na próxima semana, dia 6 de Fevereiro, vou estar à conversa com o escritor Afonso Cruz
sobre o seu último livro. no entanto aproveitei o privilégio para poder
desenvolver com ele o tema da viagem, a metáfora mais poderosa de todos
os seus livros e do seu percurso.
em Setúbal, na Casa da Cultura, programação Muito cá de casa do José Teófilo Duarte. conto como sempre com o apoio da minha querida livraria Culsete e da livreira Fátima Ribeiro de Medeiros.
O livro é da Editora Objectiva.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
NicotinaZine #07
ouvi falar pela primeira vez do conceito de fanzine há uns anos valentes, quando me perguntaram se não queríamos fazer uma com a Respigarte que andava a produzir alguns produtos culturais ditos “alternativos” ou “independentes” ou outro termo igualmente discutível. fiquei na altura fascinada com o espaço de liberdade com o qual se definia a revista, despretensiosa, leve. uma revista que pertencia em absoluto à tríade editor, leitor, autor, numa relação pouco mediada, com o mínimo de intervenção entre o que quer ser dito e o que é lido.
a NicotinaZine é uma revista-comunidade, pertence aos editores-poetas Marta Navarro e João Silveira que passam parte do seu tempo e descobrir alguns projécteis literários que arriscam (porque podem e bem) publicar na revista. para além disso adoptam alguns escritores que têm crescido com a fanzine aproveitando esse espaço para testar textos que não cabem noutros sítios. assim a NicotinaZine é também um espaço de teste, experiência, novidade.
saiu agora a NicotinaZine #07. um número que segue a tradição dos outros números, com uma forte componente gráfica com ilustrações plurais que causam o já esperado efeito de estranheza e compromisso. páginas onde nos demoramos em ligações e pontes entre as páginas que as rodeiam.
não é fácil conseguir-se a unidade que a NicotinaZine consegue aqui. com uma liberdade grande dos editores que optam por deixar a escrita ao critério dos autores, a verdade é que quando lemos este número encontramos uma unidade forte. entramos dentro de jogos mentais muito privados, que nos acontecem sem que normalmente os consigamos objectivar e nomear. aqui são expostos como se os autores estivessem a dialogar uns com os outros, numa partilha de um segredo que torna esta revista um espaço de conforto e silêncio. solidão que é imposta pelo dia, desejada quando não se alcança, espaço precioso de criação e de memória, viagem à infância, a um espaço tão perdido quanto necessário.
é um número poderoso e raro. já escrevi demais porque este número pretende ser um segredo para cada um dos leitores. e cada um terá a sua própria história para escrever.
para informações, dúvidas, compras on-line &etc escrevam para nicotinazine@gmail.com. à venda também nas melhores livrarias do país, para já no Sr Teste, Pó dos Livros, Letra Livre em Lisboa e Snob, em Guimarães.
a NicotinaZine é uma revista-comunidade, pertence aos editores-poetas Marta Navarro e João Silveira que passam parte do seu tempo e descobrir alguns projécteis literários que arriscam (porque podem e bem) publicar na revista. para além disso adoptam alguns escritores que têm crescido com a fanzine aproveitando esse espaço para testar textos que não cabem noutros sítios. assim a NicotinaZine é também um espaço de teste, experiência, novidade.
saiu agora a NicotinaZine #07. um número que segue a tradição dos outros números, com uma forte componente gráfica com ilustrações plurais que causam o já esperado efeito de estranheza e compromisso. páginas onde nos demoramos em ligações e pontes entre as páginas que as rodeiam.
não é fácil conseguir-se a unidade que a NicotinaZine consegue aqui. com uma liberdade grande dos editores que optam por deixar a escrita ao critério dos autores, a verdade é que quando lemos este número encontramos uma unidade forte. entramos dentro de jogos mentais muito privados, que nos acontecem sem que normalmente os consigamos objectivar e nomear. aqui são expostos como se os autores estivessem a dialogar uns com os outros, numa partilha de um segredo que torna esta revista um espaço de conforto e silêncio. solidão que é imposta pelo dia, desejada quando não se alcança, espaço precioso de criação e de memória, viagem à infância, a um espaço tão perdido quanto necessário.
é um número poderoso e raro. já escrevi demais porque este número pretende ser um segredo para cada um dos leitores. e cada um terá a sua própria história para escrever.
para informações, dúvidas, compras on-line &etc escrevam para nicotinazine@gmail.com. à venda também nas melhores livrarias do país, para já no Sr Teste, Pó dos Livros, Letra Livre em Lisboa e Snob, em Guimarães.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
O amor em visita
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder
the workshop is the institutionalized cafe
while
the french poet can discover the intellectual life of his times at a
cafe, the american requires a degree program. the workshop is the
institutionalized cafe.
Donald Hall
Poetry and Ambition
Donald Hall
Poetry and Ambition
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Teoria da Viagem: uma Poética da Geografia, Michel Onfray
neste livro Michel Onfray fala com os viajantes. com os que viajam a vida inteira e passam os intervalos das viagens a pensar voltar a sair. para quem gosta deste estilo de vida nómada, este livro é um diálogo pessoal. uma conversa. um assentimento de tudo o que já vimos e experienciámos. a viagem solitária que me levou aos meus dias em Buenos Aires, a viagem com um amigo que me levou à Capadócia. e no livro há o nosso espaço de resposta porque Onfray sugere experiências e a nossa resposta é o assentimento ou o questionamento de volta. será que as viagens não são para se repetir, como ele afirma? saí de Buenos Aires, de Nova York e de Paris com um até já, mas saí do Niger ou de Banguecoque com a nostalgia da despedida. e não foi por acaso. há sítios que ainda têm segredos para nos contar ou segredos que partilhamos com os sítios e que queremos contar a outras pessoas. a esses sabemos que vamos regressar.
e como em todas as viagens há o regresso. é disso que Michel Onfray fala neste livro. fala do ciclo fechado da nossa vontade de sair. o estar, sair, ver, viver e regressar. regressar diferente e com vontade de sair outra vez para depois regressar. fala da casa, dos nossos sítios.
(acho mesmo que a certa altura falou da minha janela.)
a viagem é erroneamente considerada um momento com início e fim. a viagem é, na verdade, um estado de viagem onde podemos habitar continuamente. esse é um dos segredos que Onfray nos revela neste livro, mesmo sem o nomear.
[descobri este livro na melhor e maior de todas as viagens. as viagens também marcam os livros que lemos e o contrário é também tão verdade. por isso, para mim, agora, este livro está marcado, de alguma forma, como o primeiro. imprescindível para qualquer leitor-viajante. para mim imprescindível desde que soube que existia.]
e como em todas as viagens há o regresso. é disso que Michel Onfray fala neste livro. fala do ciclo fechado da nossa vontade de sair. o estar, sair, ver, viver e regressar. regressar diferente e com vontade de sair outra vez para depois regressar. fala da casa, dos nossos sítios.
(acho mesmo que a certa altura falou da minha janela.)
a viagem é erroneamente considerada um momento com início e fim. a viagem é, na verdade, um estado de viagem onde podemos habitar continuamente. esse é um dos segredos que Onfray nos revela neste livro, mesmo sem o nomear.
[descobri este livro na melhor e maior de todas as viagens. as viagens também marcam os livros que lemos e o contrário é também tão verdade. por isso, para mim, agora, este livro está marcado, de alguma forma, como o primeiro. imprescindível para qualquer leitor-viajante. para mim imprescindível desde que soube que existia.]
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
o LEVA na Câmara dos Solicitadores
A revista da Câmara dos Solicitadores fez uma simpática reportagem sobre o LEVA - Ler em Voz Alta. Clicar na imagem para aumentar. E esperem novidades ainda esta semana!
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
a condição da edição independente [entre aspas], hoje
![]() |
| Zona Autónoma Temporária Hakim Bey |
publicar em pequenas editoras terá sempre dois lados de uma só questão - a independência perante as rigorosas leis do mercado cada vez mais castradoras. por um lado isto permite-nos delinear em absoluto a nossa linha editorial, escolher os autores e os textos. por outro lado retira-nos alguns anti-corpos contra a contaminação dos grupos, amigos e inter-influências contra as quais estamos desarmados. o mercado como qualquer outra forma de autoridade ajuda-nos a delinear de forma externa a nós um esquema de actuação. a liberdade editorial permite que não tenhamos de viver sob esse jugo mas que então sejamos absolutamente responsáveis pelos leitores que formamos, pelos autores que escolhemos editar. esta liberdade é fascinante por estar a delinear um futuro absolutamente incerto do que será o panorama editorial dos primeiros vinte anos deste século mas à liberdade vem sempre associada uma grande dose de responsabilidade, já o diziam os existencialistas que tanto admiravam estes autónomos movimentos culturais. e o que tenho descoberto e aprendido com os piores e mais negativos discursos relativos a esta gente toda é que é fácil cair numa lógica que envolve à volta do livro tudo o que está para além do texto, perdendo assim o que realmente importa. a um livro ligamos um lançamento, as críticas dos amigos, fotografias nas redes sociais, problemas de distribuição, questões financeiras, encontros e outros eventos. e o carácter sagrado do texto e da sua criação perde-se no meio de um mar contaminado de outros focos de luz.
não quero com este texto mostrar uma postura negativa, não foi isso que ganhei com estes primeiros seis meses de investigação. o que percebi foi que é também dos leitores a responsabilidade que vem da liberdade do meio editorial. que os leitores estão mais próximos destes livros e destes autores, que os conhecem de perto, podem ler os textos com uma luz diferente e mais esclarecida. e que um leitor atento pode assim perceber as excepções ao que acabei a dizer - aliás se interessa a alguém perceber estas questões é mesmo ao leitor porque é o texto que lhe chega que pode vir contaminado. e percebemos rapidamente que quando descobrimos um editor que se foca no texto e no autor e posteriormente no leitor, desfocando-se de tudo o que está para além disso, sabemos que estamos perante um editor raro. e perante um autor raro e tornamo-nos assim leitores profícuos e maiores. e tudo isto porque acredito fortemente que um texto que recebe estas contaminações não nos chega nas condições que poderia chegar se não as tivesse - ainda que seja questionável esta afirmação.
o tão falado amor aos livros tem de ser substituído pelo amor ao texto. e é necessário recuperar nessa relação de amor a intimidade nossa, leitores, com o texto. e não estou com isto a abolir as leituras públicas, os lançamentos e as festas, estou só a dizer que não é aí que está o foco. e felizmente para muitos dos meus editores (e muitos dos que estão agora a nascer) aquilo que estou a dizer é absolutamente linear. e é com esses livros que ando na mochila.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
[do fim das formas literárias]
Em todos esses arautos da modernidade se assiste ao nascimento do poema
sem eu e sem arroubos expressivos, do "drama-poesia" no sentido que a
expressão ganha em alguém como Maria Gabriela Llansol, que, rejeitando a
poesia como forma de expressão, assimila totalmente ao seu texto de
prosa esta postura do sujeito posto à distância, numa escrita muitas
vezes referida como "poética", mas que recusa os excessos da emoção
("sem perda de sensibilidade") e da
projecção (auto)biográfica, através do trabalho, antimimético, de
(trans)figuração na linguagem. E aqui, como em tanto poema
autenticamente moderno, figurar, criar figura, é objectivar a expressão.
Para Llansol, é esse "o poema que vai adiante": o de uma linguagem com
um alto grau de originalidade, numa busca incessante da energia do "sexo
do texto", incomparavelmente criativa e carregada de interrogações, mas
também da densidade do novo que forma uma trama cerradíssima, numa
escrita sempre fragmentária, completa e sempre sem resto.
Geografia Imaterial
João Barrento
Documenta, 2014
Geografia Imaterial
João Barrento
Documenta, 2014
[do acontecimento na poesia]
O poema é quase sempre mais uma
construção (e, sendo assim, o meu acesso a ele não é imediato nem
espontâneo, tenho de aprender a desconstruí-lo), construção essa que
permite, a quem escreve, agir com as palavras, dar a ver e ouvir o mundo
de uma forma que a civilização e a razão sublimam ou recalcam; e a quem
lê, ter acesso, talvez mais profundo e luminoso, ao que está a
acontecer.
João Barrento
Geografia Imaterial
Documenta, 2014
João Barrento
Geografia Imaterial
Documenta, 2014
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
no sorriso louco das mães
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.
Herberto Helder
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Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX
O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...







