o que por palavras nos está oculto,
no silêncio crepita
em intimidade
José Tolentino Mendonça
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
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sexta-feira, 28 de março de 2014
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
José Tolentino Mendonça
há qualquer coisa de inacreditável neste meu poeta. sempre admirei pessoas que se posicionam em sítios diferentes dos meus e que me encantam exactamente por esses posicionamentos. nunca é demais ouvir o Tolentino a falar da relação dele com a religião. a sua convicção e entrega fazem com que não nos seja possível não nos envolvermos no que ele diz. e depois gosto daquelas pessoas que fazem poesia até em listas de supermercado. deixo aqui três partes imperdíveis de uma entrevista que o Tolentino deu ao Sol. não é o melhor contexto mas enfim, fechemos os olhos.
1ª parte da entrevista
"Disse que tal como precisamos de pão precisamos do belo. Continua a dizê-lo?
Absolutamente. Há um slogan de um sindicato americano: ‘Precisamos de pão mas também de rosas’. No actual contexto de crise, de redução, de austeridade, de restrição, temos de dizer: precisamos de pão mas também de rosas. Falar da arte não é falar de bens supérfluos de que possamos abdicar. Tem a ver com o nosso projecto de pessoas, com o que queremos ser, o que nos faz felizes. Os bens não valem apenas pelo seu valor comercial. Se assim for o ser humano vale de facto 30 dinheiros. O que torna a nossa vida incalculável é sermos guardadores de coisas sem preço. Como dizia Keats, uma coisa bela é uma alegria para sempre.
É primeiro padre e depois poeta, é primeiro poeta e depois padre, ou a poesia e o sacerdócio são indissociáveis?
Perante uma folha em branco nós não somos nada. A folha em branco exige-nos esse exercício de ignorância. Estamos sempre a começar. O que somos não interessa, o que escrevemos não interessa. Interessa escrever a primeira palavra como se fosse a primeira palavra do mundo. Essa é a experiência da poesia."
2ª parte da entrevista
"O seu primeiro poema junta a Bíblia e Helberto Helder. É uma relação improvável?
As melhores relações são as improváveis, que existem sempre dentro de mim. A Bíblia é uma espécie de pátria. Mas a ela junto aquilo a que Borges chamava os novos textos sagrados, que são escritos hoje e transportam a ressonância mais íntima e transparente, a onda mais alta. São o ressoar dos nossos passos.
Quais são para si esses textos?
Gosto de Tertuliano a Blanchot, de Santo Agostinho a Michel Foucault ou a Michel de Certeau, da Bíblia a Herberto Helder, a Simone Weil, a Ruy Belo. De Gonçalo M. Tavares e Ana Teresa Pereira a Pavese, Natalia Ginzburg. A literatura e a escrita do mundo são uma espécie de alforges, andam sempre comigo.
Nas ditas relações improváveis.
Acredito que o que é pedido a cada um de nós é que sejamos originais. Acho que Deus nos vai perdoar tudo, as asneiras que fizemos, as incertezas, uma cretinice ou outra. Acho que Deus nos vai perdoar tudo. Só não nos vai perdoar não termos sido nos próprios. É tão importante. O Cristianismo precisa de pessoas originais, que vivam a sua vida, a sua singularidade. O meu sonho é que o mundo se encha de mulheres e de homens improváveis. Essa é a minha utopia."
3ª parte da entrevista
"Diz que é à noite que o bosque deixa de ser cegueira. Precisa do escuro?
A noite é um lugar muito importante na minha reflexão e na minha poesia. Não é por acaso que o título da minha obra reunida é A Noite Abre Meus Olhos. A noite torna-se a representação melhor daquilo que é a procura, o questionamento, a nossa condição. Não apenas a noite física mas aquilo que a noite pode significar, como contraposição, ou ligação, ao que é o dia, à nossa vida sistematizada ou organizada de um determinado modo. A noite é um campo aberto, fundamental para que a vida respire."
1ª parte da entrevista
"Disse que tal como precisamos de pão precisamos do belo. Continua a dizê-lo?
Absolutamente. Há um slogan de um sindicato americano: ‘Precisamos de pão mas também de rosas’. No actual contexto de crise, de redução, de austeridade, de restrição, temos de dizer: precisamos de pão mas também de rosas. Falar da arte não é falar de bens supérfluos de que possamos abdicar. Tem a ver com o nosso projecto de pessoas, com o que queremos ser, o que nos faz felizes. Os bens não valem apenas pelo seu valor comercial. Se assim for o ser humano vale de facto 30 dinheiros. O que torna a nossa vida incalculável é sermos guardadores de coisas sem preço. Como dizia Keats, uma coisa bela é uma alegria para sempre.
É primeiro padre e depois poeta, é primeiro poeta e depois padre, ou a poesia e o sacerdócio são indissociáveis?
Perante uma folha em branco nós não somos nada. A folha em branco exige-nos esse exercício de ignorância. Estamos sempre a começar. O que somos não interessa, o que escrevemos não interessa. Interessa escrever a primeira palavra como se fosse a primeira palavra do mundo. Essa é a experiência da poesia."
2ª parte da entrevista
"O seu primeiro poema junta a Bíblia e Helberto Helder. É uma relação improvável?
As melhores relações são as improváveis, que existem sempre dentro de mim. A Bíblia é uma espécie de pátria. Mas a ela junto aquilo a que Borges chamava os novos textos sagrados, que são escritos hoje e transportam a ressonância mais íntima e transparente, a onda mais alta. São o ressoar dos nossos passos.
Quais são para si esses textos?
Gosto de Tertuliano a Blanchot, de Santo Agostinho a Michel Foucault ou a Michel de Certeau, da Bíblia a Herberto Helder, a Simone Weil, a Ruy Belo. De Gonçalo M. Tavares e Ana Teresa Pereira a Pavese, Natalia Ginzburg. A literatura e a escrita do mundo são uma espécie de alforges, andam sempre comigo.
Nas ditas relações improváveis.
Acredito que o que é pedido a cada um de nós é que sejamos originais. Acho que Deus nos vai perdoar tudo, as asneiras que fizemos, as incertezas, uma cretinice ou outra. Acho que Deus nos vai perdoar tudo. Só não nos vai perdoar não termos sido nos próprios. É tão importante. O Cristianismo precisa de pessoas originais, que vivam a sua vida, a sua singularidade. O meu sonho é que o mundo se encha de mulheres e de homens improváveis. Essa é a minha utopia."
3ª parte da entrevista
"Diz que é à noite que o bosque deixa de ser cegueira. Precisa do escuro?
A noite é um lugar muito importante na minha reflexão e na minha poesia. Não é por acaso que o título da minha obra reunida é A Noite Abre Meus Olhos. A noite torna-se a representação melhor daquilo que é a procura, o questionamento, a nossa condição. Não apenas a noite física mas aquilo que a noite pode significar, como contraposição, ou ligação, ao que é o dia, à nossa vida sistematizada ou organizada de um determinado modo. A noite é um campo aberto, fundamental para que a vida respire."
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
E junto aos arquitectos eis que surge José Tolentino Mendonça, com uma tirada destas:
A arte nasce de um mal estar. A fé nasce de uma ferida. Nascem os dois de uma procura de algo mais. Como dizia Sá-Carneiro, precisamos de "um pouco mais de azul".
Não é facil falar de religião num momento em que a religião ou nos cega ou nos revolta. Torna-se cada vez mais difícil reconhecer na religião uma espiritualidade desinteressada. O Tolentino ainda consegue. Ainda assim, e quando fala da poesia, considera-se um "poeta profano".
É esta a escrita dele:
"Acho que o sentido por excelência de um escritor é o ouvido. E, mesmo se não escrevo todos os dias, estou sempre atento à conversa humana, às palavras, ao seu ritmo, à sua temperatura. Estou sempre a tomar apontamentos, pequenas anotações. E daí parto para outras associações, preencho lacunas, continuo frases. Essa é a minha oficina."
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Prémio da FIC para Tolentino de Mendonça
Enviaram-me esta notícia boa:
O padre e poeta José Tolentino de Mendonça recebeu ontem o prémio literário Fundação Inês de Castro (FIC) pelo livro O Viajante sem Sono (Assírio e Alvim, 2009). Após receber o prémio das mãos do reitor da Universidade de Coimbra (UC), Fernando Seabra Santos, o autor revelou que recorda nesta sua obra "amigos que morreram e que continuam comigo". Frisou ainda que "a poesia é uma forma de partilhar com eles o lume". O prémio da FIC distingue obras de expressão literária sobre motivos "inesianos" (alusivos à cortesã castelhana cujo assassinato terá sido perpetrado no espaço da actual Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde a lenda situa igualmente os amores de Inês e D. Pedro I).
"A poesia de Tolentino de Mendonça é uma poesia de elevação sem retórica do sublime", disse na ocasião o professor universitário José Carlos Seabra Pereira, membro do júri. O docente da Faculdade de Letras da UC realçou o "gosto de dizer as coisas e a beleza do mundo" do premiado, alegando que a sua poética "desconhece as pronúncias de triunfantes de Deus".
O padre e poeta José Tolentino de Mendonça recebeu ontem o prémio literário Fundação Inês de Castro (FIC) pelo livro O Viajante sem Sono (Assírio e Alvim, 2009). Após receber o prémio das mãos do reitor da Universidade de Coimbra (UC), Fernando Seabra Santos, o autor revelou que recorda nesta sua obra "amigos que morreram e que continuam comigo". Frisou ainda que "a poesia é uma forma de partilhar com eles o lume". O prémio da FIC distingue obras de expressão literária sobre motivos "inesianos" (alusivos à cortesã castelhana cujo assassinato terá sido perpetrado no espaço da actual Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde a lenda situa igualmente os amores de Inês e D. Pedro I).
"A poesia de Tolentino de Mendonça é uma poesia de elevação sem retórica do sublime", disse na ocasião o professor universitário José Carlos Seabra Pereira, membro do júri. O docente da Faculdade de Letras da UC realçou o "gosto de dizer as coisas e a beleza do mundo" do premiado, alegando que a sua poética "desconhece as pronúncias de triunfantes de Deus".
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
De Profundis
Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho
Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta uma beleza
a olhar por nós
indiscernível, entreaberta ainda
Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa documentar
os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida
José Tolentino Mendonça
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho
Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta uma beleza
a olhar por nós
indiscernível, entreaberta ainda
Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa documentar
os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida
José Tolentino Mendonça
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
A Assírio e Alvim a marcar pontos no mundo da edição

Prova-o este livro delicioso.
"JTM: Mesmo sentindo que a construção que nós somos é provisória, mesmo sentindo-nos profundamente a caminho, inacabados e imperfeitos (uma consciência que a própria idade aprofunda), é verdade que sentimos uma urgência, podemos dizê-lo, quase adolescente. Urgência que é, no fundo, esse alvoroço."
JTM em entrevista a CVM na Ler. Como qualquer outra entrevista do CVM, a não perder.
Se deseja receber regularmente informações sobre edições, lançamentos e outras iniciativas da editora Assírio & Alvim envie um e-mail com o assunto «A&A» para luis.guerra@assirio.com.
Para mais informações sobre a Assírio e Alvim a visite o blogue em http://www.assirioealvim.blogspot.com/ e, se está em Lisboa, passe pelo novo espaço Assírio & Alvim na Baixa / Chiado, Rua do Carmo, nº 29 – Loja 12.
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