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sexta-feira, 10 de abril de 2020

O Meu Suicídio / Rui Caeiro

|SNOB ALERT| |NOVO LIVRO|
O Meu Suicídio de Henri RoordaCapa sobre pintura de Rui Cunha VianaDesign e paginação de Pedro SimõesRevisão de Sara VeigaEdição Snob

O livro está em pré-venda até dia 30 de Abril. O nome de todos os que o comprarem antecipadamente figurará na última página do livro. É nosso e vosso. O livro estará disponível no início de Dezembro.Encontra-se em pré-venda pelo valor de 7€ (preço do livro após pré-venda: 9€) com portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo.Para isso deverão transferir o valor de 7€ para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), ou através de MBWay para o número 936 584 536 (colocando na descrição o nome de quem transfere), enviando comprovativo e nome para figurar nos agradecimentos para editorasnob@gmail.com. Podem também comprar através do nosso site (https://www.livrariasnob.pt/product/o-meu-suicidio). Podem também manifestar a vossa vontade na caixa de comentários, que teremos o vossos nome em conta.
Henri Roorda Van Eysinga (1870-1925), que também assinava Balthasar, foi, na sua vida de pacato cidadão suíço, professor de matemática. E porque além de ensinar gostava de escrever, não produziu apenas este derradeiro livrinho, que anuncia e explica o seu suicídio. Escreveu também ensaios sobre pedagogia e ainda teatro, poesia e diversos escritos de circunstância, a que ele próprio chamava “prosas de almanaque”.[…]Dizem que o último a rir é quem ri melhor. Mas provavelmente é falso. O homem que for último a rir não vai rir quase nada. O seu riso leve será muito pouco ao lado do riso homérico das primeiras idades”. Pensamento extraído do seu ensaio “О riso e os que riem”. Última frase desse ensaio: “A minha avó tinha razão: não estamos cá na terra para nos divertirmos”. A 7 de Novembro de 1925 Roorda despede-se dos amigos no café, vai para casa, bebe meia garrafa de vinho do Porto e dispara uma bala no coração. Era um homem que amava apaixonadamente a vida, ele mesmo o diz nesta confissão “in articulo mortis”, que é O Meu suicídio. Mas, acontece, vem também nos livros: aquele que ama apaixonadamente mata aquele a quem ama. Ou aquilo que ama. No caso concreto, a vida. do prefácio de Rui Caeiro
Excerto:São as pessoas bem comportadas, os amigos da ordem, que fazem a estabilidade do edifício social. É preciso que sejam em grande número. São eles que fundam famílias. Fazem filhos à sua imagem e semelhança, os quais, por seu turno, se reproduzirão; e, assim, a vida vai continuar. Disseram-lhes: “Crescei e multiplicai-vos!”. E eles obedecem. Devemos admirar sem reserva esses seres respeitosos que tão bem desempenham o seu papel de bons cidadãos? Que sabor teria a vida se a sociedade fosse formada apenas por tais seres? É talvez a sua falta de imaginação que lhes permite serem tão uniformemente virtuosos. Vivem com prudência; na sua existência cabem apenas as pequenas coisas permitidas; vigiam os seus gestos e palavras; nunca têm grandes impulsos; não conhecem a exaltação e a adoração. E o respeito torna-os frequentemente estúpidos.É necessário que no mundo aconteça, de tempos a tempos, uma desordem, para que as coisas novas possam nascer. A desordem é sempre provocada por maus cidadãos, por entusiastas que se embebedaram de palavras.A esses eu compreendo. Sou indulgente com as suas fraquezas. Como eles, tenho necessidade de viver com exaltação. A minha vida precisa de ter muitos minutos deslumbrantes. A poesia e a música podem proporcionar-mos. Também me exalto ao pensar no trabalho que vou começar. Será que daríamos início a alguma coisa se primeiro não estivéssemos emocionados pela beleza do que vamos criar? As boas comidas e o vinho também me proporcionaram momentos de alegria profunda. Há vinhos tão nobres que ao bebê-los sinto necessidade de agradecer a alguém.

terça-feira, 16 de julho de 2019


Hoje é um dia muito especial para nós, cá está o livro em que andamos a trabalhar há tanto tempo. Foi o primeiro livro que a Snob e o Duarte (essas duas bonitas entidades inseparáveis) quiseram publicar, e por isso não temos palavras para esta alegria de editores! Tenho a certeza que vão gostar por isso lancem-se na pré-venda e ajudem-nos a editar este livro.
Um obrigada aos compinchas snobes Pedro Simões e Sara I. Veiga por terem embarcado nesta maluqueira de história!
Em Açúcar de Melancia
de Richard Brautigan
Ilustrações de Pedro Simões
Tradução de Sara Veiga
O livro está em pré-venda até dia 28 de Julho. O nome de todos os que o comprarem antecipadamente figurará na última página do livro. São nossos e vossos. O livro estará disponível no fim de Agosto!
O livro está em pré-venda pelo valor de 12€ (30% de desconto) e oferta de colecção de postais com as ilustrações de Pedro Simões e portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 12€ para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome para figurar nos agradecimentos para os livreiros por mensagem facebook ou para editorasnob@gmail.com. Podem também manifestar a vossa vontade na caixa de comentários.
Podem também pagar através de MBWay com o número 968 752 147.
Richard Brautigan (30 de Janeiro de 1935 - 16 de Setembro de 1984) foi um romancista americano, poeta e contista. As suas obras são incomparáveis pelos mundos que inventa, as personagens satíricas, os universos nunca alcançados por outro escritor.
O livro que a Snob agora publica, Em Açúcar de Melancia, fala-nos de euMORTE e de um narrador que narra as suas experiências neste local utópico (será?), num mundo pós-apocalíptico, onde o sol tem uma cor diferente conforme os dias, onde tudo é feito de açúcar de melancia, onde a vida se vive em paz e tranquilidade, com referência às comunas experimentais dos anos 60, sempre contraposta com a violência latente de inBOIL. Brautigan parece aqui sugerir um outro sítio onde experienciar a vida, testando a imaginação e piscando o olho à geração da contra-cultura. É na negação do real que aqui se encontram alternativas, no convívio com personagens que não deixam de ser, no limite, profundamente reais.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Rui Caeiro, pela mão de João Oliveira Duarte





(carregar na imagem para aumentar)


O nosso Rui Caeiro, na Colóquio Letras 201, por João Oliveira Duarte. Livro à venda em livrariasnob@gmail.com ou www.livrariasnob.com

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

PRÉ-VENDA / INÚTIL, colecção de poesia da Snob




Apresentamos agora a nossa nova colecção de poesia, colecção INÚTIL, com o lançamento de dois livros de dois autores fundamentais do séc XX. O Maiakowski traz consigo a voz e participação do tradutor Adolfo Luxúria Canibal, e o Rilke chegou-nos pela mão do querido amigo Rui Caeiro, que infelizmente não viu esta nova edição, mas que carinhosamente saudou a sua chegada. Traduziu este livro com a amiga de longa data, Ana Diogo, é uma tradução a quatro mãos. Um livro traz-nos o grito, o outro o silêncio.

Os livros estão em pré-venda até dia 28 de Fevereiro. O nome de todos os que o(s) comprarem antecipadamente figurará na última página do(s) livro(s). São nossos e vossos. Os livros estão em pré-venda pelo valor de 15€ os dois (Maiakowski 8€ / Rilke 7€ se quiserem apenas um deles)*, com portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor pretendido para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome e título do livro pretendido - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou para editorasnob@gmail.com. Podem também manifestar a vossa vontade na caixa de comentários.

Podem levantar os vossos livros a partir de 15 de Março nos vários lançamentos ou nas nossas livrarias (Livraria da Cossoul ou Almanaque 23).

Obrigado por serem leitores tão snobes como nós.



Mais sobre nós no nosso site: http://www.livrariasnob.pt/

* Preço de venda ao público após pré-venda: 22€ os dois (Maiakowski 12€ / Rilke 10€)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Os incêndios são a metáfora do mundo

(prefácio de O Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, tradução de Manuel João Neto, editado pela Snob, em pré-venda até dia 16 de Setembro)


Capa de Pedro Simões com pintura de João Alves

Uma das facetas simultaneamente mais trágicas e gloriosas do mundo da literatura, ao ponto de recentemente se ter cristalizado sob a forma de teoria literária, diz respeito a uma constelação mitológica formada por um certo género de livros significativamente mais comentados do que propriamente lidos. Obras que viajam em comboios invisíveis e que se inscrevem no imaginário colectivo sem precisarem de leitores, uma vez que agarram as ideias-chave, quer filosóficas quer iconográficas, da cultura vigente. Porém, não menos interessantes, embora por razões diametralmente opostas, são aqueles que são remetidos para a mais silenciosa e exclusiva categoria dos livros mais lidos do que propriamente comentados. Textos que vivem vidas secretas e exiladas, comentadas em murmúrios de perplexidade, e que sobrevivem quase incógnitos ao tempo, transfigurando-se consoante a época em que são lidos. Livros subtilmente premonitórios e, por isso, tangencialmente desfasados da sua época histórica, desfasados, na verdade, de qualquer época histórica em que existam. É precisamente nessa galáxia literária quase privada que a obra de Nathanael West, ele próprio uma difusa personalidade de rasto discreto, e mais concretamente o romance O Dia do Gafanhoto, orbitam.

Descendente de judeus lituanos em fuga dos pogroms da Rússia czarista, West nasceu em Nova Iorque em 1903 e, depois um percurso académico pouco mais do que medíocre durante o qual, tanto quanto nos é possível saber, não se terá interessado por outra coisa senão ler livros, dedicou-se sobretudo à escrita, actividade que desenvolvia em paralelo com empregos menores, tendo vivido também por um breve período de tempo em Paris, fase em que, segundo se diz, terá sido muito próximo de Max Ernst. Apenas a partir do momento em que West é contratado como argumentista de cinema em Hollywood, território geográfico e simbólico nuclear no universo mitológico deste autor, se começa a desenhar na sua vida a perspectiva de uma espécie de carreira. Tinha alguns amigos no meio literário, entre eles William Carlos Williams e F. Scott Fitzgerald, e interessava-se por misticismo e pela história das religiões. Morreu com apenas trinta e sete anos num desastre de aviação, que vitimou também a sua esposa, aproximadamente um ano depois de ter publicado O Dia do Gafanhoto. 

A vida de Nathanael West foi, portanto, tão aparentemente banal e secreta como a sua obra. Não seria correcto, no entanto, confundir essa clandestinidade com ausência de reconhecimento crítico, uma vez que ele é actualmente considerado um dos autores canónicos da literatura norte-americana do século XX, graças sobretudo a “Miss Lonelyhearts”, o seu mais célebre romance. Além do mais, a sua influência é detectátvel em autores do pós-modernismo norte-americano e, não por acaso, no universo cinematográfico: “O Dia do Gafanhoto” foi adaptado para cinema sensivelmente trinta anos depois da sua publicação e é difícil, hoje, não reconhecer nos filmes de David Lynch reminiscências dos ambientes insólitos e das personagens bizarras que habitam as narrativas de Nathanael West.

         West é muitas vezes caracterizado como “o mais impessoal dos escritores americanos”, uma característica objectiva que dificulta a classificação da sua obra. No caso de O Dia do Gafanhoto, a força da escrita não reside, efectivamente, nem nas personagens, nem nas suas emoções, nem sequer na dramatização de dilemas existenciais ou problemáticas político-filosóficas. Baseado em recursos simples e numa engrenagem narrativa quase mecânica, este romance corresponde a uma literatura que não pertence nem aos espaços íntimos nem se projecta em visões sociais panorâmicas, antes propondo-se ser uma pura literatura de imagens (ou de visões) — não surpreende, portanto, que nele se coloque tão explicitamente em comparação as imagéticas próprias do cinema e da pintura. Porém, e apesar do tom distanciado e contido e da artificialidade aparente das personagens e dos eventos narrativos que compõe o enredo de O Dia do Gafanhoto, não é verdadeiramente uma impessoalidade literal que transparece do texto, mas a simulação de uma impessoalidade por meio de um jogo de sombras. Na verdade, a personificação é um vício das próprias personagens do livro, e nos cenários por onde elas circulam todos os elementos parecem encenar-se permanentemente a si mesmos. Por todo o lado se vêm máscaras, disfarces e falsificações, e nunca sabemos exactamente quem é a voz por detrás das palavras, uma vez que o prisma narrativo está constantemente a mudar, como se o autor nunca estivesse realmente dentro da sua história mas antes a tropeçar para fora do livro, ou para fora da realidade.

O enredo de O Dia do Gafanhoto é de uma simplicidade desconcertante: a narração num tom quase neutro de uma série vagamente desconexa de acontecimentos protagonizados por um grupo de personagens aleatórios sem, aparentemente, qualquer elo em comum entre si a não ser o de habitarem o mesmo perverso território de uma Los Angeles dominada pela indústria cinematográfica. Este grupo de personagens inclui um desenhador de cenários, um actor de vaudeville, uma aspirante a actriz, um contabilista, dois cowboys que trabalham em rodeos e como figurantes em filmes, um empresário-anão, entre outros. No entanto, tão importante como eles é a multidão em fuga que corre, histérica e selvagem, pelas avenidas da cidade, hipnotizada pelo sonho babilónico do cinema. 
 
Tod Hackett, o desenhador de cenários que é o protagonista do romance, deambula pelos cenários artificiais de Hollywood, à procura de inspiração para a pintura O Incêndio de Los Angeles. Este quadro é a sua grande obsessão artística, que ele pretende ver consagrada no futuro como a reencarnação moderna das paisagens desoladoras de pintores obscuros do século XVII, como Salvator Rosa, Francesco Guardi e Monsu Desiderio – os grandes artistas “da Decadência e do Mistério”, segundo West. Na pintura estão representados os incendiários, aqueles que vão para a Califórnia para morrer, enfeitiçados pelas visões quase místicas da abundância e da ficção no deserto mitológico por excelência da cultura moderna de massas, onde, como seria previsível, nada acontece, nada, pelo menos, capaz de aliviar o desejo irreprimível e latente de violência da multidão. Pelos interstícios da turba, num estado mental entre o sonho e o sono da realidade, vagueiam os inadaptados, aqueles que são incapazes ou que se recusam a deixar ser capturados pela magia satânica dos tempos, em fuga desesperada do tumulto apocalíptico. O quadro O Incêndio de Los Angeles, à semelhança do próprio livro, sugere a representação do colapso civilizacional de que a multidão é a mensageira e os marginais os desertores, um mundo artificial de miragens e fantasmagorias cinemáticas onde predomina a frustração e o tédio.

         De superfície aparentemente inócua e impessoal, porque sufocada pelas suas próprias máscaras, esta obra de ficção descreve uma premonição da catástrofe, cujos sinais se encontram disseminados por todo o texto, desde as macabras lutas de galos até aos colossais montes de lixo acumulados nos estúdios de cinema, passando pela alusão à praga bíblica do título do livro e pelo uivo da sirene da ambulância da cena final do livro. Com a distância do tempo, é-nos legítimo interpretar “O Dia do Gafanhoto” como uma parábola da atmosfera de tensão e mal-estar que precedeu a Segunda Guerra Mundial, uma vez que nele ecoa o rumor silencioso dos sobressaltos de massas de que o nazismo era, na época, a manifestação mais poderosa. Podemos também reconhecer na obra uma evocação da célebre Dust Bowl, as tempestades de areia negra que se seguiram à seca que atingiu as Grandes Planícies dos Estados Unidos da América logo após à Grande Depressão, causando um desastre ambiental, agrícola e social de grande escala que motivou uma onda deslocações migratórias em massa, sobretudo em diáspora rumo à Califórnia. É inegável que por entre atmosfera vagamente surrealista do enredo, reminiscente do surrealismo simultaneamente onírico e inquietante de Max Ernst, se pressente uma frequência de onda sinistra e ressonante desse rumor críptico do tempo. Porém, perante uma obra de ficção tão elíptica e alusiva como esta, qualquer interpretação não pode senão ser assumida como circunstancial e balizada pelo seu tempo.

Analisado em perspectiva, este livro parece ecoar ele próprio no presente, sendo essa precisamente a grande linha de força das visões tumultuosas e grotescas que nele se projectam e que o poeta W. H. Auden, grande admirador de West, considera serem as parábolas de um “Reino do Inferno”. As actuais circunstâncias políticas e sociais parecem estranhamente similares às da época em que O Dia do Gafanhoto foi escrito: a crise financeira de 2008, cujos efeitos sísmicos ainda hoje se fazem sentir, a atmosfera de alarme perante alterações climáticas e a convulsiva e potencialmente apocalíptica situação geopolítica num período histórico de aparente transição de poder. Em 2018, tal como em 1939, ouvem-se os tambores ocultos da civilização e sopram ventos que pressagiam tempestades, e no terceiro milénio, tal como na primeira metade do século XX, confrontamo-nos com alterações tecnológicas que estão a provocar a emergência de uma nova era cibernética baseada em simulações virtuais da realidade. Se em tempos imemoriais as ambições do homem se afundavam tragicamente nos oceanos, transformando-se então no sublime “sargaço da imaginação”, em Hollywood, por seu turno, os sonhos que nos assombram morrem nas lixeiras dos estúdios. No terceiro milénio, os sonhos também nascem e morrem num ecrã, mas agora num ecrã tridimensional e imersivo que, no entanto, nunca cumpre a sua profecia de imortalidade. No presente, assim como num período histórico do século passado não tão distante como hoje nos parecerá, as imagens que nos chegam do mundo compõem um quadro mental de uma civilização pré-caótica na iminência de um desastre que, porém, como em Blanchot, não chega nunca a ocorrer realmente, excepto na sua dimensão alegórica e burlesca.

West parece querer anunciar-nos que a catástrofe do futuro (o incêndio terminal, o grande “holocausto de chamas”) será total ou não será mais do que o espectro da catástrofe por vir do último homem da história, ficcionando-se a si mesmo no infinito arquivo morto de reproduções e personificações de uma realidade já anacrónica, ultrapassada pelos duplos de si própria. A vertigem contemporânea, à semelhança da vertigem da representação (ou, mais precisamente, da ficção) em que se lançam as personagens deste livro, parece capturar-nos num sono do qual, tal como Homer Simpson, a personagem mais icónica de O Dia do Gafanhoto, receamos não conseguir acordar, isto é, um sono que pode potencialmente transformar-se em morte sem que disso nos apercebamos. Na era da ficção absoluta, esta nova forma de morte corresponde a um puro estado de transição, suave e indolor, para uma realidade expandida em que, aparentemente, a única linha de fuga que entrevemos no horizonte é a do “voo uterino” da letargia e da auto-absorção do humano no sonho de si mesmo. No vasto “lá fora”, porém, a atmosfera prá-apocalíptica é a emanação visível do pânico da humanidade perante a eventualidade de ser forçada a reabitar a sua própria vida, descobrindo nela o vazio que a paralisa e a faz naufragar num mundo de miragens insubstanciais que são o combustível do incêndio da catarse e da regeneração do homem pela violência.

O Dia do Gafanhoto exorta-nos a observar a paisagem e a decifrar os sinais. Prepare-se, leitor: neste livro não se passa nada.


Manuel João Neto


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

E cá estão mais dois livrinhos lançados pela nossa Snob



Escritor Fracassado e outros contos
de Roberto Arlt*

Tradução de Miguel Filipe Mochila
Desenho da capa e design do livro de Pedro Simões

Colecção Pedante


O Dia do Gafanhoto
de Nathanael West**

Tradução de Manuel João Neto
Pintura da capa de João Alves
Design de Pedro Simões
Colecção Baldio (nova colecção)

Os livros estão em pré-venda até dia 16 de Setembro. O nome de todos os que o(s) comprarem antecipadamente figurará na última página do(s) livro(s). São nossos e vossos.

O livros estão em pré-venda pelo valor de 11€ (cada um - os dois a €20), com portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 11€ (ou €20) para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome e título do livro pretendido - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por mensagem facebook, comentários a este post ou para coleccaopedante@gmail.com. Podem também manifestar a vossa vontade na caixa de comentários.

Envios e entregas a partir de dia 28 de Setembro e há lançamentos marcados para Porto e Lisboa.

Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.

* Escritor argentino do início do séc XX, que nos oferece aqui contos bizarros que questionam a ordem e o politicamente correcto. Textos sobre a malformação humana, que surpreendem pelo ponto de vista perante a humanidade onde o escritor se posiciona, um ponto de vista que mostra o mais improvável de vermos revelado sobre nós.

** Escritor norte-americano do início do séc. XX que escreve aqui um romance alucinado onde a escrita acompanha a febre da época em que Hollywood começou a estender o tapete ao sonho americano. Um livro de personagens estranhas e improváveis.

Os dois livros têm em comum a bizarria das personagens, a forma genial como a literatura pode retratar um real que nos recusamos a considerar possível. E falam os dois de anões. 

sexta-feira, 9 de março de 2018

E o próximo nosso é o nosso Rui Caeiro



O Rui foi chegando devagar à Snob. Com aquele passo lento que o caracteriza, lento de quem tem todo o tempo, sempre. Aproximou-se da nossa banca de livros no Jardim da Parada e o Duarte reconheceu-o logo. Faz agora, exactamente, um ano.

Desde aí o Rui Caeiro foi-se apropriando da nossa vida. Primeiro com muitas conversas com o Duarte ao telefone e alguns encontros casuais. Sempre com aquela característica que é muito dele, a do acaso. Sem regras ou obrigações. Sempre que se lembrava, sempre que queria partilhar um texto ou uma memória. O Rui, como bom conversador que é, tem muitas memórias que quer partilhar. E assim surgiu a ideia de um livro (ou melhor, três livros), e o Rui ofereceu-o à Snob. Com aquela generosidade desprovida de encantamento, só uma rude honestidade. Depois o Rui tornou-se quotidiano e amigo e confidente da Snob. Parte das rotinas. E todas as semanas o livro ia crescendo em mesas de restaurantes e cafés. Sem falhar.

O Rui passou por toda a literatura dos últimos 50 anos do séc XX. Não sendo um autor de palco, fez um caminho que não é de todo um caminho identificável dentro deste showbiz literário. Mas é identificado por todos. Sem rodeios, sem forçar caminho, sem se encaixar em nenhuma categoria literária, a escrever.

Para a Snob este é o terceiro livro. E, não tendo nós nenhuma linha editorial identificável (porque não existe), este livro tornou-se necessário. Porque são as memórias de um grande escritor que é um escritor da nossa rotina. E um escritor que se tornou escritor da nossa rotina enquanto o livro se colava. Sem margens, sem limites.








Livro em pré-venda aqui.





terça-feira, 6 de março de 2018

||SNOB CALL - Rui Caeiro||







É com grande honra e orgulho que apresentamos o nosso novo livro. Que na realidade não é um mas sim dois livros que se espelham num mesmo volume em rotação contínua.

A pré-venda termina no próximo dia 11 de Março. Os subscritores terão direito a um exclusivo terceiro inédito (ver imagem nos comentários): um desdobrável em acordeão, numerado e assinado pelo Rui.

O valor da pré-venda é de €12, portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de €12 para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou para coleccaopedante@gmail.com.
Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.

Excertos:

DIÁLOGOS MARADOS
"— Zé, conta-me a história do teu encontro com o ovni, perto de Monsaraz.
— Não gosto de falar nisso, diz-me o meu primo Zé. Ninguém acredita na história, dizem que eu devia estar bêbado.
Hoje já não há ninguém para contar a história. Tu já não estás cá para o fazer.
Eles, que eu saiba, não voltaram.
Mas hoje, ao perguntar-me porque se mostraram eles a ti e não a outro qualquer passeante, creio que sei a resposta.
Porquê a ti? Porque tu eras um homem bom e, quem sabe, um homem bom é difícil de encontrar e a bondade ainda será uma espécie de mais-valia no mundo extraterrestre."

UM MALUCO VEM POUSAR-ME NA MÃO
"Cada um deles é uma bazuca de dois canos, é uma esfera escorregadia, é uma longa espera, é um lago, é um lego, é um mundo.
E que até, em casos extremos (o dos tais tarados com vocação para líder) se pode fazer explodir, num qualquer estúpido atentado mais ou menos bombista, mais ou menos suicida.
E que pode por igual ser um exemplo reconfortante — para todo um universo vasto, descontrolado e perdido."

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A minha canção podia arder-me

17 de Novembro
21h30
Cossoul
Av. D. Carlos I 61
Lisboa 


Há vários conceitos de escrita, o difícil é reconhecê-los sem cair em frases feitas. Só o leitor com a sua intuição consegue distinguir um escritor artífice de um escritor cuja canção lhe pode arder. Falamos de uma escrita sombria, interior, orgânica e visceral. Que revela um segredo que nunca conhecemos na totalidade. Que levanta pontas de véu criando no leitor uma sensação de desassossego e inquietação. Como se a escrita pudesse não ser resposta mas sim criação de dúvida constante. 


Autores
Maria Zambrano
Antonin Artaud
Ulla Hahn
Maria Gabriela Llansol
Clarice Lispector
Ernesto Sampaio
Leonora Carrington

Com
Cláudio Henriques e Inês Lago
Coordenação artística
Carolina Amaral 
Produção e textos
Duarte Pereira e Rosa Azevedo


A Snob foi convidada pela Casa Fernando Pessoa e Fundação José Saramago para participar no bonito programa do Dias do Desassossego. Duas datas, duas casas, dois escritores: entre 16 e 30 de Novembro, a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago programam em conjunto os Dias do Desassossego’17 com música, poesia, prosa, passeios literários e arte urbana. Entre o dia de nascimento de José Saramago e o dia da morte de Fernando Pessoa, a leitura e os seus efeitos são pretexto para nos encontrarmos, entre a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago, mas também noutros locais da cidade.



terça-feira, 9 de maio de 2017

Livraria da Cossoul reabre com livros da Snob

Estes dias têm sido uma correria entre aulas, viagens, lançamento do nosso segundo livro, trabalho. Tudo muito bom mas na verdade há um acontecimento gigante que é a abertura desta nossa mini-casa, minha, do Duarte, da Snob e da Cossoul, sítio que ainda não existe e já não se cansa de surpreender. Abre hoje, às 18h e tem festa grande esta sexta, pelas 18h. O Duarte, o grande livreiro, dono maior desta casa e desta Snob, cabeça e coração desta livraria itinerante, estará lá estes dias a receber-vos, eu estarei sempre que conseguir, os nossos livros esses estão sempre lá. Até dia 20 de Maio, último dia do também nosso Reverso temos descontos em todos os livros. O horário de abertura é das 18h às 22h. 

E nunca é demais uma palavra de agradecimento aos amigos que se encheram de pó para nos ajudarem a ter esta casa de pé hoje! Sois os maiores! 
A Livraria da Cossoul fica na Av. D Carlos I, 61, em Lisboa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Leitura e apresentação do livro Grande Baro e Outras Histórias

Como não poderia deixar de ser é n' ªSede que se realizará a primeira leitura do Grande Baro e Outras Histórias, o nosso primeiro livro com selecção e versões de Rui Manuel Amaral. A leitura será acompanhada de uma conversa sobre a vida e obra do grande Virgilio Piñera! Dia 28 de Janeiro, 17h, no Porto.

Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.

Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Virgilio Piñera

hoje, no dia em que o meu Duarte faz anos, metemo-nos na estrada para ir buscar o nosso primeiro livro à gráfica, o livro de contos no Virgilio Piñera, autor cubano nunca publicado em Portugal e que achámos, juntamente com o Rui Manuel Amaral (responsável pela existência do bicho tal foi a força, vontade, insistência, trabalho) que tinha de ser trazido aos nossos leitores Snob. deixo aqui as dezenas de amigos que nos ajudaram, dos primeiros que pensaram nele aos que hoje nos ajudaram a publicá-lo.
foi o melhor dos dias, mais um de tantos primeiros dias, estreias, novidades, ansiedades, borboletas, aventuras, saltos no vazio e, acima de tudo, a maior confiança de que nada poderá nunca correr mal quando se cria assim com tanto entusiasmo e, vá, amor.






quarta-feira, 23 de novembro de 2016

VIRGILIO PIÑERA em pré-venda


Dramaturgo, poeta, contista, romancista, tradutor - presidente do Ferdydurkismo hispano-americano, segundo palavras de Witold Gombrowicz, de e com quem traduziu, junto com outros escritores residentes nos anos 40 em Buenos Aires, o brilhante Ferdydurke - inconformista e iconoclasta, morto seis vezes, pelo menos, segundo palavras do seu amigo Reinaldo Arenas (uma dessas mortes coincide com a descontinuidade física), admirado por figuras como Sartre e Beauvoir, Borges e Cortázar, Enzensberger e Severo Sarduy; e homossexual - condição que o levou à prisão revolucionária cubana.
Este é o nosso autor e o livro chama-se O GRANDE BARO E OUTRAS HISTÓRIAS.

A Snob lança no final deste mês o seu primeiro livro. A esta aventura juntaram-se a nós o Rui Manuel Amaral que o traduziu e o Pedro Simões que o desenhou. Estamos até ao dia 30 de Novembro a lançar uma pré-venda do livro que viabilize a sua impressão. Gostaríamos de considerar todos os que nos ajudam como subscritores desta nossa nova viagem editorial. O nome de todos os que comprarem o livro antecipadamente figurará na última página do livro. Ele é nosso e vosso.

O livro está em pré-venda pelo valor de 10€, perto de 30% de desconto face ao preço final, portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 10€ para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por aqui ou para coleccaopedante@gmail.com.

Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.

Excertos

de União Indestrutível
"O nosso amor vai de mal a pior. Escapa-se das mãos, da boca, dos olhos, do coração. O peito dela já não se abriga no meu e as minhas pernas já não correm ao seu encontro. Caímos no que de mais terrível pode ocorrer a dois amantes: devolvemos as caras. Ela arrancou a minha cara e atirou-a para cima da cama; eu tirei a dela e chapei-a com violência no espaço deixado pela minha. Já não velaremos mais o nosso amor. Vai ser muito triste ir cada um para seu lado."

de A Carne
"Ali chegado, fez saber que cada pessoa deveria cortar da nádega esquerda dois bifes, em tudo semelhantes a uma amostra em gesso vermelho que pendia de um reluzente arame. E declarou que deveriam ser dois bifes e não um, porque se ele próprio cortara da nádega esquerda um belo bife, convinha que a coisa avançasse a bom ritmo, isto é, que ninguém comesse um bife a menos. Assentes estes pontos, todos se dedicaram a cortar dois bifes das
respectivas nádegas esquerdas. Era um espectáculo glorioso, mas que dispensa mais descrições. Fizeram-se cálculos para determinar o tempo durante o qual a cidade poderia ainda gozar dos benefícios da carne. Um famoso anatomista calculou que, partindo de um peso de cerca de quarenta e cinco quilos, e descontando vísceras e demais órgãos não comestíveis, um indivíduo podia comer carne durante cento e quarenta dias, à razão de duzentas e vinte e seis gramas por dia. De qualquer maneira, era um cálculo ilusório. E o que interessava era que cada um pudesse comer o seu belo bife."