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| Eu depois inventei o resto, Companhia das Ilhas |
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
segunda-feira, 16 de abril de 2018
segunda-feira, 9 de abril de 2018
sobre a Literatura Portuguesa contemporânea
Há uma grande falácia na modernidade tecnológica. Não estamos cada vez mais perto do mundo, estamos antes com vários olhos postos em quem está ao nosso lado. A arte existia quando era produto de uma cabeça consciente dos seus limites físicos. Como se tivesse maiores possibilidades artísticas quando o produto artístico era um objecto auto-suficiente antes de pensar nas restantes possibilidades. Hoje estamos perante uma forte mutação dessa realidade.
A literatura contemporânea portuguesa está neste momento a atravessar um deserto longo e penoso do ponto de vista artístico, porque há muito tempo que a literatura desistiu de se posicionar. A pós-modernidade trouxe ao pensamento artístico algumas teias perigosas, mas muitas possibilidades artísticas, infinitas. E dessas tantas possibilidades a literatura portuguesa tem-se deixado arrastar por uma literatura que rejeita por um lado a ideia da arte e por outro a ideia de identidade. Poucas são as obras que trazem um verdadeiro questionamento do imenso poder da palavra, da capacidade revolucionária de um livro, da capacidade que a obra de arte tem em atingir um qualquer ponto fulcral.
É natural que ao lerem este texto a vossa cabeça se posicione criticamente de forma negativa perante o que aqui está. Porque o séc. XXI é o século que, na literatura, nos traz a ideia de que tudo é permitido. Ainda numa espécie de ressaca de regimes totalitários (artísticos e não), acreditamos que não nos devemos posicionar, que devemos deixar o livro existir na forma que quiser. Mas esse posicionamento é o oposto da opressão e é o sinónimo da liberdade. Escolhermos o sítio da arte, defendermos e conhecermos o impacto do que escrevemos, é o apogeu da liberdade criativa. A nossa literatura tem a doença da aceitação e aceitação pode rapidamente tornar-se quantitativa. Essa aceitação tem sido o contrário da liberdade criativa.
Há excepções, claro. Poemas soltos, ideias, noites longas, copos de vinho. Amigos. Alguns livros. Alguns livros redescobertos. Mas falta-nos vontade de quebrar barreiras e este século tem sido muito frutífero em criá-las. A tecnologia é uma delas, as rotinas, o capitalismo, a falta de opções, outras.
Mas é uma fase, claro. Só que é uma fase mais longa porque é muito confortável. Porque a vida pode ser muito simples. Porque a verdadeira criação artística provoca-nos questionamentos que não são necessariamente sofrimentos, mas são processos transformativos e evolutivos. Talvez os nossos poetas e escritores sejam apenas muitos, pode ser isso. Mas é difícil ser optimista perante isto, e talvez o optimismo não seja a postura necessária. Devemos ao mundo uma constante sensação de desconforto para que nunca nenhum momento nos pareça finalizado.
A literatura contemporânea portuguesa está neste momento a atravessar um deserto longo e penoso do ponto de vista artístico, porque há muito tempo que a literatura desistiu de se posicionar. A pós-modernidade trouxe ao pensamento artístico algumas teias perigosas, mas muitas possibilidades artísticas, infinitas. E dessas tantas possibilidades a literatura portuguesa tem-se deixado arrastar por uma literatura que rejeita por um lado a ideia da arte e por outro a ideia de identidade. Poucas são as obras que trazem um verdadeiro questionamento do imenso poder da palavra, da capacidade revolucionária de um livro, da capacidade que a obra de arte tem em atingir um qualquer ponto fulcral.
É natural que ao lerem este texto a vossa cabeça se posicione criticamente de forma negativa perante o que aqui está. Porque o séc. XXI é o século que, na literatura, nos traz a ideia de que tudo é permitido. Ainda numa espécie de ressaca de regimes totalitários (artísticos e não), acreditamos que não nos devemos posicionar, que devemos deixar o livro existir na forma que quiser. Mas esse posicionamento é o oposto da opressão e é o sinónimo da liberdade. Escolhermos o sítio da arte, defendermos e conhecermos o impacto do que escrevemos, é o apogeu da liberdade criativa. A nossa literatura tem a doença da aceitação e aceitação pode rapidamente tornar-se quantitativa. Essa aceitação tem sido o contrário da liberdade criativa.
Há excepções, claro. Poemas soltos, ideias, noites longas, copos de vinho. Amigos. Alguns livros. Alguns livros redescobertos. Mas falta-nos vontade de quebrar barreiras e este século tem sido muito frutífero em criá-las. A tecnologia é uma delas, as rotinas, o capitalismo, a falta de opções, outras.
Mas é uma fase, claro. Só que é uma fase mais longa porque é muito confortável. Porque a vida pode ser muito simples. Porque a verdadeira criação artística provoca-nos questionamentos que não são necessariamente sofrimentos, mas são processos transformativos e evolutivos. Talvez os nossos poetas e escritores sejam apenas muitos, pode ser isso. Mas é difícil ser optimista perante isto, e talvez o optimismo não seja a postura necessária. Devemos ao mundo uma constante sensação de desconforto para que nunca nenhum momento nos pareça finalizado.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Pedro Oom
A poesia não necessita de "ser salva" porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar "a natureza" e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue o homem da técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém de uma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
Pedro Oom
sexta-feira, 9 de março de 2018
Mulheres e Revolução
Mulheres e Revolução
Maria Velho da Costa
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
Maria Velho da Costa
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o
cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas
talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas
andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas
untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a
meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as
fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao
colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o
ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não
dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas
cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as
mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com
urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a
lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma
madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco
para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as
cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas
pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a
França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um
borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico
para um carrinho de corda.
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um
rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de
pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras
da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos
de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três
noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas
trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para
pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres
como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em
fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a
pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros
cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a
despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na
vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas
pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas.
Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola
da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as
sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao
sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas
souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a
rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e
canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento
e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os
filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar
pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da
guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram
medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e
nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel
que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à
roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o
braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a
fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me
aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa
dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça
ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as
armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos
outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas
acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas
que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
in Cravo (1976).
in Cravo (1976).
E o próximo nosso é o nosso Rui Caeiro
O Rui foi chegando devagar à Snob. Com aquele passo lento que o caracteriza, lento de quem tem todo o tempo, sempre. Aproximou-se da nossa banca de livros no Jardim da Parada e o Duarte reconheceu-o logo. Faz agora, exactamente, um ano.
Desde aí o Rui Caeiro foi-se apropriando da nossa vida. Primeiro com muitas conversas com o Duarte ao telefone e alguns encontros casuais. Sempre com aquela característica que é muito dele, a do acaso. Sem regras ou obrigações. Sempre que se lembrava, sempre que queria partilhar um texto ou uma memória. O Rui, como bom conversador que é, tem muitas memórias que quer partilhar. E assim surgiu a ideia de um livro (ou melhor, três livros), e o Rui ofereceu-o à Snob. Com aquela generosidade desprovida de encantamento, só uma rude honestidade. Depois o Rui tornou-se quotidiano e amigo e confidente da Snob. Parte das rotinas. E todas as semanas o livro ia crescendo em mesas de restaurantes e cafés. Sem falhar.
O Rui passou por toda a literatura dos últimos 50 anos do séc XX. Não sendo um autor de palco, fez um caminho que não é de todo um caminho identificável dentro deste showbiz literário. Mas é identificado por todos. Sem rodeios, sem forçar caminho, sem se encaixar em nenhuma categoria literária, a escrever.Para a Snob este é o terceiro livro. E, não tendo nós nenhuma linha editorial identificável (porque não existe), este livro tornou-se necessário. Porque são as memórias de um grande escritor que é um escritor da nossa rotina. E um escritor que se tornou escritor da nossa rotina enquanto o livro se colava. Sem margens, sem limites.
Livro em pré-venda aqui.
terça-feira, 6 de março de 2018
||SNOB CALL - Rui Caeiro||
É com grande honra e orgulho que apresentamos o nosso novo livro. Que na realidade não é um mas sim dois livros que se espelham num mesmo volume em rotação contínua.
A pré-venda termina no próximo dia 11 de Março. Os subscritores terão direito a um exclusivo terceiro inédito (ver imagem nos comentários): um desdobrável em acordeão, numerado e assinado pelo Rui.
O valor da pré-venda é de €12, portes de envio incluídos para Portugal
Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso
deverão transferir o valor de €12 para o IBAN: PT50 0035 0995
00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e
nome - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou
para coleccaopedante@gmail.com.
Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.
Excertos:
DIÁLOGOS MARADOS
"— Zé, conta-me a história do teu encontro com o ovni, perto de Monsaraz.
— Não gosto de falar nisso, diz-me o meu primo Zé. Ninguém acredita na história, dizem que eu devia estar bêbado.
Hoje já não há ninguém para contar a história. Tu já não estás cá para o fazer.
Eles, que eu saiba, não voltaram.
Mas hoje, ao perguntar-me porque se mostraram eles a ti e não a outro qualquer passeante, creio que sei a resposta.
Porquê a ti? Porque tu eras um homem bom e, quem sabe, um homem bom é difícil de encontrar e a bondade ainda será uma espécie de mais-valia no mundo extraterrestre."
UM MALUCO VEM POUSAR-ME NA MÃO
"Cada um deles é uma bazuca de dois canos, é uma esfera escorregadia, é uma longa espera, é um lago, é um lego, é um mundo.
E que até, em casos extremos (o dos tais tarados com vocação para líder) se pode fazer explodir, num qualquer estúpido atentado mais ou menos bombista, mais ou menos suicida.
E que pode por igual ser um exemplo reconfortante — para todo um universo vasto, descontrolado e perdido."
Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.
Excertos:
DIÁLOGOS MARADOS
"— Zé, conta-me a história do teu encontro com o ovni, perto de Monsaraz.
— Não gosto de falar nisso, diz-me o meu primo Zé. Ninguém acredita na história, dizem que eu devia estar bêbado.
Hoje já não há ninguém para contar a história. Tu já não estás cá para o fazer.
Eles, que eu saiba, não voltaram.
Mas hoje, ao perguntar-me porque se mostraram eles a ti e não a outro qualquer passeante, creio que sei a resposta.
Porquê a ti? Porque tu eras um homem bom e, quem sabe, um homem bom é difícil de encontrar e a bondade ainda será uma espécie de mais-valia no mundo extraterrestre."
UM MALUCO VEM POUSAR-ME NA MÃO
"Cada um deles é uma bazuca de dois canos, é uma esfera escorregadia, é uma longa espera, é um lago, é um lego, é um mundo.
E que até, em casos extremos (o dos tais tarados com vocação para líder) se pode fazer explodir, num qualquer estúpido atentado mais ou menos bombista, mais ou menos suicida.
E que pode por igual ser um exemplo reconfortante — para todo um universo vasto, descontrolado e perdido."
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
O meu curso de Literatura Portuguesa do Séc XX está de volta
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| Cartaz ©Menina Limão |
CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC XX
com rosa azevedo
1, 8, 15, 22, 29 Março . 19h30 . 5 sessões (90min). 50€
Cossoul
Av. D. Carlos I, 61
Lisboa
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura, sempre com o foco no leitor e na importância que a estreita relação do autor com o seu leitor teve no desenrolar dessa mesma história. As cinco sessões pretendem dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX até aos dias de hoje, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
❐ PROGRAMA
▸ 1ª SESSÃO
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
▸ 2ª SESSÃO
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
▸ 3ª SESSÃO
surrealismo
▸ 4ª SESSÃO
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
anos 50 a 70: literatura sem marca
▸ 5ª SESSÃO
dos anos 80 aos nossos dias
✦ AUTORES
Eça de Queirós, Cesário Verde, Ângelo de Lima, Fernando Pessoa e heterónimos, Mário de Sá-Carneiro, Mário Cesariny, António José Forte, Mário Henrique-Leiria, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, Herberto Helder, Manuel da Fonseca, Manuel de Castro, Luiz Pacheco, Alexandre O’Neill, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Maria Velho da Costa, Rui Nunes, Vergílio Ferreira, Jorge de Sousa Braga, Maria Gabriela Llansol, Nuno Bragança, José Saramago, João Miguel Fernandes Jorge, Ana Teresa Pereira, Teresa Veiga, António Ramos Rosa, Valério Romão, Gonçalo M. Tavares, entre outros.
✦ ROSA AZEVEDO
Nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos portugueses, franceses e menor em Literaturas do Mundo, em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte. Mantém o blog estórias com livros. Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora / divulgadora da área dos livros.
Evento Facebook
com rosa azevedo
1, 8, 15, 22, 29 Março . 19h30 . 5 sessões (90min). 50€
Cossoul
Av. D. Carlos I, 61
Lisboa
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura, sempre com o foco no leitor e na importância que a estreita relação do autor com o seu leitor teve no desenrolar dessa mesma história. As cinco sessões pretendem dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX até aos dias de hoje, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
❐ PROGRAMA
▸ 1ª SESSÃO
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
▸ 2ª SESSÃO
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
▸ 3ª SESSÃO
surrealismo
▸ 4ª SESSÃO
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
anos 50 a 70: literatura sem marca
▸ 5ª SESSÃO
dos anos 80 aos nossos dias
✦ AUTORES
Eça de Queirós, Cesário Verde, Ângelo de Lima, Fernando Pessoa e heterónimos, Mário de Sá-Carneiro, Mário Cesariny, António José Forte, Mário Henrique-Leiria, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, Herberto Helder, Manuel da Fonseca, Manuel de Castro, Luiz Pacheco, Alexandre O’Neill, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Maria Velho da Costa, Rui Nunes, Vergílio Ferreira, Jorge de Sousa Braga, Maria Gabriela Llansol, Nuno Bragança, José Saramago, João Miguel Fernandes Jorge, Ana Teresa Pereira, Teresa Veiga, António Ramos Rosa, Valério Romão, Gonçalo M. Tavares, entre outros.
✦ ROSA AZEVEDO
Nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos portugueses, franceses e menor em Literaturas do Mundo, em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte. Mantém o blog estórias com livros. Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora / divulgadora da área dos livros.
Evento Facebook
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
As irmãs Brontë
Em 1847 a editora Smith,
Elder & Co recebe três romances assinados por três nomes quase
deconhecidos da literatura inglesa, nomes que até aí tinham apenas
publicado um livro conjunto de poemas que tinha sido um verdadeiro
fracasso comercial. Eram eles o Jane Eyre de Currer Bell, The Wuthering
Heights de Ellis Bell e Agnes Grey de Acton Bell.
Os três romances tinham sido escritos por três irmãs que, reféns da sociedade vitoriana do séc XIX, acharam melhor assiná-los com nomes de homens e só após a sua publicação darem a conhecer a sua identidade. São elas Charlotte, Emily e Anne Brontë.
É sempre possível lermos um livro sem contexto, aliás é essa uma das grandes lutas dos leitores de todo o mundo, a defesa mais ou menos convicta de que o texto vale por si, dizem uns, e de que o contexto enriquece o texto, dizem outros. No entanto, aqui vamos, para já (e verão que faz sentido), deter-nos na vida das irmãs Brontë, que não altera o texto de cada um dos livros mas sim acrescenta um contexto que é em si próprio uma lição e um pensamento sobre a resiliência destas escritoras num mundo onde as mulheres começavam a poder escrever mas não podiam, nunca, escrever nenhum destes livros.
As três irmãs pertenciam a uma família de cinco irmãs e um irmão. As duas irmãs mais velhas morreram ainda crianças vítimas de tuberculose, com poucas semanas de diferença. O pai, responsável único pela educação das crianças, não conseguindo lidar com a dor e a culpa de saber que o internato onde as irmãs se encontravam era o grande responsável por estas mortes, traz as outras filhas para casa. Essa casa encontrava-se ao fundo de uma povoação, rodeada por montes ventosos e frios, uma terra inóspita e escura. O pai, obcecado com os incêndios, não tem cortinas ou tapetes em casa. É uma casa sóbria e cinzenta. Chama para educar as filhas uma irmã, severa ainda que justa, tia que substitui para as Brontë a mãe que lhes morrera muito cedo.
É neste ambiente que as irmãs e o irmão mais velho, Branwell, crescem selvagens, com a sua criatividade como único utensílio artístico. Uns soldados de madeira eram os únicos brinquedos e serviram como ponto de partida para histórias fantásticas, mundos partilhados entre eles, histórias detalhadamente descritas. Todos os irmãos eram extremamente dotados de uma sensibilidade artística fora do comum e passavam os seus dias a vivê-la intensamente, numa obrigatória mas cada vez mais desejada solidão.
As irmãs Brontë cresceram quase sem conhecer ou ter contacto com a sociedade patriarcal da Inglaterra do séc. XIX. Aprenderam a desenvolver a imaginação como lugar de conforto. Criaram um mundo onde elas tivessem o lugar que queriam ter. E foi assim que escreveram estes três livros. Não o fizeram por serem radicais, eram antes feministas antes do tempo por terem decidido que, se criavam figuras femininas, elas iam poder exercer o poder que a literatura traz em si - o poder de modificar e influenciar o leitor.
Emily Brontë
The Wuthering Heights
Este livro exerce sobre o leitor do séc XXI o fascínio da intemporalidade. É um livro que mesmo escrito hoje poderia ser considerado intemporal. Um dos boatos que corre sobre o livro é de que é um livro gótico com fantasmas. Mas não é um livro de fantasmas, é um livro sobre o poder da obsessão, sobre a ideia da memória dos nossos mortos, de como podemos transformar essa memória e esse ideal de alguém que já cá não está numa assombração. Ouve-se também dizer que esta é a história de amor de Heathcliff e Catherine mas também não é isso que o livro conta (como afirma Charlotte no prefácio à segunda edição) - o livro conta-nos como a obsessão de Heathcliff pela Catherine possibilitou que se tornasse numa personalidade com um nível de maldade e acidez próprio de um monstro não humano. Catherine, por sua vez, vive a vida sem ideais de amor, como um vendaval, aproveitando e tirando da vida o que esta lhe vai dando, sem grande plano. É uma história sem heróis numa altura em que a própria literatura era feita de heróis.
A estrutura narrativa é também muito invulgar, complexa e perfeita. É invulgar alguém escrever um livro destes sem nunca ter escrito nada antes. Claramente, percebemos que toda a vida da Emily tinha sido um intrincado e complexo mundo de imaginação e criação de ficções.
O livro foi um fracasso (e, claramente, só podia ser). O mundo não estava preparardo para a genialidade de Emily. Esta morreu sem ver uma segunda edição e esmagada pelas críticas, até da própria irmã, que achava inconcebível alguém criar um Heathcliff.
Charlotte Brontë
Jane Eyre
Confesso que, depois de muito pesquisar, parti para este livro com a sensação (justificada) de que a Charlotte era, das três, a mais conservadora e a que fugia mais do risco na criação literária. E este livro acabou, também por isso, por ser surpreendente. A narrativa é até linear, sem distorção, mas mais nada é linear dentro do livro. Jane Eyre, orfã, é criada por uma tia e três primos que não lhe têm qualquer amor. Até aos dez anos, idade em que é internada num colégio de beneficiência, Jane não tem memória de qualquer tipo de afeição. A partir daí percebe que tentar agradar às pessoas não lhe traz frutos e percebe que só há uma forma de nos fazermos amar: através da honestidade. E é nesta honestidade que reside o ponto forte do livro e da Jane. Ela cresce tendo sempre por princípio que será transparente com os que a rodeiam, e com as opções que toma na vida. É um livro sobre a verdade. Jane cresce e vive sempre de acordo com a verdade. Sem ser moralista (ela não vive de acordo com a moral e sim com a verdade), Jane vive sem plano pré-definido. Rejeita a igreja por amar a ideia de Deus, rejeita o amor por não se sentir confortável na posição em que este a coloca. Procura apenas a ideia de família enquanto ligação ao mundo, laço que desde cedo percebeu que tinha de recuperar, nunca o teve por adquirido. É um livro e uma Jane (eles são uma e a mesma coisa) como nunca mais encontraremos na literatura. E uma verdadeira homenagem a esta verdade tão pouco querida aos floreados da literatura europeia daquela época.
Anne Brontë
Agnes Grey
The Tenant of Wildfell Hall
Agnes Grey é um livro menos intenso que os outros, bastante diferente aliás, e conta a história de uma mulher, Agnes Grey, que resolve sair de casa e ir trabalhar como perceptora, tornando-se independente perante uma família e uma sociedade que tinham outros planos para ela.
Coloco aqui os dois livros de Anne porque o segundo, The Tenant of Wildfell Hall, é muito mais interessante do que o primeiro. A primeira edição do The Tenant of Wildfell Hall esgotou em seis meses tendo sido considerado por muitos um livro ofensivo, exagerado na forma como tratava a personagem masculina, imoral. No prefácio à 2ª edição Anne diz que vai republicar o livro exactamente como o escreveu apesar das duras críticas, porque acredita que a maldade aos olhos dos leitores pode abrir muito mais horizontes do que experienciá-la ao longo da vida. Diz, também, que mostra um homem despótico e violento, e uma mulher que se soube insurgir na defesa dela e do seu filho, tentando influenciar jovens mulheres a não aceitarem este tipo de vida e de tratamento. Diz que se mudar para melhor apenas a vida de uma mulher já terá valido a pena toda a sua vida de escritora. Anne aqui quebrou todas as convenções da sua época, enfrentando espíritos susceptíveis, facilmente impressionáveis, que preferiam que não se fizesse tanto alarido à volta da situação da mulher que, relembro, era, na Inglaterra do séc XIX, propriedade do homem com quem tinha casado.
Charlotte fala com desagrado deste livro dizendo que Anne teria exagerado na criação desta personagem. Ela responde que só terá exagerado no dia em que um leitor se sentir aborrecido com os seus livros. Nunca antes. Nunca por fazer com que os leitores vissem o que era a realidade de muitas mulheres do seu tempo. Charlotte poderá ter sido responsável por Anne Brontë não estar, da mesma forma, entre os grandes escritores mundiais, como estão as irmãs, ao repudiar este segundo livro. Anne Brontë foi por muitos considerada a primeira escritora feminista.
Os três romances tinham sido escritos por três irmãs que, reféns da sociedade vitoriana do séc XIX, acharam melhor assiná-los com nomes de homens e só após a sua publicação darem a conhecer a sua identidade. São elas Charlotte, Emily e Anne Brontë.
É sempre possível lermos um livro sem contexto, aliás é essa uma das grandes lutas dos leitores de todo o mundo, a defesa mais ou menos convicta de que o texto vale por si, dizem uns, e de que o contexto enriquece o texto, dizem outros. No entanto, aqui vamos, para já (e verão que faz sentido), deter-nos na vida das irmãs Brontë, que não altera o texto de cada um dos livros mas sim acrescenta um contexto que é em si próprio uma lição e um pensamento sobre a resiliência destas escritoras num mundo onde as mulheres começavam a poder escrever mas não podiam, nunca, escrever nenhum destes livros.
As três irmãs pertenciam a uma família de cinco irmãs e um irmão. As duas irmãs mais velhas morreram ainda crianças vítimas de tuberculose, com poucas semanas de diferença. O pai, responsável único pela educação das crianças, não conseguindo lidar com a dor e a culpa de saber que o internato onde as irmãs se encontravam era o grande responsável por estas mortes, traz as outras filhas para casa. Essa casa encontrava-se ao fundo de uma povoação, rodeada por montes ventosos e frios, uma terra inóspita e escura. O pai, obcecado com os incêndios, não tem cortinas ou tapetes em casa. É uma casa sóbria e cinzenta. Chama para educar as filhas uma irmã, severa ainda que justa, tia que substitui para as Brontë a mãe que lhes morrera muito cedo.
É neste ambiente que as irmãs e o irmão mais velho, Branwell, crescem selvagens, com a sua criatividade como único utensílio artístico. Uns soldados de madeira eram os únicos brinquedos e serviram como ponto de partida para histórias fantásticas, mundos partilhados entre eles, histórias detalhadamente descritas. Todos os irmãos eram extremamente dotados de uma sensibilidade artística fora do comum e passavam os seus dias a vivê-la intensamente, numa obrigatória mas cada vez mais desejada solidão.
As irmãs Brontë cresceram quase sem conhecer ou ter contacto com a sociedade patriarcal da Inglaterra do séc. XIX. Aprenderam a desenvolver a imaginação como lugar de conforto. Criaram um mundo onde elas tivessem o lugar que queriam ter. E foi assim que escreveram estes três livros. Não o fizeram por serem radicais, eram antes feministas antes do tempo por terem decidido que, se criavam figuras femininas, elas iam poder exercer o poder que a literatura traz em si - o poder de modificar e influenciar o leitor.
Emily Brontë
The Wuthering Heights
Este livro exerce sobre o leitor do séc XXI o fascínio da intemporalidade. É um livro que mesmo escrito hoje poderia ser considerado intemporal. Um dos boatos que corre sobre o livro é de que é um livro gótico com fantasmas. Mas não é um livro de fantasmas, é um livro sobre o poder da obsessão, sobre a ideia da memória dos nossos mortos, de como podemos transformar essa memória e esse ideal de alguém que já cá não está numa assombração. Ouve-se também dizer que esta é a história de amor de Heathcliff e Catherine mas também não é isso que o livro conta (como afirma Charlotte no prefácio à segunda edição) - o livro conta-nos como a obsessão de Heathcliff pela Catherine possibilitou que se tornasse numa personalidade com um nível de maldade e acidez próprio de um monstro não humano. Catherine, por sua vez, vive a vida sem ideais de amor, como um vendaval, aproveitando e tirando da vida o que esta lhe vai dando, sem grande plano. É uma história sem heróis numa altura em que a própria literatura era feita de heróis.
A estrutura narrativa é também muito invulgar, complexa e perfeita. É invulgar alguém escrever um livro destes sem nunca ter escrito nada antes. Claramente, percebemos que toda a vida da Emily tinha sido um intrincado e complexo mundo de imaginação e criação de ficções.
O livro foi um fracasso (e, claramente, só podia ser). O mundo não estava preparardo para a genialidade de Emily. Esta morreu sem ver uma segunda edição e esmagada pelas críticas, até da própria irmã, que achava inconcebível alguém criar um Heathcliff.
Charlotte Brontë
Jane Eyre
Confesso que, depois de muito pesquisar, parti para este livro com a sensação (justificada) de que a Charlotte era, das três, a mais conservadora e a que fugia mais do risco na criação literária. E este livro acabou, também por isso, por ser surpreendente. A narrativa é até linear, sem distorção, mas mais nada é linear dentro do livro. Jane Eyre, orfã, é criada por uma tia e três primos que não lhe têm qualquer amor. Até aos dez anos, idade em que é internada num colégio de beneficiência, Jane não tem memória de qualquer tipo de afeição. A partir daí percebe que tentar agradar às pessoas não lhe traz frutos e percebe que só há uma forma de nos fazermos amar: através da honestidade. E é nesta honestidade que reside o ponto forte do livro e da Jane. Ela cresce tendo sempre por princípio que será transparente com os que a rodeiam, e com as opções que toma na vida. É um livro sobre a verdade. Jane cresce e vive sempre de acordo com a verdade. Sem ser moralista (ela não vive de acordo com a moral e sim com a verdade), Jane vive sem plano pré-definido. Rejeita a igreja por amar a ideia de Deus, rejeita o amor por não se sentir confortável na posição em que este a coloca. Procura apenas a ideia de família enquanto ligação ao mundo, laço que desde cedo percebeu que tinha de recuperar, nunca o teve por adquirido. É um livro e uma Jane (eles são uma e a mesma coisa) como nunca mais encontraremos na literatura. E uma verdadeira homenagem a esta verdade tão pouco querida aos floreados da literatura europeia daquela época.
Anne Brontë
Agnes Grey
The Tenant of Wildfell Hall
Agnes Grey é um livro menos intenso que os outros, bastante diferente aliás, e conta a história de uma mulher, Agnes Grey, que resolve sair de casa e ir trabalhar como perceptora, tornando-se independente perante uma família e uma sociedade que tinham outros planos para ela.
Coloco aqui os dois livros de Anne porque o segundo, The Tenant of Wildfell Hall, é muito mais interessante do que o primeiro. A primeira edição do The Tenant of Wildfell Hall esgotou em seis meses tendo sido considerado por muitos um livro ofensivo, exagerado na forma como tratava a personagem masculina, imoral. No prefácio à 2ª edição Anne diz que vai republicar o livro exactamente como o escreveu apesar das duras críticas, porque acredita que a maldade aos olhos dos leitores pode abrir muito mais horizontes do que experienciá-la ao longo da vida. Diz, também, que mostra um homem despótico e violento, e uma mulher que se soube insurgir na defesa dela e do seu filho, tentando influenciar jovens mulheres a não aceitarem este tipo de vida e de tratamento. Diz que se mudar para melhor apenas a vida de uma mulher já terá valido a pena toda a sua vida de escritora. Anne aqui quebrou todas as convenções da sua época, enfrentando espíritos susceptíveis, facilmente impressionáveis, que preferiam que não se fizesse tanto alarido à volta da situação da mulher que, relembro, era, na Inglaterra do séc XIX, propriedade do homem com quem tinha casado.
Charlotte fala com desagrado deste livro dizendo que Anne teria exagerado na criação desta personagem. Ela responde que só terá exagerado no dia em que um leitor se sentir aborrecido com os seus livros. Nunca antes. Nunca por fazer com que os leitores vissem o que era a realidade de muitas mulheres do seu tempo. Charlotte poderá ter sido responsável por Anne Brontë não estar, da mesma forma, entre os grandes escritores mundiais, como estão as irmãs, ao repudiar este segundo livro. Anne Brontë foi por muitos considerada a primeira escritora feminista.
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
O último livro de Cortázar
Cortázar pode e deve ser lembrado como um escritor que criava as
próprias regras da literatura. Não o fazia por qualquer tipo de
radicalismo mas porque procurava na vida uma ideia e à volta dela criava
um livro que fizesse sentido, que recriasse literariamente essa mesma
ideia.
Nos últimos anos da sua vida Córtazar decide viajar durante 33 dias numa auto-estrada, de Paris a Marselha, uma viagem de mais de 700km, numa Volkswagen a que chamava Dragon. A viagem seria levada a cabo com a sua última mulher, Carol Dunlop, em Maio de 1982, após cinco anos de sucessivos adiamentos. Para os dois a auto-estrada era o sítio mais efémero de todos, onde só existiam viajantes e todos de passagem. Eles iam inverter essa lógica escrevendo durante esses 33 dias (duas estações de serviço por dia) um diário de viagem ao estilo dos grandes escritores de viagens mundiais, que Córtazar leu extensiva e intensamente. Iam observar os viajantes, escrever sobre eles, parar em sítios onde todos os outros passam sem olhar.
Foi o último livro de ambos, Carol adoece e morre seis meses depois, Córtazar fica mais dois anos. E como não podia deixar de ser é um livro positivo, de caminho e viagem, cheio de humor e companheirismo. Foi a melhor das despedidas.
Nos últimos anos da sua vida Córtazar decide viajar durante 33 dias numa auto-estrada, de Paris a Marselha, uma viagem de mais de 700km, numa Volkswagen a que chamava Dragon. A viagem seria levada a cabo com a sua última mulher, Carol Dunlop, em Maio de 1982, após cinco anos de sucessivos adiamentos. Para os dois a auto-estrada era o sítio mais efémero de todos, onde só existiam viajantes e todos de passagem. Eles iam inverter essa lógica escrevendo durante esses 33 dias (duas estações de serviço por dia) um diário de viagem ao estilo dos grandes escritores de viagens mundiais, que Córtazar leu extensiva e intensamente. Iam observar os viajantes, escrever sobre eles, parar em sítios onde todos os outros passam sem olhar.
Foi o último livro de ambos, Carol adoece e morre seis meses depois, Córtazar fica mais dois anos. E como não podia deixar de ser é um livro positivo, de caminho e viagem, cheio de humor e companheirismo. Foi a melhor das despedidas.
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
A minha canção podia arder-me
21h30
Cossoul
Av. D. Carlos I 61
Lisboa
Há vários conceitos de escrita, o difícil é reconhecê-los sem cair em frases feitas. Só o leitor com a sua intuição consegue distinguir um escritor artífice de um escritor cuja canção lhe pode arder. Falamos de uma escrita sombria, interior, orgânica e visceral. Que revela um segredo que nunca conhecemos na totalidade. Que levanta pontas de véu criando no leitor uma sensação de desassossego e inquietação. Como se a escrita pudesse não ser resposta mas sim criação de dúvida constante.
Autores
Maria Zambrano
Antonin Artaud
Ulla Hahn
Maria Gabriela Llansol
Clarice Lispector
Ernesto Sampaio
Leonora Carrington
Com
Cláudio Henriques e Inês Lago
Coordenação artística
Carolina Amaral
Produção e textos
Duarte Pereira e Rosa Azevedo
A Snob foi convidada pela Casa Fernando Pessoa e Fundação José Saramago para participar no bonito programa do Dias do Desassossego. Duas datas, duas casas, dois escritores: entre 16 e 30 de Novembro, a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago programam em conjunto os Dias do Desassossego’17 com música, poesia, prosa, passeios literários e arte urbana. Entre o dia de nascimento de José Saramago e o dia da morte de Fernando Pessoa, a leitura e os seus efeitos são pretexto para nos encontrarmos, entre a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago, mas também noutros locais da cidade.
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