sexta-feira, 4 de abril de 2014

vamos perdendo os nossos malditos



Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos.
Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara
à que se leu primeiro.

Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas,
e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam, a senti-las latejar como um animal magnífico,
alheio a interpretações domésticas.

Sei que se estender a mão o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto,
onde as letras são ainda verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta,
uma ave suicida, um eco sem som.

                                                                 *

Também conheço um poeta exilado num condomínio de metáforas. Rodeou-se de palavras
que cultica em cadernos e guardanapos de papel, com a dedicação e a paciência de um
jardineiro cego.

Ninguém se atreve a dizer-lhe que nem as piteiras sobrevivem na aridez desse jardim meticulosamente
escrito, onde passa horas infindáveis a podar o vazio e a regar o silêncio que brota
das suas páginas inéditas.

E, no dia em que morrer, uma duna será tudo o que restará da sua obra, que o vento
e o tempo se encarregarão de aliviar do jugo das metáforas.

                                                             *

E conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música 
que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto 
leio o que escrevi.

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio,
esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto,
à espera que chovesse.

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar até nem existe, ou
não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.

Jorge Fallorca

quarta-feira, 2 de abril de 2014

buenos aires, a cidade capital da palavra

fui a Buenos Aires há três anos atrás. apanhei o avião, sozinha, para ir comprar livros. do avião, ao chegar, vi a cidade de cima, à noite. gigante e luminosa. tinha imaginado tanto o queria fazer que tinha o mapa de cor debaixo dos olhos. identifiquei, pensei eu, o meu hotel do avião.
no entanto fui rapidamente engolida pela cidade. no meu silêncio e nas ruas tumultuosas encontrei uma cidade que não quer fascinar nem encher as medidas de ninguém. uma cidade que existe, com alguma arrogância e uma absoluta descontracção. vive-se (em) Buenos Aires irreflectidamente e de forma orgânica.

Ernesto Schoo escreveu, no final da sua vida, Mi Buenos Aires Querido. editado em Portugal pela Tinta da China, na cuidada colecção de Carlos Vaz Marques que tem a dupla função de reabilitar em bom o género da literatura de viagens, revelando a esse propósito livros que teriam um espaço limitado noutras vias na edição portuguesa. para completar o bom gosto desta edição somos presenteados por um pequeno prefácio de Carlos Quevedo, onde dá a entender que Buenos Aires é uma cidade subjectiva, em sintonia com o que Schoo conclui no último capítulo do livro. Buenos Aires não é bela, original, turística, doce ou confortável. é um animal. que é selvagem ao mesmo tempo que consegue ser leal. é aqui que vos digo que é diferente ler Schoo tendo ido ou não a Buenos Aires. eu fui e não sei ler de outra forma. eu também tenho a minha cidade desconhecida e irreverente, se bem que a de Schoo foi vivida ao longo de mais de 80 anos e a minha em dez dias. é outra cidade também por isso.


Schoo conta aqui uma Buenos Aires. não tem apenas um ponto de vista não apenas na ideia que espelha da cidade mas também na forma como escreve. Schoo é um escritor argentino e não surpreende ao quebrar a forma que julgamos entender no início do livro. num ritmo cadenciado de pequenos textos aparentemente equilibrados, Schoo quebra a cadência pelo conteúdo do espaço de intenção que a cidade ocupa em cada um deles. o que aparentemente é equilibrado é na verdade absolutamente único, capítulo a capítulo. como é também recorrente na literatura argentina não é perceptível quando estamos perante a verdadeira ficção ou marcas biográficas - uma clara herança / convívio com Borges - o que aliás, como sempre, pouco interessa. interessa apenas por nos deixar suspensos de um texto tão pessoal que vamos balançando do real para o ficcionado ao nosso bel prazer tornando-nos assim parte da própria narrativa.
este é, assim, desde já, um livro obrigatório para quem conta atravessar o Oceano para visitar a terra dos escritores. só se pode conhecer Buenos Aires conhecendo cada uma das cidades que existe em cada viajante e em cada portenho. esta é uma das Buenos Aires portenha. só tem um ponto negativo - agora queria ler mais Schoo e vai ser um 31 para o encontrar. se calhar terei de regressar a Buenos Aires.


eu, ao contrário de Quevedo, referi Borges. shame on me...

segunda-feira, 31 de março de 2014

cesariny & vian

as obsessões têm algumas vantagens. espalhamos pelos amigos e conhecidos, por blogs e redes sociais que estamos a trabalhar determinado autor. vivemos aquilo com bastante convicção. por isso, em Setúbal, no início do Encontro Livreiro, aparece um amigo que me traz estes dois livros que tinha encontrado em alfarrabistas. são duas pérolas. do Cesariny são cartas que trocou com o Cândido Franco sobre temas variados, ricos e múltiplos, no final do séc. passado. o outro uma edição francesa dos anos 60 de um livro fundamental na obra de Boris Vian. 

uma pequena referência para a doce introdução que Cândido Franco faz ao livro, referindo como por vezes há edições que fazemos de amigos para que o diálogo não tenha de terminar.


só agora?

pois é, já estamos no facebook.
por isso caros amigos e leitores toca a divulgar e gostar.
clicar e partilhar aqui.

e ensinar-me a pôr ali à esquerda aquela ligação directa ao "gosto" do facebook. muito agradecida.



https://www.facebook.com/estoriascomlivros

sexta-feira, 28 de março de 2014

o que por palavras nos está oculto,
no silêncio crepita
em intimidade

José Tolentino Mendonça

não ando desaparecida

ando só em reboot.
li coisas que escrevi neste blog em 2009 e ainda não consegui recuperar do choque. estes dois últimos anos e estes dois últimos meses foram uma bomba atómica. sairei daqui melhor, espero eu. mais cínica, sarcástica. mordaz, exigente. e/mas melhor. ando a ler infinitamente e a pensar infinitamente e a beber copos infinitos de vinho tinto. ando a recomeçar na poesia. ando por aqui, alerta e desperta e em reciclagem.
até já.

terça-feira, 25 de março de 2014

V ENCONTRO LIVREIRO é já no Domingo

A maior forma de resistência é ainda a palavra. Todos os anos, em Setúbal, reunimo-nos para falar do que implica o livro, a leitura e as livrarias. Em cada ano que passa o encontro torna-se mais necessário e multiplicam-se as ideias, as revoltas, a certeza de que o moscatel e a amizade ajudam a tirar algumas conclusões. Este foi o ano em que se falou de livrarias independentes.O mais importante e que tornou este ano particular no que se relaciona com este tema foi percebermos que se começou a falar de livrarias independentes com pessoas que nunca sequer tinham pensado no tema. Colocaram-se a todas as pessoas questões que nunca antes tinham sido colocadas, tornando claro que a deslealdade da concorrência perturba quem detém o negócio mas também o consumidor final. É altura assim de o Encontro Livreiro pensar estas questões e encontrar uma forma de manter dinâmico este diálogo. Neste V Encontro vamos tentar saber como podemos continuar a justificar a necessidade de manter livrarias independentes não apenas através do discurso sentimental (tão válido quanto fundamental, não nos entendam mal) mas através da prova clara que o fim das livrarias independentes bem como a asfixia cultural por que atravessamos não torna este país um país sustentável e possível.



V ENCONTRO LIVREIRO
30 de Março, 15h30
Culsete, em Setúbal

toda a informação


quinta-feira, 20 de março de 2014

hoje borisviana-se

"Je veux une vie en forme d'arête" / "quero uma vida em forma de espinha". vida e humor em Boris Vian . leitura encenada 

20 de Março
18h30
Pó dos Livros



pensei a primeira vez este espectáculo do Boris Vian em 2012 quando se tornou difícil a saudade do palco (já lá vão uns anos). desde aí li descontraidamente todos os livros dele e pensei o que seria isto. há um mês a Isabel da bela Pó dos Livros desafiou-me a apresentar isto a 20 de Março a convite do Instituto Franco-Português. disse sim baixinho e alto que ia pensar. tive um mês, mês em que entrei numa obsessiva e total vivência em Boris Vian. não tinha nada escrito em dois anos, só muito lido e vivido. num mês vivi, li, pensei Boris Vian. imaginei como seria, desisti algumas vezes, tive insónias e, sobretudo, fui absolutamente feliz este mês. até hoje, que acordei a dizer o guião e percebi que não sabia a terceira palavra.
decidi que faria o Boris sozinha porque tinha pouco tempo. mas depois de cada vez que parecia impossível levar isto à frente com alguma credibilidade iam-se juntando pessoas. o meu querido irmão juntou-se a criar com um amigo que nem me conhece um inteiro cenário feito de luzes transformando a sala da Pó dos Livros num verdadeiro cenário teatral. O Manuel Cintra juntou-se com a voz a cantar as músicas que o Boris fez no final da vida. O Leandro trouxe corpo ao espectáculo, criou uma personagem, gravou a voz do Boris Vian, ajudou-me a ver nisto um espectáculo coerente. Depois a Ana ofereceu-se para tirar fotografias, a Andreia emprestou a roupa, a Ana encontrou uma maquilhadora / cabeleireira de época. por último o João veio ontem em meu auxílio quando a um dia do espectáculo fiquei sem ajuda no som (lido mal com imprevistos). seja como for é a pessoa certa porque na vida já fizemos muitas coisas de improviso e em bom (também éramos mais novos... ). e a minha mãe que aturou algum mau humor e cansaço, que me deixou assaltar-lhe a casa e fez jantar para quando eu nem tinha tempo para comer. e claro, um grande obrigada aos meus amigos e seguidores do facebook e do blog e da vida que aturaram uma obsessão insuportável. pronto, já acabou o desassossego.
uma última palavra para a minha livraria de Lisboa e do mundo, a Pó dos Livros que nem pestanejou quando invadimos a livraria com o que inicialmente ia ser uma leitura e que já é um palco inteiro. não há disparate nenhum a que me torçam o nariz.
isto para dizer que hoje sobe ao palco "Je veux une vie en forme de arrête" onde vos vou contar como Boris conseguiu, sim, ter uma vida em forma de espinha. nada linear e rica como poucas, em apenas 39 anos. nesse palco não haverá espaço para todos os que fazem parte disto.
faço já os agradecimentos porque se correr mal estarei numa gruta durante duas semanas, se correr bem estarei na praia sem me mexer, em silêncio, a apanhar sol, com pequenos intervalos para ler uns livros que não sejam Boris Vian.
até já meus caros! vamos borisvianar.

segunda-feira, 17 de março de 2014

ciclo de cinema PARA ACABAR DE VEZ COM A LEITURA

O  PARA ACABAR DE VEZ COM A LEITURA regressa com um ciclo de cinema em parceria com a Salamandra Dourada, na Ameixoeira. Ameixoeira que parece longe mas é na linha amarela do metro logo depois do Lumiar, nada mais fácil.
A ideia é fazer um ciclo de filmes relacionados com a literatura com toda a abertura que isso permite. Filmes documentais sobre escritores, filmes relacionados com temáticas vizinhas ou irmãs da literatura. Preferíamos, e apenas para não abrir o leque à exaustão, que não fossem filmes adaptados de livros a não ser que a temática o justifique. Depois, no dia em que víssemos o filme, haveria um evento (e aqui o leque é infinito) relacionado com algumas das linhas do filme.

E já temos primeiro filme!   




Autografia
(sobre Mário Cesariny)
de Miguel Gonçalves Mendes

domingo, 23 de Março
17h30

com leitura de poemas surrealistas

evento facebook

quinta-feira, 13 de março de 2014

"Je veux une vie en forme d'arête" / "quero uma vida em forma de espinha". vida e humor em Boris Vian . leitura encenada

20 de Março
18h30
Pó dos Livros
 
texto, interpretação e cenografia
rosa azevedo
música / voz
manuel cintra
luz
hugo azevedo
apoio
leandro morgado

fotografia
ana gabriela pereira





evento facebook
 

ao evento junta-se o multifacetado artista Manuel Cintra na música, a cantar de forma irrepetível o Boris Vian, o querido irmão Hugo Azevedo no desenho de luzes (que faz a cenografia toda) e combate ao pessimismo e a celebridade irreverente e paciente e possivelmente maior artista da história de palco deste país Leandro Morgado na ajuda preciosa a uma cenografia que, sem ele, seria de fazer corar irregulares pedras da calçada. por fim mas não em último a doce Ana Gabriela Pereira que se oferece para fazer fotos como quem não quer a coisa e já é a fotógrafa do evento. é de amigo pá! assim, pronto, talvez corra bem. uff

A vida de Boris Vian conta entre as suas obras mais conseguidas. As suas realizações são múltiplas e variadas. Viveu apenas 39 anos mas deixou-nos uma plural e densa produção literária, com peças de teatro, romances, poemas, letras de músicas, crónicas. Parece que na verdade atravessou diversas existências e não apenas uma. Vive com a presença da doença mas em vez de se transformar numa pessoa amarga pega nessa presença e transforma-a através da imaginação e da leveza. A própria vida é uma obra de arte. Tornou-se um exemplo para muitos de alguém vivo, activo, dinâmico e imaginativo. E sempre muito jovem. Rejeita o mundo do trabalho funcional e sofre com o amor, alterna questões sobre a existência com questões aparentemente leves. Manteve-se sempre simples e humilde, sem arrogância ou superioridade, era muito admirado por todos. Estava sempre bem disposto. Era luminoso e transparente. Não era um santo, longe disso, mas era uma pessoa deliciosa. Foi muito mal recebido no seu tempo, estava muitos anos à frente dos seus contemporâneos. É um verdadeiro desafio ao pensamento cartesiano categorizado, e a sua atiude era de constante sabotagem do que é sério. Teve dezenas de actividades mas levou-as todas ao fundo, não fez nada pela metade. Morreu em 1959 e teve de esperar pelo Maio de 68 para começar a ser lido e verdadeiramente apreciado.
Continua a ser um escritor marginal e desconhecido enquanto personagem, envolto em histórias e lendas. Boris Vian viveu 39 anos uma vida completa e intensa.






segunda-feira, 10 de março de 2014

colóquios e colóquios

 no fundo acho isto só maçador. fazem-se colóquios atrás de colóquios e sobe ao palanque alguém que diz, e passo a citar o Público: "'demonstrou que os poemas de O Guardador de Rebanhos foram escritos entre 4 de Março e 10 de Maio de 1914' e que não há nenhuma indicação, nos manuscritos, de que algum poema tenha sido escrito no dia 8 de Março." e depois mais umas provas científicas de que eles têm razão ao ter descoberto a pólvora.
o que nos falta é algum misticismo e romantismo. qualquer pessoa que conheça minimamente a obra do Pessoa sabe que este dia triunfal não é verdadeiro. ou que a probabilidade de ser não era muito grande. ou que na verdade essa "verdade" com mofo pouco interessa. não descobriram a pólvora, senhores académicos, com as vossas irrefutáveis provas científicas. deixem-se de colóquios e centrem-se nos textos. leiam e entendam, falem e dialoguem, mas por favor, deixem lá o Pessoa e as suas aldrabices em paz. é exactamente esse o lado dele que tanto gostam e que o fez ser quem é.
haja paciência para tanta sapiência.



vejam a notícia do Publico aqui.

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...