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sexta-feira, 18 de março de 2016

da não leitura da crítica à entrada do fim-de-semana

continuamos a viver a ditadura do bem comportado. os livros são produzidos em massa e procuramos sempre perceber as falhas, os sítios onde o livro não cumpriu. é neste ponto que a crítica literária falha, a procura do erro. o terrível encontro entre a perfeição e a harmonia como um dos sítios da boa literatura.

há excepções, não só no livro como no leitor. o que sabe encontrar o sítio do desconforto e perceber o sítio em carne exposta da literatura. e não há leitores e críticos imaculados, vai existindo é quem consiga perceber que a escrita sem erros e sem falhas estruturais é uma literatura que engana.

há umas semanas o Gonçalo M Tavares dizia-me na conversa que tivemos em Setúbal que o erro na nossa forma de ler vem da escola que nos apresenta desafios por fases, só avançando para a fase seguinte se tivermos percebido a anterior. culturalmente habituamo-nos a isso: a perceber, a ver na dúvida um inimigo. literariamente habituamo-nos a ficar "viciados" nos livros, a "amar" os livros. a amar os livros que nos "agarram", que não conseguimos largar.  a ditadura do conforto, do descanso.

não podemos perder o sítio incrível que é aquele que nos desconforta. esse conceito de desconforto e incompreensão desapareceu dos jornais. mas ainda não desapareceu das conversas nem do silêncio. porque é no silêncio que esse sítio se desenvolve, porque os processos de entendimento são sempre processos íntimos, como deveria ser a leitura. 


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

para uma história da leitura ou da impossibilidade do historicismo na literatura

há dias em que algo maior que a leitura quotidiana e vertical dos dias se revela. aconteceu-me hoje com a descoberta casual de um livro de João Gaspar Simões que compila algumas das suas crónicas escritas entre 1942 e 1979. ao folhear o livro vou percebendo que este cronista e crítico literário nos revela aqui algumas das suas intuições quanto a autores desta época - das mais belas e potentes e profícuas épocas da literatura portuguesa. aqui João Gaspar Simões fala, e só como exemplo, do jovem Herberto Helder, um dos mais promissores jovens da literatura portuguesa que acabava de provar que os géneros literários estavam em crise ao publicar o seu Passos em Volta.

ao ler estes artigos percebo que o que mais me faz persistir nesta leitura horizontal da literatura portuguesa, numa perspectiva aparentemente historicista da literatura que só o é para mostrar que não há literatura que possa ser historicista, é a percepção clara de que fazemos parte de uma história da escrita, e com ela, de uma história da leitura. não há ciência que aguente a literatura porque ela é fruto de leituras e as leituras são fruto dos seus leitores, todos eles marcados pela intuição. a nossa leitura é só mais uma que se soma à de Gaspar Simões. lemos Herberto Helder do mesmo sítio de onde também ele o leu, das páginas do livro, mas temos em nós histórias diferentes, só isso. leitores diferentes, também, claro, mas esses existem horizontal ou verticalmente, ao nosso lado ou há 50 anos. não quero com isto afirmar que não é importante o contexto de um escritor, pelo contrário - os leitores que somos têm sempre a consciência de que ao texto muitos elementos se somam e contrapõem, às vezes até se substituem, impedindo a leitura. todos os verdadeiros leitores sabem, ainda que tenham dificuldade em assumi-lo, que um texto não vale sozinho. o que afirmo é que somos todos leitores do mesmo texto e que o que muda, o contexto de cada um, não se altera só historicamente e sim a todos os níveis que influenciam a leitura. daí a impossibilidade do historicismo da literatura.

o que interessa aqui é que a descoberta deste livro me ajuda a perceber a forma como quero ensinar e entender a literatura. como uma linha transversal, uma sequência de livros que se lêem cruzados e simultaneamente. que a história da literatura é muito mais uma história da leitura do que da escrita, da nossa intuição e entendimento do texto que nos é mostrado. 

e o podermos estar atentos à literatura contemporânea não é mais que a possibilidade de sermos uns verdadeiros privilegiados. privilégio em podermos falar dos livros publicados hoje com a tranquilidade e transparência com que Gaspar Simões lê Herberto dizendo deste livro que "os contos de Herberto Helder, não sendo, como não são, verdadeiros contos, peças literárias objectivas plenamente realizadas enquanto arte literária, valem, para nós, mais do que isso, pois neles viemos a encontrar o mea culpa de um poeta que viu na poesia uma espécie de inviabilidade para o libertar de si próprio."  

apesar do ruído resta-nos exercitar a intuição adivinhando os potenciais autores promissores, o que quer que esta palavra, por vezes tão perigosa, queira dizer. este exercício tem, seja como for, pouco interesse. o interesse maior que lhe adivinho é esta insubstituível sensação de que fazemos parte desta história maior e sem ciência, toda feita de intuições e emoções, a história da leitura.