a partir de 16 de Setembro vou estar em Lisboa, na livraria LEITURIA com
um curso de literatura portuguesa do séc. XX. guardem os vossos fins de
tarde de 4ª feira até fim de Outubro. pela minha mesa os trabalhos já
começaram.
(mais notícias em breve)
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
domingo, 16 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
o dia em que a kristof nos falou da mentira
agota kristof é um nome que soa a poucos. foi, em Portugal, uma aposta de poucos para um público pequeno. mas há nesta escritora húngara um segredo que merece ser dito em forma de leitura. o segredo que conhece quem lê.
este é um livro sobre a mentira, que é como quem diz, um livro sobre a verdade. o que é a verdade? o que na ficção nos é dito como sendo verdade? assumimos a ficção como invenção e nunca como mentira. e se nos fosse apresentado como mentira o que até agora acreditamos ser apenas ficção?
kristof tira-nos o chão, envolve-nos numa trama que não sabe ser linear ou transparente. a nossa relação com as personagens não é de reconhecimento nem de desconfiança. é de terror, medo, e sobretudo, claustrofobia. tudo é claustrofóbico em kristof e na Trilogia da Cidade de K.
quando lemos kristof tudo começa a ser diferente. a realidade e a literatura e as pontes entre elas. há momentos que nos ressoam claustrofóbicos quando antes eram felizes. crianças a desenhar, pessoas nos bancos do jardim, jardins com canteiros, cortinas. a literatura aqui entra dentro do quotidiano mas não por identificação e sim por desconforto. kristof torna o mundo desconfortável e aquela história passa a ser unicamente contada a nós, o que torna maior o sentimento de asfixia. e perscrutamos os olhares dos outros que lêem o mesmo livro que nós tentando imaginar se sentem o nosso temor. se sentem a segurança inicial que depois nos é retirada. se entendem como nós o efeito de cada uma daquelas personagens.
e por fim acabamos por estar perante um livro inclassificável que no final percebemos que se calhar nem é escrito pela kristof, tão personagem como as suas personagens. este livro muda inequivocamente a nossa forma de ver a escrita. nunca mais um livro será apenas um livro depois da leitura da Trilogia da Cidade de K.
a Trilogia da Cidade de K foi publicada pela Asa inicialmente em três volumes separados sendo que é mais que obrigatório lê-los todos e pela ordem certa. tanto os três livros como a Trilogia estão esgotados. procura-se um exemplar desesperadamente.
este é um livro sobre a mentira, que é como quem diz, um livro sobre a verdade. o que é a verdade? o que na ficção nos é dito como sendo verdade? assumimos a ficção como invenção e nunca como mentira. e se nos fosse apresentado como mentira o que até agora acreditamos ser apenas ficção?
kristof tira-nos o chão, envolve-nos numa trama que não sabe ser linear ou transparente. a nossa relação com as personagens não é de reconhecimento nem de desconfiança. é de terror, medo, e sobretudo, claustrofobia. tudo é claustrofóbico em kristof e na Trilogia da Cidade de K.
quando lemos kristof tudo começa a ser diferente. a realidade e a literatura e as pontes entre elas. há momentos que nos ressoam claustrofóbicos quando antes eram felizes. crianças a desenhar, pessoas nos bancos do jardim, jardins com canteiros, cortinas. a literatura aqui entra dentro do quotidiano mas não por identificação e sim por desconforto. kristof torna o mundo desconfortável e aquela história passa a ser unicamente contada a nós, o que torna maior o sentimento de asfixia. e perscrutamos os olhares dos outros que lêem o mesmo livro que nós tentando imaginar se sentem o nosso temor. se sentem a segurança inicial que depois nos é retirada. se entendem como nós o efeito de cada uma daquelas personagens.
e por fim acabamos por estar perante um livro inclassificável que no final percebemos que se calhar nem é escrito pela kristof, tão personagem como as suas personagens. este livro muda inequivocamente a nossa forma de ver a escrita. nunca mais um livro será apenas um livro depois da leitura da Trilogia da Cidade de K.
a Trilogia da Cidade de K foi publicada pela Asa inicialmente em três volumes separados sendo que é mais que obrigatório lê-los todos e pela ordem certa. tanto os três livros como a Trilogia estão esgotados. procura-se um exemplar desesperadamente.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
novos cursos em Setembro, Cascais e Lisboa
a partir de meados de setembro voltam dois cursos meus, iguais mas em duas cidades diferentes (o que os torna também distintos), Lisboa e Cascais. dou mais notícias em breve mas deixo-vos já a lista de autores e de sessões para irem pensando em como me ajudar a ter trabalho até à lua durante todo o Verão. enviem-me textos, entrevistas, sugestões, poemas. por aqui ou pelo e-mail, o mesmo de sempre: rosa.b.azev@gmail.com
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura.
As oito sessões direccionam-se sobretudo a quem não é da área dos livros por ser um curso introdutório, e procura dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
Programa
1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3ª sessão
surrealismo
4ª sessão
ainda o surrealismo
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
5ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca
6ª sessão
a literatura do agora, a que resiste e a que há-de resistir
7ª sessão
leituras e conversas
autores
eça de queirós, cesário verde, ângelo de lima, fernando pessoa e heterónimos, mário de sá-carneiro, mário cesariny, antónio josé forte, mário henrique-leiria, antónio maria lisboa, manuel de lima, herberto helder, manuel da fonseca, manuel de castro, luiz pacheco, alexandre o’neill, carlos de oliveira, mário dionísio, maria velho da costa, vergílio ferreira, rui nunes, joaquim manuel magalhães, antónio franco alexandre, jorge de sousa braga, maria gabriela llansol, nuno bragança, josé saramago, ana teresa pereira, teresa veiga, entre outros
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura.
As oito sessões direccionam-se sobretudo a quem não é da área dos livros por ser um curso introdutório, e procura dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
Programa
1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3ª sessão
surrealismo
4ª sessão
ainda o surrealismo
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
5ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca
6ª sessão
a literatura do agora, a que resiste e a que há-de resistir
7ª sessão
leituras e conversas
autores
eça de queirós, cesário verde, ângelo de lima, fernando pessoa e heterónimos, mário de sá-carneiro, mário cesariny, antónio josé forte, mário henrique-leiria, antónio maria lisboa, manuel de lima, herberto helder, manuel da fonseca, manuel de castro, luiz pacheco, alexandre o’neill, carlos de oliveira, mário dionísio, maria velho da costa, vergílio ferreira, rui nunes, joaquim manuel magalhães, antónio franco alexandre, jorge de sousa braga, maria gabriela llansol, nuno bragança, josé saramago, ana teresa pereira, teresa veiga, entre outros
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Reverso // Encontro de autores, artistas e editores independentes
PROGRAMA
DIA 14, QUINTA-FEIRA
17h00: Abertura da Feira do Livro e das Exposições
18h00-20h00 [Salão]
Comunicação de abertura | Apresentação de projectos e leituras: Revista Apócrifa – Projecto Literário em Curso, com Vasco Macedo e convidados | Lançamento: Vós, Luminosos e Elevados Anjos, de William T. Vollmann, da Editora 7 Nós, apresentado por Manuel João Neto | Mesa redonda: Da edição à recusa do silêncio, moderada por Rosa Azevedo, com Diogo Madredeus, Eduardo Sousa, Maria Quintans e Paulo da Costa Domingos
[20h00-21h30: pausa para jantar]
21h30-22h30 [Bar] Leituras e cinema: Poesia do século XXI, por Cláudio Henriques, Iolanda Laranjeiro, Miguel Santos e Susana Arrais | Arquipélago: projecção do episódio Rui Nunes – mensageiro diferido | Projecção da curta-metragem A mão cinzenta, de Hugo Magro | Concerto: Piiano
23h30: Selecção musical de Raquel Nobre Guerra e Valério Romão
DIA 15, SEXTA-FEIRA
17h00–22h00: Feira do Livro e Exposições
18h30-20h00 [Salão]
Apresentação de projectos: Flanzine e Flan de Tal; Abysmo | Mesa redonda: Ilustração e Tipografia, moderada por Rui Miguel Ribeiro, com Luís Henriques, Pedro Serpa e Sara Figueiredo Costa
[20h00-21h30: pausa para jantar]
21h30-23h30 [Bar]
Mesa redonda: Nas costas da loucura, moderada por David Teles Pereira, com Abel Neves, Frederico Pedreira, Miguel Cardoso e Vasco Gato | Leituras: Preparativos inúteis para um motim em Lisboa, por Miguel Cardoso; Voo Rasante e Natural in Verso – Mariposa Azual; Que o fogo recorde os nossos nomes, de Antonio Orihuela, por Daniel Macedo Pinto | Concerto: Favola da Medusa
23h30: Selecção musical de Vasco Gato e Frederico Pedreira
DIA 16, SÁBADO
17h00–22h00: Feira do Livro e Exposições
17h30-20h00 [Salão]
Apresentação de projectos: Editora Palavras por Dentro | Debate: Edição em Portugal – Uma história de dependência ou de independência?, com Hugo Xavier e Rosa Azevedo | Leituras: A morte do artista, textos de e por Fernanda Cunha, Firmino Bernardo, João Eduardo Ferreira e Manuel Halpern | Mesa redonda: Os Espaços da Crítica, moderada por Paulo Tavares, com António Carlos Cortez, Gustavo Rubim, Joana Emídio Marques, José Mário Silva, Maria da Conceição Caleiro e Nuno Fonseca
[20h00-21h30: pausa para jantar]
21h30-23h30 [Bar]: Lançamento: Quiz show, de Kraus G., da Editora a tua mãe*, apresentado por Rafael Dionísio | Leituras: Autores Artefacto, por Paulo Tavares e Sara M. Felício; “O mais belo espectáculo de horror somos nós”, por Rosa Azevedo e convidados; POEMANIFESTO Revisitado – Flan de Tal & Senhor Vulcão Concerto: The Crubi (Beatriz Bagulho – baixo / Cruna – bateria) + Nuno Moura (Leituras)
23h30: Selecção musical de Grémio Nefelibata
EXPOSIÇÕES
Trabalhos soltos, de Clube do Inferno (André Pereira, Astromanta, Hetamoé, Hugo e Mao) | Four Hours, de David Gonçalves | (sem título), de Hugo Xavier | Rememoração, de José Josué | Arritmias, de José Pedro Trindade
EDITORAS E PROJECTOS PRESENTE NA FEIRA DO LIVRO
abysmo, 7 Nós, Apenas Livros, Artefacto, By the Book, Companhia das Ilhas, Clube do Inferno, Diagramas, Do Lado Esquerdo, DSO, Douda Correria & Mia Soave, Editora a tua mãe*, Flanzine e Flan de Tal, Guilhotina, Grisu, Língua Morta, Livro de Ontem, Mariposa Azual, não (edições), Oficina do Cego, Palavras por Dentro, Palimpsesto, Photozine Azedume, Revista Apócrifa, Revista Bíblia, Rodrigo Miragaia, Tea for One, The Portfolio Project & Huggybooks
ler na retrete, henry miller
[…] Não é necessária muita reflexão para concluir que, se uma pessoa fosse justa consigo mesma e tudo estivesse bem no mundo, só a última razão, a que hoje em dia tem menos importância, seria válida.”
este é um livro do qual não se devia falar. podíamos dizer que é um livro sobre a leitura, pragmática e de profundidade, livro que questiona a utilidade da própria leitura - ler na retrete é ler com uma utilidade contextual. qualquer uma destas interpretações, não estando longe da verdade, estão a fugir ao próprio propósito do livro, discutir e incentivar a absoluta liberdade do leitor que não deve necessitar da leitura para disfarçar momentos de silêncio e contemplação.
na verdade assistimos a uma dessacralização da leitura, leitura essa que é orgânica e não sagrada, interior e não cumpre regras ou ditames, pertence a todos de forma democratizada e independente de constrangimentos exteriores como a história ou a cultura - é por isso um livro sobre a solidão, uma apologia da individualidade e da leitura como parte integrante do homem e que por isso não é parte obrigatória dessa humanidade.
(e é também, claro, um livro sobre a importância de nos libertarmos do que em nós está a mais e que não é utilizado pelo corpo e que por isso deve ser expelido libertando-nos de impurezas.)
não é possível concluir se Miller defende ou condena a leitura na retrete, no limite nem interessa. não se pode afirmar nada deste teor em livros que são hinos à liberdade do leitor. fica a cada leitor o entendimento de uma resposta na verdade impossível de obter.
esta é uma edição cuidada e conjunta ignota e sr teste. em bom.
para comprar, aqui: assimparece@gmail.com ou na livraria sr teste + ignota, na S. I, Guilherme Cossoul, em Lisboa.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
vem aí o Reverso // Encontro de autores, artistas e editores independentes
na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul em Lisboa
14 a 16 de Maio de 2015
Mantendo a sua tradição de acolher vários encontros artísticos e culturais, a Cossoul, que comemora este ano 130 anos de existência, apresentará em Maio a primeira edição do REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES, que abrirá as portas a criadores de diversas nacionalidades.
Entre 14 e 16 de Maio de 2015, a programação deste evento consistirá num leque variado de iniciativas, que passarão por apresentações, mesas redondas, lançamentos, concertos, performances, recitais, exposições e uma feira do livro.
Sem propagandas messiânicas ou lógicas aglutinadoras, o intuito é o de acolher projectos independentes, revelando a vitalidade do que, nos nossos dias, se constrói e move para além da homogeneização das ditas indústrias culturais ou do espartilho global do mero entretenimento. Estabelecer eventuais pontos de contacto e partilha. Provocar o espaço da imaginação.
Por gosto, e por um pouco mais de cultura.
Organização: COSSOUL
Coordenadores: Paulo Tavares; Rosa Azevedo; Ricardo Ribeiro
Apoio: Cláudio Henriques, Fábio Daniel, Débora Figueiredo
Página do facebook.
sábado, 18 de abril de 2015
o dia em que descobri que ele trocava a vida por candeeiros velhos
gosto dos dias em que descubro livros preciosos. ontem, por causa do Carlos Vaz Marques e a TSF, ouvi um poema de León de Greiff de um livro recentemente publicado pela abysmo, Troco a Minha Vida por Candeeiros Velhos.
o que me impressionou primeiro quando comecei a pesquisar o livro e o autor, foi descobrir o objecto incrível e cuidado que o livro é. no início tem três textos que contextualizam a obra, do Embaixador da Colômbia em Portugal, Germán Santamaría Barragán, de Jerónimo Pizarro, mentor e prefaciador, e Gastão Cruz, tradutor, que faz uma pequena e inspiradíssima reflexão sobre a tradução de poesia, não tão inspirada como as traduções que se seguem.
é um livro que, além dos textos referidos, fica ainda mais completo com fotografias, um glossário que explica a origem de muitas das palavras cuja tradução não chega para clarificar o contexto, e uma detalhada cronologia.
este pequeno livro é assim um objecto cuidado e completo, que se deixa ultrapassar pela beleza dos poemas modernistas cubanos que nos traz (o autor não adorava estas classificações literárias mas vamos usá-la para esclarecer o contexto). León de Greiff nasceu na Colômbia em 1895 e morre em 1976. É um dos mais importantes poetas colombianos com muitas ligações a Pessoa, ainda que a uma distância na época tão maior do que hoje. tem vários heterónimos, sendo os três mais importantes Leo Le Gris, Gaspar von der Nacht e Matías Aldecoa. foi um dos fundadores do movimento Panidas, um grupo de jovens que se juntava para falar do modernismo e da forma como o podiam trazer para a literatura. foi um dos nomes mais importantes da Revista Panida, de 1915, mesmo ano do Orfeu. é um poeta que acredita que a linguagem não lhe chega e por isso inventa palavras, dá-lhes novas dimensões textuais e culturais, o que torna ainda mais incrível o resultado das excelentes traduções de Gastão Cruz.
não há justiça no silêncio que tem rodeado este livro. quando o folheava tropecei num texto que li muitas vezes, primeiro o castelhano, depois a tadução, encontrando entre as duas uma plural dispersão de sentidos, uma beleza silenciosa, um monumento. ao reler o prefácio de Pizarro vejo que este se refere ao poema como a Tabacaria de Leon de Greiff. deixo o poema aqui, na versão original.
Canción de Sergio Stepansky
o que me impressionou primeiro quando comecei a pesquisar o livro e o autor, foi descobrir o objecto incrível e cuidado que o livro é. no início tem três textos que contextualizam a obra, do Embaixador da Colômbia em Portugal, Germán Santamaría Barragán, de Jerónimo Pizarro, mentor e prefaciador, e Gastão Cruz, tradutor, que faz uma pequena e inspiradíssima reflexão sobre a tradução de poesia, não tão inspirada como as traduções que se seguem.
é um livro que, além dos textos referidos, fica ainda mais completo com fotografias, um glossário que explica a origem de muitas das palavras cuja tradução não chega para clarificar o contexto, e uma detalhada cronologia.
este pequeno livro é assim um objecto cuidado e completo, que se deixa ultrapassar pela beleza dos poemas modernistas cubanos que nos traz (o autor não adorava estas classificações literárias mas vamos usá-la para esclarecer o contexto). León de Greiff nasceu na Colômbia em 1895 e morre em 1976. É um dos mais importantes poetas colombianos com muitas ligações a Pessoa, ainda que a uma distância na época tão maior do que hoje. tem vários heterónimos, sendo os três mais importantes Leo Le Gris, Gaspar von der Nacht e Matías Aldecoa. foi um dos fundadores do movimento Panidas, um grupo de jovens que se juntava para falar do modernismo e da forma como o podiam trazer para a literatura. foi um dos nomes mais importantes da Revista Panida, de 1915, mesmo ano do Orfeu. é um poeta que acredita que a linguagem não lhe chega e por isso inventa palavras, dá-lhes novas dimensões textuais e culturais, o que torna ainda mais incrível o resultado das excelentes traduções de Gastão Cruz.
não há justiça no silêncio que tem rodeado este livro. quando o folheava tropecei num texto que li muitas vezes, primeiro o castelhano, depois a tadução, encontrando entre as duas uma plural dispersão de sentidos, uma beleza silenciosa, um monumento. ao reler o prefácio de Pizarro vejo que este se refere ao poema como a Tabacaria de Leon de Greiff. deixo o poema aqui, na versão original.
En el recodo de todo camino
la vida me depare el bravo amor:
y un vaso de aguardiente, ajenjo o vino,
de arak o vodka o kirsch, o de ginebra;
un verso libre -audaz como el azor-,
una canción, un perfume calino,
un grifo, un gerifalte un búho, una culebra...
(y el bravo amor, el bravo amor, el bravo amor!)
En el recodo de cada calleja
la vida me depare el raro albur:
-con el tabardo roto, con la cachimba vieja
y el chambergo agorero y el buido reojo,
vagar so la alta noche de enlutecido azur:
murciélago macabro, sortílega corneja,
ambular, divagar, discurrir al ritmo del antojo...
(y el raro albur, el raro albur, el raroalbur!)
En el recodo de todo sendero
la vida me depare a ésa mujer:
y un horizonte para mi sed de aventurero,
una música honda para surcar sus ondas,
un corto día, un lento amanecer,
un lastrado silencio hosco y austero,
la soledad, de pupilas redondas...
(y ésa mujer, ésa mujer, ésa mujer!)
En el recodo de cada vereda
la vida me depare el ebrio azar:
absorto ante el miraje que en mis ojos se enreda
vibre yo -Prometeo de mi tontura pávida-;
ante mis ojos fulvos, fulja el cobre del mar:
su canto, en mis oídos mi grito acallar pueda!
y exalte mi delirio su furia fría y ávida...
(el ebrio azar, el ebrio azar el ebrio azar!)
Y en el recodo de todo camino
la vida me depare “un bel morir":
despéineme un balazo del pecho el vello fino,
destríce un tajo acerbo mi sien osada y frágil:
-de mi cansancio el terco ir y venir:
la fábrica de ensueños -tesoro de Aladino-,
mi vida turbia y tarda, mi ilusión tensa y ágil...-
(un bel morir, un bel morir, un bel morir!)
Netupiromba Finado 18 noviembre 1931
la vida me depare el bravo amor:
y un vaso de aguardiente, ajenjo o vino,
de arak o vodka o kirsch, o de ginebra;
un verso libre -audaz como el azor-,
una canción, un perfume calino,
un grifo, un gerifalte un búho, una culebra...
(y el bravo amor, el bravo amor, el bravo amor!)
En el recodo de cada calleja
la vida me depare el raro albur:
-con el tabardo roto, con la cachimba vieja
y el chambergo agorero y el buido reojo,
vagar so la alta noche de enlutecido azur:
murciélago macabro, sortílega corneja,
ambular, divagar, discurrir al ritmo del antojo...
(y el raro albur, el raro albur, el raroalbur!)
En el recodo de todo sendero
la vida me depare a ésa mujer:
y un horizonte para mi sed de aventurero,
una música honda para surcar sus ondas,
un corto día, un lento amanecer,
un lastrado silencio hosco y austero,
la soledad, de pupilas redondas...
(y ésa mujer, ésa mujer, ésa mujer!)
En el recodo de cada vereda
la vida me depare el ebrio azar:
absorto ante el miraje que en mis ojos se enreda
vibre yo -Prometeo de mi tontura pávida-;
ante mis ojos fulvos, fulja el cobre del mar:
su canto, en mis oídos mi grito acallar pueda!
y exalte mi delirio su furia fría y ávida...
(el ebrio azar, el ebrio azar el ebrio azar!)
Y en el recodo de todo camino
la vida me depare “un bel morir":
despéineme un balazo del pecho el vello fino,
destríce un tajo acerbo mi sien osada y frágil:
-de mi cansancio el terco ir y venir:
la fábrica de ensueños -tesoro de Aladino-,
mi vida turbia y tarda, mi ilusión tensa y ágil...-
(un bel morir, un bel morir, un bel morir!)
Netupiromba Finado 18 noviembre 1931
quarta-feira, 15 de abril de 2015
basta editar para sermos editores?
estamos numa época cinzenta, numa fase transitória para aprendermos a lidar com as facilidades que nos trouxe a globalização e a difusão monumental do fenómeno da internet e das suas múltiplas possibilidades. agora é mais fácil ter acesso ao conhecimento, o mundo fica pequeno, as distâncias relativizam-se. a comunicação alastra e temos acesso uns aos outros e às actividades de cada um de forma rápida e eficiente. estamos mais próximos, mais comprometidos e envolvidos.
no que respeita à edição creio que este fenómeno tem características muito interessantes. é tudo mais fácil. conhecer autores e editores em rede, partilhar textos, comunicar novas edições, gravações audio dos textos para além de textos escritos. como tenho referido recentemente, este fenómeno onde todos escrevem e todos publicam não tem mal nenhum, dá é mais trabalho a um leitor real. porque tem de ler cem para encontrar cinco muito bons e três destes se calhar não teriam publicado se não fosse este fenómeno.
no entanto há também pontos negativos. e esses pontos negativos devem ser bem observados e bem pensados, de forma mais crítica do que antes, antes do fenómeno. o nosso sentido crítico tem de ser mais trabalhado e mais assertivo.
esta velocidade furiosa traz-nos muitas vezes textos pouco maturados, de autores que não lêem porque acreditam que a inspiração escreve livros. mas este meu texto não é sobre eles. é sobre os editores. e aqui gostava que este texto se transformasse mais num questionamento. onde está a linha que diz que alguém é realmente um editor? uma questão que podia ser simples, não o é. hoje em dia qualquer pessoa pode pegar em alguns poemas de um amigo, imprimir de forma barata numa gráfica e afirmar-se como editor de revista ou de um livro. se pintar um quadro não sou pintora, se me puser na rua a cantar em voz alta não sou fadista (a sério que não seria...), dar uma aula a uma criança em casa não me torna professora e daí por diante. onde está a linha?
não acredito em formações académicas, se bem que é a única que dá diplomas. não acredito em absoluto (eu tenho um diploma de edição e estou longe de o ser). os melhores editores que conheço e que o são com toda a propriedade são editores que aprenderam a ser editores a ler, muito, a criar critérios, a envergonharem-se de alguns livros, a trabalhar, a pensar, a conviver com escritores. se calhar com isto estou a afirmar que conheço a minha linha ténue, ainda que não a consiga definir. será que há alguma forma de o fazer?
no que respeita à edição creio que este fenómeno tem características muito interessantes. é tudo mais fácil. conhecer autores e editores em rede, partilhar textos, comunicar novas edições, gravações audio dos textos para além de textos escritos. como tenho referido recentemente, este fenómeno onde todos escrevem e todos publicam não tem mal nenhum, dá é mais trabalho a um leitor real. porque tem de ler cem para encontrar cinco muito bons e três destes se calhar não teriam publicado se não fosse este fenómeno.
no entanto há também pontos negativos. e esses pontos negativos devem ser bem observados e bem pensados, de forma mais crítica do que antes, antes do fenómeno. o nosso sentido crítico tem de ser mais trabalhado e mais assertivo.
esta velocidade furiosa traz-nos muitas vezes textos pouco maturados, de autores que não lêem porque acreditam que a inspiração escreve livros. mas este meu texto não é sobre eles. é sobre os editores. e aqui gostava que este texto se transformasse mais num questionamento. onde está a linha que diz que alguém é realmente um editor? uma questão que podia ser simples, não o é. hoje em dia qualquer pessoa pode pegar em alguns poemas de um amigo, imprimir de forma barata numa gráfica e afirmar-se como editor de revista ou de um livro. se pintar um quadro não sou pintora, se me puser na rua a cantar em voz alta não sou fadista (a sério que não seria...), dar uma aula a uma criança em casa não me torna professora e daí por diante. onde está a linha?
não acredito em formações académicas, se bem que é a única que dá diplomas. não acredito em absoluto (eu tenho um diploma de edição e estou longe de o ser). os melhores editores que conheço e que o são com toda a propriedade são editores que aprenderam a ser editores a ler, muito, a criar critérios, a envergonharem-se de alguns livros, a trabalhar, a pensar, a conviver com escritores. se calhar com isto estou a afirmar que conheço a minha linha ténue, ainda que não a consiga definir. será que há alguma forma de o fazer?
terça-feira, 14 de abril de 2015
Escrever Poesia Hoje
O Muito cá de casa recebe no próximo dia 17 a antologia da Editora Mariposa azual, Voo Rasante.
Reunem-se aqui 67 poetas num único volume de textos na sua maioria inéditos. Regista-se neste documento a escrita de muitos autores que publicam em pequenas editoras, com pequenas tiragens, nalguns casos de apenas 100 exemplares. São, na sua maior parte, pouco conhecidos ou mesmo desconhecidos da maioria dos leitores. Circulam em pequenos grupos de admiradores, que na maior parte das vezes não se conhecem entre si.
São de Lisboa, do Porto, de Coimbra, das Caldas da Rainha, de Coimbra, de Guimarães, de Faro; vivem na Grécia, na Finlândia, em Londres, em Salamanca ou noutras cidades da Europa. Foram também convidados alguns autores brasileiros, de São Paulo, do Rio, de Minas, do Ceará, que vivem em Paris, em Berlim ou em Portugal. Todos escrevem poesia em português.
Um VOO RASANTE sobre uma realidade extensa, que não se esgota nestas páginas. Que abre as asas para ela.
Por ocasião do lançamento vamos falar sobre o que é escrever poesia hoje. Para isso contamos com a presença da editora Helena Vieira e o autor e crítico literário José Mário Silva. Para além disso a poeta Marta Navarro estará lá para ler alguns textos e falar connosco.
A moderação será minha, a organização de José Teófilo Duarte. Como sempre na Casa Da Cultura | Setúbal, 22h.
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Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX
O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...






