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quarta-feira, 2 de abril de 2014

buenos aires, a cidade capital da palavra

fui a Buenos Aires há três anos atrás. apanhei o avião, sozinha, para ir comprar livros. do avião, ao chegar, vi a cidade de cima, à noite. gigante e luminosa. tinha imaginado tanto o queria fazer que tinha o mapa de cor debaixo dos olhos. identifiquei, pensei eu, o meu hotel do avião.
no entanto fui rapidamente engolida pela cidade. no meu silêncio e nas ruas tumultuosas encontrei uma cidade que não quer fascinar nem encher as medidas de ninguém. uma cidade que existe, com alguma arrogância e uma absoluta descontracção. vive-se (em) Buenos Aires irreflectidamente e de forma orgânica.

Ernesto Schoo escreveu, no final da sua vida, Mi Buenos Aires Querido. editado em Portugal pela Tinta da China, na cuidada colecção de Carlos Vaz Marques que tem a dupla função de reabilitar em bom o género da literatura de viagens, revelando a esse propósito livros que teriam um espaço limitado noutras vias na edição portuguesa. para completar o bom gosto desta edição somos presenteados por um pequeno prefácio de Carlos Quevedo, onde dá a entender que Buenos Aires é uma cidade subjectiva, em sintonia com o que Schoo conclui no último capítulo do livro. Buenos Aires não é bela, original, turística, doce ou confortável. é um animal. que é selvagem ao mesmo tempo que consegue ser leal. é aqui que vos digo que é diferente ler Schoo tendo ido ou não a Buenos Aires. eu fui e não sei ler de outra forma. eu também tenho a minha cidade desconhecida e irreverente, se bem que a de Schoo foi vivida ao longo de mais de 80 anos e a minha em dez dias. é outra cidade também por isso.


Schoo conta aqui uma Buenos Aires. não tem apenas um ponto de vista não apenas na ideia que espelha da cidade mas também na forma como escreve. Schoo é um escritor argentino e não surpreende ao quebrar a forma que julgamos entender no início do livro. num ritmo cadenciado de pequenos textos aparentemente equilibrados, Schoo quebra a cadência pelo conteúdo do espaço de intenção que a cidade ocupa em cada um deles. o que aparentemente é equilibrado é na verdade absolutamente único, capítulo a capítulo. como é também recorrente na literatura argentina não é perceptível quando estamos perante a verdadeira ficção ou marcas biográficas - uma clara herança / convívio com Borges - o que aliás, como sempre, pouco interessa. interessa apenas por nos deixar suspensos de um texto tão pessoal que vamos balançando do real para o ficcionado ao nosso bel prazer tornando-nos assim parte da própria narrativa.
este é, assim, desde já, um livro obrigatório para quem conta atravessar o Oceano para visitar a terra dos escritores. só se pode conhecer Buenos Aires conhecendo cada uma das cidades que existe em cada viajante e em cada portenho. esta é uma das Buenos Aires portenha. só tem um ponto negativo - agora queria ler mais Schoo e vai ser um 31 para o encontrar. se calhar terei de regressar a Buenos Aires.


eu, ao contrário de Quevedo, referi Borges. shame on me...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Carlos Vaz Marques entrevista Lobo Antunes para o Festival LER

"A amizade não é mais do que uma dedicada atenção."

"A amizade é como o amor. É absoluto e instantâneo. Assim que conhecemos um amigo verdadeiro somos logo amigos de infância."

"Estou muito grato à guerra. Pensava que tudo rodava à minha volta e ali percebi que somos um no meio de muitos."

"Enquanto estivermos de mão dada com alguém nada nos pode acontecer. Quando estava à espera da anestesia na minha operação o cirurgião deu-me a mão em silêncio e percebi que nada de mal me podia acontecer."

"Não podemos viver sem a noção de eternidade. Mesmo que não a tenhamos sempre presente. Um bom médico é o que nos devolve a eternidade"

é difícil falar sobre o que é ouvir Lobo Antunes. a experiência é de tal forma devastadora e rica que fica sempre pouco que dizer. mesmo o Carlos Vaz Marques que tantas vezes é genial na sua forma de abordar os entrevistados aqui não conseguiu sempre ter a estaleca necessária. e o Lobo Anutnes apresentou-se coloquial e descontraído. mas a descontracção dele acaba sempre por ser  um gigante de palco. só pela naturalidade, pelo que pensa e pelo que sente. pelo que diz como quem fala de assuntos coloquiais sem o ser. foi divertido e comovente. o sentido de humor dele é imbatível. e a forma como salta de um frase divertida para uma que nos desfaz em peças é inacreditável.

falou-nos da sua forma de escrever. que não escreve romances, nem poemas, que não há nome para o que escreve. que vem apenas do editor a decisão de escrever "romance" na capa. diz que gostava de escrever mais, outras coisas. "coisas" neste sentido da não definição da forma. queria deixar depois de morrer o mesmo que o pai lhe respondeu que queria deixar aos filhos antes de morrer: "o amor pelas coisas belas".

os seus livros têm muitas vozes femininas. Lobo Antunes cresceu no meio de rapazes e procurou sempre a voz feminina no seu entendimento do mundo. como uma procura por uma irmã que nunca teve. e é aí que se pode considerar este último livro, não é meia-noite quem quer, como um livro autobigráfico - não nos factos mas nessa procura da voz feminina que procurou desde a infância.

parte da entrevista foi aquilo que ele chamou, desagradado, uma abordagem de termos técnicos. disse que os romancistas não deviam usar advérbios de modo nem demasiados adjectivos - que havia quem o fizesse e muito bem mas que deveria ser um génio para o fazer. disse também que um livro não pode pretender estar em altas durante todas as páginas - muitos romancistas novos na minha opinião ignoram esta regra, o que é trágico. o romance deveria crescer e diminuir para que o leitor o possa acompanhar de forma mais orgânica.

Carlos Vaz Marques estava perante um monstro das palavars e podemos dizer que se safou muito bem, como sempre. só no final não levou a dele avante, ele que nunca desiste de uma pergunta, não conseguiu que Lobo Antunes desse conselhos de leitura. Carlos Vaz Marques não desiste de uma pergunta e posso garantir-vos que fez de tudo e deu todas as voltas. mas não conseguiu.


(eduardo salavisa)