Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
palavra do dia
no sentido oposto da intenção, da procura, do efémero, do trabalho
antónimo de fim, enquanto fim esvaziador
antónimo de esquecimento
o mesmo que retirar o necessário, o maquinal, o decorado
o mesmo que reconhecimento
o mesmo que distância
o mesmo que silêncio
"serás a minha marca"
marca
acto ou efeito de marcar
1. (sXIV) traço, sinal, impressão deixada por alguém ou algo, acidentalmente, ou como resultado de escarificação intencional na pele.
8. sinal ou qualquer coisa para avivar a lembrança a respeito de algo, ou que serve para reconhecer ou encontrar uma outra coisa
11. fig. traço distintivo por que se reconhece alguém ou algo
13. fig. expressão reveladora de sentimentos, tendência ou estado físico ou mental
14. fig. impressão, efeito de uma causa qualquer sobre o espírito, sobre os sentimentos
17. posto ou linha de partida numa pista de corrida atlética
via dicionário Houaiss
antónimo de fim, enquanto fim esvaziador
antónimo de esquecimento
o mesmo que retirar o necessário, o maquinal, o decorado
o mesmo que reconhecimento
o mesmo que distância
o mesmo que silêncio
"serás a minha marca"
marca
acto ou efeito de marcar
1. (sXIV) traço, sinal, impressão deixada por alguém ou algo, acidentalmente, ou como resultado de escarificação intencional na pele.
8. sinal ou qualquer coisa para avivar a lembrança a respeito de algo, ou que serve para reconhecer ou encontrar uma outra coisa
11. fig. traço distintivo por que se reconhece alguém ou algo
13. fig. expressão reveladora de sentimentos, tendência ou estado físico ou mental
14. fig. impressão, efeito de uma causa qualquer sobre o espírito, sobre os sentimentos
17. posto ou linha de partida numa pista de corrida atlética
via dicionário Houaiss
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
boris vian
chegou hoje pelo correio. apenas posso dizer que a treze dias do ano de dois mil e catorze este livro vem testemunhar que este é o ano do regresso e efectivação do meu querido espectáculo do Boris Vian. Yeeeeeah!! ganda malha.
aos que duvidam de mim, deste tão atrasado projecto apenas quatro palavras e três entre parentesis seguido de um ponto final: têm razão em duvidar (sou uma fraude).
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
As aventuras de Guille e Belinda e o enigmático significado dos seus sonhos
há realmente momentos espatafúrdios de
quotidianos em que, sem estarmos à espera, levamos uma chapada ou um
murro no estômago, vá, o que emocionar mais. este livro foi um deles.
sacana. é tão bom. é em tudo incrível mas o mais fascinante é o trabalho que a nossa imaginação tem de fazer e acrescentar ao livro.
a descrição do PÚBLICO: "Esta é a história de Guille e Belinda, duas primas e amigas que cresceram juntas numa pequena povoação fora de Buenos Aires, na Argentina. Através das imagens, acompanhamos os longos serões estivais de brincadeira e deambulação repletos de imaginação, espontaneidade e amizade, mas também os sonhos, fantasias e medos típicos da transição da infância para a idade adulta. A fotógrafa americana Alessandra Sanguinetti deu início ao projecto quando Guille e Belinda tinham ainda 9 e 10 anos de idade, em 1999, e continua a visitá-las e a acompanhar o seu percurso ainda hoje. O projecto já deu origem a dois fotolivros intitulados "The Adventures of Guille and Belinda and the Enigmatic Meaning of their Dreams" "
ver o livro aqui.
There were always many visitors at Juana's, and most of them would sit silently sipping mate and leave without saying a word. Once every couple of hours a car would drive past, or a man on horseback would ride by and tip his hat in salutation. The most regular visitors were her grown daughters Pachi and Chicha, who lived nearby with their own families. They'd come over with their youngest daughters Belinda and Guillermina, and chat as they prepared sweet fried bread and sipped mate. Beli and Guille were always running, climbing, chasing chickens and rabbits. Sometimes I'd take their picture just so they'd leave me alone and stop scaring the animals away, but mostly I would shoo them out of the frame. I was indifferent to them until the summer of 1999, when I found myself spending almost everyday with them. They were nine and ten years old then, and one day, instead of asking them to move aside, I let them stay.
Alessandra
July, 2009
a descrição do PÚBLICO: "Esta é a história de Guille e Belinda, duas primas e amigas que cresceram juntas numa pequena povoação fora de Buenos Aires, na Argentina. Através das imagens, acompanhamos os longos serões estivais de brincadeira e deambulação repletos de imaginação, espontaneidade e amizade, mas também os sonhos, fantasias e medos típicos da transição da infância para a idade adulta. A fotógrafa americana Alessandra Sanguinetti deu início ao projecto quando Guille e Belinda tinham ainda 9 e 10 anos de idade, em 1999, e continua a visitá-las e a acompanhar o seu percurso ainda hoje. O projecto já deu origem a dois fotolivros intitulados "The Adventures of Guille and Belinda and the Enigmatic Meaning of their Dreams" "
ver o livro aqui.
There were always many visitors at Juana's, and most of them would sit silently sipping mate and leave without saying a word. Once every couple of hours a car would drive past, or a man on horseback would ride by and tip his hat in salutation. The most regular visitors were her grown daughters Pachi and Chicha, who lived nearby with their own families. They'd come over with their youngest daughters Belinda and Guillermina, and chat as they prepared sweet fried bread and sipped mate. Beli and Guille were always running, climbing, chasing chickens and rabbits. Sometimes I'd take their picture just so they'd leave me alone and stop scaring the animals away, but mostly I would shoo them out of the frame. I was indifferent to them until the summer of 1999, when I found myself spending almost everyday with them. They were nine and ten years old then, and one day, instead of asking them to move aside, I let them stay.
Alessandra
July, 2009
Cruzeiro Seixas no Congresso Internacional Surrealismo(s) em Portugal
do muito que se disse isto é o que fica de fundamental. porque quem faz não tem de falar sobre isso e se querem saber do surrealismo têm de ler os textos. cruzeiro seixas diz isto tudo e significa muito mais. percam, por favor, estes 25minutos. imprescindível.
domingo, 5 de janeiro de 2014
esclarecimento face a uma reclamação de uma voluntária do LEVA - ler e voz alta (www.leremvozalta.org)
Caros voluntários e leitores,
o LEVA recebeu uma reclamação de uma voluntária e creio que se impõe um esclarecimento público para esclarecer a posição do LEVA bem como deixar claro todo o processo que nos trouxe à forma como hoje funcionamos.
O LEVA surgiu em Agosto de 2012 com o plano de, a partir de trabalho voluntário auto-proposto, oferecer a custo zero audio-livros a todos aqueles que não pudessem, por várias razões, aceder ao livro físico estando por isso em desvantagem numa realidade em que o mercado do audio-livro é absurdamente diminuto (apesar da sua grande qualidade) e portanto esses leitores estariam sempre em desvantagem face a quem não tivesse essa limitação. Foi lançada a ideia que foi também apoiada por alguma visibilidade na comunicação social o que facilitou a oferta bastante grande de voluntários. A maioria desses voluntários são leitores, depois temos os técnicos em menor número, e depois várias outras categorias – estúdios profissionais, a designer que fez a imagem,o programador do site, alguns autores e editoras que ofereceram direitos, seja espontaneamente seja contra pedido.
O que tem faltado no LEVA são encomendas. Tenho contactado empresas e instituições, tenho contactado particulares, fizemos o site e o facebook, espalhámos a palavra. Ainda assim as encomendas rareiam. Tivemos apenas duas encomendas que incluíam alguns livros e foi aí que todos os voluntários foram contactados, após termos conseguido o apoio das editoras que infelizmente não se verificou para a totalidade da encomenda. Escolhemos os voluntários e para esta encomenda o critério escolhido foi aceitar leitores que se tivessem oferecido com técnicos uma vez que havia alguma pressa na realização das gravações. Claro que ficou decidido que na próxima encomenda o critério seria outro e os voluntários que gravaram estes livros não estariam no topo da lista para dar oportunidade a outros. Essa segunda encomenda ainda não se verificou.
A reclamação vem no seguimento de um post no facebook que fala da necessidade / vontade de mais voluntários após alguns deles terem ficado sem livro atribuído nessa primeira e única encomenda. A razão para o ter feito prende-se com diversas razões, a saber:
- havendo mais voluntários pelo país pode aparecer oportunidade de juntar um técnico de uma determinada cidade com um leitor que já lá esteja permitindo assim descentralizar o projecto das grandes cidades, nomeadamente Lisboa
- os voluntários podem oferecer-se para outras actividades que não a leitura – como exemplo já tive voluntários que se ofereceram para contactar empresas e marcar reuniões ou para fazerem a ligação com meios de comunicação
- queremos que o LEVA cresça e tenha cada vez mais encomendas. Só com o esforço de todos na divulgação e participação activa o poderemos conseguir, daí que o corpo de voluntários aumentar, logo aumentar o envolvimento das pessoas no desenvolvimento de um projecto que pode ser muito maior do que é, é sempre positivo
A dita reclamação falava também das expectativas criadas nos voluntários. As expectativas são de todos. Quando criei o projecto em 2012 não imaginei que tivéssemos tão poucas encomendas. No entanto estamos todos no mesmo barco e creio que as expectativas que nunca poderemos deixar goradas são as dos nossos leitores, que nos encomendam livros, o que acredito que não tem acontecido, graças ao trabalho de todos. Este projecto é nosso, meu e dos voluntários, e o nosso trabalho e vontade é de os ajudar juntando esforços, criando ideias, pensando em conjunto. Se queremos fazer mais, e sei que se todos o sentirem teremos aqui um grupo muito forte, vamos em conjunto, de forma construtiva, pensar em como poderemos fazer este projecto crescer e não esperar que cresça sozinho.
A dita voluntária abandonou o projecto por vontade própria. Fica a vontade que tal força e dinâmica possam ser aproveitadas para outros projectos.
A reclamação falava também da falta de organização por ser uma única cabeça à frente do projecto. Aqui, e apenas aqui em nome pessoal, vos digo que desde que comecei o projecto até hoje que não o faço de forma diminuída ou desorganizada mesmo com as naturais adversidades que surgem, porque não sei trabalhar pela metade e tento nunca o fazer. O trabalho conjunto tem permitido que essa minha vontade se mantenha realizável. O que na reclamação surgia como desorganização é apenas a forma escolhida para levar o trabalho avante. Se não concordarem com o método poderemos trabalhá-lo através da construção, em conjunto, de métodos alternativos.
Quanto aos outros voluntários deixo aqui a minha vontade em ouvi-los, esclarecer as questões que possam ter, pedir toda a ajuda e colaboração no desenvolvimento deste projecto ainda tão recente, sobretudo ao nível das ideias que nos possam fazer ter mais encomendas.
Todos gostávamos que este projecto estivesse a chegar a mais gente. Só nos sobra fazer por isso. Redobro o meu agradecimento a quem o faz comigo, diariamente, no LEVA. Espero poder chegar a todos, um dia. Era apenas sinal que teríamos chegado a mais leitores, de forma mais global e mais eficaz.
Reitero como sempre reiterei a minha total disponibilidade e abertura para esclarecimentos. Os meus contactos estão todos no site www.leremvozalta.org.
Um bem haja a todos,
rosa azevedo
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
curso com novas datas, inscrições abertas
Pó dos Livros // podoslivros@gmail.com // 217 959 339
Av. Marquês de Tomar, Lisboa
4as feiras de Fevereiro' 14
21h
35€ (descontos estudantes e desempregados)
domingo, 29 de dezembro de 2013
"O êxtase e a estase coabitam no mecanismo que crepita da própria devastação, ferrugem. Paragem, fagulhas da imprevista fricção. País com tantos poetas e nenhuma remansosa fluência. A engrenagem involui continuamente por paragens, mises en marche abruptas. Não tenho idade para a nacionalidade que me percebo."
"E se um dia escrever vou ter que ter cuidado com as imagens baratas, com tudo o que é barato e se passa ao lado. Toda a gente quer algo que ao menos imite o,
custoso."
Maria Velho da Costa
Casas Pardas
"E se um dia escrever vou ter que ter cuidado com as imagens baratas, com tudo o que é barato e se passa ao lado. Toda a gente quer algo que ao menos imite o,
Elisa, minha querida, que é que estás a ler?
Salgari, pai.
Que abominação minha querida, se te diverte.
Maria Velho da Costa
Casas Pardas
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
a imaginação
o gonçalo m. tavares dizia na passada sexta feira que a imaginação é utilizada para nos criar uma outra vida onde possamos defender-nos do quotidiano, daí conseguirmos estar felizes nas situações mais trágicas assim como o oposto. tenho pensado muito nisso estes três dias. há muitas coisas que nos têm distinguido de tudo o resto que existe no mundo. a imaginação é talvez um resumo de tudo isso que não é alma, ou comoção, ou pensamento.
a própria obra literária ou a própria criação vive da imaginação. não enquanto esse terrível conceito que é a inspiração, não me interpretem mal. mas enquanto a criação de um universo que não nos é intrínseco nem despegado. que está nesse sítio transitório, na mediação de nós com esse que é o único sagrado possível. um sagrado que é já despegado de nós mas não nos é exterior não sendo o limbo que pertence à obra e à criação. é esse sítio transitório e a forma de o alcançar que desenha a obra literária. daí que a escrita ocasional, quotidiana, com objectivos que não se prendam unicamente com esse universo só possam estar aquém. aquém da beleza. e aqui não há crítica que adivinhe, nem fórmulas. não é legível ou palpável, nem sequer fácil de intuir. daí acreditar mesmo que essa beleza está dentro da própria obra e não fora dela. feliz o que conseguir lê-la sem nevoeiro.
posto isto só nos resta concluir que assim é fácil perceber o fascínio disto tudo. é do caraças.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
a fé e o amor na forma improvável
não gosto do ritual de me sentar a escrever sobre os livros do afonso. já tanto se disse, já tanta gente escreveu sobre este livro que não me apetece acrescentar mais um ponto a um longo texto já escrito por tantos outros.
o afonso foge a muitas das categorias óbvias em que poderia já ter caído. um jovem escritor, talentoso, com boa figura e boa presença poderia, facilmente, cair nas teias da crítica fácil ávida de uma palavra errada, um pé colocado ao lado por estes novos escritores, para criarem um monstro.
não conseguem porque o afonso não põe o pé ao lado e nem faz esforço por não o fazer. é autêntico, no que a palavra tem de melhor. está ali, escreve, vive, marca presença e fala. e fala bem, e tem as palavras não ensaiadas nas alturas mais improváveis e funcionam sempre.
digo estas coisas do afonso porque acho que isto que digo tem ligação com o novo romance dele, para onde vão os guarda-chuvas.
o que quero falar hoje aqui é a forma como o afonso viaja. o livro é uma viagem plena. uma viagem inteira. uma viagem ao paquistão sem nunca se referir o país. uma viagem à intolerância que se deixa esmagar pelo amor sem que isso nunca se veja em lado nenhum. é um livro sobre o amor. sem cliché nenhum. sem cliché nenhum, repito, antes que desistam já aqui deste texto.
é um livro sobre o amor.
sobre o amor. e é difícil falar do amor num planeta onde os livros falam todos sobre o amor mesmo quando o amor não interessa nada. mas aqui interessa. fala do amor absolutamente improvável. em todo o lado. fala do que se parte e do que parte com a morte, em primeiro plano. e fala do amor que se conquista que nem sempre é o que se precisa. e do amor que é criminoso porque não entende as barreiras do que deve ser aceite e indestrutível.
e é uma viagem pela religião. quem me conhece sabe que tenho um grande fascínio pelo estudo das religiões, com uma considerável distância. aqui tenho de parar num episódio que li muitas vezes, que repeti incansavelmente até entender o peso que teve no que estava a ler e no que seria aquela história a partir dali. a certa altura conta-se a história de alguém a quem o pai obriga a ler a Bíblia e que, não querendo lê-la, lê e decora passagens de outros livros. Elahi apanha uma parte da Alice no País das Maravilhas pensando que é da Bíblia e interpreta-o à luz da fé católica com algum encanto e com o encontro de Deus. daquele Deus. o livro é isto. é sempre isto. uma interpretação de uma religião que é uma forma de agir que é uma forma de não sofrer que é uma forma de amar.
o afonso atingiu aqui um ponto profundo da escrita dele. como se descansasse de desenhar a escrita e a tornasse visceral. descreve personagens banais transformando-as nas pessoas da porta ao lado, mas da nossa porta ao lado, indispensáveis e parte da nossa pele.
e chegou a altura de falar de Isa. o expoente de uma liberdade que não se deseja. o retrato de uma tempestade que é ainda uma criança. um miúdo, americano, adoptado para permitir o perdão e a paz. o Isa substitui a religião tornando-se para esta família o verdadeiro acto de fé. e que como todas as fés não pode existir em paz, nem em consenso, nem em harmonia. e ao ser a fé de uns é a heresia de outros. é uma guerra que traz Isa, sobretudo dentro do espaço que ele terá de ocupar, vivendo no seu corpo as incoerências, desesperos e paixões de uma religião.
escarlatina escarlatina escarlatina
é a oração de Isa. capaz de muito mais do que eu alguma vez consegui com os meus tipos de fé.
no dia do lançamento o afonso disse uma coisa que tenho andado por aí a repetir e a pensar e a escrever. que no universo há muitos sítios para algo estar desarrumado e apenas um para se estar arrumado o que complica o encontrar onde estar no sítio certo.
e aqui entre nós afonso, eu tu e aqueles que já leram o livro, a forma como descreves o sítio onde o Isa encontrou o seu lugar para estar arrumado é dos momentos mais perfeitos que eu já vi em tantos livros que já li. no precipitar de uma tragédia há finalmente a paz. não a paz que podíamos esperar, de todo. a paz da escarlatina. e é de uma beleza absolutamente estonteante. e o livro parou no sítio certo. ali, no sítio certo de Isa, à beira de um abismo que impossibilitaste de existir. ficou o Isa encaixado e nós na pele com a sensação da quase queda quando tudo o que ainda se vê é só o céu. mesmo antes da queda, a que nunca existe, porque o livro chegou ao fim.
o afonso foge a muitas das categorias óbvias em que poderia já ter caído. um jovem escritor, talentoso, com boa figura e boa presença poderia, facilmente, cair nas teias da crítica fácil ávida de uma palavra errada, um pé colocado ao lado por estes novos escritores, para criarem um monstro.
não conseguem porque o afonso não põe o pé ao lado e nem faz esforço por não o fazer. é autêntico, no que a palavra tem de melhor. está ali, escreve, vive, marca presença e fala. e fala bem, e tem as palavras não ensaiadas nas alturas mais improváveis e funcionam sempre.
digo estas coisas do afonso porque acho que isto que digo tem ligação com o novo romance dele, para onde vão os guarda-chuvas.
o que quero falar hoje aqui é a forma como o afonso viaja. o livro é uma viagem plena. uma viagem inteira. uma viagem ao paquistão sem nunca se referir o país. uma viagem à intolerância que se deixa esmagar pelo amor sem que isso nunca se veja em lado nenhum. é um livro sobre o amor. sem cliché nenhum. sem cliché nenhum, repito, antes que desistam já aqui deste texto.
é um livro sobre o amor.
sobre o amor. e é difícil falar do amor num planeta onde os livros falam todos sobre o amor mesmo quando o amor não interessa nada. mas aqui interessa. fala do amor absolutamente improvável. em todo o lado. fala do que se parte e do que parte com a morte, em primeiro plano. e fala do amor que se conquista que nem sempre é o que se precisa. e do amor que é criminoso porque não entende as barreiras do que deve ser aceite e indestrutível.
e é uma viagem pela religião. quem me conhece sabe que tenho um grande fascínio pelo estudo das religiões, com uma considerável distância. aqui tenho de parar num episódio que li muitas vezes, que repeti incansavelmente até entender o peso que teve no que estava a ler e no que seria aquela história a partir dali. a certa altura conta-se a história de alguém a quem o pai obriga a ler a Bíblia e que, não querendo lê-la, lê e decora passagens de outros livros. Elahi apanha uma parte da Alice no País das Maravilhas pensando que é da Bíblia e interpreta-o à luz da fé católica com algum encanto e com o encontro de Deus. daquele Deus. o livro é isto. é sempre isto. uma interpretação de uma religião que é uma forma de agir que é uma forma de não sofrer que é uma forma de amar.
o afonso atingiu aqui um ponto profundo da escrita dele. como se descansasse de desenhar a escrita e a tornasse visceral. descreve personagens banais transformando-as nas pessoas da porta ao lado, mas da nossa porta ao lado, indispensáveis e parte da nossa pele.
e chegou a altura de falar de Isa. o expoente de uma liberdade que não se deseja. o retrato de uma tempestade que é ainda uma criança. um miúdo, americano, adoptado para permitir o perdão e a paz. o Isa substitui a religião tornando-se para esta família o verdadeiro acto de fé. e que como todas as fés não pode existir em paz, nem em consenso, nem em harmonia. e ao ser a fé de uns é a heresia de outros. é uma guerra que traz Isa, sobretudo dentro do espaço que ele terá de ocupar, vivendo no seu corpo as incoerências, desesperos e paixões de uma religião.
escarlatina escarlatina escarlatina
é a oração de Isa. capaz de muito mais do que eu alguma vez consegui com os meus tipos de fé.
no dia do lançamento o afonso disse uma coisa que tenho andado por aí a repetir e a pensar e a escrever. que no universo há muitos sítios para algo estar desarrumado e apenas um para se estar arrumado o que complica o encontrar onde estar no sítio certo.
e aqui entre nós afonso, eu tu e aqueles que já leram o livro, a forma como descreves o sítio onde o Isa encontrou o seu lugar para estar arrumado é dos momentos mais perfeitos que eu já vi em tantos livros que já li. no precipitar de uma tragédia há finalmente a paz. não a paz que podíamos esperar, de todo. a paz da escarlatina. e é de uma beleza absolutamente estonteante. e o livro parou no sítio certo. ali, no sítio certo de Isa, à beira de um abismo que impossibilitaste de existir. ficou o Isa encaixado e nós na pele com a sensação da quase queda quando tudo o que ainda se vê é só o céu. mesmo antes da queda, a que nunca existe, porque o livro chegou ao fim.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
palavra do dia
desarmado
desprotegido do que não protege, só limita
destruir palavras acessórias e tóxicas
melhor que armado
Significado de Desarmado
desprotegido do que não protege, só limita
destruir palavras acessórias e tóxicas
melhor que armado
Significado de Desarmado
adj. Desprovido de armas: um militar desarmado.
Militar. Que não possui armamento: uma nação desarmada.
Marinha. Desprovido de munição etc; que não está apto para navegar: embarcação desarmada.
Figurado. Sem defesa, desprevenido: ele apanhou muito porque estava desarmado.
Figurado. Sujeito necessitado ou desprovido de algo: sujeito desarmado de determinação.
Sem adornos ou enfeites.
Zoologia. Que não possui maneira para se defender ou que não possui chifres, garras etc.
(Etm. Part. de desarmar)
Militar. Que não possui armamento: uma nação desarmada.
Marinha. Desprovido de munição etc; que não está apto para navegar: embarcação desarmada.
Figurado. Sem defesa, desprevenido: ele apanhou muito porque estava desarmado.
Figurado. Sujeito necessitado ou desprovido de algo: sujeito desarmado de determinação.
Sem adornos ou enfeites.
Zoologia. Que não possui maneira para se defender ou que não possui chifres, garras etc.
(Etm. Part. de desarmar)
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