sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

[do fim das formas literárias]

Em todos esses arautos da modernidade se assiste ao nascimento do poema sem eu e sem arroubos expressivos, do "drama-poesia" no sentido que a expressão ganha em alguém como Maria Gabriela Llansol, que, rejeitando a poesia como forma de expressão, assimila totalmente ao seu texto de prosa esta postura do sujeito posto à distância, numa escrita muitas vezes referida como "poética", mas que recusa os excessos da emoção ("sem perda de sensibilidade") e da projecção (auto)biográfica, através do trabalho, antimimético, de (trans)figuração na linguagem. E aqui, como em tanto poema autenticamente moderno, figurar, criar figura, é objectivar a expressão. Para Llansol, é esse "o poema que vai adiante": o de uma linguagem com um alto grau de originalidade, numa busca incessante da energia do "sexo do texto", incomparavelmente criativa e carregada de interrogações, mas também da densidade do novo que forma uma trama cerradíssima, numa escrita sempre fragmentária, completa e sempre sem resto.

Geografia Imaterial
João Barrento
Documenta, 2014

[do acontecimento na poesia]

O poema é quase sempre mais uma construção (e, sendo assim, o meu acesso a ele não é imediato nem espontâneo, tenho de aprender a desconstruí-lo), construção essa que permite, a quem escreve, agir com as palavras, dar a ver e ouvir o mundo de uma forma que a civilização e a razão sublimam ou recalcam; e a quem lê, ter acesso, talvez mais profundo e luminoso, ao que está a acontecer.

João Barrento
Geografia Imaterial
Documenta, 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

no sorriso louco das mães


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.

Herberto Helder

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Bachelard e a poesia

De fora a poesia parece desordenada. Não há escolas, não há poetas arrastando atrás de si poetas mais jovens. Os jovens poetas querem a independência. Por conseguinte, estamos num tempo de poesia verdadeira, de poesia que não imita, é um facto. Não salta à vista? Não tem importância nenhuma. É preciso procurar as pedras preciosas; escondidas ainda são mais preciosas. Gostaria de lhe transmitir a minha impressão de que estamos num tempo de poesia exuberante. Não se trata de grandes tiragens. Aliás tenho a impressão de que as grandes tiragens seriam perigosas porque correriam o risco de passar por uma imitação da poesia do século passado.
As pessoas têm medo dos poetas e têm razão. Um poeta é alguém que perturba uma porção de coisas, é muito inquietante a poesia.
[...]
Depois [de Lautréamont] houve todos os outros, todos aqueles [poetas] que me mandaram os seus livros. Os meus amigos poetas. Fazem a felicidade da minha vida. 


Gaston Bachelard
entrevistado em Os escritores e a literatura, Madeleine Chapsal

terça-feira, 18 de novembro de 2014

o Parto de Manuel Cintra

apresentei ontem no Povo o novo livro do Manuel Cintra, Parto, editado na editora do próprio, Palavras por Dentro.

Vou a muitos lançamentos mas este foi especial, não só pelo convite que o Manuel me fez mas por perceber que ele juntou os amigos que viviam dentro da poesia e da obra dele para fazerem parte deste dia. foi por isso um enorme privilégio este convite.

ouvi algumas vezes o Manuel falar deste livro. o que foi sempre claro em todas as conversas é que era necessário que este livro saísse agora, mais de 30 anos depois de ter começado a ser escrito. foi um parto lento e certeiro. é o livro que faz sentido nesta altura, no percurso que o Manel fez, na obra que foi escrevendo que se confunde tanto com a vida que viveu.

o livro apresenta-nos Pedro, que ao longo dos anos se transforma em Anjo ao mesmo tempo que parece enlouquecer. a personagem de Pedro tem a mesma evolução que o próprio Manuel vai tendo na sua escrita ao longo deste últimos 30 e tantos anos - um caminho que indica loucura, desumanização, fim da lógica narrativa. Pedro e o Manuel querem voar. e este livro é o grande e belo voo do Manuel.

chama-se a este livro o primeiro romance de Manuel Cintra. mas nem este é só um romance nem o que foi escrito até agora foi só poesia. esta é a obra do Manuel, do poeta errante da cidade de Lisboa. este é o livro que se segue aos outros livros. assim como a vida do poeta não se enquadra em categorias também a sua obra não se pode fechar em nenhuma caixa.

mas é importante que se preparem. este é um livro violento, escatológico. é-o sobretudo porque faz com que questionemos e nos deparemos com alguns dos nossos piores tabus e fantasmas. se não fosse por mais nada este livro já valia por isso. mas vale por uma enormidade de outras razões. e merece cada um dos leitores que tiver.

há uns meses o José Anjos escreveu sobre o poeta o texto que transcrevo em baixo. sem ter lido o Parto o Zé soube explicar melhor do que eu conseguiria o que é o parto, não só neste livro como em toda a obra e vida do Manuel Cintra.

"Na semana passada tive a honra de abrir o lançamento do livro do Manuel Cintra dizendo um poema dele. Um de que gosto particularmente. Há vários, aliás. Mas ficou algo por dizer acerca do Manuel. Sem caganças. O Manuel Cintra é um dos meus poetas preferidos de sempre. Mas é acima de tudo - e de muitos também e de lado e por vezes por todo o lado - um poeta do presente, o poeta do agora em todos os sentidos e com todos os sentidos que cabem no agora. E os que não cabem também, que o Manuel Cintra é muito maior do que o seu próprio traço, talvez até maior do que a liberdade de quem é mãe e filha ao mesmo tempo. E os poemas que caem no berço do seu regaço de escaravelho em papel de placenta são dores, dores furiosas desse parto repetido, a cada momento, agora e agora outra vez, da liberdade. Das mais belas e bem sofridas dores de parto, digo eu, que não sou parteira. A prova que o ser humano existe e respira nesta cidade e nasceu outra vez e neste preciso momento. E Agora. Um abraço pintado Manuel."
José Anjos

as Edições Guilhotina quando ainda não o eram


 Foi apenas uma ocasião feliz que me tenha encontrado numa noite quente de Verão com as que viriam a ser as editoras da Guilhotina: Diana Pimentel, Maria Quintans e Cláudia Lucas Chéu. Todas têm caminhos editoriais variados quer enquanto editoras ou enquanto autoras para além de viverem as três dentro da realidade editorial pelo percurso pessoal que foram formando. Conhecem o meio, as formas e os livros que querem defender. Sabem que caminho fazer, têm convicção, bons princípios e ideias claras. E assim depois de percursos diversos chegaram as três juntas à Guilhotina. Uma editora que promete muitas surpresas e um caminho único, do qual falarei (muito, acredito) nos próximos tempos.
Quando conversamos à volta de um copo de vinho branco o discurso das editoras flutua entre o positivo e o negativo, de forma apesar disso equilibrada. Admitem que os editores já não trazem prestígio aos autores como há uns anos atrás. Procura-se uma marca que prestigie. E isso não acontece por acaso – não se procura o editor porque essa figura foi desaparecendo. Diana Pimentel acredita que o que distingue esses editores dos outros é que o interesse ao receber uma proposta de livro para editar se centra apenas no texto. Apesar de esta formulação parecer clara, a verdade é que não o é. A construção de um escritor passa hoje por um gigante leque de condicionantes contextuais, os leitores têm exigências diferentes na procura do livro para ler, muitos são clientes e não leitores. Muitas vezes os editores regem-se por estas fórmulas tentando assim obter sucessos nas vendas. As figuras que medeiam a leitura já não são as mesmas, já não se procura um texto como se procurava há uns anos atrás quando os escritores não estavam envoltos numa teia de contextos tão complexa como esta - notoriedade, figura pública, prémios, polémicas, relações externas ao livro, entre outros.
É assim fundamental focarmo-nos na realidade do leitor. Podemos pensar esta questão das editoras pequenas ou editoras independentes de vários pontos de vista mas o do leitor é pouco reflectido. As editoras mais pequenas, ao serem dependentes do texto para o fazer vender – não podendo recorrer a estratégias comerciais para as quais não têm fundo de maneio e para as quais, no limite, nem têm interesse (uma vez que os objectivos passam apenas por tornar os livros sustentáveis por si) – apresentam-nos o texto de forma inócua, deixando-nos livremente a escolha do mesmo, que vive assim, ainda de forma mais presente, a força do próprio texto. Quem escolhe o que vai ler é o leitor e não o mercado, os livros são disponibilizados e não impostos por uma lógica comercial. Assim a Guilhotina promete uma escolha criteriosa de textos aos quais teremos acesso de forma activa enquanto leitores e, (posso apenas acreditar porque ainda não os li) de forma absolutamente apaixonada. 

A editora Guilhotina será apresentada esta sexta-feira, 21 de Novembro, no Primeiro Andar em Lisboa e serão lançados os três primeiros livros:
aerogramas, de Diana Pimentel, com apresentação de Fernanda Freitas e leituras de Raquel Marinho.
A Mala, de Valério Romão, com apresentação de Frederico Pedreira e leituras de Paula Lobo Antunes.
Trespasse, Cláudia Lucas Chéu, com apresentação de Miguel Real e leituras de Albano Jerónimo. 

 

sábado, 15 de novembro de 2014

o Imediatismo de Hakim Bey

No seu livro Zona Autónoma Temporária, Hakim Bey defende que toda a experiência é mediada por tudo o que está entre ela e nós. A arte é a manifestação dessa mesma experiência.
Há artes mais mediadas que outras - ouvir um CD, ou ver televisão é mais mediada do que ver um ballet ao vivo por exemplo.
A forma como o que Hakim Bey chama de "Capitalismo Moderno" conduz a arte leva a formas extremas de mediação. Este facto deve-se sobretudo a um fosso maior que se cria entre a produção e o consumo da arte. O consumo da arte é levado a sítios tão extremos que vamos mesmo perdendo a noção do que originalmente nos entusiasma na arte: a experiência imediata, a honestidade e franqueza, o que vem da nossa natureza animal.
Enquanto artistas devemos então procurar esse imediatismo, devendo procurá-lo para nós e para os outros sem dar a entender que o fazemos para que essa experiência artística seja assim o menos mediada possível. A arte tem de entrar na vida quotidiana de forma discreta e absoluta, não em forma de arte, algo que não pareça nunca passível de acção comercial. Desta forma a arte está dependente do contexto e não de um programa estético que valha por si. Se a arte está no quotidiano então não vale isoladamente.
Desta forma a figura do artista é também eliminada. todos são participantes e todos são actores da obra de arte em medidas iguais.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

regressar a uma casa que não existe

Cláudia Clemente já tinha escrito dois livros de contos e um livro de teatro. Este é o primeiro romance. no entanto é um romance fragmentário que pode ter ligações com esse universo do conto. numa série de fragmentos articulados de forma absolutamente orgânica a autora conta-nos várias histórias que aparentemente são distantes mas que a determinado momento do livro se unem com uma naturalidade que escapa ao próprio leitor.
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.


A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

abismos

procuramos nos livros sempre algo extraordinário. conforme vamos encontrando, mais vamos procurando. se conseguirmos absorver o que nos é dado a ler e o que o extraordinário transmite então aí corremos o risco de nos tornarmos mais exigentes. conseguimos dizer que um livro é bom, mas a nossa fasquia sobe até sítios difíceis de alcançar.


neste livro de meckert vou saltar directamente para o último conto do livro, o Abismo. os outros são bons contos, mas, lá está, lêem-se com relativa tranquilidade. este, pelo contrário, leva-nos a abismos perigosos. com alguma investigação podemos ficar a saber que pelo menos o contexto em que se passa a história é real, mas ainda assim muda pouco no tipo de abismo em que entramos (já não digo caímos por ser de uma absoluta redundância, por todas as razões, não apenas as gramaticais). o sítio que meckert encontra é um sítio nosso, comum, que nos pode ou não ter sido desvendado. o temor que se abre como portas metálicas é um temor comum à humanidade, ao conjunto, ao limite desta nossa condição que se mantém tão desconhecida. uma procura intensa de uma visibilidade que só a nossa possibilidade de morte torna possível, por mais irónico que isso seja. é tão humano querermos ser vistos como tornar os outros invisíveis. só vemos o que é extraordinário, que rompe barreiras e convenções, mas dificilmente nos fascinamos com o comum. na própria literatura é raro quem consegue de forma eficaz retratar o normal. quem o faz é só por esse feito um escritor fantástico. jean meckert era um escritor extraordinário que soube elevar a sua absoluta normalidade e invisibilidade a um medo de todos nós, humano e orgânico, um medo que toca por um lado a solidão, pelo outro a certeza da nossa finitude.

A vida de Jean Meckert esteve longe de ser fácil. Figura rebelde das letras francesas, Meckert nasceu em Paris a 24 de Novembro de 1910, tendo sido separado da família em 1920 e enviado para o asilo Lambrechts, uma instituição protestante situada em Courbevoie. Desses quatro anos de orfanato ganhou uma repulsa pelo ensino religioso, guardando para sempre os sentimentos de abandono e humilhação. Na escola revelou-se um bom aluno, obtendo o diploma do ensino primário e trabalhando como aprendiz numa empresa de construção de motores eléctricos. Em 1927, já como empregado de escritório, ingressa no Crédit Lyonnais, lugar onde a sua mãe trabalhava como empregada de limpeza. Apanhado pela crise em 1929, Meckert perde o emprego e vai subsistindo através de pequenos trabalhos. Para escapar a esta vida miserável alista-se no exército em 1930, por um período de dezoito meses, sendo punido com várias penas de prisão por ausências injustificadas, conseguindo ainda assim ser promovido ao posto de cabo pelo comandante da 5ª Companhia de Engenharia. Ao regressar à vida civil em 1932, vê-se novamente mergulhado na pobreza. Estávamos na grande época do desemprego, onde era necessário fazer de tudo para sobreviver, e Meckert deitou a mão a tudo o que conseguiu, como o trabalho de vendedor ambulante ao portão da fábrica da Renault. O seu quarto de hotel, em Belleville, torna-se a sua «última trincheira», o refúgio onde escreverá narrativas inspiradas na sua própria existência, designadamente os três contos publicados em “Abismo e outros Contos” (Antígona, 2013): “Um Crime”, “O Bom Samaritano” e “Abismo”.

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...