quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Valério Romão, um dos lados do triângulo

foi num fim de tarde que encontrei o Valério Romão, numa esplanada do nosso bairro. como não era uma pessoa desconhecida (em nenhuma frente) nem uma entrevista nada formal, o gravador começa a gravar a meio de uma frase e acaba por ser esquecido. falo demais, como costuma acontecer quando é um Valério que tenho à minha frente, e duas imperiais. não devia. anotar a falha.

escolhemos ser escritores quando queremos escrever. depois percebemos que queremos ser lidos e que publicar é uma urgência e uma necessidade orgânica e natural. que se encaixa na própria função de se ser escritor. o Valério é um escritor com uma consciência interna da sua própria função. opta por não se ver de fora, de forma exterior, a partir dos olhos dos outros. vive dentro do triângulo escritor - editor - leitor e preserva essa intimidade como a única que interessa. vê a sua independência não como uma bandeira ou manifesto mas como a única forma possível, depende apenas desse triângulo. para isso teve algumas “coincidências generosas” como lhes chama. João Paulo Cotrim, da Abysmo, recebeu das mãos de António Cabrita, amigo comum, a notícia do novo escritor. da coincidência generosa parte uma relação que encaixa não só no perfil do escritor como no perfil do editor. de uma relação profissional nasce uma confiança que equilibra bem e de forma funcional uma óbvia fórmula de sucesso.

não é por acaso que o triângulo funciona. um livro vive de um autor que o escreve para um leitor que o lê e passa por um editor que torna esta relação possível, não apenas como mensageiro mas parte activa do processo. se as três partes se respeitarem e entenderem mutuamente o resultado é positivo.

Valério Romão é hoje um escritor conhecido do público. não sabe bem em que altura se deu o passo que o levou a ser conhecido desta forma. o Valério não acredita em parte da sua popularidade. mantém-se escritor com as mesmas rotinas que tinha antes deste passo. admite no entanto que a Granta e a opção de Carlos Vaz Marques em arriscar a publicação de um escritor com uma obra tão curta e ainda tão desconhecida tiveram um papel decisivo. é público que Carlos Vaz Marques sabe o que faz. neste caso houve mais do que um casamento perfeito: o Carlos que dá o pontapé para que mais gente o leia, o João Paulo que publica os escritores novos em quem acredita intrinsecamente e o Valério que escreve bem, com convicção, sob o olhar atento de pessoas em quem confia como o António Cabrita.

é realmente difícil falar em angústia da influência no caso desta geração. faz parte da forma como eles se criaram enquanto escritores - acreditarem que a sua obra tem de ser única e original, assumindo, no caso do Valério, os ecos imensos de muitas leituras. as editoras pequenas que surgiram neste último ano trouxeram ao mercado editorial dezenas de novos escritores, dando-lhes importância e peso de forma desigual, é verdade, mas sempre confiando nessa mesma capacidade de serem únicos, autênticos e com inegável qualidade literária.

é visível a forma tranquila e honesta com que Valério vive a escrita. lima-lhe todas as arestas mas acredita que o seu conteúdo é orgânico. digo honesta porque o Valério se recusa a sair do triângulo que ele acredita ser o único possível para que um escritor não seja apenas um autor de um livro. o Valério é um escritor. com uma sensibilidade rara, um domínio seguro e claro da língua, os amigos certos, as escolhas certas e um editor que acreditou naquele primeiro livro com a convicção e confiança com que acredita já nos que ainda não estão escritos. o Valério é assim um caso de sucesso literário que só pode significar sucesso editorial. mas que no limite, podia só ser literário que o objectivo daqueles livros estava cumprido. e neste triângulo está o segredo, que não parte de opções por parte de cada um dos lados, e sim de generosas coincidências. e tenho a sensação que o futuro dirá que muitos belos frutos nos trará ainda esta generosidade.
- Não pode ser assim tão grave, não ler!
- É um escritor que mo diz? Vou-lhe explicar, meu caro: quando os homens desenvolvem estilos de sobrevivência na miséria crónica, sobrevém-lhes a necessidade de ajustarem a visão de si próprios à visão de um mundo sem perspectivas. É assim do seu interesse diminuir, o possível, o risco de ter uma alma. Em África fala-se imenso do combate à pobreza, à Sida, dos direitos humanos, mas isto não passa do modo como se camufla o desapego essencial: o homem putrefaz o homem. O único antídoto estava no símbolo, nessa metade de nós que só nos chega do exterior e que o intérprete consagra. Perdido o leitor perde-se a chave para o símbolo: a hospitalidade, a ideia grata de que só pelo outro, pela visita do mundo, existimos. Fica o mundo em liquidação.
[...]
- Bom, era uma pergunta de retórica. Mas começar por África, tão flagelada?
- Quem lhe disse que começou em África? Embora África esteja mais carenciada de ser restituída aos símbolos, porque aqui se delapida a vida deliberadamente. E há mais de três anos que ninguém lê Monsieur Teste, abaixo do equador...


António Cabrita
A Maldição de Ondina
Abysmo

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Primeira elegia

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio do espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue frente
ao coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um como o outro eles se ocultam de sua própria sorte, apenas.
Acaso não o saibas já? Lança de teus braços o vazio
em direcção aos espaços que respiramos; talvez que as aves
num voo mais íntimo sintam o ar assim expandido.
Sim, na verdade as Primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
aguardavam que nelas reparasses. Para ti
se erguia uma vaga no findo passado; ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino entregava-se-te. E tudo isso era para ti uma missão.
Mas soubeste cumpri-la? Não te distraía a contínua
expectativa, como se tudo te anunciasse
a Amada? (Como a poderias acolher em ti,
se grandes e estranhos pensamentos te invadem
ou abandonam ou em ti permanecem ao longo da noite?)
Se porém estás saudoso, canta as Amantes, cujo
celebrado sentir todavia está longe de ser imortalizado.
Canta, e como tu as invejas quase, as que foram abandonadas, cujo amor
te parece maior, do que o daquelas que o viram apaziguado. Não cesses
de recomeçar esse sempre insuficiente louvor;
e pensa: o herói dura sempre; até a sua queda mais não foi
do que o simples pretexto para o seu derradeiro nascimento.
Mas as Amantes são acolhidas de novo na esvaída natureza,
pois as forças que tudo isto produzem
não existem duas vezes. Terás tu cantado de Gaspara Stampa
já suficientemente a lembrança, para que a jovem mulher
a quem o amado deixou, possa sentir
pelo sublime exemplo de uma tal Amante: Ah, ser como ela!
Não será tempo de estas dores antiquíssimas se tornarem
finalmente fecundas? E não será tempo de nós,
os que amamos, nos libertarmos de quem amamos, como trémulos vencedores?
De sermos como a flecha que, vencendo o arco, se solta, toda ímpeto,
passando a ser mais do que ela própria? Pois em nenhum lugar se permanece imóvel.

Vozes, vozes. Ouve-as, ó meu coração, como outrora apenas
os santos as ouviam: de tal modo que o apelo imenso
os erguia do solo; contudo permaneciam ajoelhados,
inconcebivelmente, a isso destentos:
ouvir: era assim todo o seu estar. Mas tu não poderias sequer em ti escutar
a voz de Deus. Ouve, porém, o sopro, ininterrupta mensagem
que a ti chega, modelado no silêncio.
E agora ouves o murmúrio dos jovens que morreram.
Na verdade, onde quer que entrasses, fosse
em igrejas de Roma ou de Nápoles, não era o destino deles que no silêncio te interpelava?
Ou, então, uma inscrição sublime te impressionava,
como a da lápide que há pouco viste em Santa Maria Formosa.
Que esperam todos eles de mim? tenho de serenamente retirar-lhes
o véu de injustiça que por vezes perturba
o puro movimento dessas almas.

É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.
Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes dois domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno, tal como ao crescer
nos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto é tão frequentemente a fonte de feliz amadurecimento -: poderíamos sem eles existir?
Ou será vã a lenda de que foi outrora, ao prantear-se Lino,
que a primeira música ousou penetrar na aridez do espanto?
Então, apenas quando esse jovem, quase um deus, de súbito
no espaço do terror para sempre se ocultava, o vazio
atingiu por fim a vibração que agora nos arrebata, nos consola, nos ajuda.

Rainer Maria Rilke
in As Elegias de Duíno

cesariny sobre o valor do silêncio e da beleza da nudez

discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és a flor nem luto nem acalanto nem estrêla
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espêlho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral, rasgando-os os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

Mário Cesariny

manual de prestidigitação

leiam e multipliquem-se


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

a livraria que faltava às "minhas" editoras

está para acontecer uma coisa muito bela em Lisboa. uma livraria em bom, com bons livros e, o melhor de tudo, o livreiro mais inteligente e sexy do mundo todo. venham conhecer pessoalmente o Sr Teste e a beleza de livraria que é a dele, dia 6 de Setembro, às 14h.

o convite do Sr Teste


Caros Leitores,
A convite da Cossoul o Sr Teste passará a ser o livreiro de serviço na livraria da associação.
Coincidindo com as comemorações dos 129 anos da Associação Guilherme Cossoul, a abertura será dia 6 de setembro a partir das 14h até haver fôlego.
A livraria insere-se num espaço de sinergias composto por Restaurante/ Bar/ Café Concerto, Teatro, a Editora Artefacto e a estrear a Galeria Cossoul.
A cada dia postarei uma foto da vossa livraria em construção assim como das várias salas da Cossoul e cartaz da primeira exposição colectiva organizada pela vizinha de cima, Sara Rocio.
Contamos com a vossa presença para celebrar e partilhar este espaço criado para todos nós.
PS: Para instigar os Leitores atentos, as prateleiras estarão forradas a livros esgotados, raros, edições especiais e fundos/ novidades das mais especiais editoras a preços convidativos.

SIGC Santos
Av. D. Carlos I, n.º 61
Lisboa



domingo, 24 de agosto de 2014

o LEVA aceita textos propostos pelos autores

o LEVA entra agora numa nova fase e reformula o seu modus operandi, não modificando a sua missão e objectivo. Decidimos que agora é altura de gravar livros sem ser por encomenda aceitando sugestões de textos dadas pelos próprios autores, que nos cederiam os direitos, ou sugestões de editoras. Assim, quando as instituições ou clientes particulares nos contactassem, nós teríamos em carteira diversos textos para ceder, sem contrapartidas. Assim peço aos interessados que enviem as suas histórias (em papel ou gravadas, o que seria ainda melhor) para começarmos a fazer crescer o nosso volume de audio-livros.
no entanto é importante salientar que continuaremos a aceitar encomendas de potenciais clientes, foi e será sempre essa a nossa bandeira e objectivo principal, queremos apenas que mais audio-livros cheguem a quem precisa.

os contactos mantêm-se

rosa azevedo
leremvozalta@gmail.com
936 584 536
www.leremvozalta.org


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Gerador

anda por aí uma revista nova, a GERADOR. vi-a numa banca e comprei-a quase instintivamente. sim, é verdade que tenho sempre uma grande curiosidade com revistas, ando sempre a ver o que há de novo. e o cenário é triste e cinzento, com algumas raras e justas excepções.
a GERADOR pretende ser uma revista sobre a cultura portuguesa. o que quer que isso queira dizer. e como é difícil dizer o que isso quer dizer eles tentam dizê-lo. o que transforma esta revista num objecto sigular no tratamento dos conteúdos - por um lado explicam bem o que querem, por outro abrem o leque. e fazem-no com uma grande mestria. 
é nesta abertura que, a meu ver, está um ponto forte da revista e um ponto fraco das outras - há uma total clareza e diálogo com o leitor acerca dos processos necessários ao surgir da revista. por outro lado apresenta todos os colaboradores, contextualizando cada texto. pode parecer menor esta característica da revista mas não é, enquanto a lemos este torna-se talvez um dos seus pontos fortes, a informalidade e o constante diálogo entre a revista e nós, leitores.
a revista terá um tema todos os números e convidados de várias áreas da cultura portuguesa para o abordarem. em bom, claro, se bem que este número destila amor. o tema é declarações de amor e talvez seja excessiva a dedicação ao tema. mas enfim, é tão plural a arte de cada um que a revista fica um monumento. e, claro, quando se convida pessoas para escrever sobre um tema e os convidados não se leram uns aos outros é um risco, sim.
lê-se de um fôlego e pretende ser um objecto de colecção. para mim já é.

página do Facebook

Sobre

O Gerador é uma plataforma de acção e comunicação para a cultura portuguesa!
Descrição
O que é o Gerador?
É uma plataforma de acção e comunicação para a cultura portuguesa.
• Acção porque o Gerador produz iniciativas que promovem os principais motores da cultura portuguesa.
• Comunicação porque criamos os espaços para divulgação das obras e dos seus autores através de uma revista e de uma presença online dinâmica e participativa.

Quais são os nossos propósitos?
O Gerador existe porque tinha de ser. E porque perseguimos 5 ideias que queremos deixar bem vincadas na sociedade portuguesa:
• Lembrar todos que a cultura é identidade e, por isso, é composta por arte, literatura, cinema ou teatro, mas, também, por banda desenhada, gastronomia, ofícios ou costumes populares.
• Sublinhar que a cultura está em todas as ruas e em todas as casas, sem diferença entre o norte e o sul, o interior ou o litoral, as metrópoles ou as aldeias.
• Destacar quem produz e divulga a cultura portuguesa, seja ele um artista plástico, um artesão, um músico, um chef, um graffiter, um futebolista, um cientista, um encenador ou um CEO.
• Criar e produzir iniciativas para a cultura portuguesa a que todos possam aceder e participar, afastando a ideia da cultura difícil, complexa e longínqua.
• Inspirar as pessoas a serem mais participativas, mais disruptivas e a pensarem diferente no seu dia-a-dia profissional, afectivo e de ócio.

sábado, 16 de agosto de 2014

se pudesse só ter lido um poema na vida talvez escolhesse este

And Death Shall Have No Dominion
DYLAN THOMAS

And death shall have no dominion. 
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone, 
They shall have stars at elbow and foot; 
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

quando as crianças contam as histórias do Afonso Cruz

 

num dia de Verão, na praia do Almograve, juntei quatro crianças à volta de uma toalha (e a minha mãe também) e pedi-lhes que contassem a história do livro de ilustração do Afonso Cruz, CAPITAL, da Pato Lógico. entre muitas invenções e trabalho de imaginação saiu esta bela história. Assinam a história  Leonor (14), Afonso (12), Luísa (6), Guilherme (7), Graça (não se diz a idade das senhoras). a fixação do texto é minha, as palavras deles. se tiverem o livro acompanhem com as imagens, torna tudo muito mais divertido. 
 






Era uma vez um homem grande, com mãos gigantes e saltos altos, que ofereceu ao seu neto, Finn, um porco mealheiro. Finn apaixonou-se pelo mealheiro e andava com ele para todo o lado. Chamou-lhe Jake. Às vezes Jake ganhava vida e fazia cocó no chão mas Jake era tão especial que o cocó dele cheirava a rosas da cor do arco-íris e a chocolate. Finn gostava disto porque era daltónico e tinha por isso desenvolvido um extraordinário olfacto. Jake também não dormia porque sentia que tinha de proteger Finn que era asmático. Ficava a noite toda a olhar para ele para ter a certeza de que tinha um sonho tranquilo.

Finn e Jake cresceram juntos. Jake ia crescendo com as moedas que Finn lhe tinha dado, e não eram moedas de chocolate... Finn levava Jake para todo o lado. Levava-o muitas vezes com a avó ao parque, uma senhora com uma figura muito especial, sempre com as suas meias de descanso cinzentas, pelos na cara e puns tão ruidosos que atraíam os estranhos pássaros do parque que a seguiam para todo o lado.

Finn tinha um namorado, Felisberto, e ambos jogavam futebol na praia. Jake era a mascote e assistia a todos os jogos. Nesses passeios ao ar livre Finn jogava com o porco ao busca a moeda. Jake era cada dia mais maluco por moedas e por vezes desaparecia para as procurar durante imenso tempo. Finn teve mesmo de, a certa altura, usar uma trela. Todos o adoravam e lhe faziam festas quando passava.

Jake era insaciável. As moedas que Finn lhe dava começaram a ser insuficientes. Finn decide assim casar com Clarabóia, uma menina de boas famílias que conhecera no parque. Felisberto fica desiludido mas aceita, pois percebe que Jake se tornaria insuportável se não tivesse mais moedas.

Com o passar do tempo Jake começa a ficar agressivo e a comer pessoas, as moedas já não lhe chegavam. Comia pessoas ricas, claro. Felisberto fica preocupado e tenta avisar Finn, que parece bastante confortável com a situação. Finn na verdade começava a enriquecer e tentava, sem grande sucesso ao início, mostrar a Felisberto a beleza desta nova vida. Finn parecia-se cada vez mais com o avô que lhe tinha dado o Jake. As mãos cresciam desmesuradamente. Com o tempo Felisberto começa a ceder e a pensar que talvez Finn tenha mesmo razão, ao ver o luxo e o brilho que rodeavam Finn, que se vestia sempre de forma elegante com fato e gravata e passava o dia a beber champagne. Felisberto acaba por aceder a tornar-se sócio da Empresa do Dinheiro, a empresa de Finn. 

Mas assim que Felisberto enriquece é comido pelo porco Jake. Clarabóia começa a assustar-se com a agressividade do mealheiro e mesmo Finn começa a reparar que este está descontrolado. É o salve-se quem puder. Na verdade Jake está cada vez mais insaciável. Já não lhe chegam as moedas, nem as pessoas, nem as pessoas ricas, nem as casas que come, nem cidades inteiras. Jake acaba por comer o planeta que agora já não existe, existe sim um porco gigante em órbita, à volta do sol.
 







quarta-feira, 9 de julho de 2014

sobre um poema meu

estou há alguns dias com esta janela aberta a tentar escrever um texto sobre a minha escrita. não por timidez ou falta de coragem mas por me estar a aperceber que dentro deste blog eu não escrevo, eu "falo de". como se fosse uma parte apartada de mim, uma despersonalização - a que escreve e a que "fala de". isto leva-me a algumas reflexões que tentarei desenvolver neste post. a primeira é que para se "falar de" num blog é preciso escrever. a escrita tem muitas formas, assim como a leitura.

(lembro-me da última aula do meu último curso "se acham mesmo que a leitura é um bem em si próprio não leiam livros maus, leiam bulas de medicamentos")

depois de muito pensar nisto e questionar a minha posição com as minhas "manufacturas", o meu artesanato artístico, percebo que a relação não só não é pacífica como é verdadeiramente perturbadora. por um lado não gosto de nada que tenha escrito até hoje, seja na poesia, seja por aqui, seja por onde for, por outro sei mesmo que em muitas vezes não é apenas uma questão sensitiva, é mesmo falta de qualidade (aposto que o querido anónimo vai deixar neste post um comentário assez desagradável sobre a minha ecrita, não pode ver uma aberta, o rapaz).

diz-se muitas vezes, sabedoria popular, que quando deixamos de sofrer por algo que nunca mais acontece (uma qualquer transformação que me fizesse gostar do que escrevo, ou vá, se perder a cabeça com desejos, escrever mesmo bem) esse algo acontece em força. de repente, apenas nesta semana, tive a caixa de mensagens inundada por pessoas que me falavam deste blog. inesperadamente, porque ele existe há já alguns anos. não eram mensagens elogiosas, eram mensagens que mostravam que o meu objectivo estava a ser cumprido, eu estava realmente a comunicar as ideias que queria, as pessoas liam e percebiam, subscreviam, queriam falar mais sobre isso.

na mesma semana, numa leitura de poesia, uma pessoa leu em voz alta um poema meu publicado numa Nicotina. não só não me lembrava de ter publicado este texto como tive dificuldade, na primeira leitura, em reconhecer aquelas palavras. em relação à poesia a minha história é mais dolorosa. é-me impossível reler o que escrevi e sou de uma exigência sofrida com cada palavra que tento escrever. coloquei esse capítulo numa gaveta e decidi que ia ser leitora. que nunca mais ia conseguir escrever. gostei daquele texto, seja como for lembro-me bem do esforço que foi enviá-lo e das leituras que fiz e refiz à exaustão. as pessoas gostaram do poema, algumas sem saber que era meu (que as teias da amizade são mais fortes do que eu consigo intuir) e demorei uns dias a encaixar isto. ainda não encaixei e por isso resolvi fazer esta reflexão, aqui, neste blog que não fala nunca de mim, e que tão cedo não falará. eu gosto de ser leitora, é o meu espaço de conforto. gosto do silêncio em que me deixo muitos dias a imaginar um texto que vou escrever sobre um livro ou sobre um tema. gosto de revirar os livros que leio em vários ângulos. gosto deste quase anonimato do leitor.

deixo aqui o poema de que falei. é o primeiro poema meu publicado aqui (que escondi o blog onde estão os outros até acabar este meu processo, se é que vai acabar). não me é confortável publicar textos meus mas, afinal, este blog está cheio deles.

obrigada aos amigos que me pediram mais textos. ainda não vai ser já. mas com os vossos pedidos guardo estrelas que não são só até 5 e onde regresso cada vez que sentir que o que escrevo é digno de um livro da Chiado, com folhas e flores na capa.


Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...