De fora a poesia parece desordenada. Não há escolas, não há poetas
arrastando atrás de si poetas mais jovens. Os jovens poetas querem a
independência. Por conseguinte, estamos num tempo de poesia verdadeira,
de poesia que não imita, é um facto. Não salta à vista? Não tem
importância nenhuma. É preciso procurar as pedras preciosas; escondidas
ainda são mais preciosas. Gostaria de lhe transmitir a minha impressão
de que estamos num tempo de poesia exuberante. Não se trata de grandes
tiragens. Aliás tenho a impressão de que as grandes tiragens seriam
perigosas porque correriam o risco de passar por uma imitação da poesia
do século passado.
As pessoas têm medo dos poetas e têm razão. Um poeta é alguém que perturba uma porção de coisas, é muito inquietante a poesia.
[...]
Depois [de Lautréamont] houve todos os outros, todos aqueles [poetas]
que me mandaram os seus livros. Os meus amigos poetas. Fazem a
felicidade da minha vida.
Gaston Bachelard
entrevistado em Os escritores e a literatura, Madeleine Chapsal
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
terça-feira, 18 de novembro de 2014
o Parto de Manuel Cintra
apresentei ontem no Povo o novo livro do Manuel Cintra, Parto, editado na editora do próprio, Palavras por Dentro.
Vou a muitos lançamentos mas este foi especial, não só pelo convite que o Manuel me fez mas por perceber que ele juntou os amigos que viviam dentro da poesia e da obra dele para fazerem parte deste dia. foi por isso um enorme privilégio este convite.
ouvi algumas vezes o Manuel falar deste livro. o que foi sempre claro em todas as conversas é que era necessário que este livro saísse agora, mais de 30 anos depois de ter começado a ser escrito. foi um parto lento e certeiro. é o livro que faz sentido nesta altura, no percurso que o Manel fez, na obra que foi escrevendo que se confunde tanto com a vida que viveu.
o livro apresenta-nos Pedro, que ao longo dos anos se transforma em Anjo ao mesmo tempo que parece enlouquecer. a personagem de Pedro tem a mesma evolução que o próprio Manuel vai tendo na sua escrita ao longo deste últimos 30 e tantos anos - um caminho que indica loucura, desumanização, fim da lógica narrativa. Pedro e o Manuel querem voar. e este livro é o grande e belo voo do Manuel.
chama-se a este livro o primeiro romance de Manuel Cintra. mas nem este é só um romance nem o que foi escrito até agora foi só poesia. esta é a obra do Manuel, do poeta errante da cidade de Lisboa. este é o livro que se segue aos outros livros. assim como a vida do poeta não se enquadra em categorias também a sua obra não se pode fechar em nenhuma caixa.
mas é importante que se preparem. este é um livro violento, escatológico. é-o sobretudo porque faz com que questionemos e nos deparemos com alguns dos nossos piores tabus e fantasmas. se não fosse por mais nada este livro já valia por isso. mas vale por uma enormidade de outras razões. e merece cada um dos leitores que tiver.
há uns meses o José Anjos escreveu sobre o poeta o texto que transcrevo em baixo. sem ter lido o Parto o Zé soube explicar melhor do que eu conseguiria o que é o parto, não só neste livro como em toda a obra e vida do Manuel Cintra.
"Na semana passada tive a honra de abrir o lançamento do livro do Manuel Cintra dizendo um poema dele. Um de que gosto particularmente. Há vários, aliás. Mas ficou algo por dizer acerca do Manuel. Sem caganças. O Manuel Cintra é um dos meus poetas preferidos de sempre. Mas é acima de tudo - e de muitos também e de lado e por vezes por todo o lado - um poeta do presente, o poeta do agora em todos os sentidos e com todos os sentidos que cabem no agora. E os que não cabem também, que o Manuel Cintra é muito maior do que o seu próprio traço, talvez até maior do que a liberdade de quem é mãe e filha ao mesmo tempo. E os poemas que caem no berço do seu regaço de escaravelho em papel de placenta são dores, dores furiosas desse parto repetido, a cada momento, agora e agora outra vez, da liberdade. Das mais belas e bem sofridas dores de parto, digo eu, que não sou parteira. A prova que o ser humano existe e respira nesta cidade e nasceu outra vez e neste preciso momento. E Agora. Um abraço pintado Manuel."
José Anjos
Vou a muitos lançamentos mas este foi especial, não só pelo convite que o Manuel me fez mas por perceber que ele juntou os amigos que viviam dentro da poesia e da obra dele para fazerem parte deste dia. foi por isso um enorme privilégio este convite.
ouvi algumas vezes o Manuel falar deste livro. o que foi sempre claro em todas as conversas é que era necessário que este livro saísse agora, mais de 30 anos depois de ter começado a ser escrito. foi um parto lento e certeiro. é o livro que faz sentido nesta altura, no percurso que o Manel fez, na obra que foi escrevendo que se confunde tanto com a vida que viveu.
o livro apresenta-nos Pedro, que ao longo dos anos se transforma em Anjo ao mesmo tempo que parece enlouquecer. a personagem de Pedro tem a mesma evolução que o próprio Manuel vai tendo na sua escrita ao longo deste últimos 30 e tantos anos - um caminho que indica loucura, desumanização, fim da lógica narrativa. Pedro e o Manuel querem voar. e este livro é o grande e belo voo do Manuel.
chama-se a este livro o primeiro romance de Manuel Cintra. mas nem este é só um romance nem o que foi escrito até agora foi só poesia. esta é a obra do Manuel, do poeta errante da cidade de Lisboa. este é o livro que se segue aos outros livros. assim como a vida do poeta não se enquadra em categorias também a sua obra não se pode fechar em nenhuma caixa.
mas é importante que se preparem. este é um livro violento, escatológico. é-o sobretudo porque faz com que questionemos e nos deparemos com alguns dos nossos piores tabus e fantasmas. se não fosse por mais nada este livro já valia por isso. mas vale por uma enormidade de outras razões. e merece cada um dos leitores que tiver.
há uns meses o José Anjos escreveu sobre o poeta o texto que transcrevo em baixo. sem ter lido o Parto o Zé soube explicar melhor do que eu conseguiria o que é o parto, não só neste livro como em toda a obra e vida do Manuel Cintra.
"Na semana passada tive a honra de abrir o lançamento do livro do Manuel Cintra dizendo um poema dele. Um de que gosto particularmente. Há vários, aliás. Mas ficou algo por dizer acerca do Manuel. Sem caganças. O Manuel Cintra é um dos meus poetas preferidos de sempre. Mas é acima de tudo - e de muitos também e de lado e por vezes por todo o lado - um poeta do presente, o poeta do agora em todos os sentidos e com todos os sentidos que cabem no agora. E os que não cabem também, que o Manuel Cintra é muito maior do que o seu próprio traço, talvez até maior do que a liberdade de quem é mãe e filha ao mesmo tempo. E os poemas que caem no berço do seu regaço de escaravelho em papel de placenta são dores, dores furiosas desse parto repetido, a cada momento, agora e agora outra vez, da liberdade. Das mais belas e bem sofridas dores de parto, digo eu, que não sou parteira. A prova que o ser humano existe e respira nesta cidade e nasceu outra vez e neste preciso momento. E Agora. Um abraço pintado Manuel."
José Anjos
as Edições Guilhotina quando ainda não o eram
Foi
apenas uma ocasião feliz que me tenha encontrado numa noite quente
de Verão com as que viriam a ser as editoras da Guilhotina: Diana
Pimentel, Maria Quintans e Cláudia Lucas Chéu. Todas têm caminhos
editoriais variados quer enquanto editoras ou enquanto autoras para
além de viverem as três dentro da realidade editorial pelo percurso
pessoal que foram formando. Conhecem o meio, as formas e os livros
que querem defender. Sabem que caminho fazer, têm convicção, bons
princípios e ideias claras. E assim depois de percursos diversos
chegaram as três juntas à Guilhotina. Uma editora que promete
muitas surpresas e um caminho único, do qual falarei (muito,
acredito) nos próximos tempos.
Quando
conversamos à volta de um copo de vinho branco o discurso das
editoras flutua entre o positivo e o negativo, de forma apesar disso
equilibrada. Admitem que os editores já não trazem prestígio aos
autores como há uns anos atrás. Procura-se uma marca que prestigie.
E isso não acontece por acaso – não se procura o editor porque
essa figura foi desaparecendo. Diana Pimentel acredita que o que
distingue esses editores dos outros é que o interesse ao receber uma
proposta de livro para editar se centra apenas no texto. Apesar de
esta formulação parecer clara, a verdade é que não o é. A
construção de um escritor passa hoje por um gigante leque de
condicionantes contextuais, os leitores têm exigências diferentes
na procura do livro para ler, muitos são clientes e não leitores.
Muitas vezes os editores regem-se por estas fórmulas tentando assim
obter sucessos nas vendas. As figuras que medeiam a leitura já não
são as mesmas, já não se procura um texto como se procurava há
uns anos atrás quando os escritores não estavam envoltos numa teia
de contextos tão complexa como esta - notoriedade, figura pública,
prémios, polémicas, relações externas ao livro, entre outros.
É
assim fundamental focarmo-nos na realidade do leitor. Podemos pensar
esta questão das editoras pequenas ou editoras independentes de
vários pontos de vista mas o do leitor é pouco reflectido. As
editoras mais pequenas, ao serem dependentes do texto para o fazer
vender – não podendo recorrer a estratégias comerciais para as
quais não têm fundo de maneio e para as quais, no limite, nem têm
interesse (uma vez que os objectivos passam apenas por tornar os
livros sustentáveis por si) – apresentam-nos o texto de forma
inócua, deixando-nos livremente a escolha do mesmo, que vive assim,
ainda de forma mais presente, a força do próprio texto. Quem
escolhe o que vai ler é o leitor e não o mercado, os livros são
disponibilizados e não impostos por uma lógica comercial. Assim a
Guilhotina promete uma escolha criteriosa de textos aos quais teremos
acesso de forma activa enquanto leitores e, (posso apenas acreditar
porque ainda não os li) de forma absolutamente apaixonada.
A editora Guilhotina será apresentada esta sexta-feira, 21 de Novembro, no Primeiro Andar em Lisboa e serão lançados os três primeiros livros:
aerogramas, de Diana Pimentel, com apresentação de Fernanda Freitas e leituras de Raquel Marinho.
A Mala, de Valério Romão, com apresentação de Frederico Pedreira e leituras de Paula Lobo Antunes.
Trespasse, Cláudia Lucas Chéu, com apresentação de Miguel Real e leituras de Albano Jerónimo.
A Mala, de Valério Romão, com apresentação de Frederico Pedreira e leituras de Paula Lobo Antunes.
Trespasse, Cláudia Lucas Chéu, com apresentação de Miguel Real e leituras de Albano Jerónimo.
sábado, 15 de novembro de 2014
o Imediatismo de Hakim Bey
No seu livro Zona Autónoma Temporária, Hakim Bey defende que toda a experiência é mediada por tudo o que está entre ela e nós. A arte é a manifestação dessa mesma experiência.
Há artes mais mediadas que outras - ouvir um CD, ou ver televisão é mais mediada do que ver um ballet ao vivo por exemplo.
A forma como o que Hakim Bey chama de "Capitalismo Moderno" conduz a arte leva a formas extremas de mediação. Este facto deve-se sobretudo a um fosso maior que se cria entre a produção e o consumo da arte. O consumo da arte é levado a sítios tão extremos que vamos mesmo perdendo a noção do que originalmente nos entusiasma na arte: a experiência imediata, a honestidade e franqueza, o que vem da nossa natureza animal.
Enquanto artistas devemos então procurar esse imediatismo, devendo procurá-lo para nós e para os outros sem dar a entender que o fazemos para que essa experiência artística seja assim o menos mediada possível. A arte tem de entrar na vida quotidiana de forma discreta e absoluta, não em forma de arte, algo que não pareça nunca passível de acção comercial. Desta forma a arte está dependente do contexto e não de um programa estético que valha por si. Se a arte está no quotidiano então não vale isoladamente.
Desta forma a figura do artista é também eliminada. todos são participantes e todos são actores da obra de arte em medidas iguais.
Há artes mais mediadas que outras - ouvir um CD, ou ver televisão é mais mediada do que ver um ballet ao vivo por exemplo.
A forma como o que Hakim Bey chama de "Capitalismo Moderno" conduz a arte leva a formas extremas de mediação. Este facto deve-se sobretudo a um fosso maior que se cria entre a produção e o consumo da arte. O consumo da arte é levado a sítios tão extremos que vamos mesmo perdendo a noção do que originalmente nos entusiasma na arte: a experiência imediata, a honestidade e franqueza, o que vem da nossa natureza animal.
Enquanto artistas devemos então procurar esse imediatismo, devendo procurá-lo para nós e para os outros sem dar a entender que o fazemos para que essa experiência artística seja assim o menos mediada possível. A arte tem de entrar na vida quotidiana de forma discreta e absoluta, não em forma de arte, algo que não pareça nunca passível de acção comercial. Desta forma a arte está dependente do contexto e não de um programa estético que valha por si. Se a arte está no quotidiano então não vale isoladamente.
Desta forma a figura do artista é também eliminada. todos são participantes e todos são actores da obra de arte em medidas iguais.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
regressar a uma casa que não existe
Cláudia Clemente já tinha escrito dois livros de contos e um livro de teatro. Este é o primeiro romance. no entanto é um romance fragmentário que pode ter ligações com esse universo do conto. numa série de fragmentos articulados de forma absolutamente orgânica a autora conta-nos várias histórias que aparentemente são distantes mas que a determinado momento do livro se unem com uma naturalidade que escapa ao próprio leitor.
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.
A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.
A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
abismos
procuramos nos livros sempre algo extraordinário. conforme vamos encontrando, mais vamos procurando. se conseguirmos absorver o que nos é dado a ler e o que o extraordinário transmite então aí corremos o risco de nos tornarmos mais exigentes. conseguimos dizer que um livro é bom, mas a nossa fasquia sobe até sítios difíceis de alcançar.
neste livro de meckert vou saltar directamente para o último conto do livro, o Abismo. os outros são bons contos, mas, lá está, lêem-se com relativa tranquilidade. este, pelo contrário, leva-nos a abismos perigosos. com alguma investigação podemos ficar a saber que pelo menos o contexto em que se passa a história é real, mas ainda assim muda pouco no tipo de abismo em que entramos (já não digo caímos por ser de uma absoluta redundância, por todas as razões, não apenas as gramaticais). o sítio que meckert encontra é um sítio nosso, comum, que nos pode ou não ter sido desvendado. o temor que se abre como portas metálicas é um temor comum à humanidade, ao conjunto, ao limite desta nossa condição que se mantém tão desconhecida. uma procura intensa de uma visibilidade que só a nossa possibilidade de morte torna possível, por mais irónico que isso seja. é tão humano querermos ser vistos como tornar os outros invisíveis. só vemos o que é extraordinário, que rompe barreiras e convenções, mas dificilmente nos fascinamos com o comum. na própria literatura é raro quem consegue de forma eficaz retratar o normal. quem o faz é só por esse feito um escritor fantástico. jean meckert era um escritor extraordinário que soube elevar a sua absoluta normalidade e invisibilidade a um medo de todos nós, humano e orgânico, um medo que toca por um lado a solidão, pelo outro a certeza da nossa finitude.
A vida de Jean Meckert esteve longe de ser fácil. Figura rebelde das letras francesas, Meckert nasceu em Paris a 24 de Novembro de 1910, tendo sido separado da família em 1920 e enviado para o asilo Lambrechts, uma instituição protestante situada em Courbevoie. Desses quatro anos de orfanato ganhou uma repulsa pelo ensino religioso, guardando para sempre os sentimentos de abandono e humilhação. Na escola revelou-se um bom aluno, obtendo o diploma do ensino primário e trabalhando como aprendiz numa empresa de construção de motores eléctricos. Em 1927, já como empregado de escritório, ingressa no Crédit Lyonnais, lugar onde a sua mãe trabalhava como empregada de limpeza. Apanhado pela crise em 1929, Meckert perde o emprego e vai subsistindo através de pequenos trabalhos. Para escapar a esta vida miserável alista-se no exército em 1930, por um período de dezoito meses, sendo punido com várias penas de prisão por ausências injustificadas, conseguindo ainda assim ser promovido ao posto de cabo pelo comandante da 5ª Companhia de Engenharia. Ao regressar à vida civil em 1932, vê-se novamente mergulhado na pobreza. Estávamos na grande época do desemprego, onde era necessário fazer de tudo para sobreviver, e Meckert deitou a mão a tudo o que conseguiu, como o trabalho de vendedor ambulante ao portão da fábrica da Renault. O seu quarto de hotel, em Belleville, torna-se a sua «última trincheira», o refúgio onde escreverá narrativas inspiradas na sua própria existência, designadamente os três contos publicados em “Abismo e outros Contos” (Antígona, 2013): “Um Crime”, “O Bom Samaritano” e “Abismo”.
domingo, 19 de outubro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
a Flanzine do Azul
![]() |
| foto de Mar Babo |
era de noite, no Porto, uma noite de chuva. andava por ali com o João Pedro Azul, editor da Flanzine e da Flan de Tal, uma editora que se lança agora no seu primeiro livro Poemanifesto. a Flanzine, essa, já vai no número #5, a caminho do #6 que sai em Dezembro, com o tema FOME.
entrámos num bar, Duas de Letra, um dos tantos onde a Flanzine foi apresentada no Porto, pedimos uma bebida e fizemos fortes e prédios com as peças de Lego que havia em cima da mesa. e se fizéssemos agora a entrevista? sugere ele. eu pus a gravar aquela que seria até agora a mais descontraída de todas as entrevistas, afinal estávamos dois amigos num bar e havia Legos e Martini. talvez também por isso, pela intimidade e descontracção, foi fácil começar ali a desenhar o perfil deste editor que, ao assumir-se como editor de um fanzine, prefere não adoptar as características de um editor de livros. a Flan de Tal fica para uma próxima conversa, é uma editora que está agora a fazer-se crescer e a formar uma linha editorial. em construção.
ao fazermos uma revista ou um fanzine há características que lhe são próprias. o editor convida escritores, autores, ilustradores sabendo que ali lhes está a oferecer um espaço. o trabalho do editor fica limitado (no que a palavra "limitado" tem de bom) pela autonomia do próprio autor que, ao ser convidado, tem uma liberdade de acção que está também relacionada com o facto de aquele texto vir acompanhado de outros que não são seus. assim, cria-se na Flanzine um espaço de risco, autonomia e experimentação, que torna o fanzine não só um espaço de surpresa como também um espaço de encontro de escritas que não se encontram em outros sítios.
todos os números da Flanzine têm um tema diferente. até agora mala, medo, boca, carrossel, cama e fome, no número de Dezembro. no entanto o Azul afirma que não há uma linha literária no fanzine, apenas esse tema. enquanto juntos questionávamos essa ideia, tantas vezes obscura, do que é uma linha literária apercebemo-nos de que há duas formas de marcar uma linha numa publicação: por um lado ter alguém à frente que convida escritores ou poetas que identifique com a linha que pretende, por outro alguém que selecciona textos entre vários, tentando que estes se liguem ao mesmo imaginário, entre eles. na Flanzine escolhem-se autores por empatia, por relações de amizade e proximidade, por se acreditar no potencial literário e artístico dos convidados. o Azul acredita que a forma de retribuir o trabalho e dedicação dos seus autores é através de um enamoramento, uma relação de proximidade que se vê em todo o processo do fanzine. é esse o funcionamento deste editor tão particular, que cria linhas invisíveis entre todas as tantas pessoas que colaboram com a Flanzine, criando relações que se baseiam na confiança, gratidão e admiração. talvez por isso o Azul tenha sido o primeiro a dizer que não há editores independentes e sim editores interdependentes. e tem razão.
podem assinar / comprar a Flanzine através do email: zine.flanzine@gmail.com ou encontrá-la em alguns dos mais belos pontos de venda independente do país.
página fb da Flanzine
página fb da Flan de Tal
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
o belo "efeito kuleshov"
"Lev Kuleshov, cineasta Russo (1899-1970), mostrou a importância da edição (montagem) enquanto ferramenta essencial no cinema. Utilizando esta técnica percebeu que o significado de uma sequência de planos pode depender apenas da relação subjetiva que cada espectador estabelece entre imagens ou planos que, isoladamente, não possuem qualquer sentido. Uma das suas experiências cinematográficas consistiu em intercalar o plano onde surgia um actor inexpressivo com os planos de um prato de sopa, de uma criança num caixão e de uma mulher semidespida. Como resultado, apesar do plano do actor ser sempre o mesmo, a audiência encontrou no rosto do actor a expressão de fome, de piedade e de desejo."
é assim a contracapa do livro da dois dias edições & Amor-Livr'o, um livro objecto (gosto tanto de encontrar livros objecto, chamá-los assim, e nem saber bem a que me refiro) de leitura compulsiva. com imagens que são acompanhadas por dois ou três textos, um que realmente acompanhava a imagem e outros imaginados, o leitor faz parte integrante do livro ao experimentar o efeito Kuleshov. como disse João Botelho este é um livro em que o leitor trabalha e participa. é um livro que ultrapassa caixas e quadrados e coloca-se num novo nível de transição, tão necessário como poderoso. ficam algumas imagens do lançamento.
é assim a contracapa do livro da dois dias edições & Amor-Livr'o, um livro objecto (gosto tanto de encontrar livros objecto, chamá-los assim, e nem saber bem a que me refiro) de leitura compulsiva. com imagens que são acompanhadas por dois ou três textos, um que realmente acompanhava a imagem e outros imaginados, o leitor faz parte integrante do livro ao experimentar o efeito Kuleshov. como disse João Botelho este é um livro em que o leitor trabalha e participa. é um livro que ultrapassa caixas e quadrados e coloca-se num novo nível de transição, tão necessário como poderoso. ficam algumas imagens do lançamento.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
a abysmo do cotrim
quando trabalho com um autor quero sempre trabalhar com ele.
um editor ideal é uma série de "eus"
João Paulo Cotrim
fui à abysmo encontrar o João Paulo Cotrim num fim de tarde de Verão. foi uma das primeiras entrevistas. conhecia o trabalho do João Paulo mas não conhecia a pessoa. foi no desenrolar da nossa conversa que percebi o potencial do editor-pessoa. uma das resoluções que tinha definido quando iniciei este projecto de investigação foi que ele se iria desenrolando consoante aquilo que fosse acontecendo durante as entrevistas. e ao conhecer o João Paulo e o seu trabalho na abysmo percebi rapidamente que tínhamos aqui um caso de um profundo equilíbrio entre crescimento e fidelidade a princípios editoriais dos quais não se abdica e que, a abdicar, tirariam o sentido da existência da editora como ela fora pensada.
ainda não cheguei à definição final de denominação destas editoras, ainda me fico pelo "editoras independentes" ou "pequenas editoras". o ter escolhido a abysmo como um dos primeiros casos de estudo não foi visto por todos de forma pacífica. será a abysmo uma pequena editora ou uma editora independente? serão estes conceitos inclusivos? a abysmo mostra que não. que uma editora independente não é obrigatoriamente uma pequena editora (e muito mais tinta teria de correr sobre esta questão do "tamanho". avante.).
João Paulo Cotrim criou a abysmo em Setembro de 2011 por uma circunstância simples e comum ao início de muitas editoras, a vontade de publicar um livro específico, o Branco das Sombras Chinesas neste caso, por sugestão de António Cabrita, autor da abysmo e amigo. depois dessa sugestão percebeu que aquilo que gostava era de fazer livros e que por isso o melhor que podia fazer era fazê-lo profissionalmente mas para ele próprio e não para terceiros. define nessa altura esses princípios editoriais (que são mais do que linhas ou posições) que passam por um compromisso total com o texto. esse compromisso dita as regras editoriais de escolha de originais. o facto de terem surgido no início de uma crise económica muito violenta para qualquer negócio colocou-os num sítio onde muitas editoras se colocaram nestes últimos três anos - um sítio de liberdade onde se vão testando barreiras e limites, onde se arrisca a publicação de novos autores. durante a conversa fomos revelando algumas das características mais determinantes da abysmo. o texto é escolhido por um lado pela sensação do editor que lhe transmite a qualidade literária do mesmo e depois tendo como base a confiança em alguns amigos que lhe sugerem autores. o autor que entra para abysmo torna-se família e acaba por participar nos processos da editora quer nos seus livros quer no conjunto editorial. os autores tornam-se leitores para a editora e amigos da casa, construindo assim a unidade e coerência visível em todo o catálogo.
uma característica que distingue a abysmo das outras editoras é o facto de cedo ter percebido que se o livro não se promover por si não vai ter vendas. e aqui a promoção é entendida de um ponto de vista diferente da promoção que vemos em grandes grupos editoriais que têm por trás uma gigante máquina de marketing e fundos que a alimentam. neste caso o João Paulo percebeu que o livro tem qualidade por si e que o que a editora tem obrigatoriedade de fazer é mantê-lo vivo usando dessa mesma qualidade. e isso pode ser feito através de redes sociais, dinâmicas em que os autores se apresentem em público, exposições ou outros eventos associados ao livro impresso (a abysmo é hoje também uma galeria de exposições).
podemos dizer que o João Paulo não descobriu segredos bem guardados mas observou as diversas formas de se fazer edição e juntou ingredientes de sucesso - o tipo de sucesso que o interessava, o que os permite crescer sem comprometer em nada a qualidade literária. o sucesso advém apenas dessa mesma qualidade. o João Paulo juntou assim novos autores em quem acreditava fortemente, decidiu que não queria criar cânones e sim escritores, juntou com mestria escritores com ilustradores, criou uma família onde transparece amizade e cumplicidade. percebeu também que ao arriscar em novos autores está não só a criar leitores no presente como também leitores do futuro.
site da editora abysmo
facebook da editora abysmo
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Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX
O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...









