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quarta-feira, 18 de abril de 2018

domingo, 9 de outubro de 2016

das leituras de poesia

era uma  noite normal em Guimarães e fomos jantar ao restaurante do Sr Roberto, mesmo ao lado do antigo espaço da livraria Snob. no restaurante do Sr Roberto juntam-se por vezes alguns snobs, que preferem não largar a rua D João I e revisitar a Snob, e revisitarem-se uns aos outros. enquanto jantávamos e bebíamos vinho da casa falávamos de livros e outras intimidades. intimidades porque não falávamos de uns livros quaisquer que nos diziam alguma coisa a cada um de nós, falávamos dos poemas e dos livros que acreditávamos que fariam sentido a todos os que ali estavam. foi quando falámos do Forte e lhes li ali, entre o vinho da casa e a sopa de cação, O Mais Belo Espectáculo de Horror Somos Nós. e até hoje tenho pensado no que foi aquilo.

há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.

creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.

não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.

não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.


terça-feira, 28 de junho de 2016

Festival Silêncio

Na próxima semana os Poetas do Povo marcam presença no FESTIVAL SILÊNCIO com um conjunto de seis sessões com curadoria minha. Está aqui um elenco de luxo, conto com vocês! Todas as sessões são no bar Vicking e duram um pouco menos de uma hora. Passem por lá enquanto circulam pelas imensas surpresas que este festival traz à cidade.
Ao meu elenco de luxo, obrigada

 
POETAS DO POVO (sessões 161 a 166) / O MUNDO NÃO SE FEZ PARA PENSARMOS NELE. Festival Silêncio, 1,2 e 3 de Julho
http://festivalsilencio.com/
Houve sempre poesia. Dentro de todos os séculos e todas as idades. E a poesia foi sempre escrita na razão de cada poeta mas junto de outros poetas. Em diferentes tempos e diferentes idades houve diferentes poesias, por razões que tanto eram pessoais como universais. Assim se foi fazendo, por aqui, a nossa história.
Porque o mundo não se fez para pensarmos nele mas sim para o escrevermos e lermos vamos agora percorrer quatro séculos de poesia e perceber que poesia havia para ser dita e lida e cantada, por tantos poetas, em tantas poesias, em tão bela e única história poética. Curadoria de Rosa Azevedo.
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POESIA E CLASSICISMO
1 de Julho 19h
Foi no tempo em que a poesia era salva em mar alto, poesia dos heróis, dos modernos, poesia que imagina a ponte entre o antes e um império inteiro por haver. É a poesia como a única linguagem possível.
António Poppe
Gustavo Rubim
Luís Serpa
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E ROMANTISMO
1 de Julho 21h
Houve o tempo em que a poesia teve de entender e cantar o amor. Instrumentalizou-se a palavra em prol do poeta, descobriu-se que a palavra não existia longe do eu. Foi o tempo das questões e não das respostas. Verbalizou-se a dúvida, poetizou-se o que era até então indizível.
Raquel Marinho
Cláudio Henriques
André Gago
Mùsico - João Paulo Gaspar (viola d'arco)
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POESIA E REALISMO
2 de Julho 16h
Com o fim do séc. XIX o escritor percebeu que a escrita é uma arma com poderosas consequências. Percebeu a responsabilidade da palavra escrita, entendeu a sociedade como mutante e complexa. Foi o tempo em que a poesia teve consciência de si, da sua força no mundo enquanto pertença.
Maria Coutinho
Sara Felício
Nuno Miguel Guedes
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E MODERNISMO
2 de Julho 18h
Poesia autónoma, artística, cubista, futurista, libertadora, maquinal, moderna, fragmentária, metálica, violenta, simbolista, sonora, vibrante, suicida, irreverente, indiferente, fracturante, alucinante, modernista.
Ana Brandão
Ana Rocha
Patrícia Portela
Músico: Filipe Valentim (piano)
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POESIA E SURREALISMO
3 de Julho 16h
Como nos disse António Maria Lisboa «A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.». Ao que poderia ter respondido Cesariny “Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”
Joana Bertholo
Margarida Ferra
Claudia Sampaio
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)
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NOVÍSSIMA POESIA
3 de Julho 18h
Veio o tempo dos poetas. Sem escola, com a originalidade possível, na procura da palavra exacta na frase fragmentada. Uma poesia que chegou a todos, a lugares improváveis da cidade. E quando os poemas cobrem a cidade, os Poetas do Povo procuram neles a palavra exacta para a reproduzirem no último dia do Festival Silêncio, oferecendo a palavra aos seus ouvintes e dando aos leitores o espaço absoluto da poesia.
Marta Navarro
Inês Lago
Raquel Nobre Guerra
Músico: Luís Bastos (guitarra acústica e clarinete)

segunda-feira, 16 de março de 2015

o amor em Adélia Prado

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

novo curso OH, A POESIA [o que fazer com as ideias feitas]



curso com marta navarro, joão silveira e rosa azevedo
quartas-feiras, de 4 de Março a 29 de Abril (9 sessões)
90€ (ou 45€ por mês)
19h – 20h30

A poesia faz parte das nossas leituras desde sempre. Mas é comum que se criem, ao longo da nossa aprendizagem, uma série de ideias feitas sobre não só o que é a poesia mas, também, como deve ser lida e encarada.
A partir de algumas linhas de força (pensar a poesia, o poeta, a noção de escrita e de leitura) e da leitura de alguns poemas, este curso pretende criar leitores críticos, autónomos, livres de preconceitos e pré-leituras de cada texto. Não vamos ensinar a ler, não vamos ensinar a escrever; vamos, sim, abrir portas e caminhos múltiplos para que estes leitores criem com os livros um espaço de segredo, intimidade e absoluta autonomia.


inscrições e informações
rosa.b.azev@gmail.com


evento Facebook


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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Bachelard e a poesia

De fora a poesia parece desordenada. Não há escolas, não há poetas arrastando atrás de si poetas mais jovens. Os jovens poetas querem a independência. Por conseguinte, estamos num tempo de poesia verdadeira, de poesia que não imita, é um facto. Não salta à vista? Não tem importância nenhuma. É preciso procurar as pedras preciosas; escondidas ainda são mais preciosas. Gostaria de lhe transmitir a minha impressão de que estamos num tempo de poesia exuberante. Não se trata de grandes tiragens. Aliás tenho a impressão de que as grandes tiragens seriam perigosas porque correriam o risco de passar por uma imitação da poesia do século passado.
As pessoas têm medo dos poetas e têm razão. Um poeta é alguém que perturba uma porção de coisas, é muito inquietante a poesia.
[...]
Depois [de Lautréamont] houve todos os outros, todos aqueles [poetas] que me mandaram os seus livros. Os meus amigos poetas. Fazem a felicidade da minha vida. 


Gaston Bachelard
entrevistado em Os escritores e a literatura, Madeleine Chapsal

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Primeira elegia

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio do espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue frente
ao coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um como o outro eles se ocultam de sua própria sorte, apenas.
Acaso não o saibas já? Lança de teus braços o vazio
em direcção aos espaços que respiramos; talvez que as aves
num voo mais íntimo sintam o ar assim expandido.
Sim, na verdade as Primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
aguardavam que nelas reparasses. Para ti
se erguia uma vaga no findo passado; ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino entregava-se-te. E tudo isso era para ti uma missão.
Mas soubeste cumpri-la? Não te distraía a contínua
expectativa, como se tudo te anunciasse
a Amada? (Como a poderias acolher em ti,
se grandes e estranhos pensamentos te invadem
ou abandonam ou em ti permanecem ao longo da noite?)
Se porém estás saudoso, canta as Amantes, cujo
celebrado sentir todavia está longe de ser imortalizado.
Canta, e como tu as invejas quase, as que foram abandonadas, cujo amor
te parece maior, do que o daquelas que o viram apaziguado. Não cesses
de recomeçar esse sempre insuficiente louvor;
e pensa: o herói dura sempre; até a sua queda mais não foi
do que o simples pretexto para o seu derradeiro nascimento.
Mas as Amantes são acolhidas de novo na esvaída natureza,
pois as forças que tudo isto produzem
não existem duas vezes. Terás tu cantado de Gaspara Stampa
já suficientemente a lembrança, para que a jovem mulher
a quem o amado deixou, possa sentir
pelo sublime exemplo de uma tal Amante: Ah, ser como ela!
Não será tempo de estas dores antiquíssimas se tornarem
finalmente fecundas? E não será tempo de nós,
os que amamos, nos libertarmos de quem amamos, como trémulos vencedores?
De sermos como a flecha que, vencendo o arco, se solta, toda ímpeto,
passando a ser mais do que ela própria? Pois em nenhum lugar se permanece imóvel.

Vozes, vozes. Ouve-as, ó meu coração, como outrora apenas
os santos as ouviam: de tal modo que o apelo imenso
os erguia do solo; contudo permaneciam ajoelhados,
inconcebivelmente, a isso destentos:
ouvir: era assim todo o seu estar. Mas tu não poderias sequer em ti escutar
a voz de Deus. Ouve, porém, o sopro, ininterrupta mensagem
que a ti chega, modelado no silêncio.
E agora ouves o murmúrio dos jovens que morreram.
Na verdade, onde quer que entrasses, fosse
em igrejas de Roma ou de Nápoles, não era o destino deles que no silêncio te interpelava?
Ou, então, uma inscrição sublime te impressionava,
como a da lápide que há pouco viste em Santa Maria Formosa.
Que esperam todos eles de mim? tenho de serenamente retirar-lhes
o véu de injustiça que por vezes perturba
o puro movimento dessas almas.

É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.
Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes dois domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno, tal como ao crescer
nos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto é tão frequentemente a fonte de feliz amadurecimento -: poderíamos sem eles existir?
Ou será vã a lenda de que foi outrora, ao prantear-se Lino,
que a primeira música ousou penetrar na aridez do espanto?
Então, apenas quando esse jovem, quase um deus, de súbito
no espaço do terror para sempre se ocultava, o vazio
atingiu por fim a vibração que agora nos arrebata, nos consola, nos ajuda.

Rainer Maria Rilke
in As Elegias de Duíno

cesariny sobre o valor do silêncio e da beleza da nudez

discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és a flor nem luto nem acalanto nem estrêla
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espêlho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral, rasgando-os os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

Mário Cesariny

manual de prestidigitação

sábado, 16 de agosto de 2014

se pudesse só ter lido um poema na vida talvez escolhesse este

And Death Shall Have No Dominion
DYLAN THOMAS

And death shall have no dominion. 
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone, 
They shall have stars at elbow and foot; 
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

sobre um poema meu

estou há alguns dias com esta janela aberta a tentar escrever um texto sobre a minha escrita. não por timidez ou falta de coragem mas por me estar a aperceber que dentro deste blog eu não escrevo, eu "falo de". como se fosse uma parte apartada de mim, uma despersonalização - a que escreve e a que "fala de". isto leva-me a algumas reflexões que tentarei desenvolver neste post. a primeira é que para se "falar de" num blog é preciso escrever. a escrita tem muitas formas, assim como a leitura.

(lembro-me da última aula do meu último curso "se acham mesmo que a leitura é um bem em si próprio não leiam livros maus, leiam bulas de medicamentos")

depois de muito pensar nisto e questionar a minha posição com as minhas "manufacturas", o meu artesanato artístico, percebo que a relação não só não é pacífica como é verdadeiramente perturbadora. por um lado não gosto de nada que tenha escrito até hoje, seja na poesia, seja por aqui, seja por onde for, por outro sei mesmo que em muitas vezes não é apenas uma questão sensitiva, é mesmo falta de qualidade (aposto que o querido anónimo vai deixar neste post um comentário assez desagradável sobre a minha ecrita, não pode ver uma aberta, o rapaz).

diz-se muitas vezes, sabedoria popular, que quando deixamos de sofrer por algo que nunca mais acontece (uma qualquer transformação que me fizesse gostar do que escrevo, ou vá, se perder a cabeça com desejos, escrever mesmo bem) esse algo acontece em força. de repente, apenas nesta semana, tive a caixa de mensagens inundada por pessoas que me falavam deste blog. inesperadamente, porque ele existe há já alguns anos. não eram mensagens elogiosas, eram mensagens que mostravam que o meu objectivo estava a ser cumprido, eu estava realmente a comunicar as ideias que queria, as pessoas liam e percebiam, subscreviam, queriam falar mais sobre isso.

na mesma semana, numa leitura de poesia, uma pessoa leu em voz alta um poema meu publicado numa Nicotina. não só não me lembrava de ter publicado este texto como tive dificuldade, na primeira leitura, em reconhecer aquelas palavras. em relação à poesia a minha história é mais dolorosa. é-me impossível reler o que escrevi e sou de uma exigência sofrida com cada palavra que tento escrever. coloquei esse capítulo numa gaveta e decidi que ia ser leitora. que nunca mais ia conseguir escrever. gostei daquele texto, seja como for lembro-me bem do esforço que foi enviá-lo e das leituras que fiz e refiz à exaustão. as pessoas gostaram do poema, algumas sem saber que era meu (que as teias da amizade são mais fortes do que eu consigo intuir) e demorei uns dias a encaixar isto. ainda não encaixei e por isso resolvi fazer esta reflexão, aqui, neste blog que não fala nunca de mim, e que tão cedo não falará. eu gosto de ser leitora, é o meu espaço de conforto. gosto do silêncio em que me deixo muitos dias a imaginar um texto que vou escrever sobre um livro ou sobre um tema. gosto de revirar os livros que leio em vários ângulos. gosto deste quase anonimato do leitor.

deixo aqui o poema de que falei. é o primeiro poema meu publicado aqui (que escondi o blog onde estão os outros até acabar este meu processo, se é que vai acabar). não me é confortável publicar textos meus mas, afinal, este blog está cheio deles.

obrigada aos amigos que me pediram mais textos. ainda não vai ser já. mas com os vossos pedidos guardo estrelas que não são só até 5 e onde regresso cada vez que sentir que o que escrevo é digno de um livro da Chiado, com folhas e flores na capa.


terça-feira, 17 de junho de 2014

do Fontelo e do gonçalo

anda por aí um poeta que é poeta há muito tempo. um poeta que luta com a sua própria poesia já há muito tempo. que a escreve muitas vezes, tanto a poesia como cada uma das palavras.

chama-se gonçalo mira. o seu livro de estreia é Fontelo, em edição de autor.

há no Fontelo uma sensação imediata de tranquilidade, quase de melancolia (se bem que me parece que o poeta preferiria a melancolia à tranquilidade). o tom confessional é talvez a falha e a preciosidade do livro. pensar neste aspecto desta poesia levanta muitas questões. afinal o que é a poesia? para que serve? com que intuito a escrevemos?

no outro dia, num desses fins de tarde, falava com uma amiga poeta e chegámos à conclusão que há apenas uma forma de "avaliar" (tantas aspas nesta palavra) poesia - se não for pelo nosso gosto e sentido estético. é vermos se a poesia funciona. com tudo o que essa palavra pode significar. é um critério como outro qualquer, subjectivo como se quer na poesia. o gonçalo nesse aspecto desequilibra-se. desequilibra-se nas palavras assim como certamente se desequilibrou no que o levou ao livro. que pode ser um caminho, uma ideia, uma escolha ou uma fatalidade. o gonçalo derrapa muitas vezes mas compensa com frases lapidares, certeiras, poderosas. e se derrapa é no que neste poeta há de mais autêntico - a confissão. como num confessionário tem apenas um ouvinte. e nós entramos dentro do livro apenas para apanhar poesia desmaiada no sangue do poeta e sairmos de lá espantados.

"E sonho com bocas vorazes
das línguas escorrendo o sangue das chagas"

"nenhuma nuvem de fumo
engasga a cidade"

"o teu corpo é o pélago abrupto
do meu corpo."

o gonçalo despe-se e não atraiçoa a poesia. é autêntico e cru. respeita de forma inteira o poema. e só vai deixar de derrapar no poema quando souber deixar de derrapar na vida. mas, no limite, quem somos nós para preferir que ele não derrape?

Fontelo é um livro autêntico. e o gonçalo é por isso um poeta autêntico. é um livro corpóreo, real. é poesia e confissão. é um sofrimento doce e acutilante. é, sobretudo, o livro de um poeta que trabalha minuciosamente a poesia mas que nunca terá medo dela. e isso é raro.

para encomendar o Fontelo é só enviar um e-mail para goncalomira@gmail.com. o preço são 8€ com portes incluídos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

SÚMULA


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Alquimia do verbo, de Arthur Rimbaud

Agora eu. A história de uma das minhas loucuras.
Há muito que afirmava claramente possuir todas as paisagens possíveis, e considerava pobres as grandes figuras da pintura e da poesia modernas.
Amava as pinturas tortas, debaixo de portas, cenários, telas de saltimbancos, ensinamentos, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, refrões monocórdicos, ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, viagens de grandes descobertas onde não existissem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião asfixiadas, revoluções de costumes, deslocar de raças e continentes: acreditava em todos os encantamentos.
Inventava a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde.  Criava regras para a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, escolhia orgulhosamente um verbo poético, acessível, num ou noutro dia, mas para todos os sentidos. Reservava a mim a tradução.
Mas tudo era apenas um estudo. Escrevia silêncios, noites, decifrava o inexprimível. Fixava vertigens.





















[até que um dia me ponha a escrever novamente, vou traduzindo os meus]

terça-feira, 29 de abril de 2014

as pequenas editoras e a alteração do mercado editorial português

nos últimos vinte anos assistimos a uma profunda e marcante alteração do panorama editorial português. não só no meio editorial em si mas na nossa forma de nos posicionarmos perante a edição de um livro. há vinte anos atrás publicar era considerado um passo fundamental no caminho da escrita mas a escrita antecedia a publicação muitas vezes (arrisco mesmo a afirmar que na maioria) durante largos anos. o escritor amadurecia, aprendia, lia e escrevia muito antes de poder publicar.
com a difusão da Internet, no final do século passado, democratizou-se a escrita passando a ser possível dar a ler. esta facilidade com que se dava a ler não só a nossa obra como aquilo que pensávamos e queríamos que fosse ouvido transformou-nos em leitores mais ricos e com mais incentivos literários de sítios nem sempre prováveis. com as redes sociais nomeadamente com o facebook essa democratização expandiu-se.
a esta expansão democrática da escrita podemos associar uma guetização da publicação, da edição de livros. pondo de lado um mundo paralelo e apenas comercial, de que me vou escusar a falar por agora, vou centrar-me nas edições de autores reais, aqueles que não escrevem fora do intuito da própria escrita. esta democratização da escrita acabou por tornar o livro um objecto mais raro, uma vez que não era necessário para que a obra fosse lida, ainda que este fenómeno não fosse óbvio. podíamos aliás pensar que se passaria algo oposto, como um crescente desinteresse pelo livro impresso. no entanto o livro sacralizou-se, tornou-se uma assinatura do autor por fora e a cima de todas as outras publicações em rede.
a falta de poder de compra trazida pela crise poderia ser também vista como um entrave a esse crescimento do livro impresso, mas é aqui que, a meu ver, se opera o mais incrível movimento literário associado ao mundo editorial destes nossos últimos vinte anos. começaram a surgir editoras pequenas, sem fins lucrativos, que têm no seu centro apenas a publicação do autor enquanto autor e do seu texto enquanto texto. acompanhando esta mesma sacralização as editoras formaram-se sabendo que estavam a acompanhar uma vontade de publicação para além de outro interesse que não fosse o assinar por fora e acima das publicações em rede de um autor. a publicação tornou-se um ritual de vida literária e as editoras a sua ponte. um ritual acarinhado e fundamental, mas ao contrário do que se passava antes, já não necessário à vida pública de um texto.
falo-vos deste fenómeno porque acho este movimento um grande salto da nossa forma de viver a literatura e que me parece que, aparentemente, ainda não é reconhecida por muitos leitores. é um fenómeno, infelizmente, mais ligado à poesia. digo infelizmente não por desprimor à poesia, claro, mas porque creio que seria interessante ver o mesmo acontecer com a prosa, a filosofia e outras áreas literárias ou científicas. mas termos isto a acontecer na poesia é uma forma de termos maior e mais bela poesia. porque é uma poesia que tem vontade de ser lida e de existir dentro do livro impresso como uma marca de eternização. e são editores que percebem que o que recebem de volta dessa mesma leitura da poesia que dão a ler valoriza, justifica e credibiliza todo o trabalho editorial que sobrevive longe de uma lógica de lucro.
foram vinte anos de grandes mudanças no panorama editorial. muito continua igual, claro, a leitura também se democratizou, muita gente bastante improvável passou a publicar, multiplicaram-se as razões para se publicar um livro. mas num mercado pequeno, paralelo e alternativo, há editoras sem distribuição, dinheiro para promoção e com pouca tiragem que fazem pela poesia neste pequeno país muito mais do que tantas outras editoras com tantos outros recursos conseguiram fazer.

sexta-feira, 28 de março de 2014

o que por palavras nos está oculto,
no silêncio crepita
em intimidade

José Tolentino Mendonça

não ando desaparecida

ando só em reboot.
li coisas que escrevi neste blog em 2009 e ainda não consegui recuperar do choque. estes dois últimos anos e estes dois últimos meses foram uma bomba atómica. sairei daqui melhor, espero eu. mais cínica, sarcástica. mordaz, exigente. e/mas melhor. ando a ler infinitamente e a pensar infinitamente e a beber copos infinitos de vinho tinto. ando a recomeçar na poesia. ando por aqui, alerta e desperta e em reciclagem.
até já.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

poeminhas

acabei e receber um mail dos chupistas da Chiado Editora para publicar um poeminha meu. sim, vou usar diminutivo porque não há outra formulação possível quando me dizem que o tal poeminha só pode ter trinta versos. versos. o meu poeminha tem de ter trinta versos.
hesito perante tal e-mail. penso se a minha conta bancária permitirá tal aventura pelo mundo das publicações, uma vez que não estou abonada de dinheiro para andar a pagar tais oportunidades. pois eis se não quando o dito senhor, perdão, editor me diz "aos Autores antologiados não será solicitada nenhuma contrapartida para a participação na obra nem serão ofertados exemplares da mesma."
alvísseras! fui descoberta. lancem a passadeira vermelha. lancem foguetes. que bonito. um poeminha.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

um poema da margarida

Escadas de incêndio

Desci a correr pelas escadas de incêndio
de betão, expostas ao vento mais do que ao sol.
Suportei a velocidade áspera na mão esquerda
dei a um filho o flanco,
outra criança por um braço,
e provavelmente um par de asas seguiu-nos
mas não ousei virar-me porque diante de mim uma
outra perspectiva da cidade.

Caminho agora de igual modo todas as horas,
repito os gestos essenciais
com esmero, a melhor memória, desvelo.
Sei-os de cor e desenho-os
com os meus dedos, como novos.
Confirmo: sou a mesma que cozinha no mesmo fogão
a gás, outra água, outro combustível,
tomilho, a pedra mármore intemporal.
Mais eficaz do que essa escada secreta e tosca,
a repetição salva-nos. Um erro
nunca pode ser emendado, nem quase isso.
Não há lugar mais firme senão escondida
a falha
debaixo da acumulação das tarefas
normais
repetidas com esforço, zelo, sem excessos:
E sobre o tapete uma coreografia monocórdica,
segura, faz dos dias
dias em que não se usa a escada de incêndio.


Margarida Ferra