Costumo dizer que dos livros espero a verdade do que lá estiver dito, seja o que for. Os textos fragmentários, descontextualizados do sítio onde estamos a lê-los, pertencem de uma forma mais intuitiva a esse espaço, uma vez que a linearidade não nos pertence em nenhum domínio.
Falo de verdade como quem diz que do ponto de vista do livro o universo criado é um universo que deve ser apreendido como real, não do ponto de vista conceptual e em linha com a nossa realidade mas do ponto de vista interior do próprio livro. Daí que a literatura não deva funcionar de uma forma meramente referencial correndo o risco de nos tornarmos responsáveis pela diluição do livro em nós antes de termos tempo de perceber que história ele nos conta.
Charlotte Delbo foi uma activista da Resistência Francesa. Delbo juntou-se à Resistência mais do que por missão, por empatia com o sofrimento do outro e incapacidade em não agir perante as atrocidades a que França assistia no início dos anos 40 do século passado. Em 1942 foi presa juntamente com o seu marido, George Dudach, assassinado na prisão uns meses depois. Em Janeiro de 1943 Delbo e 229 outras mulheres francesas, presas por actividades ligadas à Resistência, foram levadas para Auschwitz, um campo que raramente recebia não-judeus. Delbo sobreviveu ao campo porque, devido à educação que recebera juntamente com algumas das outras prisioneiras comunistas, foi destacada para algumas funções no campo que apenas algumas pessoas conseguiam executar. Mas muitas outras não tiveram essa sorte e grande parte da obra de Delbo até ao fim da vida passou por perpetuar a sua memória e as suas ideias.
No fim da Guerra e com a sua libertação escreveu a obra Auschwitz e Depois, que inclui três livros, agora publicada na nova editora de João Brito, BCF. Esperou até 1965 para a publicar em França, para perceber como agia o tempo sobre aquelas memórias.
Já muito vimos e ouvimos sobre Auschwitz. O excesso imagético arrisca a nossa indiferença perante o terror. Aliás, muitas vezes damos por nós a perceber fragmentariamente o que se passou e a ter dificuldade em ver o todo. Aqui neste livro Delbo descreve Auschwitz de uma forma que mistura a profunda empatia que ela sente ao ver o sofrimento do outro, amor mesmo, e uma dureza de estilo e de tom que denotam, talvez, algum medo de ver a história e os acontecimentos a que assistiu subvalorizados. Aqui Delbo não mostra ter qualquer cuidado com o leitor. Como se tivesse dedicado todo o cuidado aos seus companheiros de campo. É que nós não precisamos desse cuidado. Porque quando se demonstra este terror tudo o que havia para cuidar ficou para trás.
Ainda não terminei o livro, falo da visão de quem ainda está a ler. Porque para ler a Delbo precisamos de ir tendo a estrutura necessária para a deixar falar. Para não sentirmos no espaço de leitor que aquilo nos é insuportável. É uma leitura lenta, com múltiplas variações (neste livro não há só três livros, há muitos livros dentro de cada um), onde nunca deixamos de investir enquanto leitores. É-nos absolutamente vedada a passividade.
Se vamos falar de verdade a Delbo usou a verdade de milhares de pessoas com quem se cruzou em Auschwitz. E dentro daquilo que Delbo acreditou que seria a sua missão não usou a verdade parcialmente. Por isso saibam que quando pegarem neste livro nunca mais nada será igual na vossa visão do terror. Mas que estarão, de facto, sem medos, diante da mais verdadeira visão do terror.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Quartos Alugados, Alexandre Andrade
Escrever
sobre Alexandre Andrade é uma tarefa ingrata porque há escritores
de quem apetece guardar silêncio. Isto porque são escritores do
silêncio por ofício, porque defendem, ainda que intuitivamente, a
relação autor-leitor como a única relação possível. Defendem a
solidão dos dois, a mensagem passada entre um e outro, a
independência do texto face a qualquer influência que não seja a
própria leitura.
Há
um leitor de hoje, exigente, que procura esse espaço de leitura e
que, em consequência, procura esses autores que, não sendo raros,
têm de ser procurados.
O
nosso século trouxe-nos uma nova forma de ver a literatura. Os
autores transformam-se em figuras públicas, um livro é comprado sem
a certeza de que será lido, vítima do consumo imediato
proporcionado pelas redes sociais e pelas festas do livro,
lançamentos e apresentações, que se multiplicam. Há muita
celebração à volta de um livro, o que não seria grave se não
fossem, muitas vezes, auto-suficientes, independentes do texto. Se
acrescentassem leitores aos livros, se não funcionasse apenas como
montra fechada do mesmo. É fácil perceber que um leitor exigente e
atento, e ainda há muitos, queira estabelecer e dar prioridade a
essa relação íntima com o autor. Os leitores reais compreendem e
valorizam essa intimidade e foram eles que descobriram o Alexandre
Andrade.
Na
verdade, este não é o primeiro livro do Alexandre Andrade mas foi
aquele que o pôs no centro das conversas literárias. Este é o seu
terceiro livro de contos e tem ainda dois romances, mas foi com este
livro que apareceu em tops
nacionais,
listas de melhores livros do ano (as terríveis e ingratas listas),
tornou-se um fenómeno. Há muitos outros fenómenos literários do
género que tiveram diversas origens, muitos deles depois de o autor
já ter publicado inúmeros livros. O que é estranho neste caso é o
porquê desta popularidade, uma vez que o Alexandre Andrade não cabe
em nenhuma dessas categorias. No meio literário actual são raros os
fenómenos literários que se devem exclusivamente à qualidade do
texto. Aqui talvez estejamos perante um desses casos. Este livro é,
apenas, consequência de si próprio.
Editado
pelo Exclamação
é o único autor vivo da colecção Avesso.
Esta colecção começou com o propósito de publicar dez livros de
dez autores, portugueses e estrangeiros, sendo que a lista dos dez
aparece desde o primeiro livro. Não propondo uma ordem anunciou que
os dez livros sairiam conforme fossem estando prontos. Alexandre
Andrade surge ao lado de nomes como Lima Barreto ou Alphonse Allais,
autores que Rui Manuel Amaral, responsável pela colecção, diz
serem autores obrigatórios mas muito esquecidos na actual edição
portuguesa. É a própria editora que se refugia nos textos e defende
que são eles quem tem de criar uma voz própria, que os defenda e
represente. Não elaboram estratégias de promoção, de nenhum tipo.
Querem que o texto seja o que é, efectivamente, o livro.
Parece-nos
indiscutível que foi o texto dos Quartos
Alugados
quem
trouxe os leitores. O segredo do Alexandre Andrade foi-se espalhando,
a partir de uns poucos que já tinham percebido o seu potencial. A
literatura portuguesa saturou-se de lugares comuns. Como afirmámos
em cima a explosão editorial do início do século trouxe ao leitor
uma necessidade de se tornar mais exigente, logo, mais crítico e
inteligente. O excesso de lixo literário juntamente com uma
exposição pública de processos editoriais de textos que ainda não
deveriam ser publicados traz-nos um trabalho de respigadores que se
torna, no final, muito recompensador. Quando alguns bons leitores
descobrem um bom livro e espalham a notícia os leitores
multiplicam-se e transformam o livro num sucesso de vendas
exclusivamente textual.
É
neste contexto que surge a prosa de Alexandre Andrade. Quartos
Alugados
reúne
uma série de contos que têm em comum o que o título indica. O
quarto aparece aqui com duas dimensões: como parte decepada da casa,
uma parte de um todo que pouco ou nada se conhece, por um lado, e
espaço transitório, efémero, por outro.
Enquanto
cenário de casa decepada deparamo-nos com personagens que procuram
uma parte qualquer que está para além do quarto, secreta. Parte de
si, ou exterior a si, normalmente ligada à casa. O que importa aqui
é perceber que estamos sempre na esfera do privado nessa procura do
mistério. Há transversalmente a todos os contos um segredo não
revelado. A personagem procura esse segredo de forma compenetrada,
quase obsessiva. Entramos de forma discreta mas absoluta na
intimidade de cada personagem, no sentido em que as nossas obsessões
são o que existe de mais privado.
Enquanto
cenário transitório encontramos personagens que passam pelo espaço
tentando entendê-lo e revelá-lo com a urgência própria de quem
sabe que o tempo que vai ocupar aquele espaço é limitado. A
obsessão mantém-se, também neste segundo caso. Os tempos são
curtos. Os quartos são nossos transitoriamente, não há neles
espaço de apropriação ou de enraizamento. O olhar sobre eles é
quase sempre despegado, inóspito e muito livre.
Em
qualquer um dos cenários estamos perante um mistério. E o mistério
de qualquer um dos contos vale por si próprio, não se revela. O
autor tenta aqui personalizar e ficcionar o mistério, é ele a
personagem principal dos contos - nunca o seu fim mas a sua
existência real. É natural a tendência de querer resolver
problemas, e é essa tendência que o autor pretende contornar nestes
contos. Por norma um problema é visto como um pedido de resposta, o
questionamento é um meio e não um fim. A resposta ficcional às
histórias de Alexandre Andrade não é a resposta tradicional. Não
assume forma de resposta, usa o questionamento como o fim. Não há
um fim para o mistério mas há, no entanto, um encerramento, na
aceitação do próprio mistério, ou seja, os contos encerram-se em
si próprios, não ficam abertos ou suspensos. Há um ciclo que se
fecha em cada um deles. Há um abismo negro e silencioso,
estranhamente reconfortante em cada uma das histórias de Quartos
Alugados.
Há uma suspensão do tempo característica do ambiente inexplicável
e quase místico que o autor cria: “Eu respirava o tempo como um
gás intoxicante, estava sentado numa cadeira de ferro e inspirava o
tempo, expirava-o com medo do seu poder. O tempo. Agora limito-me a
estar atento aos seus abcessos contaminados pela memória e pelo
remorso, de pé sobre esta terra que piso sem deixar marca.”
Suspensão entre um tempo que, apesar de ser interior, existe também
fora das personagens, num universo nada transparente, antes opaco e
quente, como descrito no início do conto Voi
Che Sapete:
“Há quem afirme que as vagas de calor demasiado intensas têm o
poder de diluir a virtude e a moral num caso moroso de acasos e
acidentes.”. Estamos dentro de um ambiente obscuro, cru e objectivo
que, apesar do que seria expectável, no final é reconfortante e
deslumbrante.
Porque
acima de tudo há realmente um deslumbramento inteligível, que
contrasta com a absoluta pureza da linguagem, facilmente confundida
com frieza, mas que é na verdade uma extrema depuração. A procura
da palavra exacta, essencial, necessária. Nada é excessivo na
escrita de Alexandre Andrade. Nada existe para decorar ou adoçar o
texto. Tudo nos chega com as palavras certas, mesmo que a mensagem
que nos chega seja encriptada. Alexandre Andrade revela-se um
prosador de excelência, que domina de forma perfeita técnicas
literárias e ficcionais o que o transforma, mais do que num escritor
de encantamento, num escritor necessário.
Alexandre Andrade
Editora
Exclamação,
2015
Colecção
Avesso
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Erskine Caldwell ou o fim da humanidade
Já aqui falei do Caldwell. De como encontrei estes livros velhos e imóveis da casa de onde a minha avó teve de sair. Trouxe três para minha casa, fui lendo um a um, até chegar a este.
Não sabia muito do Caldwell e não li nada sobre este livro quando o comecei a ler. E agora que o acabei, e que tinha tanto que dizer, fui ver o que andaram a escrever. E é tudo curto, insuficiente, e nenhum texto foi ao sítio que era o sítio onde era preciso encontrar o Caldwell. Este livro não é sobre o pós-crash, sobre a América abandonada e pobre. Esse é só o tempo onde a história acontece. Mas a história acontece num sítio, na beira da estrada do tabaco, numa casa que pertence a uma família "enquanto se mantiver de pé". E essa família teve 17 filhos e só sobram dois. E nenhum os visita, nem nunca mais voltou a casa. Nesta casa sobram cinco pessoas sem traço de humanidade. E aqui que o livro se coloca. Na terra de ninguém onde não há comida, nenhuma, nem humanidade. Há apenas um feroz tom erótico que mostra a animalidade latente. E depois o nada. O único traço de amor é o amor de Jeeter, o pai, à terra. As personagens são feias, com deficiências físicas, a roupa prende-se ao corpo com cordas para que não se desfaça no caminho, a avó tarda em morrer, e há uma filha, a mais linda menina do mundo, que foi forçada a casar com Lov com doze anos e que sem dizer uma palavra, sem nunca aparecer em cena, prova ter sido o último traço de humanidade a abandonar a casa em ruínas. De resto estamos perante monstros, animais esfomeados.
O livro passa-se em cinco dias apocalípticos. O leitor diverte-se com o excesso de desumanidade e logo depois sofre por ser incapaz. Por perceber que se são humanos tem de haver neles qualquer tipo de sofrimento. E esse sofrimento vem uma vez só. E ainda assim Caldwell faz questão de não o nomear. Porque aqui há cinco dias para deixar que o mundo acabe. E esperar que das cinzas, dos filhos que não chegámos a ver, da não memória que sobra da Estrada do Tabaco, sobre qualquer resto de humano. Mas, ainda assim, é só nossa a esperança. Nunca será essa a mensagem do Estrada do Tabaco. Aqui só sobra o silêncio e o som de uma buzina, insistente, ao longe, do carro que nunca mais voltará a assomar ao fundo da colina.
Não sabia muito do Caldwell e não li nada sobre este livro quando o comecei a ler. E agora que o acabei, e que tinha tanto que dizer, fui ver o que andaram a escrever. E é tudo curto, insuficiente, e nenhum texto foi ao sítio que era o sítio onde era preciso encontrar o Caldwell. Este livro não é sobre o pós-crash, sobre a América abandonada e pobre. Esse é só o tempo onde a história acontece. Mas a história acontece num sítio, na beira da estrada do tabaco, numa casa que pertence a uma família "enquanto se mantiver de pé". E essa família teve 17 filhos e só sobram dois. E nenhum os visita, nem nunca mais voltou a casa. Nesta casa sobram cinco pessoas sem traço de humanidade. E aqui que o livro se coloca. Na terra de ninguém onde não há comida, nenhuma, nem humanidade. Há apenas um feroz tom erótico que mostra a animalidade latente. E depois o nada. O único traço de amor é o amor de Jeeter, o pai, à terra. As personagens são feias, com deficiências físicas, a roupa prende-se ao corpo com cordas para que não se desfaça no caminho, a avó tarda em morrer, e há uma filha, a mais linda menina do mundo, que foi forçada a casar com Lov com doze anos e que sem dizer uma palavra, sem nunca aparecer em cena, prova ter sido o último traço de humanidade a abandonar a casa em ruínas. De resto estamos perante monstros, animais esfomeados.
O livro passa-se em cinco dias apocalípticos. O leitor diverte-se com o excesso de desumanidade e logo depois sofre por ser incapaz. Por perceber que se são humanos tem de haver neles qualquer tipo de sofrimento. E esse sofrimento vem uma vez só. E ainda assim Caldwell faz questão de não o nomear. Porque aqui há cinco dias para deixar que o mundo acabe. E esperar que das cinzas, dos filhos que não chegámos a ver, da não memória que sobra da Estrada do Tabaco, sobre qualquer resto de humano. Mas, ainda assim, é só nossa a esperança. Nunca será essa a mensagem do Estrada do Tabaco. Aqui só sobra o silêncio e o som de uma buzina, insistente, ao longe, do carro que nunca mais voltará a assomar ao fundo da colina.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
o dia em que a kristof nos falou da mentira
agota kristof é um nome que soa a poucos. foi, em Portugal, uma aposta de poucos para um público pequeno. mas há nesta escritora húngara um segredo que merece ser dito em forma de leitura. o segredo que conhece quem lê.
este é um livro sobre a mentira, que é como quem diz, um livro sobre a verdade. o que é a verdade? o que na ficção nos é dito como sendo verdade? assumimos a ficção como invenção e nunca como mentira. e se nos fosse apresentado como mentira o que até agora acreditamos ser apenas ficção?
kristof tira-nos o chão, envolve-nos numa trama que não sabe ser linear ou transparente. a nossa relação com as personagens não é de reconhecimento nem de desconfiança. é de terror, medo, e sobretudo, claustrofobia. tudo é claustrofóbico em kristof e na Trilogia da Cidade de K.
quando lemos kristof tudo começa a ser diferente. a realidade e a literatura e as pontes entre elas. há momentos que nos ressoam claustrofóbicos quando antes eram felizes. crianças a desenhar, pessoas nos bancos do jardim, jardins com canteiros, cortinas. a literatura aqui entra dentro do quotidiano mas não por identificação e sim por desconforto. kristof torna o mundo desconfortável e aquela história passa a ser unicamente contada a nós, o que torna maior o sentimento de asfixia. e perscrutamos os olhares dos outros que lêem o mesmo livro que nós tentando imaginar se sentem o nosso temor. se sentem a segurança inicial que depois nos é retirada. se entendem como nós o efeito de cada uma daquelas personagens.
e por fim acabamos por estar perante um livro inclassificável que no final percebemos que se calhar nem é escrito pela kristof, tão personagem como as suas personagens. este livro muda inequivocamente a nossa forma de ver a escrita. nunca mais um livro será apenas um livro depois da leitura da Trilogia da Cidade de K.
a Trilogia da Cidade de K foi publicada pela Asa inicialmente em três volumes separados sendo que é mais que obrigatório lê-los todos e pela ordem certa. tanto os três livros como a Trilogia estão esgotados. procura-se um exemplar desesperadamente.
este é um livro sobre a mentira, que é como quem diz, um livro sobre a verdade. o que é a verdade? o que na ficção nos é dito como sendo verdade? assumimos a ficção como invenção e nunca como mentira. e se nos fosse apresentado como mentira o que até agora acreditamos ser apenas ficção?
kristof tira-nos o chão, envolve-nos numa trama que não sabe ser linear ou transparente. a nossa relação com as personagens não é de reconhecimento nem de desconfiança. é de terror, medo, e sobretudo, claustrofobia. tudo é claustrofóbico em kristof e na Trilogia da Cidade de K.
quando lemos kristof tudo começa a ser diferente. a realidade e a literatura e as pontes entre elas. há momentos que nos ressoam claustrofóbicos quando antes eram felizes. crianças a desenhar, pessoas nos bancos do jardim, jardins com canteiros, cortinas. a literatura aqui entra dentro do quotidiano mas não por identificação e sim por desconforto. kristof torna o mundo desconfortável e aquela história passa a ser unicamente contada a nós, o que torna maior o sentimento de asfixia. e perscrutamos os olhares dos outros que lêem o mesmo livro que nós tentando imaginar se sentem o nosso temor. se sentem a segurança inicial que depois nos é retirada. se entendem como nós o efeito de cada uma daquelas personagens.
e por fim acabamos por estar perante um livro inclassificável que no final percebemos que se calhar nem é escrito pela kristof, tão personagem como as suas personagens. este livro muda inequivocamente a nossa forma de ver a escrita. nunca mais um livro será apenas um livro depois da leitura da Trilogia da Cidade de K.
a Trilogia da Cidade de K foi publicada pela Asa inicialmente em três volumes separados sendo que é mais que obrigatório lê-los todos e pela ordem certa. tanto os três livros como a Trilogia estão esgotados. procura-se um exemplar desesperadamente.
quarta-feira, 11 de março de 2015
António Cabrita (sob a influência nem sempre nefasta do carinho) e o seu Éter
conheci o António Cabrita através dos livros dele, os publicados pela abysmo, antes de conhecer a pessoa. talvez a melhor forma de primeiro contacto com um autor. não sou das que afirmaria que é a única, dado os incríveis momentos que tenho tido o privilégio de viver com alguns autores. momentos que me fizeram não só querer ler a obra como lê-la com a influência nem sempre nefasta do carinho (o carinho como análise literária é algo que me suscita muito respeito). o António Cabrita teve as várias dimensões. começou por ser o autor da Maldição de Ondina, depois foi o Cabrita e depois o António.
Éter é o último livro do Cabrita. quando o abri vi o primeiro tremor. li várias vezes as mesmas primeiras frases:
Ainda não me saíram da pele os teus quatro tiros de caçadeira. É uma maneira de dizer que o seu eco ainda me perfura os tímpanos, devolvendo-me ao momento em que entrei no táxi e a rádio vomitou, Liquidou a tiro a mulher, o filho (que adoravas) e o gato, antes de virar o cano para si, deixando-me a boca descaída num esgar incontido, bruto.
este início está impregnado de beleza. a forma de começar a contar uma história, como uma urgência. a doçura do tom, a tragédia do conteúdo. a ansiedade de continuar, o silêncio do testemunho que fica para além das palavras. a intimidade com aquele a quem o narrador se dirige.
este é um livro em várias camadas e círculos, o que torna o livro um colosso, mais que um livro só. camadas porque explora vários sítios do nosso entendimento, da literatura, da vida e do conhecimento. círculos porque voltam todos a um presente que não é mais que uma passagem entre o passado e o futuro, ambos incompreensíveis ainda que um seja conhecido e outro não.
o texto é soluçado, gaguejado, contrariando o habitual conforto dos textos fáceis. o leitor passa pelo livro a completar com subtextos textos incompletos, invisíveis. coloca questões ao texto: onde já vivi isto? onde quer o autor chegar? a leitura não é nunca linear nem passiva é antes uma leitura de acção e diálogo.
este é um texto que equilibra de forma orgânica o texto e o conteúdo. deixa-nos desconfortáveis, apaixonados, tempestivos. na literatura contemporânea começa a ser raro encontrar esse equilíbrio. neste livro encontramos isso e posso afirmá-lo de qualquer ponto de vista, como se lesse um livro do autor da Maldição de Ondina, do Cabrita ou do António.
António Cabrita vive actualmente em Moçambique, em Maputo. Estudou cinema, escreveu guiões de cinema e foi jornalista e crítico literário mais de vinte anos sobretudo no Expresso. Escreveu livros de poesia, ensaio e romance. Os seus últimos livros foram publicados pela abysmo, em Portugal.
Éter é o último livro do Cabrita. quando o abri vi o primeiro tremor. li várias vezes as mesmas primeiras frases:
Ainda não me saíram da pele os teus quatro tiros de caçadeira. É uma maneira de dizer que o seu eco ainda me perfura os tímpanos, devolvendo-me ao momento em que entrei no táxi e a rádio vomitou, Liquidou a tiro a mulher, o filho (que adoravas) e o gato, antes de virar o cano para si, deixando-me a boca descaída num esgar incontido, bruto.
este início está impregnado de beleza. a forma de começar a contar uma história, como uma urgência. a doçura do tom, a tragédia do conteúdo. a ansiedade de continuar, o silêncio do testemunho que fica para além das palavras. a intimidade com aquele a quem o narrador se dirige.
este é um livro em várias camadas e círculos, o que torna o livro um colosso, mais que um livro só. camadas porque explora vários sítios do nosso entendimento, da literatura, da vida e do conhecimento. círculos porque voltam todos a um presente que não é mais que uma passagem entre o passado e o futuro, ambos incompreensíveis ainda que um seja conhecido e outro não.
o texto é soluçado, gaguejado, contrariando o habitual conforto dos textos fáceis. o leitor passa pelo livro a completar com subtextos textos incompletos, invisíveis. coloca questões ao texto: onde já vivi isto? onde quer o autor chegar? a leitura não é nunca linear nem passiva é antes uma leitura de acção e diálogo.
este é um texto que equilibra de forma orgânica o texto e o conteúdo. deixa-nos desconfortáveis, apaixonados, tempestivos. na literatura contemporânea começa a ser raro encontrar esse equilíbrio. neste livro encontramos isso e posso afirmá-lo de qualquer ponto de vista, como se lesse um livro do autor da Maldição de Ondina, do Cabrita ou do António.
António Cabrita vive actualmente em Moçambique, em Maputo. Estudou cinema, escreveu guiões de cinema e foi jornalista e crítico literário mais de vinte anos sobretudo no Expresso. Escreveu livros de poesia, ensaio e romance. Os seus últimos livros foram publicados pela abysmo, em Portugal.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Teoria da Viagem: uma Poética da Geografia, Michel Onfray
neste livro Michel Onfray fala com os viajantes. com os que viajam a vida inteira e passam os intervalos das viagens a pensar voltar a sair. para quem gosta deste estilo de vida nómada, este livro é um diálogo pessoal. uma conversa. um assentimento de tudo o que já vimos e experienciámos. a viagem solitária que me levou aos meus dias em Buenos Aires, a viagem com um amigo que me levou à Capadócia. e no livro há o nosso espaço de resposta porque Onfray sugere experiências e a nossa resposta é o assentimento ou o questionamento de volta. será que as viagens não são para se repetir, como ele afirma? saí de Buenos Aires, de Nova York e de Paris com um até já, mas saí do Niger ou de Banguecoque com a nostalgia da despedida. e não foi por acaso. há sítios que ainda têm segredos para nos contar ou segredos que partilhamos com os sítios e que queremos contar a outras pessoas. a esses sabemos que vamos regressar.
e como em todas as viagens há o regresso. é disso que Michel Onfray fala neste livro. fala do ciclo fechado da nossa vontade de sair. o estar, sair, ver, viver e regressar. regressar diferente e com vontade de sair outra vez para depois regressar. fala da casa, dos nossos sítios.
(acho mesmo que a certa altura falou da minha janela.)
a viagem é erroneamente considerada um momento com início e fim. a viagem é, na verdade, um estado de viagem onde podemos habitar continuamente. esse é um dos segredos que Onfray nos revela neste livro, mesmo sem o nomear.
[descobri este livro na melhor e maior de todas as viagens. as viagens também marcam os livros que lemos e o contrário é também tão verdade. por isso, para mim, agora, este livro está marcado, de alguma forma, como o primeiro. imprescindível para qualquer leitor-viajante. para mim imprescindível desde que soube que existia.]
e como em todas as viagens há o regresso. é disso que Michel Onfray fala neste livro. fala do ciclo fechado da nossa vontade de sair. o estar, sair, ver, viver e regressar. regressar diferente e com vontade de sair outra vez para depois regressar. fala da casa, dos nossos sítios.
(acho mesmo que a certa altura falou da minha janela.)
a viagem é erroneamente considerada um momento com início e fim. a viagem é, na verdade, um estado de viagem onde podemos habitar continuamente. esse é um dos segredos que Onfray nos revela neste livro, mesmo sem o nomear.
[descobri este livro na melhor e maior de todas as viagens. as viagens também marcam os livros que lemos e o contrário é também tão verdade. por isso, para mim, agora, este livro está marcado, de alguma forma, como o primeiro. imprescindível para qualquer leitor-viajante. para mim imprescindível desde que soube que existia.]
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
regressar a uma casa que não existe
Cláudia Clemente já tinha escrito dois livros de contos e um livro de teatro. Este é o primeiro romance. no entanto é um romance fragmentário que pode ter ligações com esse universo do conto. numa série de fragmentos articulados de forma absolutamente orgânica a autora conta-nos várias histórias que aparentemente são distantes mas que a determinado momento do livro se unem com uma naturalidade que escapa ao próprio leitor.
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.
A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.
A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
abismos
procuramos nos livros sempre algo extraordinário. conforme vamos encontrando, mais vamos procurando. se conseguirmos absorver o que nos é dado a ler e o que o extraordinário transmite então aí corremos o risco de nos tornarmos mais exigentes. conseguimos dizer que um livro é bom, mas a nossa fasquia sobe até sítios difíceis de alcançar.
neste livro de meckert vou saltar directamente para o último conto do livro, o Abismo. os outros são bons contos, mas, lá está, lêem-se com relativa tranquilidade. este, pelo contrário, leva-nos a abismos perigosos. com alguma investigação podemos ficar a saber que pelo menos o contexto em que se passa a história é real, mas ainda assim muda pouco no tipo de abismo em que entramos (já não digo caímos por ser de uma absoluta redundância, por todas as razões, não apenas as gramaticais). o sítio que meckert encontra é um sítio nosso, comum, que nos pode ou não ter sido desvendado. o temor que se abre como portas metálicas é um temor comum à humanidade, ao conjunto, ao limite desta nossa condição que se mantém tão desconhecida. uma procura intensa de uma visibilidade que só a nossa possibilidade de morte torna possível, por mais irónico que isso seja. é tão humano querermos ser vistos como tornar os outros invisíveis. só vemos o que é extraordinário, que rompe barreiras e convenções, mas dificilmente nos fascinamos com o comum. na própria literatura é raro quem consegue de forma eficaz retratar o normal. quem o faz é só por esse feito um escritor fantástico. jean meckert era um escritor extraordinário que soube elevar a sua absoluta normalidade e invisibilidade a um medo de todos nós, humano e orgânico, um medo que toca por um lado a solidão, pelo outro a certeza da nossa finitude.
A vida de Jean Meckert esteve longe de ser fácil. Figura rebelde das letras francesas, Meckert nasceu em Paris a 24 de Novembro de 1910, tendo sido separado da família em 1920 e enviado para o asilo Lambrechts, uma instituição protestante situada em Courbevoie. Desses quatro anos de orfanato ganhou uma repulsa pelo ensino religioso, guardando para sempre os sentimentos de abandono e humilhação. Na escola revelou-se um bom aluno, obtendo o diploma do ensino primário e trabalhando como aprendiz numa empresa de construção de motores eléctricos. Em 1927, já como empregado de escritório, ingressa no Crédit Lyonnais, lugar onde a sua mãe trabalhava como empregada de limpeza. Apanhado pela crise em 1929, Meckert perde o emprego e vai subsistindo através de pequenos trabalhos. Para escapar a esta vida miserável alista-se no exército em 1930, por um período de dezoito meses, sendo punido com várias penas de prisão por ausências injustificadas, conseguindo ainda assim ser promovido ao posto de cabo pelo comandante da 5ª Companhia de Engenharia. Ao regressar à vida civil em 1932, vê-se novamente mergulhado na pobreza. Estávamos na grande época do desemprego, onde era necessário fazer de tudo para sobreviver, e Meckert deitou a mão a tudo o que conseguiu, como o trabalho de vendedor ambulante ao portão da fábrica da Renault. O seu quarto de hotel, em Belleville, torna-se a sua «última trincheira», o refúgio onde escreverá narrativas inspiradas na sua própria existência, designadamente os três contos publicados em “Abismo e outros Contos” (Antígona, 2013): “Um Crime”, “O Bom Samaritano” e “Abismo”.
terça-feira, 17 de junho de 2014
do Fontelo e do gonçalo
anda por aí um poeta que é poeta há muito tempo. um poeta que luta com a sua própria poesia já há muito tempo. que a escreve muitas vezes, tanto a poesia como cada uma das palavras.
chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.
há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?
no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.
"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"
"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"
"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."
o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?
Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.
para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.
chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.
há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?
no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.
"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"
"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"
"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."
o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?
Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.
para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
buenos aires, a cidade capital da palavra
fui a Buenos Aires há três anos atrás. apanhei o avião, sozinha, para ir comprar livros. do avião, ao chegar, vi a cidade de cima, à noite. gigante e luminosa. tinha imaginado tanto o queria fazer que tinha o mapa de cor debaixo dos olhos. identifiquei, pensei eu, o meu hotel do avião.
no entanto fui rapidamente engolida pela cidade. no meu silêncio e nas ruas tumultuosas encontrei uma cidade que não quer fascinar nem encher as medidas de ninguém. uma cidade que existe, com alguma arrogância e uma absoluta descontracção. vive-se (em) Buenos Aires irreflectidamente e de forma orgânica.
Ernesto Schoo escreveu, no final da sua vida, Mi Buenos Aires Querido. editado em Portugal pela Tinta da China, na cuidada colecção de Carlos Vaz Marques que tem a dupla função de reabilitar em bom o género da literatura de viagens, revelando a esse propósito livros que teriam um espaço limitado noutras vias na edição portuguesa. para completar o bom gosto desta edição somos presenteados por um pequeno prefácio de Carlos Quevedo, onde dá a entender que Buenos Aires é uma cidade subjectiva, em sintonia com o que Schoo conclui no último capítulo do livro. Buenos Aires não é bela, original, turística, doce ou confortável. é um animal. que é selvagem ao mesmo tempo que consegue ser leal. é aqui que vos digo que é diferente ler Schoo tendo ido ou não a Buenos Aires. eu fui e não sei ler de outra forma. eu também tenho a minha cidade desconhecida e irreverente, se bem que a de Schoo foi vivida ao longo de mais de 80 anos e a minha em dez dias. é outra cidade também por isso.
Schoo conta aqui uma Buenos Aires. não tem apenas um ponto de vista não apenas na ideia que espelha da cidade mas também na forma como escreve. Schoo é um escritor argentino e não surpreende ao quebrar a forma que julgamos entender no início do livro. num ritmo cadenciado de pequenos textos aparentemente equilibrados, Schoo quebra a cadência pelo conteúdo do espaço de intenção que a cidade ocupa em cada um deles. o que aparentemente é equilibrado é na verdade absolutamente único, capítulo a capítulo. como é também recorrente na literatura argentina não é perceptível quando estamos perante a verdadeira ficção ou marcas biográficas - uma clara herança / convívio com Borges - o que aliás, como sempre, pouco interessa. interessa apenas por nos deixar suspensos de um texto tão pessoal que vamos balançando do real para o ficcionado ao nosso bel prazer tornando-nos assim parte da própria narrativa.
este é, assim, desde já, um livro obrigatório para quem conta atravessar o Oceano para visitar a terra dos escritores. só se pode conhecer Buenos Aires conhecendo cada uma das cidades que existe em cada viajante e em cada portenho. esta é uma das Buenos Aires portenha. só tem um ponto negativo - agora queria ler mais Schoo e vai ser um 31 para o encontrar. se calhar terei de regressar a Buenos Aires.
no entanto fui rapidamente engolida pela cidade. no meu silêncio e nas ruas tumultuosas encontrei uma cidade que não quer fascinar nem encher as medidas de ninguém. uma cidade que existe, com alguma arrogância e uma absoluta descontracção. vive-se (em) Buenos Aires irreflectidamente e de forma orgânica.
Ernesto Schoo escreveu, no final da sua vida, Mi Buenos Aires Querido. editado em Portugal pela Tinta da China, na cuidada colecção de Carlos Vaz Marques que tem a dupla função de reabilitar em bom o género da literatura de viagens, revelando a esse propósito livros que teriam um espaço limitado noutras vias na edição portuguesa. para completar o bom gosto desta edição somos presenteados por um pequeno prefácio de Carlos Quevedo, onde dá a entender que Buenos Aires é uma cidade subjectiva, em sintonia com o que Schoo conclui no último capítulo do livro. Buenos Aires não é bela, original, turística, doce ou confortável. é um animal. que é selvagem ao mesmo tempo que consegue ser leal. é aqui que vos digo que é diferente ler Schoo tendo ido ou não a Buenos Aires. eu fui e não sei ler de outra forma. eu também tenho a minha cidade desconhecida e irreverente, se bem que a de Schoo foi vivida ao longo de mais de 80 anos e a minha em dez dias. é outra cidade também por isso.Schoo conta aqui uma Buenos Aires. não tem apenas um ponto de vista não apenas na ideia que espelha da cidade mas também na forma como escreve. Schoo é um escritor argentino e não surpreende ao quebrar a forma que julgamos entender no início do livro. num ritmo cadenciado de pequenos textos aparentemente equilibrados, Schoo quebra a cadência pelo conteúdo do espaço de intenção que a cidade ocupa em cada um deles. o que aparentemente é equilibrado é na verdade absolutamente único, capítulo a capítulo. como é também recorrente na literatura argentina não é perceptível quando estamos perante a verdadeira ficção ou marcas biográficas - uma clara herança / convívio com Borges - o que aliás, como sempre, pouco interessa. interessa apenas por nos deixar suspensos de um texto tão pessoal que vamos balançando do real para o ficcionado ao nosso bel prazer tornando-nos assim parte da própria narrativa.
este é, assim, desde já, um livro obrigatório para quem conta atravessar o Oceano para visitar a terra dos escritores. só se pode conhecer Buenos Aires conhecendo cada uma das cidades que existe em cada viajante e em cada portenho. esta é uma das Buenos Aires portenha. só tem um ponto negativo - agora queria ler mais Schoo e vai ser um 31 para o encontrar. se calhar terei de regressar a Buenos Aires.
eu, ao contrário de Quevedo, referi Borges. shame on me...
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
a fé e o amor na forma improvável
não gosto do ritual de me sentar a escrever sobre os livros do afonso. já tanto se disse, já tanta gente escreveu sobre este livro que não me apetece acrescentar mais um ponto a um longo texto já escrito por tantos outros.
o afonso foge a muitas das categorias óbvias em que poderia já ter caído. um jovem escritor, talentoso, com boa figura e boa presença poderia, facilmente, cair nas teias da crítica fácil ávida de uma palavra errada, um pé colocado ao lado por estes novos escritores, para criarem um monstro.
não conseguem porque o afonso não põe o pé ao lado e nem faz esforço por não o fazer. é autêntico, no que a palavra tem de melhor. está ali, escreve, vive, marca presença e fala. e fala bem, e tem as palavras não ensaiadas nas alturas mais improváveis e funcionam sempre.
digo estas coisas do afonso porque acho que isto que digo tem ligação com o novo romance dele, para onde vão os guarda-chuvas.
o que quero falar hoje aqui é a forma como o afonso viaja. o livro é uma viagem plena. uma viagem inteira. uma viagem ao paquistão sem nunca se referir o país. uma viagem à intolerância que se deixa esmagar pelo amor sem que isso nunca se veja em lado nenhum. é um livro sobre o amor. sem cliché nenhum. sem cliché nenhum, repito, antes que desistam já aqui deste texto.
é um livro sobre o amor.
sobre o amor. e é difícil falar do amor num planeta onde os livros falam todos sobre o amor mesmo quando o amor não interessa nada. mas aqui interessa. fala do amor absolutamente improvável. em todo o lado. fala do que se parte e do que parte com a morte, em primeiro plano. e fala do amor que se conquista que nem sempre é o que se precisa. e do amor que é criminoso porque não entende as barreiras do que deve ser aceite e indestrutível.
e é uma viagem pela religião. quem me conhece sabe que tenho um grande fascínio pelo estudo das religiões, com uma considerável distância. aqui tenho de parar num episódio que li muitas vezes, que repeti incansavelmente até entender o peso que teve no que estava a ler e no que seria aquela história a partir dali. a certa altura conta-se a história de alguém a quem o pai obriga a ler a Bíblia e que, não querendo lê-la, lê e decora passagens de outros livros. Elahi apanha uma parte da Alice no País das Maravilhas pensando que é da Bíblia e interpreta-o à luz da fé católica com algum encanto e com o encontro de Deus. daquele Deus. o livro é isto. é sempre isto. uma interpretação de uma religião que é uma forma de agir que é uma forma de não sofrer que é uma forma de amar.
o afonso atingiu aqui um ponto profundo da escrita dele. como se descansasse de desenhar a escrita e a tornasse visceral. descreve personagens banais transformando-as nas pessoas da porta ao lado, mas da nossa porta ao lado, indispensáveis e parte da nossa pele.
e chegou a altura de falar de Isa. o expoente de uma liberdade que não se deseja. o retrato de uma tempestade que é ainda uma criança. um miúdo, americano, adoptado para permitir o perdão e a paz. o Isa substitui a religião tornando-se para esta família o verdadeiro acto de fé. e que como todas as fés não pode existir em paz, nem em consenso, nem em harmonia. e ao ser a fé de uns é a heresia de outros. é uma guerra que traz Isa, sobretudo dentro do espaço que ele terá de ocupar, vivendo no seu corpo as incoerências, desesperos e paixões de uma religião.
escarlatina escarlatina escarlatina
é a oração de Isa. capaz de muito mais do que eu alguma vez consegui com os meus tipos de fé.
no dia do lançamento o afonso disse uma coisa que tenho andado por aí a repetir e a pensar e a escrever. que no universo há muitos sítios para algo estar desarrumado e apenas um para se estar arrumado o que complica o encontrar onde estar no sítio certo.
e aqui entre nós afonso, eu tu e aqueles que já leram o livro, a forma como descreves o sítio onde o Isa encontrou o seu lugar para estar arrumado é dos momentos mais perfeitos que eu já vi em tantos livros que já li. no precipitar de uma tragédia há finalmente a paz. não a paz que podíamos esperar, de todo. a paz da escarlatina. e é de uma beleza absolutamente estonteante. e o livro parou no sítio certo. ali, no sítio certo de Isa, à beira de um abismo que impossibilitaste de existir. ficou o Isa encaixado e nós na pele com a sensação da quase queda quando tudo o que ainda se vê é só o céu. mesmo antes da queda, a que nunca existe, porque o livro chegou ao fim.
o afonso foge a muitas das categorias óbvias em que poderia já ter caído. um jovem escritor, talentoso, com boa figura e boa presença poderia, facilmente, cair nas teias da crítica fácil ávida de uma palavra errada, um pé colocado ao lado por estes novos escritores, para criarem um monstro.
não conseguem porque o afonso não põe o pé ao lado e nem faz esforço por não o fazer. é autêntico, no que a palavra tem de melhor. está ali, escreve, vive, marca presença e fala. e fala bem, e tem as palavras não ensaiadas nas alturas mais improváveis e funcionam sempre.
digo estas coisas do afonso porque acho que isto que digo tem ligação com o novo romance dele, para onde vão os guarda-chuvas.
o que quero falar hoje aqui é a forma como o afonso viaja. o livro é uma viagem plena. uma viagem inteira. uma viagem ao paquistão sem nunca se referir o país. uma viagem à intolerância que se deixa esmagar pelo amor sem que isso nunca se veja em lado nenhum. é um livro sobre o amor. sem cliché nenhum. sem cliché nenhum, repito, antes que desistam já aqui deste texto.
é um livro sobre o amor.
sobre o amor. e é difícil falar do amor num planeta onde os livros falam todos sobre o amor mesmo quando o amor não interessa nada. mas aqui interessa. fala do amor absolutamente improvável. em todo o lado. fala do que se parte e do que parte com a morte, em primeiro plano. e fala do amor que se conquista que nem sempre é o que se precisa. e do amor que é criminoso porque não entende as barreiras do que deve ser aceite e indestrutível.
e é uma viagem pela religião. quem me conhece sabe que tenho um grande fascínio pelo estudo das religiões, com uma considerável distância. aqui tenho de parar num episódio que li muitas vezes, que repeti incansavelmente até entender o peso que teve no que estava a ler e no que seria aquela história a partir dali. a certa altura conta-se a história de alguém a quem o pai obriga a ler a Bíblia e que, não querendo lê-la, lê e decora passagens de outros livros. Elahi apanha uma parte da Alice no País das Maravilhas pensando que é da Bíblia e interpreta-o à luz da fé católica com algum encanto e com o encontro de Deus. daquele Deus. o livro é isto. é sempre isto. uma interpretação de uma religião que é uma forma de agir que é uma forma de não sofrer que é uma forma de amar.
o afonso atingiu aqui um ponto profundo da escrita dele. como se descansasse de desenhar a escrita e a tornasse visceral. descreve personagens banais transformando-as nas pessoas da porta ao lado, mas da nossa porta ao lado, indispensáveis e parte da nossa pele.
e chegou a altura de falar de Isa. o expoente de uma liberdade que não se deseja. o retrato de uma tempestade que é ainda uma criança. um miúdo, americano, adoptado para permitir o perdão e a paz. o Isa substitui a religião tornando-se para esta família o verdadeiro acto de fé. e que como todas as fés não pode existir em paz, nem em consenso, nem em harmonia. e ao ser a fé de uns é a heresia de outros. é uma guerra que traz Isa, sobretudo dentro do espaço que ele terá de ocupar, vivendo no seu corpo as incoerências, desesperos e paixões de uma religião.
escarlatina escarlatina escarlatina
é a oração de Isa. capaz de muito mais do que eu alguma vez consegui com os meus tipos de fé.
no dia do lançamento o afonso disse uma coisa que tenho andado por aí a repetir e a pensar e a escrever. que no universo há muitos sítios para algo estar desarrumado e apenas um para se estar arrumado o que complica o encontrar onde estar no sítio certo.
e aqui entre nós afonso, eu tu e aqueles que já leram o livro, a forma como descreves o sítio onde o Isa encontrou o seu lugar para estar arrumado é dos momentos mais perfeitos que eu já vi em tantos livros que já li. no precipitar de uma tragédia há finalmente a paz. não a paz que podíamos esperar, de todo. a paz da escarlatina. e é de uma beleza absolutamente estonteante. e o livro parou no sítio certo. ali, no sítio certo de Isa, à beira de um abismo que impossibilitaste de existir. ficou o Isa encaixado e nós na pele com a sensação da quase queda quando tudo o que ainda se vê é só o céu. mesmo antes da queda, a que nunca existe, porque o livro chegou ao fim.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
oh Bandini, Bandini...
em Estrada para Los Angeles (edição Alfaguara 2013, primeira em Portugal) Arturo Bandini é um adolescente. pareceu-me durante toda a leitura que era neste livro que Fante o apresentava como figura tão indescritível como incómoda. não há nada de doce em Bandini. não há amabilidade ou cortesia ou sociabilidade. Bandini é o escritor por conceito sem ser de todo conceptualizado ou encaixado em categorias.
este livro poderia ser (e será) como um prólogo dos outros. o livro posiciona-se no olhar do jovem escritor que deverá sustentar a mãe e a irmã e deixa-nos perceber sem qualquer momento obscuro ou misterioso o caminho absolutamente quotidiano de Bandini. e esse absolutamente quotidiano é sempre extraordinário. com absoluto desprezo pelo maquinal e pelo funcional Bandini é um escritor violento, opressivo, contra a igreja e acérrimo defensor do seu génio. a mãe e a irmã são personagens de grande importância ainda que inicialmente pareçam estar caricaturadas. por um lado Mona, a irmã, católica fervorosa (e será assim tanto ou é o que o irmão nos faz entender?) sempre pronta para mostrar ao irmão que a realidade não é aquela onde ele vive com a crueldade natural dos irmãos mas, claro, com o exagero certo de Fante. a mãe é a protectora, angustiada entre os dois e com a falta de dinheiro, personagem aparentemente plana que é apenas mãe mas com quem Bandini é capaz de algum carinho, muito leve, mas exemplar face à crueldade da sua convicção diária e vontade de destruição.
Bandini é incrível. Fante criou uma personagem incómoda, doente, violenta mas coerente. Este livro é o momento em que se forma assim, insuportável e surpreendente, sempre na calha de algo insuspeito e, no final, nada perigoso, ao contrário do que anuncia.
Fante é um escritor sem floreados, simples e quotidiano (no que isto pode ter de bom, note-se). parecendo (e por muitos criticado por isso) estar a escrever um romance do dia a dia está, na verdade, a criar uma personagem inesquecível cujo nome lhe sobrevive. eu tenho um fraquinho por personagens fortes, já sabem. e isto de criar uma personagem forte, insuportável, que nunca é descrita mas também não é narradora e que apenas vive (e é suficiente) de actos e diálogos, é criar uma obra de arte.
este livro poderia ser (e será) como um prólogo dos outros. o livro posiciona-se no olhar do jovem escritor que deverá sustentar a mãe e a irmã e deixa-nos perceber sem qualquer momento obscuro ou misterioso o caminho absolutamente quotidiano de Bandini. e esse absolutamente quotidiano é sempre extraordinário. com absoluto desprezo pelo maquinal e pelo funcional Bandini é um escritor violento, opressivo, contra a igreja e acérrimo defensor do seu génio. a mãe e a irmã são personagens de grande importância ainda que inicialmente pareçam estar caricaturadas. por um lado Mona, a irmã, católica fervorosa (e será assim tanto ou é o que o irmão nos faz entender?) sempre pronta para mostrar ao irmão que a realidade não é aquela onde ele vive com a crueldade natural dos irmãos mas, claro, com o exagero certo de Fante. a mãe é a protectora, angustiada entre os dois e com a falta de dinheiro, personagem aparentemente plana que é apenas mãe mas com quem Bandini é capaz de algum carinho, muito leve, mas exemplar face à crueldade da sua convicção diária e vontade de destruição.
Bandini é incrível. Fante criou uma personagem incómoda, doente, violenta mas coerente. Este livro é o momento em que se forma assim, insuportável e surpreendente, sempre na calha de algo insuspeito e, no final, nada perigoso, ao contrário do que anuncia.
Fante é um escritor sem floreados, simples e quotidiano (no que isto pode ter de bom, note-se). parecendo (e por muitos criticado por isso) estar a escrever um romance do dia a dia está, na verdade, a criar uma personagem inesquecível cujo nome lhe sobrevive. eu tenho um fraquinho por personagens fortes, já sabem. e isto de criar uma personagem forte, insuportável, que nunca é descrita mas também não é narradora e que apenas vive (e é suficiente) de actos e diálogos, é criar uma obra de arte.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
do documento à ficção real
Autismo
Valério Romão
Abysmo
cada vez que escrevo sobre um novo livro penso numa questão que tem sido fundamental em muitas discussões que tenho tido sobre isto de "avaliar" ou até apenas "gostar" de um livro. quando leio um livro leio-o dentro de um contexto próprio e em categorias não claramente definidas mas que existem. autores com pouca obra publicada é uma dessas categorias. gosto de ler e acompanhar novos autores para adivinhar o que prometem, o que trazem de novo, se têm ou não medo de influências (têm quase sempre). o valério romão é um desses novos autores. tem dois livros publicados. já aqui falei do segundo, agora li o primeiro, o Autismo.
a primeira sensação que tive ao ler o Autismo foi de alguma asfixia. percebemos a tragédia tão cedo como percebemos n'O da Joana e há ali um sentimento de ligação e de ponte que se torna irrespirável, logo nas primeiras páginas. não fossem parte de uma trilogia chamada "paternidades falhadas", que claramente testam os limites dessa mesma paternidade, e seria de questionar de forma mais profunda a necessidade desta ligação à tragédia.
não vou falar de forma convencional do Autismo, vi antes de ler demasiadas referências que me deixaram a leitura suspensa. por isso vou apenas pegar no lado documental do livro que, a meu ver, ganha em dois pontos muito fortes. por um lado o autismo, essa doença que não é doença, essa perturbação do comportamento que tem tantas variantes que se torna indefinível. este livro documenta o autismo em primeiro lugar textualmente, com algumas referências claras e fundamentais para quem quer conhecer a doença e, depois, é fundamental sabermos que o autor experienciou esta realidade, o que torna o livro, em absoluto, credível. no entanto é exactamente nessa credibilidade que o livro fere mais e nos faz ter a necessidade de relembrar, em todos os momentos, que não estamos perante uma reportagem sobre a vida do autor. e não queremos estar, pedimos para não estar tal é a violência do que é dito.
é muito comum assistirmos a uma grande dificuldade em assumir que aqueles que amamos muitas vezes nos cansam, complicam a vida. é difícil viver com essa aceitação, a culpa que nos é imposta, a ideia de que não nos devemos queixar, e que, como marta (a mãe) no romance parece acreditar, ou se ama a pessoa por quem aparentemente nos sacrificamos ou vivemos em sacrifício por ela. rogério, o pai, mostra o contrário, põe a nu o sofrimento e os "ses", e o que é mais interessante no livro é ver que não o faz para nós, fá-lo em privado. para a mulher, para um blog que ninguém sabe que escreve, para si próprio, para o pai. conseguimos perceber que o rogério, ao contrário da marta, avalia as imensas possibilidades que existem para além do henrique, o filho, numa desesperada procura de redenção e sobrevivência. rogério só quer estar à tona de água. é uma personagem ambígua e obscura, com uma forma que se vai desenhando dolorosamente até ao final.
e, segundo lugar, este é um livro que não documenta só o henrique, documenta o rogério e a marta. coloca em discurso directo questões que nunca são do domínio público e que ninguém conhece estando do lado de fora. mostra como o sofrimento profundo e a falta de esperança, quando chega ao limite, não procura ninguém que esteja fora desse mesmo caminho. a energia da marta não se pode dispersar. a do rogério também não. e não estão aparentemente (ressalvo o aparentemente) no mesmo sítio.
este é um romance poderoso. tive com ele semanas difíceis em que me foi difícil virar as páginas. tive com ele uma relação de angústia e violência. é um romance obrigatório para quem não tem medo da verdade. é a ferida que realmente existe neste romance - por mais que tentemos fingir e procurar zonas de conforto, este romance está pejado de verdade. e se o rogério e a marta não têm direito a zonas de conforto, nós também não podemos ter, não enquanto lermos a história deles. e a respiração demora a voltar mas com ela volta uma maior empatia com tanta gente que precisa dela. este romance cumpre assim o que para mim deverá ser um dos mais importantes objectivos da literatura - abrir as nossas janelas e tornar-nos empáticos com os outros, aqueles que normalmente vemos rápido passar por nós e nos esquecemos uns minutos depois.
Valério Romão
Abysmo
cada vez que escrevo sobre um novo livro penso numa questão que tem sido fundamental em muitas discussões que tenho tido sobre isto de "avaliar" ou até apenas "gostar" de um livro. quando leio um livro leio-o dentro de um contexto próprio e em categorias não claramente definidas mas que existem. autores com pouca obra publicada é uma dessas categorias. gosto de ler e acompanhar novos autores para adivinhar o que prometem, o que trazem de novo, se têm ou não medo de influências (têm quase sempre). o valério romão é um desses novos autores. tem dois livros publicados. já aqui falei do segundo, agora li o primeiro, o Autismo.
a primeira sensação que tive ao ler o Autismo foi de alguma asfixia. percebemos a tragédia tão cedo como percebemos n'O da Joana e há ali um sentimento de ligação e de ponte que se torna irrespirável, logo nas primeiras páginas. não fossem parte de uma trilogia chamada "paternidades falhadas", que claramente testam os limites dessa mesma paternidade, e seria de questionar de forma mais profunda a necessidade desta ligação à tragédia.
não vou falar de forma convencional do Autismo, vi antes de ler demasiadas referências que me deixaram a leitura suspensa. por isso vou apenas pegar no lado documental do livro que, a meu ver, ganha em dois pontos muito fortes. por um lado o autismo, essa doença que não é doença, essa perturbação do comportamento que tem tantas variantes que se torna indefinível. este livro documenta o autismo em primeiro lugar textualmente, com algumas referências claras e fundamentais para quem quer conhecer a doença e, depois, é fundamental sabermos que o autor experienciou esta realidade, o que torna o livro, em absoluto, credível. no entanto é exactamente nessa credibilidade que o livro fere mais e nos faz ter a necessidade de relembrar, em todos os momentos, que não estamos perante uma reportagem sobre a vida do autor. e não queremos estar, pedimos para não estar tal é a violência do que é dito.
é muito comum assistirmos a uma grande dificuldade em assumir que aqueles que amamos muitas vezes nos cansam, complicam a vida. é difícil viver com essa aceitação, a culpa que nos é imposta, a ideia de que não nos devemos queixar, e que, como marta (a mãe) no romance parece acreditar, ou se ama a pessoa por quem aparentemente nos sacrificamos ou vivemos em sacrifício por ela. rogério, o pai, mostra o contrário, põe a nu o sofrimento e os "ses", e o que é mais interessante no livro é ver que não o faz para nós, fá-lo em privado. para a mulher, para um blog que ninguém sabe que escreve, para si próprio, para o pai. conseguimos perceber que o rogério, ao contrário da marta, avalia as imensas possibilidades que existem para além do henrique, o filho, numa desesperada procura de redenção e sobrevivência. rogério só quer estar à tona de água. é uma personagem ambígua e obscura, com uma forma que se vai desenhando dolorosamente até ao final.
e, segundo lugar, este é um livro que não documenta só o henrique, documenta o rogério e a marta. coloca em discurso directo questões que nunca são do domínio público e que ninguém conhece estando do lado de fora. mostra como o sofrimento profundo e a falta de esperança, quando chega ao limite, não procura ninguém que esteja fora desse mesmo caminho. a energia da marta não se pode dispersar. a do rogério também não. e não estão aparentemente (ressalvo o aparentemente) no mesmo sítio.
este é um romance poderoso. tive com ele semanas difíceis em que me foi difícil virar as páginas. tive com ele uma relação de angústia e violência. é um romance obrigatório para quem não tem medo da verdade. é a ferida que realmente existe neste romance - por mais que tentemos fingir e procurar zonas de conforto, este romance está pejado de verdade. e se o rogério e a marta não têm direito a zonas de conforto, nós também não podemos ter, não enquanto lermos a história deles. e a respiração demora a voltar mas com ela volta uma maior empatia com tanta gente que precisa dela. este romance cumpre assim o que para mim deverá ser um dos mais importantes objectivos da literatura - abrir as nossas janelas e tornar-nos empáticos com os outros, aqueles que normalmente vemos rápido passar por nós e nos esquecemos uns minutos depois.
sábado, 3 de agosto de 2013
O da Joana, Valério Romão, Abysmo
Valério Romão começou a prometer,
aos meus olhos, no primeiro número da Granta. o Autismo vem a
caminho, em breve falarei dele.
O da Joana conta um só episódio
traumático para Joana e para Jorge, o marido. depois de uma primeira
cena genial, envolvente e misteriosa que nos embarca numa cena que
nos corta a respiração entramos numa história onde achamos, durante
poucas linhas, que podemos respirar do ambiente em que embarcámos na
primeira cena. mas não. a espiral descendente deste livro começa
logo no início e não termina. nunca percebemos o ponto de vista
real do livro, o que, a meu ver, é o que de mais interessante e
inovador podemos ler neste livro – ao nunca percebermos o ponto de
vista que estamos a ler nunca sabemos o que é real e o que é fruto
da crescente loucura da personagem. nunca percebemos em que universo
estamos. é uma escrita corrida e respirada. Ao mesmo tempo
asfixiante e dolorosa. um exercício de estilo e uma forte
manipulação psicológica. uma manipulação que nos faz amar e
detestar a Joana, sentir piedade e medo, angústia e uma doce
simpatia. nada é pacífico naquele livro que se lê rápido e nos
deixa um rasto de angústia duradouro. um livro que alterna entre profundidade
e tona de água. o que acontece à própria Joana, que vem por vezes à tona de
água da realidade. mas nós nunca percebemos onde está a sua, logo, a nossa realidade. só podemos adivinhar.
não é um livro fácil mas é um livro
necessário para quem gosta de escritores. e o Valério Romão é
daqueles bons escritores que prometem muito. E isso é tão raro como
incrível. Fazia falta o Valério Romão antes de saber que existia. fazia falta alguém que usasse a arte crua das palavras sendo
escritor sem a arte do enfeite. aquilo é a verdade – a pior das verdades,
mas a verdade. e poucas vezes é fácil falar da verdade. e ele consegue. sem medos.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Franzen did it again
vou falar do Correcções a começar pelo fim. pelo momento em que o Chip chega a casa a tempo do pequeno-almoço de Natal em família, o último, segundo a mãe Enid. é o momento mais pacífico e idílico de todo o livro. com a mestria de sempre, Franzen dá-nos a volta com a subtileza da escrita e convence-nos, por uma única vez no livro, que aquela família não está absolutamente condenada ao abismo. só aí. ou a partir daí (é uma segunda leitura, discutível). é disso que nos fala o livro. de uma família absolutamente disfuncional com diversos núcleos. Gary e Caroline aparentam ser, no início do livro, o casal mais estável, com três filhos (não será de todo inocente que dois deles se chamem Caleb e Aaron, como no A Leste do Paraíso do Steinbeck, numa referência, aqui explícita, a Abel e Caim). no entanto é dentro da vida deste casal que Franzen se foca mais detalhadamente, com passagens em tempo real de diálogos e referências, mostrando-nos, sem descrever, a dor profunda que se vive dentro do casal e a forma como os miúdos nunca saberão gerir isso. Denise, a irmã mais nova vai sendo apresentada aos poucos, muito lentamente ao longo das mais de 500 páginas. quanto mais Franzen nos revela Denise mais nos apaixonamos por ela. pela forma de estar livre e de ser convicta, pela forma como não questiona a sua bissexualidade revelada apenas na sua forma de amar e não de viver a própria sexualidade. Chip é o mais disparatado e perdido, por quem o pai, Alfred, chama sempre, mesmo não estando ele em casa. Chip é o que mais surpreende no final, por ser quem realmente fica. fez-me lembrar o meu irmão. Alfred e Enid são os pais, representados entre a dureza e a caricatura, numa espiral tanto de tristeza como de esperança.este é um livro sobre a família. sobre todas as famílias. sobre como as famílias se corrigem indesistivelmente até ao final. do livro e de tudo. como nas famílias as dores se reciclam para serem úteis e renovadoras. este é um grande livro. um livro corajoso para leitores corajosos. Franzen did it again. e não vos falo da correcção final, terão de ler o livro. mas posso dizer desde já que aqui vemos que é a família quem mais nos destrói e ao mesmo tempo a quem recorremos sempre para respirar. para nos corrigirmos. mesmo com o baixo nível de tolerância que todos eles têm uns pelos outros. o amor fraternal de Denise e Chip sempre no limite destrutivo. o amor de Enid ao neto. a vontade de Jonah, o neto, em não trazer tristeza à avó. as conversas de Denise com o pai durante os exercícios. a crueldade de Gary. estamos neste livro no plano mais íntimo desta família. e não são poucas as vezes que nos incomodamos, que nos sentimos a mais, que nos sentimos a invadir o espaço que não nos pertence. e no fim quase nem é difícil largar o livro. porque é no momento que todos eles largam uma amarra qualquer. e aí, sem vos contar o fim vos digo - não é crueldade ou maldade. é aquilo que, na família, nos permite corrigirmo-nos, aprendendo.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
A Purga
Há livros que de alguma forma são
lidos como monumentos. Já o disse muitas vezes, tenho um fraquinho
por livros em que a violência vem de dentro para fora. E livros em que
a história vem das personagens e menos do enredo. A Purga tem isto
tudo. Escrito na Finlândia por Sofi Oksanen conta uma parte
importante da história da Estónia através da história de duas
mulheres de duas gerações diferentes. Um enredo repleto de segredos
e que pisa durante todo o livro o gelo fino das relações familiares
e do amor à família que pode ou não ser mais forte que o instinto
de sobrevivência. Mas não pensem que aqui entramos em clichés. Não
há clichés nem lugares comuns neste livro. Há retalhos de uma
história que é contada ao mesmo tempo que é montada dentro da
nossa imaginação. O livro leva-nos num labirinto onde não nos
perdemos ainda que saibamos que estamos dentro de um caminho
tortuoso. Com descrições inacreditáveis, com destaque para a cena
inicial em que Aliide encontra Zara caída no quintal e para a cena
em que Aliide descobre a verdade sobre Zara e esta está fechada no compartimento às escuras esmagada pela vergonha e medo, o livro
transporta-nos numa leitura que é ao mesmo tempo caótica e
pacífica, uma mistura difícil de conseguir e que aqui é conseguida com uma mestria única. Com duas personagens que significam ao mesmo tempo a
esfera privada e pública da história da Estónia este livro
torna-se absorvente e inesquecível. Um livro a sério. Um livro a
sério, sim. Que nos enche as medidas na história, na estória, nas
personagens, na escrita simples, clara e crua de Sofi Oksanen.
Precisamos de mais Sofi Oksanen. Com mais este livro a Alfaguara
caminha para aquele sítio místico onde coloco duas ou três
editoras portugueses – se eles publicam é bom. As provas que nos
têm dado são essas. E A Purga é uma bomba no nosso panorama editorial. Um
livro com todas as letras maiúsculas.
sábado, 9 de março de 2013
o afonso e o meu já livro do ano
"há coisas que não se podem guardar em frascos, como os beijos e os dentes que ainda não caíram e os pensamentos e a luz das velas."
afonso cruz
já disse tanto sobre o afonso, sobretudo sobre a capacidade que ele tem de fazer um livro em absoluto diferente de outro. e continua. a fasquia sobe e ele salta olimpicamente por cima dela. com uma postura intocável de independência face ao meio, aos críticos, aos editores. não me interpretem mal, não digo que lhes vira as costas, digo apenas que é autêntico. é isso que ele é. autêntico. e para além de essa característica ser só por si um tesouro, nos tempos que vivemos de uma metamorfose assustadora das características do que deve ser um escritor, encontrar um "afonso" deixa-nos respirar um bocado e fazer as pazes com a literatura.
este livro do ano tem uma narradora, uma menina pré-adolescente com um irmão mais velho parecido com o meu. se calhar por isso acho que esta narradora se dilui em nós, ou nós nela, o que é bastante diferente.
(será desnecessário acrescentar que toda a boa literatura é uma parte da autobiografia que gostaríamos de conseguir escrever.)
ela pensa em coisas que, podemos dizer, "não cabem na cabeça de ninguém". mas o que ela descobre cabe em todas as cabeças. o afonso revira a realidade e interpreta o quotidiano de uma forma que só o tem a ele como autor. e faz-nos ser autores das nossas próprias conclusões. não vou dizer muito mais sobre o livro do ano. só vos aconselho a que se preparem. e que leiam isto aos vossos miúdos e que leiam em silêncio e que leiam em voz alta e que o leiam aos bocados. neste ano cabem 367 dias. mas livros cabem muitos mais.
"15 de junho
como hoje choveu, decidi guardar alguma chuva no frasco que era de doce de morango e de pó de borboletas. vou usá-la no outono. tenho reparado que a grande diferença entre o outono e a primavera é que no outono as plantas morrem e na primavera nascem. a diferença só pode estar na chuva. a da primavera faz crescer e a outra faz morrer.
o meu irmão diz que sou maluca. mas eu sei que a culpa é da água. no outono irei provar que tenho razão. deitarei na terra água da chuva da primavera. deitarei primavera no outono."
afonso cruz
o livro do ano
alfaguara
2013
afonso cruz
já disse tanto sobre o afonso, sobretudo sobre a capacidade que ele tem de fazer um livro em absoluto diferente de outro. e continua. a fasquia sobe e ele salta olimpicamente por cima dela. com uma postura intocável de independência face ao meio, aos críticos, aos editores. não me interpretem mal, não digo que lhes vira as costas, digo apenas que é autêntico. é isso que ele é. autêntico. e para além de essa característica ser só por si um tesouro, nos tempos que vivemos de uma metamorfose assustadora das características do que deve ser um escritor, encontrar um "afonso" deixa-nos respirar um bocado e fazer as pazes com a literatura.
este livro do ano tem uma narradora, uma menina pré-adolescente com um irmão mais velho parecido com o meu. se calhar por isso acho que esta narradora se dilui em nós, ou nós nela, o que é bastante diferente.
(será desnecessário acrescentar que toda a boa literatura é uma parte da autobiografia que gostaríamos de conseguir escrever.)
ela pensa em coisas que, podemos dizer, "não cabem na cabeça de ninguém". mas o que ela descobre cabe em todas as cabeças. o afonso revira a realidade e interpreta o quotidiano de uma forma que só o tem a ele como autor. e faz-nos ser autores das nossas próprias conclusões. não vou dizer muito mais sobre o livro do ano. só vos aconselho a que se preparem. e que leiam isto aos vossos miúdos e que leiam em silêncio e que leiam em voz alta e que o leiam aos bocados. neste ano cabem 367 dias. mas livros cabem muitos mais.
"15 de junho
como hoje choveu, decidi guardar alguma chuva no frasco que era de doce de morango e de pó de borboletas. vou usá-la no outono. tenho reparado que a grande diferença entre o outono e a primavera é que no outono as plantas morrem e na primavera nascem. a diferença só pode estar na chuva. a da primavera faz crescer e a outra faz morrer.
o meu irmão diz que sou maluca. mas eu sei que a culpa é da água. no outono irei provar que tenho razão. deitarei na terra água da chuva da primavera. deitarei primavera no outono."
afonso cruz
o livro do ano
alfaguara
2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
oh Franzen oh Liberdade!
Liberdade de Jonathan Franzen mascara-se de livro comum mas as marcas de diferença surgem a cada uma das muitas páginas do romance. uma das primeiras marcas de um bom romance é aquele que não coloca as personagens em caixas com nomes determinados. onde não há "bons" e "maus". e este livro conta muito mais do que o que aconteceu às personagens, conta a história das personagens. com um pendão existencialista conseguimos ver a profunda transformação de cada uma delas na vivência com os acontecimentos e percebemos que nada é imutável nem intrínseco perante o contacto com os outros e com os acontecimentos.
Patty é a personagem mais perturbada. vive diariamente e uma vida inteira num conflito entre a vontade e a moral que ela própria impôs. entre a lealdade a Walter e a obsessão por Katz. apesar de ser a única personagem que fala em determinados momentos na primeira pessoa o facto de ela escrever essas "memórias" com fins terapêuticos faz-nos questionar a veracidade do que diz. mesmo Walter, ao ler o que esta escreveu não só lê a verdade dos factos, como nós, como lê o que está para além desses factos, lê a forma como Patty sentiu todos os anos de casamento, desde o momento em que o conhece. nós também conseguimos ler isso, claro, mas na reacção de Walter percebemos que há interpretações que ele terá feito que nós não podemos atingir.
Walter tem tudo para ser uma personagem modelo. pai modelo, marido modelo, até amigo modelo. a forma como Franzen o constrói é fascinante. Walter parece, quando aparece, uma personagem plana e neutra, vista pelos olhos de Patty. Walter não parece alguém que se possa amar mas sim alguém adorável que sabemos que estará sempre do nosso lado se tivermos a sorte de o ter como amigo. falta-lhe inicialmente uma energia que possa fazer com que alguém se possa apaixonar por ele. mas depois com o desenrolar do livro percebemos as falhas, os restos de humanidade, o desequilíbrio que se desenvolve ao mesmo tempo que se desenvolve o desequilíbrio de Patty. e é impossível não sentir essa paixão por esse Walter, que sente uma perturbação imensa mas que a esconde por respeito e amor aos que o rodeiam. que não perdoa Katz mas que se comove com algum histerismo quando Katz lhe faz a supresa do CD. que não perdoa Patty até imaginar que ela possa estar realmente a sofrer e em perigo. na luta da perturbação contra a bondade, em Walter ganha sempre a bondade. mas não sem antes ter ensinado o que tinha a ensinar. com tudo o que lhe acontece Walter sai sempre vitorioso dando uma abada emocional a todos os leitores e a todos os que convivem com ele. fica por esclarecer o porquê da relação complicada com os filhos (no livro há um salto temporal muito grande) ao mesmo tempo que fica por esclarecer o apaziguamento repentino com Joey. fica por esclarecer a passagem do amor que sente por Patty para o amor que sente por Lalitha e a dificuldade que tem em sobreviver à tragédia, altura em que o leitor poderá então perceber que aquilo era real.
fica muito por dizer em Liberdade. Franzen cria uma estrutura narrativa entrecortada por vários pontos de vista, dando o que por vezes pode ser uma exagerada narrativa entrecortada. no entanto há imensos vazios por preencher na narrativa e ninguém terá certamente lido o mesmo livro.
para terminar apenas uma palavra para as últimas páginas do último capítulo. aqui depois de um desenrolar que para alguns poderia ser expectável e previsível e sem chama, o ponto de vista passa para a vizinha de Walter e Patty, que apenas conhece o que vê, que poderá ser, e será, montado por Patty, que sempre soubera muito bem manter as aparências. e Franzen, sem pôr um ponto final que por si só já lança a interrogação num livro qualquer, aqui Franzen deixa-nos mais umas páginas de um ponto de vista desfocado deixando-nos sem perceber que fim foi este, sem perceber o que realmente aconteceu dentro de quatro paredes. é que este não é, de todo, um livro qualquer. é um Franzen.
(tenho muito mais a dizer mas isto depois ficava chato. qualquer questão ou vontade de discutir os livros diferentes que lemos quando lemos o Liberdade, podemos beber um café)
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
sobre a loucura
Com os Loucos é um livro que não se assemelha a nenhum outro. encerra um misto de jornalismo com ficção com umas fronteiras tão esbatidas que é impossível perceber onde acaba um e começa outro. não percebemos quais as intenções do autor, mesmo que ele as diga no início. perdem-se também nesse mesmo nevoeiro.
o ponto de vista é sempre externo. do que observa e racionaliza a chamada "loucura", termo esse questionado ao longo de todo o livro. ao observar os chamados "loucos" dentro das instituições Albert Londres questiona o tratamento que lhes é dado e a forma como essa loucura é institucionalizada - ou seja - questiona qual será verdadeiramente o objectivo destes tratamentos questionando sempre se a "cura" é o objectivo final e o que é isso da "cura" para doenças como esta.
Albert Londres mostra-nos que a observação da loucura é sempre feita de um ponto de vista exterior - o mesmo ponto de vista da investigação do livro. e é sempre vista de um ponto de vista negativo, como uma doença que necessita de uma cura, mesmo que não se saiba bem o que é essa mesma cura.
Muitos momentos do livro funcionam como "estudos de caso". Albert Londres mostra em diversos momentos que se juntarmos uma pessoa dita "normal" a uma pessoa dita "louca" poderemos perfeitamente acreditar que são todos loucos. é tudo uma questão de contexto e de, lá está, ponto de vista.
a questão da cura abordada acima é muito explorada ao longo de todo o livro. há por um lado uma consciência social e médica de que a loucura tem de ser curada. mas nem sempre o louco sabe que o é ou prefere deixar de o ser. as doenças mentais nem sempre têm consciência de si próprias e nem sempre é mais confortável para o doente ser tratado. muitas vezes o melhor seria, de acordo com o autor, compreender esta mesma loucura deixando que ela própria se encaixasse da melhor forma no mundo real tirando partido das suas qualidades. para o autor sempre que se identifica a loucura em alguém e se tenta curá-la admitindo sempre que a loucura é errada estamos como que a castigar esse mesmo louco sem antes nos apercebermos das vantagens que aquela condição lhe pode trazer. "- A loucura - tinha-lhe dito uma freira - é um castigo de Deus. Os homens acrescentam-lhe o seu."
Albert Londres mostra ainda que a loucura não tem só um lado médico tem também um lado social muito difícil de curar. quando olhamos para alguém como um louco temos muita dificuldade em vê-lo de outra forma depois disso. e se tivermos dado ao louco a noção de que passou por aquele processo todo para atingir a cura e ainda assim ele não se livrar desse estigma social então o resultado poderá não ser tão positivo.
é um livro poderoso. dos que nos entram na cabeça e nos revolvem todos os preconceitos e nos mostram como precisamos de pensar as situações de dentro delas para fora e não de dentro de nós para fora.
a sistema solar promete. e as introduções e traduções de Aníbal Fernandes dão-lhe o toque que faltava, sem revelar o segredo desta escrita, claro, isso é lá entre eles.
em bom portanto. a não perder de vista.
o ponto de vista é sempre externo. do que observa e racionaliza a chamada "loucura", termo esse questionado ao longo de todo o livro. ao observar os chamados "loucos" dentro das instituições Albert Londres questiona o tratamento que lhes é dado e a forma como essa loucura é institucionalizada - ou seja - questiona qual será verdadeiramente o objectivo destes tratamentos questionando sempre se a "cura" é o objectivo final e o que é isso da "cura" para doenças como esta.
Albert Londres mostra-nos que a observação da loucura é sempre feita de um ponto de vista exterior - o mesmo ponto de vista da investigação do livro. e é sempre vista de um ponto de vista negativo, como uma doença que necessita de uma cura, mesmo que não se saiba bem o que é essa mesma cura.
Muitos momentos do livro funcionam como "estudos de caso". Albert Londres mostra em diversos momentos que se juntarmos uma pessoa dita "normal" a uma pessoa dita "louca" poderemos perfeitamente acreditar que são todos loucos. é tudo uma questão de contexto e de, lá está, ponto de vista.
a questão da cura abordada acima é muito explorada ao longo de todo o livro. há por um lado uma consciência social e médica de que a loucura tem de ser curada. mas nem sempre o louco sabe que o é ou prefere deixar de o ser. as doenças mentais nem sempre têm consciência de si próprias e nem sempre é mais confortável para o doente ser tratado. muitas vezes o melhor seria, de acordo com o autor, compreender esta mesma loucura deixando que ela própria se encaixasse da melhor forma no mundo real tirando partido das suas qualidades. para o autor sempre que se identifica a loucura em alguém e se tenta curá-la admitindo sempre que a loucura é errada estamos como que a castigar esse mesmo louco sem antes nos apercebermos das vantagens que aquela condição lhe pode trazer. "- A loucura - tinha-lhe dito uma freira - é um castigo de Deus. Os homens acrescentam-lhe o seu."
Albert Londres mostra ainda que a loucura não tem só um lado médico tem também um lado social muito difícil de curar. quando olhamos para alguém como um louco temos muita dificuldade em vê-lo de outra forma depois disso. e se tivermos dado ao louco a noção de que passou por aquele processo todo para atingir a cura e ainda assim ele não se livrar desse estigma social então o resultado poderá não ser tão positivo.
é um livro poderoso. dos que nos entram na cabeça e nos revolvem todos os preconceitos e nos mostram como precisamos de pensar as situações de dentro delas para fora e não de dentro de nós para fora.
a sistema solar promete. e as introduções e traduções de Aníbal Fernandes dão-lhe o toque que faltava, sem revelar o segredo desta escrita, claro, isso é lá entre eles.
em bom portanto. a não perder de vista.
terça-feira, 24 de julho de 2012
mais um afonso como pérola no deserto
um afonso só não surpreende por ser uma outra coisa. de resto surpreende tudo. se há coisa a que o afonso nos habituou foi a que sempre que escreve está a começar do zero. depois de ler todas as linhas que ele publicou é fácil sentir uma tremenda surpresa em cada escrito novo. é como se o afonso tivesse muitos lados e sem qualquer pressa começasse a mostrar-nos uma a uma. é um escritor de segredos.
este livro é por isso uma grande surpresa e é completamente novo e diferente de tudo o que escreveu. menos na humanidade. menos na melhor característica do afonso, desvendada por ele numa entrevista dada recentemente - quando queremos recordar a vida que vivemos não pensamos na "normalidade", vamos sempre lembrarmo-nos dos momentos extraordinários. porque todas as vidas estão recheadas de momentos extraordinários mascarados de quotidiano. e é isso que o afonso faz, pega em cenários de aparente normalidade e dá-lhes um cunho de magia e surrealidade. e no fim nós acreditamos que aquilo aconteceu mesmo (até porque o afonso tem a imaginação presa às pessoas reais) e que aquelas pessoas são the girl next door. a rosa desta história, Jesus Cristo Bebia Cerveja, é a nossa girl next door. o que nos dá uma fé nas pessoas e nas suas vidas que vá... é do caraças (vai daqui o primeiro obrigada ao afonso).
"Os nós dos seus dedos pareciam os cotovelos de Isabel e o cheiro que trazia era como o de Deus. Deus cheira a touro, a terra e ao ventre das coisas. Os dedos dos colegas de Isabel, dos seus amigos, dos seus ex-namorados, eram como os seus cabelos molhados, acabados de lavar. Tocavam-na, mas eram feitos de palavras perfumadas. Preferiu João Lucas Marcos Mateus e expulsou os literatos da sua vida. Alguns eram certamente geniais. Sabiam versos gregos e escavavam coisas. Mas as suas mãos eram como um mau penteado."
no afonso as pessoas são terra. são quase como a verdade. nós ouvimos falar delas e são verdade. o afonso tem poesia na tristeza e desânimo, na mãe de rosa que foge e volta envolta em algo sagrado porque a rosa precisa de a sacralizar para a entender e aceitar. há poesia em todas aquelas personagens e nenhuma cheira a água de colónia. é a poesia da verdade.
e a rosa nós nunca a entendemos. nunca vamos entender, por mais que tentemos ela troca-nos as voltas. o amor à avó é da pele e do sangue mas a pele e o sangue dela são mais do que amor à avó. pouco mais. e é incrível ler um livro inteiro à volta de uma menina, de quem não sabemos idade e de quem conhecemos apenas o amor pela avó. mais nada. podemos adivinhar e intuir, mas o segredo das suas acções está entre o afonso e a rosa. e leva a avó à terra santa, leva mesmo, porque se acreditam que é a terra santa é porque é. numa teia de vontades e ajudas e interesses alguns obscuros a avó vai a jerusalém onde cristo bebia cerveja (e o afonso prova que sim, que é verdade, explica porquê e hai de quem a partir de hoje diga que ele não a bebia). a religião neste livro é uma prova de amor pela avó e pela nossa senhora que nas estátuas parece estar a bater palmas, feliz. é uma mostra de que a religião e a instituição religiosa não têm de andar de mãos dadas porque a religião vai de coração em coração sem se enganar no caminho. e este segredo eu já o sabia, o afonso só me acenou com a cabeça.
metam os olhos neste miúdo. eu já os meti e nunca os vou tirar. não consigo ser imparcial qb quando tenho nas mãos um livro destes. há muito tempo que não era leitora de nada como fui deste livro. obrigada afonso, outra vez.
este livro é por isso uma grande surpresa e é completamente novo e diferente de tudo o que escreveu. menos na humanidade. menos na melhor característica do afonso, desvendada por ele numa entrevista dada recentemente - quando queremos recordar a vida que vivemos não pensamos na "normalidade", vamos sempre lembrarmo-nos dos momentos extraordinários. porque todas as vidas estão recheadas de momentos extraordinários mascarados de quotidiano. e é isso que o afonso faz, pega em cenários de aparente normalidade e dá-lhes um cunho de magia e surrealidade. e no fim nós acreditamos que aquilo aconteceu mesmo (até porque o afonso tem a imaginação presa às pessoas reais) e que aquelas pessoas são the girl next door. a rosa desta história, Jesus Cristo Bebia Cerveja, é a nossa girl next door. o que nos dá uma fé nas pessoas e nas suas vidas que vá... é do caraças (vai daqui o primeiro obrigada ao afonso).
"Os nós dos seus dedos pareciam os cotovelos de Isabel e o cheiro que trazia era como o de Deus. Deus cheira a touro, a terra e ao ventre das coisas. Os dedos dos colegas de Isabel, dos seus amigos, dos seus ex-namorados, eram como os seus cabelos molhados, acabados de lavar. Tocavam-na, mas eram feitos de palavras perfumadas. Preferiu João Lucas Marcos Mateus e expulsou os literatos da sua vida. Alguns eram certamente geniais. Sabiam versos gregos e escavavam coisas. Mas as suas mãos eram como um mau penteado."
no afonso as pessoas são terra. são quase como a verdade. nós ouvimos falar delas e são verdade. o afonso tem poesia na tristeza e desânimo, na mãe de rosa que foge e volta envolta em algo sagrado porque a rosa precisa de a sacralizar para a entender e aceitar. há poesia em todas aquelas personagens e nenhuma cheira a água de colónia. é a poesia da verdade.
e a rosa nós nunca a entendemos. nunca vamos entender, por mais que tentemos ela troca-nos as voltas. o amor à avó é da pele e do sangue mas a pele e o sangue dela são mais do que amor à avó. pouco mais. e é incrível ler um livro inteiro à volta de uma menina, de quem não sabemos idade e de quem conhecemos apenas o amor pela avó. mais nada. podemos adivinhar e intuir, mas o segredo das suas acções está entre o afonso e a rosa. e leva a avó à terra santa, leva mesmo, porque se acreditam que é a terra santa é porque é. numa teia de vontades e ajudas e interesses alguns obscuros a avó vai a jerusalém onde cristo bebia cerveja (e o afonso prova que sim, que é verdade, explica porquê e hai de quem a partir de hoje diga que ele não a bebia). a religião neste livro é uma prova de amor pela avó e pela nossa senhora que nas estátuas parece estar a bater palmas, feliz. é uma mostra de que a religião e a instituição religiosa não têm de andar de mãos dadas porque a religião vai de coração em coração sem se enganar no caminho. e este segredo eu já o sabia, o afonso só me acenou com a cabeça.
metam os olhos neste miúdo. eu já os meti e nunca os vou tirar. não consigo ser imparcial qb quando tenho nas mãos um livro destes. há muito tempo que não era leitora de nada como fui deste livro. obrigada afonso, outra vez.
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Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o...



















