estou há alguns dias com esta janela aberta a tentar escrever um texto sobre a minha escrita. não por timidez ou falta de coragem mas por me estar a aperceber que dentro deste blog eu não escrevo, eu "falo de". como se fosse uma parte apartada de mim, uma despersonalização - a que escreve e a que "fala de". isto leva-me a algumas reflexões que tentarei desenvolver neste post. a primeira é que para se "falar de" num blog é preciso escrever. a escrita tem muitas formas, assim como a leitura.
(lembro-me da última aula do meu último curso "se acham mesmo que a leitura é um bem em si próprio não leiam livros maus, leiam bulas de medicamentos")
depois de muito pensar nisto e questionar a minha posição com as minhas "manufacturas", o meu artesanato artístico, percebo que a relação não só não é pacífica como é verdadeiramente perturbadora. por um lado não gosto de nada que tenha escrito até hoje, seja na poesia, seja por aqui, seja por onde for, por outro sei mesmo que em muitas vezes não é apenas uma questão sensitiva, é mesmo falta de qualidade (aposto que o querido anónimo vai deixar neste post um comentário assez desagradável sobre a minha ecrita, não pode ver uma aberta, o rapaz).
diz-se muitas vezes, sabedoria popular, que quando deixamos de sofrer por algo que nunca mais acontece (uma qualquer transformação que me fizesse gostar do que escrevo, ou vá, se perder a cabeça com desejos, escrever mesmo bem) esse algo acontece em força. de repente, apenas nesta semana, tive a caixa de mensagens inundada por pessoas que me falavam deste blog. inesperadamente, porque ele existe há já alguns anos. não eram mensagens elogiosas, eram mensagens que mostravam que o meu objectivo estava a ser cumprido, eu estava realmente a comunicar as ideias que queria, as pessoas liam e percebiam, subscreviam, queriam falar mais sobre isso.
na mesma semana, numa leitura de poesia, uma pessoa leu em voz alta um poema meu publicado numa Nicotina. não só não me lembrava de ter publicado este texto como tive dificuldade, na primeira leitura, em reconhecer aquelas palavras. em relação à poesia a minha história é mais dolorosa. é-me impossível reler o que escrevi e sou de uma exigência sofrida com cada palavra que tento escrever. coloquei esse capítulo numa gaveta e decidi que ia ser leitora. que nunca mais ia conseguir escrever. gostei daquele texto, seja como for lembro-me bem do esforço que foi enviá-lo e das leituras que fiz e refiz à exaustão. as pessoas gostaram do poema, algumas sem saber que era meu (que as teias da amizade são mais fortes do que eu consigo intuir) e demorei uns dias a encaixar isto. ainda não encaixei e por isso resolvi fazer esta reflexão, aqui, neste blog que não fala nunca de mim, e que tão cedo não falará. eu gosto de ser leitora, é o meu espaço de conforto. gosto do silêncio em que me deixo muitos dias a imaginar um texto que vou escrever sobre um livro ou sobre um tema. gosto de revirar os livros que leio em vários ângulos. gosto deste quase anonimato do leitor.
deixo aqui o poema de que falei. é o primeiro poema meu publicado aqui (que escondi o blog onde estão os outros até acabar este meu processo, se é que vai acabar). não me é confortável publicar textos meus mas, afinal, este blog está cheio deles.
obrigada aos amigos que me pediram mais textos. ainda não vai ser já. mas com os vossos pedidos guardo estrelas que não são só até 5 e onde regresso cada vez que sentir que o que escrevo é digno de um livro da Chiado, com folhas e flores na capa.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
quarta-feira, 9 de julho de 2014
terça-feira, 1 de julho de 2014
Nicotina Zine #5 já nas mãos de quem a apanhar
este texto não serve ninguém. nem a nicotina precisa que se escreva sobre ela. aliás se a nicotina pudesse escolher mandava um apagão neste texto.
mas há uma só forma de se ser fanzineiro que é a rebelião própria de quem há muito sabe que não há desejo ou amor pela escrita de ninguém. ser fanzineiro é ser orgânico. ser nicotineiro também.
Pois afinal de contas a única inquietação que não se deve inibir, a única angústia que não prejudica a saúde mental dos outros, é a da nicotina, saudade justa, coisa sã. [PA]
pois então deixemo-nos de categorizações. a nicotina lança o seu número 5, ou melhor #5, com poetas e não só (não só?). com textos que nada têm a ver com qualquer verdade.
os estados de verdade nada tinham a ver com este desdobrar sem fim “se tu fosses dois mexicanos a dormir num camelo eras uma família de equilibristas chineses” [MN]
então se a questão não é a verdade é possível dizer que a Nicotina se afasta de conceitos grandes, Beleza, Grandeza, Verdade, Deus, Demónio, Impostos. é antes uma pequena transgressão de costas voltadas com a norma mas nada de confrontos directos com esta. estar de costas voltadas é uma transgressão diferente de estarmos contra algo. é como uma escrita ao contrário sem ter nenhum dos lados definidos e por definidos dizemos obrigatórios e por obrigatórios dizemos que vivem à margem de qualquer lei, de qualquer pessoa.
não te afeiçoes muito a cada lado porque estão ambos em mutação - dependem sempre do hemisfério de onde partes e da flutuação do manto de matéria fundidas debaixo dos pés [JA]
mas vale tudo? ou vale pensar tudo? é capaz de ser mais este o ponto de vista. podemos pensar em tudo, escrever como quisermos, escolher um dos lados em absoluta liberdade. já se sabe que os actos têm consequências. a procura do texto certo, a inevitável (será?) intervenção da razão. porque escrevem estes autores nesta fanzine então?
e o mais novo, com mão implacável, metia no fogo papéis dactiloscritos e manuscritos, fotografias de toda uma vida, os insubstituíveis inéditos, tudo ia parar à boca de fogo da salamandra. […] orgulhoso e cheio de vida, acercou-se da cama do velho e sussurrou-lhe ao ouvido:
morre cabrão!! [RD]
ser destes fanzineiros é fugir do fogo em comunidade (eu tinha / na ponta de um cigarro / a brasa incandescente que acendi / demasiado tarde [GM]). é pertencer a um espaço de escrita comum que não é na verdade nada do que em cima foi referido. é um espaço de diálogo onde se soube ser silêncio. e o equilíbrio raro de pessoas acompanhadas de um copo de vinho e um cigarro que queima lentamente. é uma fanzine mas não é uma fanzine qualquer, é uma Nicotina. Zine. uma fanzine sempre em estado de gestação, seja qual for a estação do ano.
cercano al abismo
unido por anguilas eléctricas
aquí el silêncio es un estruendo
talismán en gestación
árbol de otoño eterno
cruzado por gaviotas
que parten sin boleto de vuelta
[CG]
[CG] Cristian Garzaro
[GM] Gonçalo Mira
[JA] José Anjos
[MN] Marta Navarro
[PA] Paola d’Agostino
[RD] Rafael Dionísio
mas há uma só forma de se ser fanzineiro que é a rebelião própria de quem há muito sabe que não há desejo ou amor pela escrita de ninguém. ser fanzineiro é ser orgânico. ser nicotineiro também.
Pois afinal de contas a única inquietação que não se deve inibir, a única angústia que não prejudica a saúde mental dos outros, é a da nicotina, saudade justa, coisa sã. [PA]
pois então deixemo-nos de categorizações. a nicotina lança o seu número 5, ou melhor #5, com poetas e não só (não só?). com textos que nada têm a ver com qualquer verdade.
os estados de verdade nada tinham a ver com este desdobrar sem fim “se tu fosses dois mexicanos a dormir num camelo eras uma família de equilibristas chineses” [MN]
então se a questão não é a verdade é possível dizer que a Nicotina se afasta de conceitos grandes, Beleza, Grandeza, Verdade, Deus, Demónio, Impostos. é antes uma pequena transgressão de costas voltadas com a norma mas nada de confrontos directos com esta. estar de costas voltadas é uma transgressão diferente de estarmos contra algo. é como uma escrita ao contrário sem ter nenhum dos lados definidos e por definidos dizemos obrigatórios e por obrigatórios dizemos que vivem à margem de qualquer lei, de qualquer pessoa.
não te afeiçoes muito a cada lado porque estão ambos em mutação - dependem sempre do hemisfério de onde partes e da flutuação do manto de matéria fundidas debaixo dos pés [JA]
mas vale tudo? ou vale pensar tudo? é capaz de ser mais este o ponto de vista. podemos pensar em tudo, escrever como quisermos, escolher um dos lados em absoluta liberdade. já se sabe que os actos têm consequências. a procura do texto certo, a inevitável (será?) intervenção da razão. porque escrevem estes autores nesta fanzine então?
e o mais novo, com mão implacável, metia no fogo papéis dactiloscritos e manuscritos, fotografias de toda uma vida, os insubstituíveis inéditos, tudo ia parar à boca de fogo da salamandra. […] orgulhoso e cheio de vida, acercou-se da cama do velho e sussurrou-lhe ao ouvido:
morre cabrão!! [RD]
ser destes fanzineiros é fugir do fogo em comunidade (eu tinha / na ponta de um cigarro / a brasa incandescente que acendi / demasiado tarde [GM]). é pertencer a um espaço de escrita comum que não é na verdade nada do que em cima foi referido. é um espaço de diálogo onde se soube ser silêncio. e o equilíbrio raro de pessoas acompanhadas de um copo de vinho e um cigarro que queima lentamente. é uma fanzine mas não é uma fanzine qualquer, é uma Nicotina. Zine. uma fanzine sempre em estado de gestação, seja qual for a estação do ano.
cercano al abismo
unido por anguilas eléctricas
aquí el silêncio es un estruendo
talismán en gestación
árbol de otoño eterno
cruzado por gaviotas
que parten sin boleto de vuelta
[CG]
[CG] Cristian Garzaro
[GM] Gonçalo Mira
[JA] José Anjos
[MN] Marta Navarro
[PA] Paola d’Agostino
[RD] Rafael Dionísio
quarta-feira, 25 de junho de 2014
narrativa poética
é difícil falar de literatura. com a (boa) e plural transformação dos géneros literários tradicionais ficámos de mãos atadas. os hispano-americanos deram-nos a volta com a introdução do conto como género maior e vencedor. os hipsters introduziram a micro-narrativa que se mistura com a ficção mas que se liga ao pensamente e reflexão. os asiáticos chamam à poesia haiku. e porquê tantos nomes? já não há nomes estranhos e indefinidos há variações de nomes estabelecidos há mais de um século: micro-contos, micro-narrativas, poemas narrativos, narrativa poética, romance filosófico, poesia experimental. mas as categorias estão cá de finca-pé: poesia, ficção, ensaio. na ficção o conto, o romance, a novela (tão esquecida a novela, esse género tornado rei através da ana teresa pereira).
não existem em vão estas definições. existem para nos organizar o pensamento (e organizar o pensamento para quê e para quem?). hoje venho falar da definição de narrativa poética. a narrativa prende-se muitas vezes com a ficção se bem que não obrigatoriamente. pode ser ensaística ou auto-biográfica, esse meio caminho entre o ensaio e a ficção. a poesia é sempre difícil de definir, mas a definição mais imediata é com a forma. nada mais criminoso, claro. para mim a poesia define-se (incorrendo em dúvidas e desconfianças) pela posição do leitor perante um texto simbólico, mesmo que numa primeira leitura não pareça. e, em consequência, a narrativa que tem um forte pendor simbólico poderá ser considerado narrativa poética. ah, antigamente é que era fácil quando podíamos recorrer ao termo "lírico" já tão orgânico no nosso pensamento. já não podemos, aliás, é uma palavra a abolir do dicionário.
e pronto, este texto não serviu para nada, efectivamente, porque os estudos literários não deverão servir para dar respostas e sim fazer-nos pensar. preferia que cada leitor atento pegasse numa narrativa e me dissesse qual o seu ponto de equilíbrio entre narrativa e poesia, longe de conceitos esclerosados. afinal estamos no séc XXI, aquele que nasceu para ver uma literatura que não tem pontos de ligação, linhas de continuidade, num grande sofrimento com a angústia da influência. um leitor tem de saber equilibrar autonomia com história literária e fazer das suas leituras não uma leitura isolada e única - porque nada cresce do isolamento absoluto - mas antes uma leitura integrada e atenta. e a partir de agora que comece a discussão sobre narrativa poética.
e deixo um conselho, em caso de dúvida não consultar a wikipédia. assim como não devemos pesquisar doenças porque todas acabam com mortes lentas e dolorosas, também no caso dos géneros literários as consequências não são menos sangrentas. qualquer dúvida enviem-me um mail. eu tratarei de vos dizer que não vos posso ajudar e a pedir-vos para formularem vocês um olhar sobre a vossa própria interpretação do texto que acabaram de ler.
Poesia narrativa é uma forma de poesia que conta uma história1
, geralmente fazendo uso de vozes de um narrador bem como de
personagens; sendo toda escrita em verso. Os poemas que constituem esse
gênero podem ser longos ou curtos, em diversos metros. Inclue poesia épica, idílio, balada e poesia lírica.
não existem em vão estas definições. existem para nos organizar o pensamento (e organizar o pensamento para quê e para quem?). hoje venho falar da definição de narrativa poética. a narrativa prende-se muitas vezes com a ficção se bem que não obrigatoriamente. pode ser ensaística ou auto-biográfica, esse meio caminho entre o ensaio e a ficção. a poesia é sempre difícil de definir, mas a definição mais imediata é com a forma. nada mais criminoso, claro. para mim a poesia define-se (incorrendo em dúvidas e desconfianças) pela posição do leitor perante um texto simbólico, mesmo que numa primeira leitura não pareça. e, em consequência, a narrativa que tem um forte pendor simbólico poderá ser considerado narrativa poética. ah, antigamente é que era fácil quando podíamos recorrer ao termo "lírico" já tão orgânico no nosso pensamento. já não podemos, aliás, é uma palavra a abolir do dicionário.
e pronto, este texto não serviu para nada, efectivamente, porque os estudos literários não deverão servir para dar respostas e sim fazer-nos pensar. preferia que cada leitor atento pegasse numa narrativa e me dissesse qual o seu ponto de equilíbrio entre narrativa e poesia, longe de conceitos esclerosados. afinal estamos no séc XXI, aquele que nasceu para ver uma literatura que não tem pontos de ligação, linhas de continuidade, num grande sofrimento com a angústia da influência. um leitor tem de saber equilibrar autonomia com história literária e fazer das suas leituras não uma leitura isolada e única - porque nada cresce do isolamento absoluto - mas antes uma leitura integrada e atenta. e a partir de agora que comece a discussão sobre narrativa poética.
e deixo um conselho, em caso de dúvida não consultar a wikipédia. assim como não devemos pesquisar doenças porque todas acabam com mortes lentas e dolorosas, também no caso dos géneros literários as consequências não são menos sangrentas. qualquer dúvida enviem-me um mail. eu tratarei de vos dizer que não vos posso ajudar e a pedir-vos para formularem vocês um olhar sobre a vossa própria interpretação do texto que acabaram de ler.
Poesia narrativa
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
terça-feira, 17 de junho de 2014
do Fontelo e do gonçalo
anda por aí um poeta que é poeta há muito tempo. um poeta que luta com a sua própria poesia já há muito tempo. que a escreve muitas vezes, tanto a poesia como cada uma das palavras.
chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.
há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?
no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.
"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"
"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"
"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."
o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?
Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.
para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.
chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.
há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?
no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.
"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"
"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"
"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."
o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?
Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.
para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
as editoras emergentes e os seus autores
na área das humanidades e estudos literários e sociais (assim como em muitas outras áreas, mas avante) há sempre dois momentos que podem ser abordados e estudados: um primeiro sobre o qual já muito se disse e escreveu e um outro, contemporâneo, recente, que se vive agora, no presente, assistindo na primeira fila a mutações contextuais que por serem pensadas no presente têm formas de trabalho próprias e particulares.
na área da edição assistimos hoje a uma explosão de pequenas editoras que não visam o lucro, apenas a sustentabilidade da própria editora no sentido em que se consiga com a venda de livros financiar novas edições. assim, e não tendo o lucro como pano de fundo, estas editoras podem arriscar mais, fugir à visão comercial e à leitura imediata. de repente surgem novos autores com livros publicados. a área da poesia é a mais forte mas não é exclusiva. são editoras que têm no seu centro o autor que publicam pela sua qualidade e pertinência literária e não pelo seu potencial de venda.
durante o próximo ano vou tentar desenhar uma cartografia destas editoras e destes autores. quem são eles? o que pretendem? em que nome publicam / escrevem? quais são, se existem, perspectivas de futuro? vou tentar perceber o impacto que estas editoras estão a ter neste constante mercado em mutação, percebendo como um mercado que muitos acreditam ser cada vez mais comercial vive o surgir destas novas editoras que estão na outra ponta da linha. acredito que o impacto não seja menor e que, apesar disso, há ainda um desconhecimento deste fenómeno, desconhecimento esse que deve também ser combatido.
para isso proponho-me entrevistar os agentes desta mudança, numa primeira fase. depois promover um ciclo de debate e conversas em volta destas novas editoras / autores e por fim publicar conclusões e as entrevistas autorizadas e revistas pelos entrevistados. durante o ano serão promovidos vários eventos paralelos dentro desta área como feiras, conversas, leituras entre outros.
para isso peço a a colaboração de todos. por mais investigação que tenha feito até agora faltam sempre algumas editoras e autores à minha lista. se conhecerem alguém que se encaixe neste quadro, agradecia que me enviassem um email para rosa.b.azev@gmail.com com o nome e, se o puderem disponibilizar, contacto da editora ou autor. gostava que esta investigação fosse o mais alargada, plural e rica possível.
de resto é esperarem por novidades. aqui no blog vou colocar tudo na etiqueta "editoras independentes". aceitem, como sempre, o meu gigante e festivo obrigada!
na área da edição assistimos hoje a uma explosão de pequenas editoras que não visam o lucro, apenas a sustentabilidade da própria editora no sentido em que se consiga com a venda de livros financiar novas edições. assim, e não tendo o lucro como pano de fundo, estas editoras podem arriscar mais, fugir à visão comercial e à leitura imediata. de repente surgem novos autores com livros publicados. a área da poesia é a mais forte mas não é exclusiva. são editoras que têm no seu centro o autor que publicam pela sua qualidade e pertinência literária e não pelo seu potencial de venda.
durante o próximo ano vou tentar desenhar uma cartografia destas editoras e destes autores. quem são eles? o que pretendem? em que nome publicam / escrevem? quais são, se existem, perspectivas de futuro? vou tentar perceber o impacto que estas editoras estão a ter neste constante mercado em mutação, percebendo como um mercado que muitos acreditam ser cada vez mais comercial vive o surgir destas novas editoras que estão na outra ponta da linha. acredito que o impacto não seja menor e que, apesar disso, há ainda um desconhecimento deste fenómeno, desconhecimento esse que deve também ser combatido.
para isso proponho-me entrevistar os agentes desta mudança, numa primeira fase. depois promover um ciclo de debate e conversas em volta destas novas editoras / autores e por fim publicar conclusões e as entrevistas autorizadas e revistas pelos entrevistados. durante o ano serão promovidos vários eventos paralelos dentro desta área como feiras, conversas, leituras entre outros.
para isso peço a a colaboração de todos. por mais investigação que tenha feito até agora faltam sempre algumas editoras e autores à minha lista. se conhecerem alguém que se encaixe neste quadro, agradecia que me enviassem um email para rosa.b.azev@gmail.com com o nome e, se o puderem disponibilizar, contacto da editora ou autor. gostava que esta investigação fosse o mais alargada, plural e rica possível.
de resto é esperarem por novidades. aqui no blog vou colocar tudo na etiqueta "editoras independentes". aceitem, como sempre, o meu gigante e festivo obrigada!
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Curso de literatura portuguesa séc XX, por rosa azevedo
Este curso pretende debruçar-se sobre a literatura
portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista focando os
principais movimentos e alguns autores. É um curso que se direcciona
sobretudo a quem não é da área dos livros (ainda que todos os outros
sejam bem vindos), tentado dar uma visão alargada do que se passou por cá no séc. XX.
programa
1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3ª sessão
surrealismo
4ª sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
5ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o existencialismo
6ª sessão
nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras
17 de Junho a 3 de Julho de 2014 | Terça-feira e Quinta-feira, das 19h00 às 20h00
6 sessões
Frequência: 45€ + 23% IVA
Nº mínimo de alunos:5
EDGE ARTS | Arte Contemporânea
Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
Rua D. João V nº 24, 1.06, 1250-091 Lisboa | Portugal
[+351] 213 600 071 | [+351] 963 329 321
info@edge-arts.org
(com estacionamento subterrâneo)
para inscrições enviem mail para fperez@edge-arts.org e recebem a ficha de inscrição e todas as instruções
http://www.edge-arts.org/
www.estoriascomlivros.blog spot.com
programa
1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3ª sessão
surrealismo
4ª sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
5ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o existencialismo
6ª sessão
nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras
17 de Junho a 3 de Julho de 2014 | Terça-feira e Quinta-feira, das 19h00 às 20h00
6 sessões
Frequência: 45€ + 23% IVA
Nº mínimo de alunos:5
EDGE ARTS | Arte Contemporânea
Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
Rua D. João V nº 24, 1.06, 1250-091 Lisboa | Portugal
[+351] 213 600 071 | [+351] 963 329 321
info@edge-arts.org
(com estacionamento subterrâneo)
para inscrições enviem mail para fperez@edge-arts.org e recebem a ficha de inscrição e todas as instruções
http://www.edge-arts.org/
www.estoriascomlivros.blog
terça-feira, 20 de maio de 2014
SÚMULA
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Alquimia do verbo, de Arthur Rimbaud
Agora eu. A história de uma das minhas loucuras.
Há muito que afirmava claramente possuir todas as paisagens possíveis, e considerava pobres as grandes figuras da pintura e da poesia modernas.
Amava as pinturas tortas, debaixo de portas, cenários, telas de saltimbancos, ensinamentos, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, refrões monocórdicos, ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, viagens de grandes descobertas onde não existissem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião asfixiadas, revoluções de costumes, deslocar de raças e continentes: acreditava em todos os encantamentos.
Inventava a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Criava regras para a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, escolhia orgulhosamente um verbo poético, acessível, num ou noutro dia, mas para todos os sentidos. Reservava a mim a tradução.
Mas tudo era apenas um estudo. Escrevia silêncios, noites, decifrava o inexprimível. Fixava vertigens.
[até que um dia me ponha a escrever novamente, vou traduzindo os meus]
Há muito que afirmava claramente possuir todas as paisagens possíveis, e considerava pobres as grandes figuras da pintura e da poesia modernas.
Amava as pinturas tortas, debaixo de portas, cenários, telas de saltimbancos, ensinamentos, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, refrões monocórdicos, ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, viagens de grandes descobertas onde não existissem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião asfixiadas, revoluções de costumes, deslocar de raças e continentes: acreditava em todos os encantamentos.
Inventava a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Criava regras para a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, escolhia orgulhosamente um verbo poético, acessível, num ou noutro dia, mas para todos os sentidos. Reservava a mim a tradução.
Mas tudo era apenas um estudo. Escrevia silêncios, noites, decifrava o inexprimível. Fixava vertigens.
[até que um dia me ponha a escrever novamente, vou traduzindo os meus]
Para Acabar de Vez com a Leitura & Ozon
o nosso ciclo Para Acabar de Vez com a Leitura traz desta vez o
incrível filme de François Ozon "Dans la Maison", um filme sobre a
escrita e o perturbador poder da ficção. a entrada é livre, a linha de
metro é a amarela, estação Ameixoeira, os nossos anfitriões são a
Salamandra Dourada. tudo boas razões para um belo fim de tarde juntos,
neste próximo Domingo.
SALAMANDRA DOURADA
Casa da Árvore
18 de Maio
19h
entrada livre
Evento facebook
Claude Garcia, um jovem estudante de 16 anos, imiscui-se em casa de um colega de turma com intenção de observar a sua família e usá-la como inspiração para a sua escrita. Quando o ano lectivo se inicia, Germain, o professor de literatura francesa, percebe, através dos trabalhos que pede aos alunos, que aquele rapaz é possuidor de um dom raro. Apesar de introvertido e solitário, a sua personalidade cativa o professor, que considera que as obras literárias por ele criadas possuem uma força fora do comum, que vai muito além da sua idade ou maturidade. Porém, com o passar do tempo, os textos começam a revelar o seu lado "voyeurista" e perverso, com detalhes cada vez mais explícitos sobre a vida privada da família em questão. Dividido entre a decisão de o denunciar ou de o encorajar a continuar, o professor entra num perigoso jogo que porá em causa algo mais do que a sua carreira ou reputação.
SALAMANDRA DOURADA
Casa da Árvore
18 de Maio
19h
entrada livre
Evento facebook
Claude Garcia, um jovem estudante de 16 anos, imiscui-se em casa de um colega de turma com intenção de observar a sua família e usá-la como inspiração para a sua escrita. Quando o ano lectivo se inicia, Germain, o professor de literatura francesa, percebe, através dos trabalhos que pede aos alunos, que aquele rapaz é possuidor de um dom raro. Apesar de introvertido e solitário, a sua personalidade cativa o professor, que considera que as obras literárias por ele criadas possuem uma força fora do comum, que vai muito além da sua idade ou maturidade. Porém, com o passar do tempo, os textos começam a revelar o seu lado "voyeurista" e perverso, com detalhes cada vez mais explícitos sobre a vida privada da família em questão. Dividido entre a decisão de o denunciar ou de o encorajar a continuar, o professor entra num perigoso jogo que porá em causa algo mais do que a sua carreira ou reputação.
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