quinta-feira, 10 de abril de 2014

livros censurados

o Jornal Público está a fazer sair com a sua edição de 5ª feira livros proibidos pela censura na 1ª edição, em edição fac-similada e com o relatório da censura. hoje o belo Gaibéus de Alves Redol.

A colecção completa.




terça-feira, 8 de abril de 2014

a resistência da Alexandra Lucas Coelho

Este país não é o mesmo país deste governo e deste Presidente da República, diz Alexandra Lucas Coelho no discurso que proferiu por ocasião da entrega do prémio da APE. "Este livro é político, como todos os que fiz, como tudo o que faço, pelo simples facto de me pôr em relação com outros. Estar aqui hoje é político, falar em público é político. Onde há um colectivo há política." Nem mais, e este discurso é um discurso de resistência.

"Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso."

vale a pena ler tudo, tudo. é importante ouvirmos todos o que ela tem a dizer. grande Alexandra.



Quero agradecer em primeiro lugar à equipa da Tinta da China, minha casa, Bárbara Bulhosa, Inês Hugon, Vera Tavares, Madalena Alfaia, Rute Dias, Pedro Serpa.
Agradeço em seguida ao júri que atribuiu este prémio: Manuel Gusmão, Luís Mourão, Clara Rocha, Ana Marques Gastão e Isabel Cristina Rodrigues, a quem coube hoje ser porta-voz, com uma apresentação cuidada e surpreendente de E a Noite Roda. Não conheço pessoalmente a maioria dos jurados. Ter-me ei cruzado um par de vezes com Ana Marques Gastão e entrevistei há uns 13 anos Manuel Gusmão. Sendo uma honra a decisão deste júri, a presença nele de um poeta que tanto admiro, e trago comigo, é uma alegria. Isto, para usar a palavra que mais associo a Manuel Gusmão, num daqueles versos que se tornam língua geral, lugar-comum a todos, contra todas as evidências em contrário.
Não chega dizer que foi uma surpresa a atribuição do prémio. Começou por ser uma grande surpresa a nomeação, que aconteceu pouco depois de outra: para o prémio do PEN. E a Noite Roda não tinha sido dos meus livros mais bem recebidos pela crítica, nem mais vendidos. Passara um ano e meio sobre a publicação, já nem se encontrava nas livrarias. Eu estava ocupada com a saída de um novo livro, Vai Brasil, e a organizar-me para retomar a escrita de um novo romance, situado no Rio de Janeiro. Se a nomeação para o PEN já me espantara, a do APE pareceu-me quase inverosímil. Para mais, o naipe de finalistas era não menos que excelente: um dos grandes prosadores da língua portuguesa, Mário de Carvalho; dois autores próximos da minha geração que sigo com respeito, Patrícia Portela e Afonso Cruz; e um poeta, dramaturgo e novelista que é dos meus mais queridos amigos, Jaime Rocha. Fico muito contente por ele estar aqui hoje. Fosse eu a decidir, o prémio seria dele, e da sua novela A Rapariga Sem Carne. Foi isso que senti ao saber da nomeação.
Semanas depois, estava eu sentada no carro da minha editora, Bárbara Bulhosa, quando me ligam da APE a anunciar a decisão do júri. Pânico, seguido de alerta: está a brincar comigo, certo?, perguntei ao cavalheiro do outro lado da linha, que se apresentara como José Correia Tavares, presidente do júri sem direito a voto. Ele assegurava que não e dava detalhes, que o júri se reunira três vezes, que a decisão fora por unanimidade, e por aí fora até que eu já não estava a ouvir porque só pensava que aquilo não podia ser a sério. E nos momentos em que acreditava que era, voltava o pânico: aquilo não me podia estar a acontecer. Como assim o prémio APE para este romance: um primeiro romance e este romance?
Antes que eu começasse a explicar ao interlocutor que estava enganado, a Bárbara decidiu intervir, dando-me ordens em surdina: que aceitasse, que agradecesse, muito obrigada. E subimos para um consultório, que era ao que íamos, acabando com a paz da recepcionista, porta-dentro, porta-fora, mal começaram os telefonemas.
Recentemente, a Tinta da China fez uma edição de bolso de E a Noite Roda, de que gosto mais do que a primeira, como objecto. Gosto do tamanho, dos cantos redondos, da capa mole. É maneira, como dizem os brasileiros. Mas nem a folheei, custa-me olhar para o texto. Na Tinta da China, a Inês Hugon e a Madalena Alfaia, que com uma paciência oriental asseguram as revisões, sabem como por mim ficava a cortar provas até à décima, porque mal entrego o livro já não o posso ver, tudo me parece mal, as bengalas, os tiques, o excesso.
Sendo a minha primeira experiência de romance, sinto essa distância de hoje em relação ao texto de E a Noite Roda mais do que em relação a qualquer outro livro meu, talvez porque nos outros a linguagem esteja mais estabilizada num território com regras.
O que me interessa no romance não é o género, mas a ausência de género. Não é poesia e pode ser poesia, não é reportagem e pode ser reportagem, não é viagem e pode ser viagem, não é teatro, cinema, música, arquitectura, agricultura, cosmogonia, correspondência, folhetim, banda desenhada, arquivo, e pode ser tudo isso. Um romance é a liberdade em extensão. Um território de experimentação com um fôlego considerável, que ninguém conseguiu ainda circunscrever além disto: prosa, criativa, de extensão longa, escrita para ser lida.
Uso a palavra romance, não uso a palavra ficção. Tenho dito e repetido — porque a um jornalista que escreva romances pergunta-se isso continuamente — que o que distingue o jornalismo e a literatura não é um ser real e a outra ficção, mas sim um ser um campo sujeito a regras estabelecidas e a outra, idealmente, inventar as suas próprias regras.
Por isso, interessa-me pouco o debate sobre o que neste romance ainda é jornalismo ou já é romance, ainda é real ou já é ficção, como se houvesse uma espécie de grau de pureza, que é sempre o princípio de um pensamento autoritário. Ninguém ainda se tornou dono do que é, ou não chega a ser, um romance, e é por isso que continua a ser interessante fazer romances, e que cada um faça o seu. Na verdade, neste campo, quanto à criação, não há outro lema em que me reconheça tanto: que cada um faça a sua coisa. Faça o que tem a fazer, contra tudo, contra todos: crime e castigo, doença e cura, transmigração da alma ou biografia derradeira.
O que me levou a fazer este romance? O que o distinguia dos livros anteriores? A possibilidade de um território sem regras para o qual eu transportasse vários materiais biográficos: amorosos, políticos, sociais, profissionais. O texto agora entregue a si mesmo, inventando as suas regras, é que estabeleceria a transição para o romance. Um não-género fazendo uso de vários géneros, incluindo a reportagem.
Jerusalém era uma coisa minha, Gaza era uma coisa minha, a experiência de cobrir o conflito israelo-palestiniano era uma coisa minha, eu queria transportá-los para o campo literário porque me interessa transportar para o campo literário tudo o que a experiência tenha tornado coisa minha. Dito de outra forma, aquilo que é a identidade em movimento.
Não é diferente do que fará um médico que escreva romances (ou um arquitecto, um historiador de arte, um diplomata, um advogado, um professor, um burocrata), sempre com menos explicações do que as que são cobradas a um jornalista. Nunca começarei a entender porque se estranha que alguém cujo trabalho é escrever decida escrever outras coisas.
E a Noite Roda não é sequer o melhor romance que eu podia ter escrito entre 2010 e 2011, os meus últimos meses em Portugal e o meu primeiro ano no Brasil. Não foi, certamente, o que muita gente achava que eu devia ter feito. É apenas o que eu precisava de fazer naquele momento para sair do ponto em que estava. O importante não será fazer o melhor que sabemos, mas o que precisamos de fazer, mesmo não sabendo, para sair do nosso limite. Aquilo que nos desloca se estamos fixos, que nos fixa se estamos deslocados.
Recentemente, numa entrevista, perguntaram-me quem gostaria eu que escrevesse a minha biografia. É uma daquelas perguntas a que só podemos responder desabridamente. Respondi que esperava que as personagens tratassem do assunto e não sobrasse nada. Penso nisso como uma espécie de teia de Penélope em que o autor se vai construindo nos livros ao mesmo tempo que desaparece na vida.
Tudo o que faço é biografia, idealmente cada vez mais real, independentemente de as personagens tomarem as minhas circunstâncias, como acontece em E a Noite Roda, ou não tomarem de todo, como acontece no romance que estou a escrever. Ninguém pergunta a um poeta se o que está no poema é real ou ficção. Aquilo é o que é, é dentro da cabeça dele.
O que cada um vive é seu património inalienável, seu único real património, e é seu direito fazer disso o que quiser, na intersecção com os outros e o mundo, tendo como único limite, para mim, não devassar o património de um outro, de forma reconhecível publicamente.
De resto, o criador não deve conhecer limites e quanto mais escuro, mais difícil e mais indevassado melhor. Aquilo que não se pode escrever é o que há a escrever, é o que falta. Não estamos cá para nos repetirmos nem para nos pouparmos. Pouparmo-nos para quê? Não acredito na vida além da vida.
Sempre quis escrever, desde que me lembro. Os livros tinham todas as vidas. Passei a adolescência a ler romances. Lia os portugueses, os franceses, os ingleses, os russos, os alemães, mais tarde os americanos, os japoneses, os levantinos. O mundo não acabava, eu lia e queria sair pelo mundo. O jornalismo era a possibilidade disso, uma bela possibilidade quando eu tinha 17 anos e as rádios piratas explodiam, ainda nem havia TSF, nem PÚBLICO, nem telemóveis, nem computadores pessoais. A minha geração viveu essa promessa de aventura no trabalho, que hoje parece arqueológica.
Só fui ler poesia compulsivamente depois dos 20. E a poesia, como a rádio, mudou, moldou, a minha relação com a escrita. Questão de som, de ritmo, mas também de montagem, de elipse. Não que escrever poemas fosse a minha coisa, tentei, não era. Ler poemas, sim, seria parte do que eu tinha para escrever.
Sempre achei que seria uma questão de tempo começar a fazer livros, e acabei por publicar o primeiro aos 39 anos. Como seria uma questão de tempo o romance chegar. Não há abandono de uma coisa por outra, não deixei de ter na cabeça livros de viagem, reportagem ou crónica, entre os vários romances que quero fazer. É o jardim dos caminhos que se bifurcam, para citar um daqueles autores que sempre admirei à distância, porque Borges é de outra galáxia, de um mundo, digamos, não-carnal. Sou mais do lado Moby Dick, até ao trespassar da última carne, a do caçador. Moby Dick agora sem género, ou transgénero. Moby Dick-Orlando, homem e mulher, humano e animal, deus e demónio. Um Moby Dick antropofágico, depois de ter morado no Brasil.
Não me interessa a fuga, interessa-me o confronto, o embate, o arpão no corpo que sempre fugirá. Chamemos-lhe Moby Dick – ou amor – ou real. A vida verdadeira que é estar aqui a desejar além. A pulsão da guerra, qualquer espécie de guerra, é a sobrevida: vida conquistada à morte.
Nenhuma arte é panfleto, se é panfleto não era arte. Ao mesmo tempo, toda a arte é política, no sentido em que não existe sem um outro, que pode ser apenas um. O determinante não é que sejam muitos mas que exista uma relação. Que algo actue entre um e outro.
Este livro é político, como todos os que fiz, como tudo o que faço, pelo simples facto de me pôr em relação com outros. Estar aqui hoje é político, falar em público é político. Onde há um colectivo há política.
O meu feitio seria mais não estar, mas encaro isto como parte de um trabalho que aceitei fazer desde que comecei a publicar, por acreditar que podia, devia, contribuir para os livros chegarem a mais alguém, respeitando eu tanto quem se recusa a fazer isso como quem o faz, por razões que são de cada um e de mais ninguém.
A minha opção é política, digamos. Uma forma de participação, de agir além da militância partidária. A militância não é a minha coisa, ainda bem que é a coisa de pessoas que admiro, entre os quais conto amigos. A minha coisa é escrever, falar dos livros, conseguir fazer disso uma acção.
Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas” mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediente, como agora o governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu.
Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.
Entre as razões porque quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e do Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.
Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo. Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.
Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho porque só a perda é certa.
O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.
Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.
Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.
Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.
Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.
Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.
E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dívidas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.
Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.
Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.
Este romance também é sobre Gaza. Quando me falam no terrorismo palestiniano confundindo tudo, Al-Qaeda e Resistência pela nossa casa, pela terra dos nossos antepassados, pelo direito a estarmos vivos, eu pergunto o que faria se tivesse filhos e vivesse em 40 km por seis a dez de largura, e antes de mim os meus antecedentes, e depois mim os meus filhos, sem fim à vista. Partilhei com os meus amigos em Gaza bombardeamentos, faltas de água, de luz, de provisões, os pesadelos das meninas à noite. Depois de eu partir a vida deles continuou. E continua enquanto aqui estamos. Mais um dia roubado à morte.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

vamos perdendo os nossos malditos



Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos.
Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara
à que se leu primeiro.

Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas,
e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam, a senti-las latejar como um animal magnífico,
alheio a interpretações domésticas.

Sei que se estender a mão o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto,
onde as letras são ainda verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta,
uma ave suicida, um eco sem som.

                                                                 *

Também conheço um poeta exilado num condomínio de metáforas. Rodeou-se de palavras
que cultica em cadernos e guardanapos de papel, com a dedicação e a paciência de um
jardineiro cego.

Ninguém se atreve a dizer-lhe que nem as piteiras sobrevivem na aridez desse jardim meticulosamente
escrito, onde passa horas infindáveis a podar o vazio e a regar o silêncio que brota
das suas páginas inéditas.

E, no dia em que morrer, uma duna será tudo o que restará da sua obra, que o vento
e o tempo se encarregarão de aliviar do jugo das metáforas.

                                                             *

E conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música 
que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto 
leio o que escrevi.

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio,
esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto,
à espera que chovesse.

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar até nem existe, ou
não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.

Jorge Fallorca

quarta-feira, 2 de abril de 2014

buenos aires, a cidade capital da palavra

fui a Buenos Aires há três anos atrás. apanhei o avião, sozinha, para ir comprar livros. do avião, ao chegar, vi a cidade de cima, à noite. gigante e luminosa. tinha imaginado tanto o queria fazer que tinha o mapa de cor debaixo dos olhos. identifiquei, pensei eu, o meu hotel do avião.
no entanto fui rapidamente engolida pela cidade. no meu silêncio e nas ruas tumultuosas encontrei uma cidade que não quer fascinar nem encher as medidas de ninguém. uma cidade que existe, com alguma arrogância e uma absoluta descontracção. vive-se (em) Buenos Aires irreflectidamente e de forma orgânica.

Ernesto Schoo escreveu, no final da sua vida, Mi Buenos Aires Querido. editado em Portugal pela Tinta da China, na cuidada colecção de Carlos Vaz Marques que tem a dupla função de reabilitar em bom o género da literatura de viagens, revelando a esse propósito livros que teriam um espaço limitado noutras vias na edição portuguesa. para completar o bom gosto desta edição somos presenteados por um pequeno prefácio de Carlos Quevedo, onde dá a entender que Buenos Aires é uma cidade subjectiva, em sintonia com o que Schoo conclui no último capítulo do livro. Buenos Aires não é bela, original, turística, doce ou confortável. é um animal. que é selvagem ao mesmo tempo que consegue ser leal. é aqui que vos digo que é diferente ler Schoo tendo ido ou não a Buenos Aires. eu fui e não sei ler de outra forma. eu também tenho a minha cidade desconhecida e irreverente, se bem que a de Schoo foi vivida ao longo de mais de 80 anos e a minha em dez dias. é outra cidade também por isso.


Schoo conta aqui uma Buenos Aires. não tem apenas um ponto de vista não apenas na ideia que espelha da cidade mas também na forma como escreve. Schoo é um escritor argentino e não surpreende ao quebrar a forma que julgamos entender no início do livro. num ritmo cadenciado de pequenos textos aparentemente equilibrados, Schoo quebra a cadência pelo conteúdo do espaço de intenção que a cidade ocupa em cada um deles. o que aparentemente é equilibrado é na verdade absolutamente único, capítulo a capítulo. como é também recorrente na literatura argentina não é perceptível quando estamos perante a verdadeira ficção ou marcas biográficas - uma clara herança / convívio com Borges - o que aliás, como sempre, pouco interessa. interessa apenas por nos deixar suspensos de um texto tão pessoal que vamos balançando do real para o ficcionado ao nosso bel prazer tornando-nos assim parte da própria narrativa.
este é, assim, desde já, um livro obrigatório para quem conta atravessar o Oceano para visitar a terra dos escritores. só se pode conhecer Buenos Aires conhecendo cada uma das cidades que existe em cada viajante e em cada portenho. esta é uma das Buenos Aires portenha. só tem um ponto negativo - agora queria ler mais Schoo e vai ser um 31 para o encontrar. se calhar terei de regressar a Buenos Aires.


eu, ao contrário de Quevedo, referi Borges. shame on me...

segunda-feira, 31 de março de 2014

cesariny & vian

as obsessões têm algumas vantagens. espalhamos pelos amigos e conhecidos, por blogs e redes sociais que estamos a trabalhar determinado autor. vivemos aquilo com bastante convicção. por isso, em Setúbal, no início do Encontro Livreiro, aparece um amigo que me traz estes dois livros que tinha encontrado em alfarrabistas. são duas pérolas. do Cesariny são cartas que trocou com o Cândido Franco sobre temas variados, ricos e múltiplos, no final do séc. passado. o outro uma edição francesa dos anos 60 de um livro fundamental na obra de Boris Vian. 

uma pequena referência para a doce introdução que Cândido Franco faz ao livro, referindo como por vezes há edições que fazemos de amigos para que o diálogo não tenha de terminar.


só agora?

pois é, já estamos no facebook.
por isso caros amigos e leitores toca a divulgar e gostar.
clicar e partilhar aqui.

e ensinar-me a pôr ali à esquerda aquela ligação directa ao "gosto" do facebook. muito agradecida.



https://www.facebook.com/estoriascomlivros

sexta-feira, 28 de março de 2014

o que por palavras nos está oculto,
no silêncio crepita
em intimidade

José Tolentino Mendonça

não ando desaparecida

ando só em reboot.
li coisas que escrevi neste blog em 2009 e ainda não consegui recuperar do choque. estes dois últimos anos e estes dois últimos meses foram uma bomba atómica. sairei daqui melhor, espero eu. mais cínica, sarcástica. mordaz, exigente. e/mas melhor. ando a ler infinitamente e a pensar infinitamente e a beber copos infinitos de vinho tinto. ando a recomeçar na poesia. ando por aqui, alerta e desperta e em reciclagem.
até já.

terça-feira, 25 de março de 2014

V ENCONTRO LIVREIRO é já no Domingo

A maior forma de resistência é ainda a palavra. Todos os anos, em Setúbal, reunimo-nos para falar do que implica o livro, a leitura e as livrarias. Em cada ano que passa o encontro torna-se mais necessário e multiplicam-se as ideias, as revoltas, a certeza de que o moscatel e a amizade ajudam a tirar algumas conclusões. Este foi o ano em que se falou de livrarias independentes.O mais importante e que tornou este ano particular no que se relaciona com este tema foi percebermos que se começou a falar de livrarias independentes com pessoas que nunca sequer tinham pensado no tema. Colocaram-se a todas as pessoas questões que nunca antes tinham sido colocadas, tornando claro que a deslealdade da concorrência perturba quem detém o negócio mas também o consumidor final. É altura assim de o Encontro Livreiro pensar estas questões e encontrar uma forma de manter dinâmico este diálogo. Neste V Encontro vamos tentar saber como podemos continuar a justificar a necessidade de manter livrarias independentes não apenas através do discurso sentimental (tão válido quanto fundamental, não nos entendam mal) mas através da prova clara que o fim das livrarias independentes bem como a asfixia cultural por que atravessamos não torna este país um país sustentável e possível.



V ENCONTRO LIVREIRO
30 de Março, 15h30
Culsete, em Setúbal

toda a informação


quinta-feira, 20 de março de 2014

hoje borisviana-se

"Je veux une vie en forme d'arête" / "quero uma vida em forma de espinha". vida e humor em Boris Vian . leitura encenada 

20 de Março
18h30
Pó dos Livros



pensei a primeira vez este espectáculo do Boris Vian em 2012 quando se tornou difícil a saudade do palco (já lá vão uns anos). desde aí li descontraidamente todos os livros dele e pensei o que seria isto. há um mês a Isabel da bela Pó dos Livros desafiou-me a apresentar isto a 20 de Março a convite do Instituto Franco-Português. disse sim baixinho e alto que ia pensar. tive um mês, mês em que entrei numa obsessiva e total vivência em Boris Vian. não tinha nada escrito em dois anos, só muito lido e vivido. num mês vivi, li, pensei Boris Vian. imaginei como seria, desisti algumas vezes, tive insónias e, sobretudo, fui absolutamente feliz este mês. até hoje, que acordei a dizer o guião e percebi que não sabia a terceira palavra.
decidi que faria o Boris sozinha porque tinha pouco tempo. mas depois de cada vez que parecia impossível levar isto à frente com alguma credibilidade iam-se juntando pessoas. o meu querido irmão juntou-se a criar com um amigo que nem me conhece um inteiro cenário feito de luzes transformando a sala da Pó dos Livros num verdadeiro cenário teatral. O Manuel Cintra juntou-se com a voz a cantar as músicas que o Boris fez no final da vida. O Leandro trouxe corpo ao espectáculo, criou uma personagem, gravou a voz do Boris Vian, ajudou-me a ver nisto um espectáculo coerente. Depois a Ana ofereceu-se para tirar fotografias, a Andreia emprestou a roupa, a Ana encontrou uma maquilhadora / cabeleireira de época. por último o João veio ontem em meu auxílio quando a um dia do espectáculo fiquei sem ajuda no som (lido mal com imprevistos). seja como for é a pessoa certa porque na vida já fizemos muitas coisas de improviso e em bom (também éramos mais novos... ). e a minha mãe que aturou algum mau humor e cansaço, que me deixou assaltar-lhe a casa e fez jantar para quando eu nem tinha tempo para comer. e claro, um grande obrigada aos meus amigos e seguidores do facebook e do blog e da vida que aturaram uma obsessão insuportável. pronto, já acabou o desassossego.
uma última palavra para a minha livraria de Lisboa e do mundo, a Pó dos Livros que nem pestanejou quando invadimos a livraria com o que inicialmente ia ser uma leitura e que já é um palco inteiro. não há disparate nenhum a que me torçam o nariz.
isto para dizer que hoje sobe ao palco "Je veux une vie en forme de arrête" onde vos vou contar como Boris conseguiu, sim, ter uma vida em forma de espinha. nada linear e rica como poucas, em apenas 39 anos. nesse palco não haverá espaço para todos os que fazem parte disto.
faço já os agradecimentos porque se correr mal estarei numa gruta durante duas semanas, se correr bem estarei na praia sem me mexer, em silêncio, a apanhar sol, com pequenos intervalos para ler uns livros que não sejam Boris Vian.
até já meus caros! vamos borisvianar.

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...