Já aqui falei do Caldwell. De como encontrei estes livros velhos e imóveis da casa de onde a minha avó teve de sair. Trouxe três para minha casa, fui lendo um a um, até chegar a este.
Não sabia muito do Caldwell e não li nada sobre este livro quando o comecei a ler. E agora que o acabei, e que tinha tanto que dizer, fui ver o que andaram a escrever. E é tudo curto, insuficiente, e nenhum texto foi ao sítio que era o sítio onde era preciso encontrar o Caldwell. Este livro não é sobre o pós-crash, sobre a América abandonada e pobre. Esse é só o tempo onde a história acontece. Mas a história acontece num sítio, na beira da estrada do tabaco, numa casa que pertence a uma família "enquanto se mantiver de pé". E essa família teve 17 filhos e só sobram dois. E nenhum os visita, nem nunca mais voltou a casa. Nesta casa sobram cinco pessoas sem traço de humanidade. E aqui que o livro se coloca. Na terra de ninguém onde não há comida, nenhuma, nem humanidade. Há apenas um feroz tom erótico que mostra a animalidade latente. E depois o nada. O único traço de amor é o amor de Jeeter, o pai, à terra. As personagens são feias, com deficiências físicas, a roupa prende-se ao corpo com cordas para que não se desfaça no caminho, a avó tarda em morrer, e há uma filha, a mais linda menina do mundo, que foi forçada a casar com Lov com doze anos e que sem dizer uma palavra, sem nunca aparecer em cena, prova ter sido o último traço de humanidade a abandonar a casa em ruínas. De resto estamos perante monstros, animais esfomeados.
O livro passa-se em cinco dias apocalípticos. O leitor diverte-se com o excesso de desumanidade e logo depois sofre por ser incapaz. Por perceber que se são humanos tem de haver neles qualquer tipo de sofrimento. E esse sofrimento vem uma vez só. E ainda assim Caldwell faz questão de não o nomear. Porque aqui há cinco dias para deixar que o mundo acabe. E esperar que das cinzas, dos filhos que não chegámos a ver, da não memória que sobra da Estrada do Tabaco, sobre qualquer resto de humano. Mas, ainda assim, é só nossa a esperança. Nunca será essa a mensagem do Estrada do Tabaco. Aqui só sobra o silêncio e o som de uma buzina, insistente, ao longe, do carro que nunca mais voltará a assomar ao fundo da colina.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
sexta-feira, 14 de abril de 2017
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Curso de Literatura Portuguesa séc XXI
2ª feira
19h às 20h
de 20 de Março a 17 de Abril (5 sessões)
50€
(40€ para grupos de mais de cinco pessoas, estudantes e desempregados)
Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender.
Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.
lista preliminar de autores:
Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Marta Navarro, José Miguel Silva, Claudia R Sampaio, António Cabrita, Miguel Manso, Manuel de Freitas, Andreia Faria, Sandra Andrade, Daniel Faria, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Daniel Jonas, Vasco Gato, Valério Romão, entre outros.
inscrições para rosa.b.azev@gmail.com ou geral@leituria.com
19h às 20h
de 20 de Março a 17 de Abril (5 sessões)
50€
(40€ para grupos de mais de cinco pessoas, estudantes e desempregados)
Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender.
Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.
lista preliminar de autores:
Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Marta Navarro, José Miguel Silva, Claudia R Sampaio, António Cabrita, Miguel Manso, Manuel de Freitas, Andreia Faria, Sandra Andrade, Daniel Faria, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Daniel Jonas, Vasco Gato, Valério Romão, entre outros.
inscrições para rosa.b.azev@gmail.com ou geral@leituria.com
sábado, 11 de fevereiro de 2017
pedido de ajuda . Literatura Portuguesa do Séc XXI
Há alturas em que o caminho do trabalho segue outros caminhos e outras lógicas muito mais improvisadas do que pensamos inicialmente. Depois de anos a dar cursos sobre a literatura do século passado agora é altura de falar de hoje, do que se faz e escreve, pensar nos porquês, nos caminhos, nas editoras, nos poetas. Sempre do único ponto de vista que interessa, o da leitura.
Tenho até à primeira sessão (novidades em breve) perto de um mês para juntar toda a informação em falta, daí pedir a vossa ajuda. Falar sobre o que se passa hoje é arriscado, volátil, duvidoso, temperamental. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há crivo nem filtros. É um salto no escuro para mim que falo mas muito maior para quem ouve e assiste ao curso, que acompanha a minha visão de leitora, mais pessoal, em directo, no momento em que a literatura acontece. Como sempre este curso é virado para a visão do leitor, abrindo o leque e dando à escolha vários caminhos e interpretações desse mesmo leque. Vamos em conjunto aprender a posicionarmo-nos perante uma escrita que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
Gostava por isso de vos pedir textos, opiniões, recensões que tenham escrito / lido sobre esta literatura de hoje. Pode ser do ponto de vista literário ou sociológico. A melhor forma de pegar na literatura de hoje é através do diálogo e troca de experiências de leitura.
É importante referir que este curso tem o seu início em 1980. Foi este fim de século que desenhou o séc XXI. A literatura não se coloca em categorias nem na história, constrói-se organicamente enleada em si mesma em constante transformação.
Enviem-me assim toda a informação que tenham sobre este tempo dos livros. Em breve disponibilizo lista de autores, temas, dias, hora e local. Podem enviar-me para o mail rosa.b.azev@gmail.com. A todos um grande obrigada!
Tenho até à primeira sessão (novidades em breve) perto de um mês para juntar toda a informação em falta, daí pedir a vossa ajuda. Falar sobre o que se passa hoje é arriscado, volátil, duvidoso, temperamental. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há crivo nem filtros. É um salto no escuro para mim que falo mas muito maior para quem ouve e assiste ao curso, que acompanha a minha visão de leitora, mais pessoal, em directo, no momento em que a literatura acontece. Como sempre este curso é virado para a visão do leitor, abrindo o leque e dando à escolha vários caminhos e interpretações desse mesmo leque. Vamos em conjunto aprender a posicionarmo-nos perante uma escrita que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
Gostava por isso de vos pedir textos, opiniões, recensões que tenham escrito / lido sobre esta literatura de hoje. Pode ser do ponto de vista literário ou sociológico. A melhor forma de pegar na literatura de hoje é através do diálogo e troca de experiências de leitura.
É importante referir que este curso tem o seu início em 1980. Foi este fim de século que desenhou o séc XXI. A literatura não se coloca em categorias nem na história, constrói-se organicamente enleada em si mesma em constante transformação.
Enviem-me assim toda a informação que tenham sobre este tempo dos livros. Em breve disponibilizo lista de autores, temas, dias, hora e local. Podem enviar-me para o mail rosa.b.azev@gmail.com. A todos um grande obrigada!
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
o caminho de um livro
A minha avó sempre gostou de ler, já aqui falei dela. Mostrou-me livros, ofereceu-me alguns. Mas desde que me lembro dela, desde que nasci, que já não lia muito. Era o meu avô que lia mais. Mas foi ela quem manteve uma estante na sala onde eu e o meu irmão crescemos, onde passávamos as tardes todas, onde fomos voltando ao crescer, ao lado do sofá onde eu me sentava a conversar com ela das últimas vezes que a fui ver. Há pouco tempo a minha avó foi para um lar. A memória foi-se deteriorando nos últimos anos, os livros já tinha largado há muito, depois largou as revistas, depois a televisão. A memória foi-se torcendo, misturando, falamos com ela sem saber com que avó estamos a falar. E no outro dia disse-me que um dos piores aspectos do sítio onde estava era não ter tranquilidade para ler os livros dela. Livros que há muito tempo não lê mas tempo que para ela não tem a mesma dimensão que para nós.
No outro dia, com umas mudanças que fizemos em casa dela, fiz o exercício de olhar para as estantes da sala. Reconhecia todas as cores, as formas, até as texturas. Mas não os títulos. E eu que tinha construído a minha vida à volta dos livros percebi que aquelas lombadas não eram para mim livros como estes que falo. Eram a estante da minha avó, a sala da minha avó, a casa da minha avó, a rua dela.
Ao passar os olhos reparei em vários livros do Erskine Caldwell. Não estranhei o nome, mas não o reconheci. Pesquisei um bocado e percebi que estava na linha dos meus mais queridos autores, os mesmos de quem a minha avó me tinha falado tanto em pequena. Trouxe este pequeno livro para casa, andei com ele uns dias na mala e no outro dia abri-o. Isto porque de repente (o mundo às vezes tem destas coisas) várias pessoas me falavam do Caldwell, e da forma como ele era imprescindível. O livro já não era só o livro da minha avó era o livro dos meus amigos, dos leitores que tanto gostavam do livro.
Vi que tinha tradução e prefácio de Jorge de Sena e o prefácio acabava assim:
"O apelo neste caso toma a forma de uma voz de criança perdida na noite e implorando a toda a humanidade (de que o leitor, rindo-se dele, da família dele e dos que o rodeiam, faz parte integrante) que o deixe ser livre e conscientemente um homem. Ainda quando não concordamos com a afinação da voz, ou ela nos não pareça portentosa, é uma voz humanizada.
E se não é para assim nos ouvirmos uns aos outros que por aqui andamos, não se percebe muito bem porque seremos tantos e teremos voz".
E se calhar o livro nem era da minha avó, era do meu avô, ou do meu tio, ou do meu pai. Mas essa não é a história que eu conto deste livro. É a minha memória da avó humanizada. E agora este é o meu Caldwell, porque se calhar a minha avó já nem se lembra do Caldwell e eu farei por me lembrar por ela.
No outro dia, com umas mudanças que fizemos em casa dela, fiz o exercício de olhar para as estantes da sala. Reconhecia todas as cores, as formas, até as texturas. Mas não os títulos. E eu que tinha construído a minha vida à volta dos livros percebi que aquelas lombadas não eram para mim livros como estes que falo. Eram a estante da minha avó, a sala da minha avó, a casa da minha avó, a rua dela.
Ao passar os olhos reparei em vários livros do Erskine Caldwell. Não estranhei o nome, mas não o reconheci. Pesquisei um bocado e percebi que estava na linha dos meus mais queridos autores, os mesmos de quem a minha avó me tinha falado tanto em pequena. Trouxe este pequeno livro para casa, andei com ele uns dias na mala e no outro dia abri-o. Isto porque de repente (o mundo às vezes tem destas coisas) várias pessoas me falavam do Caldwell, e da forma como ele era imprescindível. O livro já não era só o livro da minha avó era o livro dos meus amigos, dos leitores que tanto gostavam do livro.
Vi que tinha tradução e prefácio de Jorge de Sena e o prefácio acabava assim:
"O apelo neste caso toma a forma de uma voz de criança perdida na noite e implorando a toda a humanidade (de que o leitor, rindo-se dele, da família dele e dos que o rodeiam, faz parte integrante) que o deixe ser livre e conscientemente um homem. Ainda quando não concordamos com a afinação da voz, ou ela nos não pareça portentosa, é uma voz humanizada.
E se não é para assim nos ouvirmos uns aos outros que por aqui andamos, não se percebe muito bem porque seremos tantos e teremos voz".
E se calhar o livro nem era da minha avó, era do meu avô, ou do meu tio, ou do meu pai. Mas essa não é a história que eu conto deste livro. É a minha memória da avó humanizada. E agora este é o meu Caldwell, porque se calhar a minha avó já nem se lembra do Caldwell e eu farei por me lembrar por ela.
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Leitura e apresentação do livro Grande Baro e Outras Histórias
Como não poderia deixar de ser é n' ªSede que se realizará a primeira leitura do Grande Baro e Outras Histórias, o nosso primeiro livro com selecção e versões de Rui Manuel Amaral. A leitura será acompanhada de uma conversa sobre a vida e obra do grande Virgilio Piñera! Dia 28 de Janeiro, 17h, no Porto.
Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.
Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.
sábado, 17 de dezembro de 2016
Virgilio Piñera
hoje, no dia em que o meu Duarte faz anos, metemo-nos na estrada para ir buscar o nosso primeiro livro à gráfica, o livro de contos no Virgilio Piñera, autor cubano nunca publicado em Portugal e que achámos, juntamente com o Rui Manuel Amaral (responsável pela existência do bicho tal foi a força, vontade, insistência, trabalho) que tinha de ser trazido aos nossos leitores Snob. deixo aqui as dezenas de amigos que nos ajudaram, dos primeiros que pensaram nele aos que hoje nos ajudaram a publicá-lo.
foi o melhor dos dias, mais um de tantos primeiros dias, estreias, novidades, ansiedades, borboletas, aventuras, saltos no vazio e, acima de tudo, a maior confiança de que nada poderá nunca correr mal quando se cria assim com tanto entusiasmo e, vá, amor.
foi o melhor dos dias, mais um de tantos primeiros dias, estreias, novidades, ansiedades, borboletas, aventuras, saltos no vazio e, acima de tudo, a maior confiança de que nada poderá nunca correr mal quando se cria assim com tanto entusiasmo e, vá, amor.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
VIRGILIO PIÑERA em pré-venda
Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.
Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.
A Snob lança no final deste mês o seu primeiro livro. A esta aventura juntaram-se a nós o Rui Manuel Amaral que o traduziu e o Pedro Simões que o desenhou. Estamos até ao dia 30 de Novembro a lançar uma pré-venda do livro que viabilize a sua impressão. Gostaríamos de considerar todos os que nos ajudam como subscritores desta nossa nova viagem editorial. O nome de todos os que comprarem o livro antecipadamente figurará na última página do livro. Ele é nosso e vosso.
O livro está em pré-venda pelo valor de 10€, perto de 30% de desconto face ao preço final, portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 10€ para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou para coleccaopedante@gmail.com.
Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.
Excertos
de União Indestrutível
"O nosso amor vai de mal a pior. Escapa-se das mãos, da boca, dos olhos, do coração. O peito dela já não se abriga no meu e as minhas pernas já não correm ao seu encontro. Caímos no que de mais terrível pode ocorrer a dois amantes: devolvemos as caras. Ela arrancou a minha cara e atirou-a para cima da cama; eu tirei a dela e chapei-a com violência no espaço deixado pela minha. Já não velaremos mais o nosso amor. Vai ser muito triste ir cada um para seu lado."
de A Carne
"Ali chegado, fez saber que cada pessoa deveria cortar da nádega esquerda dois bifes, em tudo semelhantes a uma amostra em gesso vermelho que pendia de um reluzente arame. E declarou que deveriam ser dois bifes e não um, porque se ele próprio cortara da nádega esquerda um belo bife, convinha que a coisa avançasse a bom ritmo, isto é, que ninguém comesse um bife a menos. Assentes estes pontos, todos se dedicaram a cortar dois bifes das
respectivas nádegas esquerdas. Era um espectáculo glorioso, mas que dispensa mais descrições. Fizeram-se cálculos para determinar o tempo durante o qual a cidade poderia ainda gozar dos benefícios da carne. Um famoso anatomista calculou que, partindo de um peso de cerca de quarenta e cinco quilos, e descontando vísceras e demais órgãos não comestíveis, um indivíduo podia comer carne durante cento e quarenta dias, à razão de duzentas e vinte e seis gramas por dia. De qualquer maneira, era um cálculo ilusório. E o que interessava era que cada um pudesse comer o seu belo bife."
domingo, 9 de outubro de 2016
das leituras de poesia
era uma noite normal em Guimarães e fomos jantar ao restaurante do Sr Roberto, mesmo ao lado do antigo espaço da livraria Snob. no restaurante do Sr Roberto juntam-se por vezes alguns snobs, que preferem não largar a rua D João I e revisitar a Snob, e revisitarem-se uns aos outros. enquanto jantávamos e bebíamos vinho da casa falávamos de livros e outras intimidades. intimidades porque não falávamos de uns livros quaisquer que nos diziam alguma coisa a cada um de nós, falávamos dos poemas e dos livros que acreditávamos que fariam sentido a todos os que ali estavam. foi quando falámos do Forte e lhes li ali, entre o vinho da casa e a sopa de cação, O Mais Belo Espectáculo de Horror Somos Nós. e até hoje tenho pensado no que foi aquilo.
há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.
creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.
não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.
não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.
há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.
creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.
não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.
não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
curso de literatura portuguesa séc. XX
de 18 de Outubro a 15 de Novembro
3ª feiras, 19h às 20h
O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX e XXI, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura, sempre com o foco no leitor e na importância que a estreita relação do autor com o seu leitor teve no desenrolar dessa mesma história. As cinco sessões pretendem dar uma visão alargada do que se passou em Portugal no séc. XX até aos dias de hoje, procurando um paralelismo com os principais movimentos artísticos mundiais.
programa
1a sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
2a sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
3a sessão
surrealismo
4a sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
anos 50 a 70: literatura sem marca
5a sessão
a literatura do agora, a que resiste e a que há-de resistir
preço
75€ \ 55 € sócios Cossoul (preço anual de sócio 18€)
até 5 de Outubro: 65€ \ 45€ sócios Cossoul (preço anual de sócio 18€)
autores
eça de queirós, cesário verde, ângelo de lima, fernando pessoa e heterónimos, mário de sá-carneiro, mário cesariny, antónio josé forte, mário henrique-leiria, antónio maria lisb oa, manuel de lima, herberto helder, manuel da fonseca, manuel de castro, luiz pacheco, alexandre o’neill, carlos de oliveira, mário dionísio, maria velho da costa, rui nunes, vergílio ferreira, maria gabriela llansol, nuno bragança, josé saramago, ana teresa pereira, teresa veiga, antónio ramos rosa, afonso cruz, valério romão, gonçalo m. tavares entre outros
rosa azevedo
Formada em Literatura Portuguesa e Francesa tem curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso – encontro de autores, artistas e editores independentes, do Colectivo Prisma e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, onde é também moderadora. Colabora com a direcção da Cossoul em questões de produção, programação e associativismo. Mantém o blog estórias com livros.
Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora / divulgadora da área dos livros.
rosa azevedo
936584536
quarta-feira, 29 de junho de 2016
a edição mainstream e a honestidade intelectual
tenho estado estas semanas a pensar na arrogância de tantas vezes não aceitar pontos de vista colocados no mainstream quando se fala de edição. hesitei escrever sobre isso antes de ter a certeza que não é arrogância.
o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.
é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.
retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.
ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.
o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.
o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.
é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.
retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.
ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.
o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.
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Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o...











