quarta-feira, 29 de junho de 2016

a edição mainstream e a honestidade intelectual

tenho estado estas semanas a pensar na arrogância de tantas vezes não aceitar pontos de vista colocados no mainstream quando se fala de edição. hesitei escrever sobre isso antes de ter a certeza que não é arrogância.

o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.

é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.

retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.

ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.

o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Festival Silêncio

Na próxima semana os Poetas do Povo marcam presença no FESTIVAL SILÊNCIO com um conjunto de seis sessões com curadoria minha. Está aqui um elenco de luxo, conto com vocês! Todas as sessões são no bar Vicking e duram um pouco menos de uma hora. Passem por lá enquanto circulam pelas imensas surpresas que este festival traz à cidade.
Ao meu elenco de luxo, obrigada

 
POETAS DO POVO (sessões 161 a 166) / O MUNDO NÃO SE FEZ PARA PENSARMOS NELE. Festival Silêncio, 1,2 e 3 de Julho
http://festivalsilencio.com/
Houve sempre poesia. Dentro de todos os séculos e todas as idades. E a poesia foi sempre escrita na razão de cada poeta mas junto de outros poetas. Em diferentes tempos e diferentes idades houve diferentes poesias, por razões que tanto eram pessoais como universais. Assim se foi fazendo, por aqui, a nossa história.
Porque o mundo não se fez para pensarmos nele mas sim para o escrevermos e lermos vamos agora percorrer quatro séculos de poesia e perceber que poesia havia para ser dita e lida e cantada, por tantos poetas, em tantas poesias, em tão bela e única história poética. Curadoria de Rosa Azevedo.
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POESIA E CLASSICISMO
1 de Julho 19h
Foi no tempo em que a poesia era salva em mar alto, poesia dos heróis, dos modernos, poesia que imagina a ponte entre o antes e um império inteiro por haver. É a poesia como a única linguagem possível.
António Poppe
Gustavo Rubim
Luís Serpa
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E ROMANTISMO
1 de Julho 21h
Houve o tempo em que a poesia teve de entender e cantar o amor. Instrumentalizou-se a palavra em prol do poeta, descobriu-se que a palavra não existia longe do eu. Foi o tempo das questões e não das respostas. Verbalizou-se a dúvida, poetizou-se o que era até então indizível.
Raquel Marinho
Cláudio Henriques
André Gago
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E REALISMO
2 de Julho 16h
Com o fim do séc. XIX o escritor percebeu que a escrita é uma arma com poderosas consequências. Percebeu a responsabilidade da palavra escrita, entendeu a sociedade como mutante e complexa. Foi o tempo em que a poesia teve consciência de si, da sua força no mundo enquanto pertença.
Maria Coutinho
Sara Felício
Nuno Miguel Guedes
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E MODERNISMO
2 de Julho 18h
Poesia autónoma, artística, cubista, futurista, libertadora, maquinal, moderna, fragmentária, metálica, violenta, simbolista, sonora, vibrante, suicida, irreverente, indiferente, fracturante, alucinante, modernista.
Ana Brandão
Ana Rocha
Patrícia Portela
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E SURREALISMO
3 de Julho 16h
Como nos disse António Maria Lisboa «A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.». Ao que poderia ter respondido Cesariny “Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”
Joana Bertholo
Margarida Ferra
Claudia Sampaio
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
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NOVÍSSIMA POESIA
3 de Julho 18h
Veio o tempo dos poetas. Sem escola, com a originalidade possível, na procura da palavra exacta na frase fragmentada. Uma poesia que chegou a todos, a lugares improváveis da cidade. E quando os poemas cobrem a cidade, os Poetas do Povo procuram neles a palavra exacta para a reproduzirem no último dia do Festival Silêncio, oferecendo a palavra aos seus ouvintes e dando aos leitores o espaço absoluto da poesia.
Marta Navarro
Inês Lago
Raquel Nobre Guerra
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)

domingo, 26 de junho de 2016

Prefácio de Poetas sem qualidades

Em 2002 Manuel de Freitas lança a antologia Poetas sem qualidades onde demonstra que, com o virar do século, a poesia tinha mudado. O que isso significa podem ler neste prefácio ainda hoje urgente e necessário.


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terça-feira, 7 de junho de 2016

das redes


hoje juntei-me com umas amigas que fizeram comigo um dos meus cursos há uns meses para falarmos da Maria Judite de Carvalho. juntamo-nos todos os meses para falar de um livro. decidimos que o próximo seria o Dinossauro Excelentíssimo do José Cardoso Pires. lembrei-me que há uns anos um aluno de um curso me tinha dito que era um livro incrível que eu devia ler. na mesa ao lado um senhor pede desculpa de interromper e diz que há uns anos digitalizou o livro e que nos pode passar. estranhamos a simpatia mas aceitamos. quando lhe dou o meu e-mail para me mandar o livro ele diz que foi por causa do curso que o digitalizou mas que tinha perdido o meu contacto, e que foi ele que fez o curso e que me falou do livro.
para além da coincidência houve outra coisa que me comoveu e que não consegui descrever. talvez a sensação de que há redes a ser construídas que nunca terei ideia verdadeira da dimensão que têm.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

REVERSO | 02



Entre a Rua da Esperança e a Calçada Marquês de Abrantes, a Cossoul abrirá este ano as suas portas a mais uma edição do REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES.
Nos dias 12, 13 e 14 de Maio de 2016, o n.º 61 da Avenida D. Carlos I, em Santos, volta a receber editores e criadores das diversas áreas artísticas – da poesia e da literatura ao teatro, da música às artes plásticas, passando pela arquitectura e pelo cinema.
Mais abrangente, mas idêntica no seu propósito, a 2.ª edição do Reverso pretende promover o encontro e a partilha de projectos e ideias independentes, contando com um conjunto variado de iniciativas: apresentações de projectos, mesas redondas, debates, lançamentos de livros, concertos, leituras, performances, exposições e projecções de curtas-metragens e documentários.Por gosto, e por um pouco mais de cultura.

quinta-feira, 31 de março de 2016

o segundo primeiro dia da livraria Snob


Ana Christelo
a Snob fecha daqui a minutos a porta do seu espaço físico, em Guimarães. durante este ano e meio mostrou à cidade que a cidade precisa de livros, e criou naquele espaço uma comunidade. leitores que se conheceram, que beberam uns copos de vinho juntos, que se tornaram amigos para além do espaço da livraria. ali nasceram projectos, fizeram-se lançamentos de livros, leituras de teatro, concertos. com o tempo a Snob foi ficando autónoma, deixou de ter horário fixo, acompanhava as pessoas quando elas precisavam de ali estar noite dentro.

quando hoje tendemos a lamentar o fecho deste espaço físico, percebemos com um pensamento mais profundo que o que tornava aquele espaço o que ele era, era na verdade essa comunidade. não eram as paredes, as estantes, no limite quase nem eram os livros, pelo menos não necessariamente aqueles livros. era, isso sim, a ideia do leitor. o leitor que ali encontrava o único espaço fora da solidão que a leitura merece. junto a esse leitor e a essa comunidade estavam os livreiros, e aqui quero falar do Duarte, o livreiro que neste últimos meses teve de perceber o que era a Snob. e chegou às conclusões que aqui vos descrevo. que a Snob era maior, era outro espaço que não só aquele.

o Duarte gosta de livros, gosta de vender livros. gosta de procurar, de ler, de falar com as pessoas, de encontrar leitores insuspeitos, encontrar quem ainda não saiba bem que é um leitor. gosta de estar ao pé das pessoas. gosta de ter o carro um caos, livros, caixas, pó e envelopes, sempre a caminho de outros sítios. gosta de viajar. e foi assim que o Duarte entendeu que o sítio da Snob era outro, e que o seu sítio nunca poderia ser um só, enraizado. 

e aqui nada se perdeu, tanto pelo contrário. podemos e devemos entender que o que a Snob fez foi tornar-se maior e, queremos acreditar, melhor. passando a estar em feiras, em cafés com leitores, em vários espaços em Guimarães com selecções de livros, on-line, no site e no facebook. e desde que o Duarte e a Snob tomaram essa decisão, há poucas semanas, a livraria começou a vender mais e melhor.

creio que todos ganhamos por ter o Duarte e a Snob mais perto. mais disponível para cada um dos leitores. a Snob terá, ainda mais agora, uma cara, uma ideia de si mais real. a Snob vai poder pesquisar mais, dedicar-se a cada um dos leitores, ler muito mais. e a livraria vai continuar em Guimarães, com o vinho, os lançamentos, as leituras, a ternura e dedicação do Duarte, mas vai também estar em Lisboa, no Porto, em Braga, em Paredes de Coura, em Coimbra e em muitos outros sítios. 

por isso é preciso continuarmos a ter na Snob a nossa livraria, a encomendar livros novos e raridades, a organizar eventos, a contar com o Duarte para feiras itinerantes.  porque este é o primeiro dia da Snob, um outro primeiro dia. que traz numa memória próxima e real todos e cada um dos incríveis dias passados na Rua D. João I. chegou apenas a hora de continuar essas memórias, em novos sítios. com todas as mesmas pessoas e tantas outras que começam a chegar.

para encomendas, conversas e questões
mail: livrariasnob@gmail.com

sexta-feira, 18 de março de 2016

da não leitura da crítica à entrada do fim-de-semana

continuamos a viver a ditadura do bem comportado. os livros são produzidos em massa e procuramos sempre perceber as falhas, os sítios onde o livro não cumpriu. é neste ponto que a crítica literária falha, a procura do erro. o terrível encontro entre a perfeição e a harmonia como um dos sítios da boa literatura.

há excepções, não só no livro como no leitor. o que sabe encontrar o sítio do desconforto e perceber o sítio em carne exposta da literatura. e não há leitores e críticos imaculados, vai existindo é quem consiga perceber que a escrita sem erros e sem falhas estruturais é uma literatura que engana.

há umas semanas o Gonçalo M Tavares dizia-me na conversa que tivemos em Setúbal que o erro na nossa forma de ler vem da escola que nos apresenta desafios por fases, só avançando para a fase seguinte se tivermos percebido a anterior. culturalmente habituamo-nos a isso: a perceber, a ver na dúvida um inimigo. literariamente habituamo-nos a ficar "viciados" nos livros, a "amar" os livros. a amar os livros que nos "agarram", que não conseguimos largar.  a ditadura do conforto, do descanso.

não podemos perder o sítio incrível que é aquele que nos desconforta. esse conceito de desconforto e incompreensão desapareceu dos jornais. mas ainda não desapareceu das conversas nem do silêncio. porque é no silêncio que esse sítio se desenvolve, porque os processos de entendimento são sempre processos íntimos, como deveria ser a leitura. 


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

a avó e o Steinbeck





há vinte anos a minha avó ofereceu-me este livro da biblioteca dela. li-o e depois ela chegou a minha casa com os outros livros do Steinbeck e ofereceu-mos. li-os todos e fui comprando os poucos os que ela não tinha. hoje recomecei a ler este que como foi o primeiro começa a fugir da memória, e porque hoje a minha avó já não lê livros mas ainda quer muito que vá lendo os livros que hoje já não consegue ler. e penso que a literatura é a minha história e que não há história que eu seja que não seja a literatura. neste caso a literatura que é também a história da minha avó.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Curso de Surrealismo Português










4 sessões à segunda-feira, entre as 19h e as 20h.
15, 22 e 29 de Fevereiro + 7 de Março

Preço: 50€
Inscrições até 8 de Fevereiro: 45€

geral@leituria.com ou rosa.b.azev@gmail.com


«A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.»

António Maria Lisboa












Vamos ter Cesariny, Pacheco, O'Neill, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa e outros. Vamos ter surrealismos e dadaísmos e outros ismos inventados por nós. Vamos conviver surrealisticamente. Vamos pensar surrealisticamente. Vamos surrealisticar. Podem vir a horas ou chegar atrasados. Podem vir ao contrário. Podem não vir


Rosa Azevedo é formada em Literatura Portuguesa e Francesa com curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso – encontro de autores, artistas e editores independentes, do Colectivo Prisma e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, para as questões da literatura, onde é também moderadora. Colabora com a direcção da Cossoul em questões de produção, programação e associativismo. Mantém o blog estórias com livros.

Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora / divulgadora da área dos livros.


Evento facebook.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Gonçalo M Tavares em Setúbal

é já esta 6ª que terei o imenso privilégio de conversar com o Gonçalo sobre a sua obra. na Casa da Cultura em Setúbal, 22h.


Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX

O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas ár...