"Lev Kuleshov, cineasta Russo (1899-1970), mostrou a importância da edição (montagem) enquanto ferramenta essencial no cinema. Utilizando esta técnica percebeu que o significado de uma sequência de planos pode depender apenas da relação subjetiva que cada espectador estabelece entre imagens ou planos que, isoladamente, não possuem qualquer sentido. Uma das suas experiências cinematográficas consistiu em intercalar o plano onde surgia um actor inexpressivo com os planos de um prato de sopa, de uma criança num caixão e de uma mulher semidespida. Como resultado, apesar do plano do actor ser sempre o mesmo, a audiência encontrou no rosto do actor a expressão de fome, de piedade e de desejo."
é assim a contracapa do livro da dois dias edições & Amor-Livr'o, um livro objecto (gosto tanto de encontrar livros objecto, chamá-los assim, e nem saber bem a que me refiro) de leitura compulsiva. com imagens que são acompanhadas por dois ou três textos, um que realmente acompanhava a imagem e outros imaginados, o leitor faz parte integrante do livro ao experimentar o efeito Kuleshov. como disse João Botelho este é um livro em que o leitor trabalha e participa. é um livro que ultrapassa caixas e quadrados e coloca-se num novo nível de transição, tão necessário como poderoso. ficam algumas imagens do lançamento.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
a abysmo do cotrim
quando trabalho com um autor quero sempre trabalhar com ele.
um editor ideal é uma série de "eus"
João Paulo Cotrim
fui à abysmo encontrar o João Paulo Cotrim num fim de tarde de Verão. foi uma das primeiras entrevistas. conhecia o trabalho do João Paulo mas não conhecia a pessoa. foi no desenrolar da nossa conversa que percebi o potencial do editor-pessoa. uma das resoluções que tinha definido quando iniciei este projecto de investigação foi que ele se iria desenrolando consoante aquilo que fosse acontecendo durante as entrevistas. e ao conhecer o João Paulo e o seu trabalho na abysmo percebi rapidamente que tínhamos aqui um caso de um profundo equilíbrio entre crescimento e fidelidade a princípios editoriais dos quais não se abdica e que, a abdicar, tirariam o sentido da existência da editora como ela fora pensada.
ainda não cheguei à definição final de denominação destas editoras, ainda me fico pelo "editoras independentes" ou "pequenas editoras". o ter escolhido a abysmo como um dos primeiros casos de estudo não foi visto por todos de forma pacífica. será a abysmo uma pequena editora ou uma editora independente? serão estes conceitos inclusivos? a abysmo mostra que não. que uma editora independente não é obrigatoriamente uma pequena editora (e muito mais tinta teria de correr sobre esta questão do "tamanho". avante.).
João Paulo Cotrim criou a abysmo em Setembro de 2011 por uma circunstância simples e comum ao início de muitas editoras, a vontade de publicar um livro específico, o Branco das Sombras Chinesas neste caso, por sugestão de António Cabrita, autor da abysmo e amigo. depois dessa sugestão percebeu que aquilo que gostava era de fazer livros e que por isso o melhor que podia fazer era fazê-lo profissionalmente mas para ele próprio e não para terceiros. define nessa altura esses princípios editoriais (que são mais do que linhas ou posições) que passam por um compromisso total com o texto. esse compromisso dita as regras editoriais de escolha de originais. o facto de terem surgido no início de uma crise económica muito violenta para qualquer negócio colocou-os num sítio onde muitas editoras se colocaram nestes últimos três anos - um sítio de liberdade onde se vão testando barreiras e limites, onde se arrisca a publicação de novos autores. durante a conversa fomos revelando algumas das características mais determinantes da abysmo. o texto é escolhido por um lado pela sensação do editor que lhe transmite a qualidade literária do mesmo e depois tendo como base a confiança em alguns amigos que lhe sugerem autores. o autor que entra para abysmo torna-se família e acaba por participar nos processos da editora quer nos seus livros quer no conjunto editorial. os autores tornam-se leitores para a editora e amigos da casa, construindo assim a unidade e coerência visível em todo o catálogo.
uma característica que distingue a abysmo das outras editoras é o facto de cedo ter percebido que se o livro não se promover por si não vai ter vendas. e aqui a promoção é entendida de um ponto de vista diferente da promoção que vemos em grandes grupos editoriais que têm por trás uma gigante máquina de marketing e fundos que a alimentam. neste caso o João Paulo percebeu que o livro tem qualidade por si e que o que a editora tem obrigatoriedade de fazer é mantê-lo vivo usando dessa mesma qualidade. e isso pode ser feito através de redes sociais, dinâmicas em que os autores se apresentem em público, exposições ou outros eventos associados ao livro impresso (a abysmo é hoje também uma galeria de exposições).
podemos dizer que o João Paulo não descobriu segredos bem guardados mas observou as diversas formas de se fazer edição e juntou ingredientes de sucesso - o tipo de sucesso que o interessava, o que os permite crescer sem comprometer em nada a qualidade literária. o sucesso advém apenas dessa mesma qualidade. o João Paulo juntou assim novos autores em quem acreditava fortemente, decidiu que não queria criar cânones e sim escritores, juntou com mestria escritores com ilustradores, criou uma família onde transparece amizade e cumplicidade. percebeu também que ao arriscar em novos autores está não só a criar leitores no presente como também leitores do futuro.
site da editora abysmo
facebook da editora abysmo
terça-feira, 7 de outubro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
sobre as razões da edição
Muitas vezes me disseste que esse livro me transformou à medida que o ia escrevendo. "Depois de o teres concluído, já não eras o mesmo". Penso que te enganavas. Não foi o tê-lo escrito que me permitiu mudar; foi ter produzido um texto publicável e vê-lo publicado. A publicação mudou a minha situação. Conferiu-me um lugar no mundo, conferiu realidade ao que eu pensava, uma realidade que excedia as minhas intenções, que me obrigava a redefinir-me e a ultrapassar-me continuamente, para não ficar prisioneiro nem da imagem que os outros tinham de mim nem de um produto, pela sua realidade objectiva, tornado outra coisa que não eu. Magia da literatura: fazia-me aceder à existência tal qual eu me tinha descrito, escrito na minha recusa de existir. Esse livro era o produto da minha recusa, era essa mesma recusa, e, através da sua publicação, impedia-me de prosseguir nessa recusa. Precisamente o que eu tinha esperado e que só a publicação me poderia dar: ser obrigado a comprometer-me para além do que eu podia pela minha vontade solitária, e a colocar problemas, a prosseguir fins que eu não definira sozinho.
Carta a D.
História de um amor
André Gorz
Pianola
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Flanzine #5 CAMA
anda por aí uma fanzine com forma de revista. é dado adquirido que as formas e categorias têm de ser questionadas, mais até do que revistas. e a Flanzine será aquilo que quiser ser sem dar cavaco a ninguém.
o número #5 é sobre a CAMA. será porventura fácil imaginar para onde os autores fazem descambar o tema? talvez não.
os autores não se conhecem e é-lhes pedido um texto sobre a CAMA. o fio condutor existe e é claro mas é maior do que a Flanzine, está não só nela como nos autores, nestes e nos outros que não escrevem aqui. um tom narrativo, uma forma clara e de grande mestria com que se fala do quotidiano, com linguagem quotidiana, mas com excelência literária. em bom, portanto. há excepções, claro, mas não vou referir excepções cada vez que se fala de um fio condutor. mantenhamos assim como entendido à partida.
a CAMA assume aqui um ciclo perfeito e fechado - por um lado o nascimento e um qualquer início. depois um erotismo latente e crescente sem idade ou hora do dia. depois a morte, claro, que não há nascimento sem ideia de morte. erotismo talvez, mas adiante.
a CAMA é assim tema fechado em si, auto significativo e em estado bruto: "Ir para a cama é tão satisfatório que não exige descrição, basta dizer: fui com el@ para a cama. Curtimos na casa de banho, comemos-nos no adro da igreja ou fizemo-nos na disco exige sempre descrição detalhada para percebermos até que ponto a coisa foi séria." (Sermente). A CAMA é espaço horizontal, erótico, sensual, como o poema: "A cama talvez seja o melhor sítio / para o poema. / O poema: / ser horizontal, húmido, bom de foder." (Inês Fonseca Santos). A CAMA é espaço de segurança porque a haver monstros estão por baixo, nunca por cima. na verdade cada pessoa traz consigo uma cama por cada noite dormida, tantas formas pode ter essa cama como os textos que se podem escrever sobre ela. em liberdade que assume a Flanzine. em total liberdade literária, textual e até a maior liberdade de todas, a dos textos que não têm nome.
a Flanzine é apresentada esta sexta, 19 de Setembro, n'o Bom, o Mau e o Vilão, em Lisboa, a partir das 19h30.
o número #5 é sobre a CAMA. será porventura fácil imaginar para onde os autores fazem descambar o tema? talvez não.
os autores não se conhecem e é-lhes pedido um texto sobre a CAMA. o fio condutor existe e é claro mas é maior do que a Flanzine, está não só nela como nos autores, nestes e nos outros que não escrevem aqui. um tom narrativo, uma forma clara e de grande mestria com que se fala do quotidiano, com linguagem quotidiana, mas com excelência literária. em bom, portanto. há excepções, claro, mas não vou referir excepções cada vez que se fala de um fio condutor. mantenhamos assim como entendido à partida.
a CAMA assume aqui um ciclo perfeito e fechado - por um lado o nascimento e um qualquer início. depois um erotismo latente e crescente sem idade ou hora do dia. depois a morte, claro, que não há nascimento sem ideia de morte. erotismo talvez, mas adiante.
a CAMA é assim tema fechado em si, auto significativo e em estado bruto: "Ir para a cama é tão satisfatório que não exige descrição, basta dizer: fui com el@ para a cama. Curtimos na casa de banho, comemos-nos no adro da igreja ou fizemo-nos na disco exige sempre descrição detalhada para percebermos até que ponto a coisa foi séria." (Sermente). A CAMA é espaço horizontal, erótico, sensual, como o poema: "A cama talvez seja o melhor sítio / para o poema. / O poema: / ser horizontal, húmido, bom de foder." (Inês Fonseca Santos). A CAMA é espaço de segurança porque a haver monstros estão por baixo, nunca por cima. na verdade cada pessoa traz consigo uma cama por cada noite dormida, tantas formas pode ter essa cama como os textos que se podem escrever sobre ela. em liberdade que assume a Flanzine. em total liberdade literária, textual e até a maior liberdade de todas, a dos textos que não têm nome.
a Flanzine é apresentada esta sexta, 19 de Setembro, n'o Bom, o Mau e o Vilão, em Lisboa, a partir das 19h30.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
a SNOB, a livraria que pertence à minha teia
abriu uma livraria em Guimarães, a Snob, uma livraria que antes de existir já existia pela mão do Duarte, da Emília e do Eduardo, noutros projectos e nas ideias que estão por trás da Snob. esta livraria entra na linha do que tenho andado a ver e ouvir, uma livraria que não é só uma livraria, é uma ideia, assim como tenho encontrado editoras que não são só editoras, são editoras e são ideias. autores que são ideias. e a ideia é que podemos levar avante projectos que necessitam de uma vertente comercial sem abdicar de qualquer vértice de qualidade. já o tinha dito relativamente ao sr teste e a snob é um senhor teste nortenho e não o é por acaso, é-o por se deixar influenciar, por ouvir, aprender e, lá está, ter a mesma ideia.
fui ao Porto este fim-de-semana. conheci o Duarte na Feira do Livro do Porto, na banca da livraria, onde me agrafei uma tarde inteira (o Duarte além de talentoso livreiro&etc é de uma simpatia avassaladora). reconheci os livros todos que estavam expostos e senti que o Duarte estava na teia. é como se todos os da teia partilhássemos um segredo que começa a não ser segredo nem o quer ser. é o segredo do Duarte, do Ricardo, d’a tua mãe* da Marta, da douda do Nuno, da averno da Inês, da texto sentido, da eclusa, da pianola, de tantos outros. um segredo partilhado e mal guardado porque se começa a espalhar em forma de boato. há aí gente boa a escrever, outros a editar e outros a vender. uma teia que só é independente porque se recusa a comprometer a qualidade literária, a pertinência do sentido e a musicalidade dos livros.
foi bom ir ao Porto e ver de perto a Snob. Guimarães será a próxima paragem. aqui em baixo deixo-vos as paragens da Snob e as imagens da banca na Feira do Livro do Porto onde vão ver, claras e fortes, as linhas da teia.
facebook Snob
site Snob
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
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