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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Córtazar e o erotismo

Hoje é o dia de se falar de Cortázar, desaparecido para ser eternamente cronópio há 35 anos.

Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.



O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O último livro de Cortázar

Cortázar pode e deve ser lembrado como um escritor que criava as próprias regras da literatura. Não o fazia por qualquer tipo de radicalismo mas porque procurava na vida uma ideia e à volta dela criava um livro que fizesse sentido, que recriasse literariamente essa mesma ideia.

Nos últimos anos da sua vida Córtazar decide viajar durante 33 dias numa auto-estrada, de Paris a Marselha, uma viagem de mais de 700km, numa Volkswagen a que chamava Dragon. A viagem seria levada a cabo com a sua última mulher, Carol Dunlop, em Maio de 1982, após cinco anos de sucessivos adiamentos. Para os dois a auto-estrada era o sítio mais efémero de todos, onde só existiam viajantes e todos de passagem. Eles iam inverter essa lógica escrevendo durante esses 33 dias (duas estações de serviço por dia) um diário de viagem ao estilo dos grandes escritores de viagens mundiais, que Córtazar leu extensiva e intensamente. Iam observar os viajantes, escrever sobre eles, parar em sítios onde todos os outros passam sem olhar.

Foi o último livro de ambos, Carol adoece e morre seis meses depois, Córtazar fica mais dois anos. E como não podia deixar de ser é um livro positivo, de caminho e viagem, cheio de humor e companheirismo. Foi a melhor das despedidas.


 Imagem e ler mais aqui.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

dia cortázar




se só tivermos um amor na vida, este é o meu, e hoje é dia de pensar nele e ouvi-lo falar. ele que diga o que quiser, qualquer coisa, até pode estar a ler o manual de instruções da torradeira.
ah! e se descobrir a pessoa que tem em casa o Histórias de Cronópios e de Famas, mato-a. mesmo. sem fofices. 





quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ai pá! adquirido.

Berkeley, California, otoño de 1980. En la cima de su carrera y después de años de negativas, Julio Cortázar acepta dar un curso universitario de dos meses en los Estados Unidos. Como cabía esperar, no se tratará de conferencias magistrales sino de una serie de charlas sobre literatura, y sobre todo acerca de su experiencia de escritor y la génesis de sus obras.

Las clases tratan gran diversidad de temas: aspectos del cuento fantástico; la musicalidad, el humor, el erotismo y lo lúdico en la literatura; la imaginación y el realismo, la literatura social y las trampas del lenguaje, todos ellos encarnados en lecturas y ejemplos tomados de la cultura universal. Las clases llegan a su punto máximo de interés cuando Cortázar, ya en la edad de los balances, se refiere a su evolución de escritor y analiza su obra: cómo nacieron los cronopios y cuentos insuperables como “La noche boca arriba” o “Continuidad de los parques”; el sentido de Rayuela y su proceso de escritura; el desafío de Libro de Manuel.

Quien lea la minuciosa y fiel transcripción de trece horas de grabaciones, al cabo de este encuentro con el Cortázar oral, valorará lo mismo que en sus textos: la soltura y cercanía, la vastedad de lecturas, la honestidad intelectual, la imaginación y el rigor de tamaño profesor. El Cortázar que nos quedaba por conocer, este que ya entra en el aula y sonríe.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

cortázar em vídeo (ouvir este cronópio a falar é uma experiência necessária)

Julio Cortazar fala sobre os Cronópios e os Famas


Julio Cortázar diz o seu texto Me Caigo y Me Levanto


 Cortázar fala sobre o realismo e o fantástico

estamos na net a viajar e bum

pérolas!

um dossier com 600 páginas de cortazar cortazar cortazar. contos, livros completos, críticas, entrevistas. bom em potência.

descarregar o pdf AQUI.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

about surrealismo

"Incomoda, contudo, observar a violenta pressão de raiz estética e professoral que se esmera em integrar o Surrealismo num capítulo a mais da história literária e se fecha para o seu legítimo sentido. Os próprios chefes desfalecem esgotados, voltam com cabeças amolecidas ao "volume de poemas" (tão outra coisa do que poemas em volume), ao arcano 17, ao manifesto repetitivo. Por isso é preciso reiterar: a razão do Surrealismo ultrapassa toda a literatura, toda a arte, todo o método localizado e todo o produto resultante. Surrealismo é cosmovisão, não escola ou ismo: uma empresa de conquista da realidade, que é a realidade certa em vez da outra de papelão e para sempre ressequida; uma reconquista do mal conquistado (o conquistado a meias: com a fregmentação de uma ciência, uma razão discursiva, uma estética, uma moral, uma teleologia) e não a mera continuação, dialecticamente antitética, da velha ordem supostamente progressiva."

Júlio Cortázar
Valise de Cronópio
Editora Perspectiva, 2004

quarta-feira, 10 de março de 2010

uma delícia - Júlio Cortazar explica a origem dos seus míticos personagens - os cronópios e as famas

Um livro I-N-D-I-S-P-E-N-S-Á-V-E-L em todas as mesas de cabeceira, aqui as duas edições, espanhola (Punto de Lectura) e portuguesa (Estampa). O requinte do humor com a arte única da escrita de Cortázar. Bom, bom, bom!


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

vale tão a pena espreitar...

eu vou espreitar o meu agora, em papel. Deixo-vos um cheirinho, um cheirinho só, de um livro que só de folhear vale a pena, como poderão ver aqui