nem quase isso.
Não há lugar mais firme senão escondida
a falha
debaixo da acumulação das tarefas
normais
repetidas com esforço, zelo, sem excessos:
E sobre o tapete uma coreografia monocórdica,
segura, faz dos dias
dias em que não se usa a escada de incêndio.


Margarida Ferra

O Grupo Surrealista de Lisboa: da formação às dissidências

resumo da comunicação proferida no Congresso Surrealismo(s) em Portugal, Nov 2013
  
Começo por avisar que a minha comunicação pretende desmistificar ou mesmo desvalorizar o seu próprio conteúdo. A existência de um grupo Surrealista é sobrevalorizada face ao cenário surrealista português muito maior e mais abrangente. 

O Grupo Surrealista Português existe apenas porque surgiu a determinada altura a necessidade de trazer para Portugal o termo surrealismo, passando o surrealismo a existir quase por decreto. António Pedro já se tinha envolvido com o movimento surrealista inglês (1936) e começa a referir o movimento em Portugal. Publica em 1941 Apenas uma narrativa uma antologia de textos automáticos, algo absolutamente inédito no país. Para além disso alguns dos futuros membros do movimento surrealista português conhecem Breton e trazem as ideias do surrealismo francês para cá.

O grupo de alunos da escola António Arroio que por volta de 1942 se começa a juntar no café Hermínius tinha já em comum uma série de ideias que se aproximavam das ideias dos surrealistas franceses, sobretudo. Acreditavam na necessidade da criação de uma supra-realidade porque a realidade existente não era material artístico satisfatório. Para aí chegar teriam de afastar a razão para chegar a uma arte pura, longe de estereótipos e preconceitos. Preconizavam o fim da ditadura da razão. Ramos Rosa definia esta poesia como “ilegível mas não inaudível”, ou seja, imagens que não fazendo um sentido real e palpável criassem através do acaso ou da sensação um poema significante no leitor transformando-o numa parte fundamental e imprescindível da escrita.

Estes artistas não acreditavam que a arte fosse de elites, estaria por isso ao alcance de todos. Não queriam uma elite, não acreditam na separação entre arte e pessoas, não se queriam fechar em regras de arte ou dogmas relacionados com a história da literatura – ser surrealista era uma forma de ser e de estar na arte, não algo que se decida ser. Cesariny: "Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!"
Em 1942 já se reuniam algumas pessoas no café Herminius, alunos da António Arroio e em 1947 forma-se o primeiro grupo surrealista, o Grupo Surrealista de Lisboa. Em 1948 deram-se as primeiras discussões dissidentes. Havia vários surrealismos, mas Cesariny defendia nesta altura que o Grupo não parecia defender o que ele denominava surrealismo literário que defendia a absoluta liberdade de criação, a autonomia de cada um face à supra-realidade que procurava e o não prender-se a qualquer convenção. Este surrealismo torna-se então incompatível com a ideia da existência de um grupo, ou seja, a existência de um grupo não trazia nada de novo, apenas impedia a livre criação, sem preconceitos, onde cada artista deveria ser absolutamente diferente do outro. A revolução possível seria sempre uma revolução interior e pessoal e não uma revolução exterior, só assim seria possível chegar à revolução exterior que almejavam.

Em 1949 dá-se a separação e criam-se dois grupos. Por um lado o já existente, Grupo Surrelista de Lisboa de onde faziam parte O'Neill, Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José Augusto-França e Vespeira. Destes afastaram-se os Dissidentes ou os Surrealistas (uma melhor definição para que não se identifiquem por oposição) com Cesariny, Pedro Oom, António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira.

O surrealismo não pode ser datado, nem podemos falar de percursores e herdeiros. Apenas o conceito e o seu entendimento fez com que se criassem estes grupos que aparentemente queriam o mesmo. No entanto ser-se surrealista era uma forma de estar na arte por isso teriam existido antes e depois e sempre.

Os grupos tiveram sobretudo a função de os pôr a pensar, reflectir, ainda que muitas vezes fosse pela negativa, daí o tão grande número de discussões, problemas e querelas. Os Surrealistas formaram-se pela negação de uma postura artística com a qual não se identificavam, nem eles nem o surrealismo bretoniano. Durante as dissidências os surrealistas puderam perceber que liberdade era esta. Não “inventaram” o surrealismo, pensaram-no e reflectiram-no.

É preciso perceber o que é ser surrealista, em que é que isso acrescenta o autor, o transforma, o melhora, o torna consistente. É isso que importa discutir e entender e espero que este congresso esta semana sirva para nos aproximarmos mais desse entendimento do que é o surrealismo, nos termos em que os próprios tentaram entender, e menos fecharmo-nos em discussões históricas e factuais.

Que sirva também este congresso para reflectir no que os surrealistas ainda podem significar e que sentido nos fazem (que é tanto) na nossa contemporaneidade. Que o congresso não nos feche em academismos e sirva para nos tornar o pensamento mais livre como os surrealistas quereriam, que nos tire do nosso espaço de conforto e nos liberte. De outra forma estaríamos a ser os nossos próprios inimigos.

Para tudo isto o importante é ler os surrealistas, para compreender esta revolução interior, não podemos entender o surrealismo em textos e comunicações.  Só nos livros e nos poemas e nos quadros essa revolução poderá ser não só entendida como atingida em absoluto. Não há outra forma.

domingo, 1 de dezembro de 2013

de volta à maratona


inscrever e divulgar como se não houvesse amanhã!




"A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas" (António Maria Lisboa)

Vamos ter Cesariny, Pacheco, O'Neill, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa e outros. Vamos ter surrealismos e dadaísmos e outros ismos inventados por nós. Vamos conviver surrealisticamente. Vamos pensar surrealisticamente. Vamos surrealisticar. Podem vir a horas ou chegar atrasados. Podem vir ao contrário. Podem não vir.


Pó dos Livros
inscrições: podoslivros@gmail.com // 21 795 93 39
Av. Marquês de Tomar, Lisboa

4as feiras de janeiro' 14
21h
35€ (descontos para desempregados e estudantes)
(o pagamento pode ser feito no primeiro dia do curso ou antes) 


evento facebook para aderir e divulgar. obrigada!

a propósito do dia dos livreiros e das livrarias

"O Encontro Livreiro pediu-me que escrevesse este texto neste dia e eu não sou livreira. Aceitei sem hesitar, como sempre, sobretudo porque acredito que este dia não deverá ser, no limite, sobre os livreiros e sim sobre os leitores. É essa a minha condição aqui, de leitora. No entanto há uma definição que o Manel Medeiros dava dos livreiros onde dizia que estes publicam a leitura. Nesse sentido considero-me livreira sim, porque quando me é impossível definir o meu projecto com os livros a única definição possível é que tento criar leitores. Vários tipos de leitores, diferentes tipos de leitores. Mas nunca maus leitores. E não me venham dizer que não há isso de maus leitores, há, claro que sim. Os livros têm connosco um papel fundamental na nossa formação, no nosso pensamento, na nossa forma de agir. Essa responsabilidade é de tal forma gigante e sagrada que seria, no mínimo, um desrespeito dizermos que se pode ler seja o que for que é igualmente bom.

Começa a ser raro vermos quem sinta a verdadeira importância do livreiro nos seus quotidianos. A própria profissão é desconhecida, ainda, para muitos. Na verdade é também difícil de definir, há livreiros que não trabalham em livrarias e há vendedores de livros que não são livreiros. Na verdade os leitores começam a deixar de acreditar que precisam de intermediários para a leitura. Num mundo tão cheio de estímulos, com a internet inundada de opiniões que se dão com a facilidade de um clique, nem sempre os livreiros são vistos como mediadores da leitura. Não podemos esquecer que há mais leitores e mais diversificados. Esse facto também leva a que muitos destes se tenham formado longe da figura do livreiro. Noutros sítios.

Vender livros não é igual a vender outro produto qualquer. Não o é em nenhum dos sentidos. Um livreiro não vende um produto apenas. Vende ligações a esse produto, vende outros livros. Vende um livro que corresponde a uma ideia, um anseio, uma vontade de conhecimento, uma dúvida pequena. Um livreiro fará um bom negócio (e não podemos esquecer que uma livraria é um negócio) se conseguir que um cliente passe a leitor. Para isso é preciso ensinar a um cliente que nada se lê isoladamente, os livros não existem entre a capa e a contra-capa. Um livreiro torna-se um bom livreiro se for um agente de ligações, se funcionar como o motor que instala no leitor esse vírus das ligações. Quem o consegue são por vezes pessoas improváveis, em livrarias improváveis, noutros sítios que não são livrarias, por pessoas que não vendem livros. Nas estantes dos desconhecidos, nas estantes dos amigos. Em blogs, nas redes sociais ou nas conversas de cafés.

Ser livreiro é criar leitores. Só assim as livrarias podem sobreviver enquanto negócio. Posto isto é fácil afirmar que as livrarias são sítios de crescimento, de criação e aprendizagem. Daí a nossa responsabilidade em mantê-las vivas e a funcionar, quando pensamos onde vamos comprar um livro. São os leitores que as fazem existir mas por trás de cada uma há livreiros que são a porta da livraria. Os nossos agentes de ligações. Aqui na Culsete há dois, a Fátima e o Manel. Hoje esta mais que merecida homenagem é a eles e aos leitores que eles criaram. Não temos de ter muitas palavras porque são 40 anos a mostrar, com esta porta aberta, com o reconhecimento dos subscritores do diploma Livreiro da Esperança Especial, com o nome que tão facilmente é reconhecido em qualquer lado, com o Encontro Livreiro que nasceu aqui, que são livreiros à séria, que deixam e continuam a deixar o melhor de todos os legados, uma fila interminável de leitores."

texto lido na Culsete, a 30 de Novembro de 2013



terça-feira, 26 de novembro de 2013

poetolatry, n.


[‘ The worship or immoderate veneration of poets.’]
Pronunciation: Brit. /ˌpəʊᵻˈtɒlətri/,  U.S. /ˌpoʊəˈtɑlətri/
Etymology: <  poet n. + -olatry comb. form. Compare earlier bardolatry n.
Apparently coined by C. S. Lewis (see quot 1936 at main sense).
 rare.
The worship or immoderate veneration of poets.
1936  C. S. Lewis in Ess. & Stud. 21 165 There is yet another way in which Personal Heresy offends against personality;..I am referring to the growth of what may be called Poetolatry.
1939  E. M. W. Tillyard  & C. S. Lewis Personal Heresy v. 104 Naturalism..wants poets to be a separate race of great souls or mahatmas. Poetolatry is the natural result, for if there were such a race..those who know no higher deity would do well to worship them.
2000  E. Alsen New Romanticism iii. 241 Romantic ‘poetolatry’ has produced a tradition of phoney..individuality.
Derivatives
 
 poeˈtolater n. a person who practises poetolatry; a worshipper of poets.
1936  C. S. Lewis in Ess. & Stud. 21 167 Most poetolaters hold that a dead man has no consciousness.
 
 

OED Online Word of the Day

 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

perfecto cuadrado em lisboa

por ocasião do congresso surrealismos em portugal Perfecto Cuadrado veio falar do que é isto do surrealismo. pediu como seria de esperar que parássemos um pouco na palavra "surrealismo". com o tempo a palavra banalizou-se, o sentido desviou-se. o surrealismo é, para Perfecto, uma revolução total que deverá transformar o homem. uma revolução interior que não permite a historiografia do movimento. como dizia Cesariny "entre nós e as palavras o nosso dever falar", falando dessa mesma revolução interior. Perfecto Cuadrado diz que o surrealismo quer descobrir a luz na caverna. essa aventura não se fecha em datas, é uma aventura constante e sem limite. os valores de hoje são a abjecção moral, as trevas são negras. por isso sobramos nós, as pessoas, à procura da luz. apenas nessa procura podemos encontrar um acordar. Perfecto Cuadrado apela a que este congresso e o falar-se e pensar-se o surrealismo mostre a necessária resistência contra o real quotidiano que resiste a ser reabilitado.

é imperativa a revolução interior surrealista

0 MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor.

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.

Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR

minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca

conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século

agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites....
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO

António José Forte

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...