A minha avó sempre gostou de ler, já aqui falei dela. Mostrou-me livros, ofereceu-me alguns. Mas desde que me lembro dela, desde que nasci, que já não lia muito. Era o meu avô que lia mais. Mas foi ela quem manteve uma estante na sala onde eu e o meu irmão crescemos, onde passávamos as tardes todas, onde fomos voltando ao crescer, ao lado do sofá onde eu me sentava a conversar com ela das últimas vezes que a fui ver. Há pouco tempo a minha avó foi para um lar. A memória foi-se deteriorando nos últimos anos, os livros já tinha largado há muito, depois largou as revistas, depois a televisão. A memória foi-se torcendo, misturando, falamos com ela sem saber com que avó estamos a falar. E no outro dia disse-me que um dos piores aspectos do sítio onde estava era não ter tranquilidade para ler os livros dela. Livros que há muito tempo não lê mas tempo que para ela não tem a mesma dimensão que para nós.
No outro dia, com umas mudanças que fizemos em casa dela, fiz o exercício de olhar para as estantes da sala. Reconhecia todas as cores, as formas, até as texturas. Mas não os títulos. E eu que tinha construído a minha vida à volta dos livros percebi que aquelas lombadas não eram para mim livros como estes que falo. Eram a estante da minha avó, a sala da minha avó, a casa da minha avó, a rua dela.
Ao passar os olhos reparei em vários livros do Erskine Caldwell. Não estranhei o nome, mas não o reconheci. Pesquisei um bocado e percebi que estava na linha dos meus mais queridos autores, os mesmos de quem a minha avó me tinha falado tanto em pequena. Trouxe este pequeno livro para casa, andei com ele uns dias na mala e no outro dia abri-o. Isto porque de repente (o mundo às vezes tem destas coisas) várias pessoas me falavam do Caldwell, e da forma como ele era imprescindível. O livro já não era só o livro da minha avó era o livro dos meus amigos, dos leitores que tanto gostavam do livro.
Vi que tinha tradução e prefácio de Jorge de Sena e o prefácio acabava assim:
"O apelo neste caso toma a forma de uma voz de criança perdida na noite e implorando a toda a humanidade (de que o leitor, rindo-se dele, da família dele e dos que o rodeiam, faz parte integrante) que o deixe ser livre e conscientemente um homem. Ainda quando não concordamos com a afinação da voz, ou ela nos não pareça portentosa, é uma voz humanizada.
E se não é para assim nos ouvirmos uns aos outros que por aqui andamos, não se percebe muito bem porque seremos tantos e teremos voz".
E se calhar o livro nem era da minha avó, era do meu avô, ou do meu tio, ou do meu pai. Mas essa não é a história que eu conto deste livro. É a minha memória da avó humanizada. E agora este é o meu Caldwell, porque se calhar a minha avó já nem se lembra do Caldwell e eu farei por me lembrar por ela.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Leitura e apresentação do livro Grande Baro e Outras Histórias
Como não poderia deixar de ser é n' ªSede que se realizará a primeira leitura do Grande Baro e Outras Histórias, o nosso primeiro livro com selecção e versões de Rui Manuel Amaral. A leitura será acompanhada de uma conversa sobre a vida e obra do grande Virgilio Piñera! Dia 28 de Janeiro, 17h, no Porto.
Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.
Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.
sábado, 17 de dezembro de 2016
Virgilio Piñera
hoje, no dia em que o meu Duarte faz anos, metemo-nos na estrada para ir buscar o nosso primeiro livro à gráfica, o livro de contos no Virgilio Piñera, autor cubano nunca publicado em Portugal e que achámos, juntamente com o Rui Manuel Amaral (responsável pela existência do bicho tal foi a força, vontade, insistência, trabalho) que tinha de ser trazido aos nossos leitores Snob. deixo aqui as dezenas de amigos que nos ajudaram, dos primeiros que pensaram nele aos que hoje nos ajudaram a publicá-lo.
foi o melhor dos dias, mais um de tantos primeiros dias, estreias, novidades, ansiedades, borboletas, aventuras, saltos no vazio e, acima de tudo, a maior confiança de que nada poderá nunca correr mal quando se cria assim com tanto entusiasmo e, vá, amor.
foi o melhor dos dias, mais um de tantos primeiros dias, estreias, novidades, ansiedades, borboletas, aventuras, saltos no vazio e, acima de tudo, a maior confiança de que nada poderá nunca correr mal quando se cria assim com tanto entusiasmo e, vá, amor.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
VIRGILIO PIÑERA em pré-venda
Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.
Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.
A Snob lança no final deste mês o seu primeiro livro. A esta aventura juntaram-se a nós o Rui Manuel Amaral que o traduziu e o Pedro Simões que o desenhou. Estamos até ao dia 30 de Novembro a lançar uma pré-venda do livro que viabilize a sua impressão. Gostaríamos de considerar todos os que nos ajudam como subscritores desta nossa nova viagem editorial. O nome de todos os que comprarem o livro antecipadamente figurará na última página do livro. Ele é nosso e vosso.
O livro está em pré-venda pelo valor de 10€, perto de 30% de desconto face ao preço final, portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 10€ para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou para coleccaopedante@gmail.com.
Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.
Excertos
de União Indestrutível
"O nosso amor vai de mal a pior. Escapa-se das mãos, da boca, dos olhos, do coração. O peito dela já não se abriga no meu e as minhas pernas já não correm ao seu encontro. Caímos no que de mais terrível pode ocorrer a dois amantes: devolvemos as caras. Ela arrancou a minha cara e atirou-a para cima da cama; eu tirei a dela e chapei-a com violência no espaço deixado pela minha. Já não velaremos mais o nosso amor. Vai ser muito triste ir cada um para seu lado."
de A Carne
"Ali chegado, fez saber que cada pessoa deveria cortar da nádega esquerda dois bifes, em tudo semelhantes a uma amostra em gesso vermelho que pendia de um reluzente arame. E declarou que deveriam ser dois bifes e não um, porque se ele próprio cortara da nádega esquerda um belo bife, convinha que a coisa avançasse a bom ritmo, isto é, que ninguém comesse um bife a menos. Assentes estes pontos, todos se dedicaram a cortar dois bifes das
respectivas nádegas esquerdas. Era um espectáculo glorioso, mas que dispensa mais descrições. Fizeram-se cálculos para determinar o tempo durante o qual a cidade poderia ainda gozar dos benefícios da carne. Um famoso anatomista calculou que, partindo de um peso de cerca de quarenta e cinco quilos, e descontando vísceras e demais órgãos não comestíveis, um indivíduo podia comer carne durante cento e quarenta dias, à razão de duzentas e vinte e seis gramas por dia. De qualquer maneira, era um cálculo ilusório. E o que interessava era que cada um pudesse comer o seu belo bife."
domingo, 9 de outubro de 2016
das leituras de poesia
era uma noite normal em Guimarães e fomos jantar ao restaurante do Sr Roberto, mesmo ao lado do antigo espaço da livraria Snob. no restaurante do Sr Roberto juntam-se por vezes alguns snobs, que preferem não largar a rua D João I e revisitar a Snob, e revisitarem-se uns aos outros. enquanto jantávamos e bebíamos vinho da casa falávamos de livros e outras intimidades. intimidades porque não falávamos de uns livros quaisquer que nos diziam alguma coisa a cada um de nós, falávamos dos poemas e dos livros que acreditávamos que fariam sentido a todos os que ali estavam. foi quando falámos do Forte e lhes li ali, entre o vinho da casa e a sopa de cação, O Mais Belo Espectáculo de Horror Somos Nós. e até hoje tenho pensado no que foi aquilo.
há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.
creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.
não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.
não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.
há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.
creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.
não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.
não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
curso de literatura portuguesa séc. XX
de 18 de Outubro a 15 de Novembro
3ª feiras, 19h às 20h
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX e XXI, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura, sempre com o foco no leitor e na importância que a estreita relação do autor com o seu leitor teve no desenrolar dessa mesma história. As cinco sessões pretendem dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX até aos dias de hoje, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
programa
1a sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2a sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3a sessão
surrealismo
4a sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
anos 50 a 70: literatura sem marca
5a sessão
a literatura do agora, a que resiste e a que há-de resistir
preço
75€ \ 55 € sócios Cossoul (preço anual de sócio 18€)
até 5 de Outubro: 65€ \ 45€ sócios Cossoul (preço anual de sócio 18€)
autores
eça de queirós, cesário verde, ângelo de lima, fernando pessoa e heterónimos, mário de sá-carneiro, mário cesariny, antónio josé forte, mário henrique-leiria, antónio maria lisb oa, manuel de lima, herberto helder, manuel da fonseca, manuel de castro, luiz pacheco, alexandre o’neill, carlos de oliveira, mário dionísio, maria velho da costa, rui nunes, vergílio ferreira, maria gabriela llansol, nuno bragança, josé saramago, ana teresa pereira, teresa veiga, antónio ramos rosa, afonso cruz, valério romão, gonçalo m. tavares entre outros
rosa azevedo
Formada em Literatura Portuguesa e Francesa tem curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso – encontro de autores, artistas e editores independentes, do Colectivo Prisma e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, onde é também moderadora. Colabora com a direcção da Cossoul em questões de produção, programação e associativismo. Mantém o blog estórias com livros.
Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora / divulgadora da área dos livros.
rosa azevedo
936584536
quarta-feira, 29 de junho de 2016
a edição mainstream e a honestidade intelectual
tenho estado estas semanas a pensar na arrogância de tantas vezes não aceitar pontos de vista colocados no mainstream quando se fala de edição. hesitei escrever sobre isso antes de ter a certeza que não é arrogância.
o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.
é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.
retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.
ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.
o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.
o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.
é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.
retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.
ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.
o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Festival Silêncio
Na próxima semana os Poetas do Povo marcam presença no FESTIVAL
SILÊNCIO com um conjunto de seis sessões com curadoria minha. Está aqui
um elenco de luxo, conto com vocês! Todas as sessões são no bar Vicking e
duram um pouco menos de uma hora. Passem por lá enquanto circulam pelas
imensas surpresas que este festival traz à cidade.
Ao meu elenco de luxo, obrigada
POETAS DO POVO (sessões 161 a 166) / O MUNDO NÃO SE FEZ PARA PENSARMOS NELE. Festival Silêncio, 1,2 e 3 de Julho
http://festivalsilencio.com/
Houve sempre poesia. Dentro de todos os séculos e todas as idades. E a poesia foi sempre escrita na razão de cada poeta mas junto de outros poetas. Em diferentes tempos e diferentes idades houve diferentes poesias, por razões que tanto eram pessoais como universais. Assim se foi fazendo, por aqui, a nossa história.
Porque o mundo não se fez para pensarmos nele mas sim para o escrevermos e lermos vamos agora percorrer quatro séculos de poesia e perceber que poesia havia para ser dita e lida e cantada, por tantos poetas, em tantas poesias, em tão bela e única história poética. Curadoria de Rosa Azevedo.
____________________________________________________
POESIA E CLASSICISMO
1 de Julho 19h
Foi no tempo em que a poesia era salva em mar alto, poesia dos heróis, dos modernos, poesia que imagina a ponte entre o antes e um império inteiro por haver. É a poesia como a única linguagem possível.
António Poppe
Gustavo Rubim
Luís Serpa
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
_____________________________________________________
POESIA E ROMANTISMO
1 de Julho 21h
Houve o tempo em que a poesia teve de entender e cantar o amor. Instrumentalizou-se a palavra em prol do poeta, descobriu-se que a palavra não existia longe do eu. Foi o tempo das questões e não das respostas. Verbalizou-se a dúvida, poetizou-se o que era até então indizível.
Raquel Marinho
Cláudio Henriques
André Gago
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
_____________________________________________________
POESIA E REALISMO
2 de Julho 16h
Com o fim do séc. XIX o escritor percebeu que a escrita é uma arma com poderosas consequências. Percebeu a responsabilidade da palavra escrita, entendeu a sociedade como mutante e complexa. Foi o tempo em que a poesia teve consciência de si, da sua força no mundo enquanto pertença.
Maria Coutinho
Sara Felício
Nuno Miguel Guedes
Músico: Filipe Valentim (piano)
_____________________________________________________
POESIA E MODERNISMO
2 de Julho 18h
Poesia autónoma, artística, cubista, futurista, libertadora, maquinal, moderna, fragmentária, metálica, violenta, simbolista, sonora, vibrante, suicida, irreverente, indiferente, fracturante, alucinante, modernista.
Ana Brandão
Ana Rocha
Patrícia Portela
Músico: Filipe Valentim (piano)
_____________________________________________________
POESIA E SURREALISMO
3 de Julho 16h
Como nos disse António Maria Lisboa «A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.». Ao que poderia ter respondido Cesariny “Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”
Joana Bertholo
Margarida Ferra
Claudia Sampaio
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
_____________________________________________________
NOVÍSSIMA POESIA
3 de Julho 18h
Veio o tempo dos poetas. Sem escola, com a originalidade possível, na procura da palavra exacta na frase fragmentada. Uma poesia que chegou a todos, a lugares improváveis da cidade. E quando os poemas cobrem a cidade, os Poetas do Povo procuram neles a palavra exacta para a reproduzirem no último dia do Festival Silêncio, oferecendo a palavra aos seus ouvintes e dando aos leitores o espaço absoluto da poesia.
Marta Navarro
Inês Lago
Raquel Nobre Guerra
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
Ao meu elenco de luxo, obrigada
POETAS DO POVO (sessões 161 a 166) / O MUNDO NÃO SE FEZ PARA PENSARMOS NELE. Festival Silêncio, 1,2 e 3 de Julho
http://festivalsilencio.com/
Houve sempre poesia. Dentro de todos os séculos e todas as idades. E a poesia foi sempre escrita na razão de cada poeta mas junto de outros poetas. Em diferentes tempos e diferentes idades houve diferentes poesias, por razões que tanto eram pessoais como universais. Assim se foi fazendo, por aqui, a nossa história.
Porque o mundo não se fez para pensarmos nele mas sim para o escrevermos e lermos vamos agora percorrer quatro séculos de poesia e perceber que poesia havia para ser dita e lida e cantada, por tantos poetas, em tantas poesias, em tão bela e única história poética. Curadoria de Rosa Azevedo.
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POESIA E CLASSICISMO
1 de Julho 19h
Foi no tempo em que a poesia era salva em mar alto, poesia dos heróis, dos modernos, poesia que imagina a ponte entre o antes e um império inteiro por haver. É a poesia como a única linguagem possível.
António Poppe
Gustavo Rubim
Luís Serpa
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E ROMANTISMO
1 de Julho 21h
Houve o tempo em que a poesia teve de entender e cantar o amor. Instrumentalizou-se a palavra em prol do poeta, descobriu-se que a palavra não existia longe do eu. Foi o tempo das questões e não das respostas. Verbalizou-se a dúvida, poetizou-se o que era até então indizível.
Raquel Marinho
Cláudio Henriques
André Gago
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E REALISMO
2 de Julho 16h
Com o fim do séc. XIX o escritor percebeu que a escrita é uma arma com poderosas consequências. Percebeu a responsabilidade da palavra escrita, entendeu a sociedade como mutante e complexa. Foi o tempo em que a poesia teve consciência de si, da sua força no mundo enquanto pertença.
Maria Coutinho
Sara Felício
Nuno Miguel Guedes
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E MODERNISMO
2 de Julho 18h
Poesia autónoma, artística, cubista, futurista, libertadora, maquinal, moderna, fragmentária, metálica, violenta, simbolista, sonora, vibrante, suicida, irreverente, indiferente, fracturante, alucinante, modernista.
Ana Brandão
Ana Rocha
Patrícia Portela
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E SURREALISMO
3 de Julho 16h
Como nos disse António Maria Lisboa «A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.». Ao que poderia ter respondido Cesariny “Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”
Joana Bertholo
Margarida Ferra
Claudia Sampaio
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
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NOVÍSSIMA POESIA
3 de Julho 18h
Veio o tempo dos poetas. Sem escola, com a originalidade possível, na procura da palavra exacta na frase fragmentada. Uma poesia que chegou a todos, a lugares improváveis da cidade. E quando os poemas cobrem a cidade, os Poetas do Povo procuram neles a palavra exacta para a reproduzirem no último dia do Festival Silêncio, oferecendo a palavra aos seus ouvintes e dando aos leitores o espaço absoluto da poesia.
Marta Navarro
Inês Lago
Raquel Nobre Guerra
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
domingo, 26 de junho de 2016
Prefácio de Poetas sem qualidades
Em 2002 Manuel de Freitas lança a antologia Poetas sem qualidades onde demonstra que, com o virar do século, a poesia tinha mudado. O que isso significa podem ler neste prefácio ainda hoje urgente e necessário.
clicar nas imagens para aumentar
terça-feira, 7 de junho de 2016
das redes
hoje juntei-me com umas amigas que fizeram comigo um dos meus cursos há uns meses para falarmos da Maria Judite de Carvalho. juntamo-nos todos os meses para falar de um livro. decidimos que o próximo seria o Dinossauro Excelentíssimo do José Cardoso Pires. lembrei-me que há uns anos um aluno de um curso me tinha dito que era um livro incrível que eu devia ler. na mesa ao lado um senhor pede desculpa de interromper e diz que há uns anos digitalizou o livro e que nos pode passar. estranhamos a simpatia mas aceitamos. quando lhe dou o meu e-mail para me mandar o livro ele diz que foi por causa do curso que o digitalizou mas que tinha perdido o meu contacto, e que foi ele que fez o curso e que me falou do livro.
para além da coincidência houve outra coisa que me comoveu e que não consegui descrever. talvez a sensação de que há redes a ser construídas que nunca terei ideia verdadeira da dimensão que têm.
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Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o...

















