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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

a Flanzine do Azul

foto de Mar Babo

 era de noite, no Porto, uma noite de chuva. andava por ali com o João Pedro Azul, editor da Flanzine e da Flan de Tal, uma editora que se lança agora no seu primeiro livro Poemanifesto. a Flanzine, essa, já vai no número #5, a caminho do #6 que sai em Dezembro, com o tema FOME.

entrámos num bar, Duas de Letra, um dos tantos onde a Flanzine foi apresentada no Porto, pedimos uma bebida e fizemos fortes e prédios com as peças de Lego que havia em cima da mesa. e se fizéssemos agora a entrevista? sugere ele. eu pus a gravar aquela que seria até agora a mais descontraída de todas as entrevistas, afinal estávamos dois amigos num bar e havia Legos e Martini. talvez também por isso, pela intimidade e descontracção, foi fácil começar ali a desenhar o perfil deste editor que, ao assumir-se como editor de um fanzine, prefere não adoptar as características de um editor de livros. a Flan de Tal fica para uma próxima conversa, é uma editora que está agora a fazer-se crescer e a formar uma linha editorial. em construção.

ao fazermos uma revista ou um fanzine há características que lhe são próprias. o editor convida escritores, autores, ilustradores sabendo que ali lhes está a oferecer um espaço. o trabalho do editor fica limitado (no que a palavra "limitado" tem de bom) pela autonomia do próprio autor que, ao ser convidado, tem uma liberdade de acção que está também relacionada com o facto de aquele texto vir acompanhado de outros que não são seus. assim, cria-se na Flanzine um espaço de risco, autonomia e experimentação, que torna o fanzine não só um espaço de surpresa como também um espaço de encontro de escritas que não se encontram em outros sítios.

todos os números da Flanzine têm um tema diferente. até agora mala, medo, boca, carrossel, cama e fome, no número de Dezembro. no entanto o Azul afirma que não há uma linha literária no fanzine, apenas esse tema. enquanto juntos questionávamos essa ideia, tantas vezes obscura, do que é uma linha literária apercebemo-nos de que há duas formas de marcar uma linha numa publicação: por um lado ter alguém à frente que convida escritores ou poetas que identifique com a linha que pretende, por outro alguém que selecciona textos entre vários, tentando que estes se liguem ao mesmo imaginário, entre eles. na Flanzine escolhem-se autores por empatia, por relações de amizade e proximidade, por se acreditar no potencial literário e artístico dos convidados. o Azul acredita que a forma de retribuir o trabalho e dedicação dos seus autores é através de um enamoramento, uma relação de proximidade que se vê em todo o processo do fanzine. é esse o funcionamento deste editor tão particular, que cria linhas invisíveis entre todas as tantas pessoas que colaboram com a Flanzine, criando relações que se baseiam na confiança, gratidão e admiração. talvez por isso o Azul tenha sido o primeiro a dizer que não há editores independentes e sim editores interdependentes. e tem razão.


podem assinar / comprar a Flanzine através do email: zine.flanzine@gmail.com ou encontrá-la em alguns dos mais belos pontos de venda independente do país. 

página fb da Flanzine

página fb da Flan de Tal


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Flanzine #5 CAMA

anda por aí uma fanzine com forma de revista. é dado adquirido que as formas e categorias têm de ser questionadas, mais até do que revistas. e a Flanzine será aquilo que quiser ser sem dar cavaco a ninguém.

o número #5 é sobre a CAMA. será porventura fácil imaginar para onde os autores fazem descambar o tema? talvez não.
os autores não se conhecem e é-lhes pedido um texto sobre a CAMA. o fio condutor existe e é claro mas é maior do que a Flanzine, está não só nela como nos autores, nestes e nos outros que não escrevem aqui. um tom narrativo, uma forma clara e de grande mestria com que se fala do quotidiano, com linguagem quotidiana, mas com excelência literária. em bom, portanto. há excepções, claro, mas não vou referir excepções cada vez que se fala de um fio condutor. mantenhamos assim como entendido à partida.

a CAMA assume aqui um ciclo perfeito e fechado - por um lado o nascimento e um qualquer início. depois um erotismo latente e crescente sem idade ou hora do dia. depois a morte, claro, que não há nascimento sem ideia de morte. erotismo talvez, mas adiante.

a CAMA é assim tema fechado em si, auto significativo e em estado bruto: "Ir para a cama é tão satisfatório que não exige descrição, basta dizer: fui com el@ para a cama. Curtimos na casa de banho, comemos-nos no adro da igreja ou fizemo-nos na disco exige sempre descrição detalhada para percebermos até que ponto a coisa foi séria." (Sermente). A CAMA é espaço horizontal, erótico, sensual, como o poema: "A cama talvez seja o melhor sítio / para o poema. / O poema: / ser horizontal, húmido, bom de foder." (Inês Fonseca Santos). A CAMA é espaço de segurança porque a haver monstros estão por baixo, nunca por cima. na verdade cada pessoa traz consigo uma cama por cada noite dormida, tantas formas pode ter essa cama como os textos que se podem escrever sobre ela. em liberdade que assume a Flanzine. em total liberdade literária, textual e até a maior liberdade de todas, a dos textos que não têm nome.

a Flanzine é apresentada esta sexta, 19 de Setembro, n'o Bom, o Mau e o Vilão, em Lisboa, a partir das 19h30.