Mostrar mensagens com a etiqueta editoras independentes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta editoras independentes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de junho de 2016

a edição mainstream e a honestidade intelectual

tenho estado estas semanas a pensar na arrogância de tantas vezes não aceitar pontos de vista colocados no mainstream quando se fala de edição. hesitei escrever sobre isso antes de ter a certeza que não é arrogância.

o meio editorial mainstream não o é por acaso. há neste terrível mundo do "mercado" (termo que precisa de aspas) regras imbatíveis - quem se ouve falar mais, por um maior número de pessoas, torna-se tendencialmente alguém digno de respeito ou crítica, de um pensamento elaborado, torna-se foco da nossa atenção e do nosso juízo. expressões sem sentido como "não há má publicidade" fazem sentido neste contexto, porque se sabe que é no ouvir falar que estão as vendas e que o boca a boca é a melhor forma de vender livros.

é nisto que reside a beleza de não estarmos no mainstream - ainda que este não invalide autores de génio, valida-os normalmente quando eles chegam a clássicos. mas vá, podemos afirmar que ser mainstream não é ser mau. mas a única forma de um mau livro vender milhares de exemplares é ser mainstream.

retomando, a beleza de não estarmos no mainstream é percebemos que para aquele livro ser lido tem de percorrer caminhos de pensamento. pensamento porque não nos chega por um caminho diferente da leitura. pode ser um livro bom ou mau mas se a comunicação não for massificada fora das qualidades intrínsecas do livro então não estamos perante um livro mainstream.

ouvi recentemente uma pessoa da área da edição dizer que um livro tem de ser muito bom para ser publicado por uma grande editora. esta observação fez-me perceber que há realmente um pensamento pequeno dentro da caixa em muitas pessoas que são as pessoas da porta ao lado. essa caixa é poderosa no que respeita quantidades, a arrogância que recusa o mainstream tem um outro poder, mais literário, mais ponderado. mais trabalhado, de alguma forma.

o que na verdade interessa é que é importante conhecer os caminhos que existem. as opções, os universos. talvez não interesse em absoluto e apenas a nós mas interessa se queremos ensinar ou passar informação a outras pessoas. podemos defender as nossas capelas, se as tivermos, passando ao outro a ideia real do que existe na edição e na literatura. talvez esta ideia seja inocente ou romantizada mas é importante acreditar que, se a nossa função é dar a ler, não devemos viver em caixas, isolados. podemos ser arrogantes, mas a partir do momento em que queremos ensinar e esclarecer temos de ser honestos. é na capacidade de sermos honestos intelectualmente que se legitima a arrogância e ela se transforma em opinião e posicionamento.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

editores no Festival Literário de Óbidos

no fim-de-semana passado juntaram-se no Folio, Festival Literário Internacional de Óbidos, quatro editores para uma conversa que deveria ser uma reflexão sobre a edição hoje em dia num contexto de concentração editorial. Os convidados foram Manuel Alberto Valente, Porto Editora, João Paulo Cotrim, Abysmo, Bárbara Bulhosa, Tinta da China e Zeferino Coelho pela Caminho, hoje parte do grupo Leya.

as expectativas não eram muito altas, num contexto daqueles a probabilidade era que a conversa fosse bem comportada, com alguns clichés sobre a importância dos pequenos e médios editores para colmatar espaços dos grandes editores. mas na verdade esta conversa acabou por ser uma rampa de lançamento para algum pensamento crítico sobre o lugar de cada um dos intervenientes e, por analogia, dos outros editores que hoje convivem no panorama editorial nacional.

Manuel Alberto Valente começa a sua intervenção dizendo que a concentração editorial é um fenómeno global, não apenas nacional e que é indiscutível afirmar que esta concentração afecta a produção literária sobretudo em autores novos. na verdade, e creio que isso acabou por ficar claro com as intervenções posteriores do João Paulo Cotrim e da Bárbara Bulhosa, o facto de as concentrações retirarem espaço a novos autores criou um gigante espaço exterior que possibilitou e incentivou a criação de pequenos editores que têm como objectivo a publicação desses autores. editoras como a Abysmo e a Tinta da China são prova disso mesmo.

João Paulo Cotrim e Bárbara Bulhosa intervieram no sentido de clarificar que uma editora independente não o é apenas por uma questão financeira. João Paulo Cotrim começou por deixar claro que a criação do chamado best seller não está ligado à produção literária e sim ao mercado e à indústria do livro. há um ponto que muitas vezes escapa neste tipo de abordagens - a diferença entre o leitor e o cliente. acredito que o que o João Paulo quis dizer aqui, e que a Bárbara Bulhosa acabou por corroborar, é que a estes editores interessa-lhes, claro, vender muito, o mais possível, mas numa lógica de angariação de leitores. o objectivo do editor deverá ser sempre a procura de leitores reais para os autores. é nessa relação real que está o objectivo destes editores, e, adjacentemente, de todas as possíveis campanhas de marketing ou de divulgação do livro.

o que está aqui em causa é efectivamente uma questão de ética, ou, usando as palavras de João Paulo Cotrim, uma questão de cidadania. considerar-se a produção massiva do sistema capitalista a única forma de trabalhar os livros como sendo uma consequência natural é um profundo disparate. em todos os negócios em que nos envolvemos temos sempre a possibilidade de nos posicionarmos de duas formas - conscientes das consequências éticas da nossa acção ou não. dentro de uma postura consciente e ética podemos ou não vender muito. ou podemos vender muito sem esse posicionamento ético. uma não exclui a outra.

por exemplo:
se um editor como o Zeferino Coelho afirma que a concentração editorial não trouxe diferenças à sua vida porque continua a poder editar os seus autores e, ainda por cima, consegue dinheiro para fazer campanhas na Fnac ou na Bertrand ou em supermercados com grandes cartazes e outros meios publicitários o Zeferino está a dizer que não conhece, ou não é importante para ele, que um leitor que compre um livro por ter visto a fotografia num cartaz não é propriamente um leitor novo para aquele livro. por outro lado, e aqui também se coloca um sério problema ético, quando um editor faz campanhas na Fnac ou na Bertrand ou num supermercado fá-lo contra condições (margens de desconto abusivas) destas "livrarias", margens essas que impelem o editor a aumentar o preço do livro para além de que dão legitimidade às mesmas para limitar a entrada de editores mais pequenos e independentes por não poderem fazer face a essas condições ou por não terem distribuição. desta forma vão assassinando os pequenos livreiros, diminuindo a possibilidade de um leitor real ter um espaço físico onde fomentar a relação íntima leitor - autor. desta forma, com a morte e asfixiamento das pequenas livrarias os editores que não querem ceder às condições dos grandes grupos acabam por ter um espaço limitado de distribuição. perdem os leitores e perde a literatura. num sentido ético perdem todos os que lêem e vivem dentro do negócio dos livros.

a maior falta de cidadania é fecharmos os olhos ao que não nos toca a nós directamente, achando que o único mundo que devemos proteger é o nosso. nesse sentido o João Paulo Cotrim e a Bárbara Bulhosa mostraram o que é ser uma editora que está comprometida com os seus leitores e que não abdica dessa relação por nenhuma lógica comercial. e mostraram a todos que para isso não é preciso não vender. é só preciso viver convictamente dentro dos seus princípios e acreditar que apesar de ser um caminho muito mais trabalhoso é o único caminho que pode, no final, ter alguma luz. os leitores agradecem.



quarta-feira, 15 de abril de 2015

basta editar para sermos editores?

estamos numa época cinzenta, numa fase transitória para aprendermos a lidar com as facilidades que nos trouxe a globalização e a difusão monumental do fenómeno da internet e das suas múltiplas possibilidades. agora é mais fácil ter acesso ao conhecimento, o mundo fica pequeno, as distâncias relativizam-se. a comunicação alastra e temos acesso uns aos outros e às actividades de cada um de forma rápida e eficiente. estamos mais próximos, mais comprometidos e envolvidos.

no que respeita à edição creio que este fenómeno tem características muito interessantes. é tudo mais fácil. conhecer autores e editores em rede, partilhar textos, comunicar novas edições, gravações audio dos textos para além de textos escritos. como tenho referido recentemente, este fenómeno onde todos escrevem e todos publicam não tem mal nenhum, dá é mais trabalho a um leitor real. porque tem de ler cem para encontrar cinco muito bons e três destes se calhar não teriam publicado se não fosse este fenómeno.

no entanto há também pontos negativos. e esses pontos negativos devem ser bem observados e bem pensados, de forma mais crítica do que antes, antes do fenómeno. o nosso sentido crítico tem de ser mais trabalhado e mais assertivo.

esta velocidade furiosa traz-nos muitas vezes textos pouco maturados, de autores que não lêem porque acreditam que a inspiração escreve livros. mas este meu texto não é sobre eles. é sobre os editores. e aqui gostava que este texto se transformasse mais num questionamento. onde está a linha que diz que alguém é realmente um editor? uma questão que podia ser simples, não o é. hoje em dia qualquer pessoa pode pegar em alguns poemas de um amigo, imprimir de forma barata numa gráfica e afirmar-se como editor de revista ou de um livro. se pintar um quadro não sou pintora, se me puser na rua a cantar em voz alta não sou fadista (a sério que não seria...), dar uma aula a uma criança em casa não me torna professora e daí por diante. onde está a linha?

não acredito em formações académicas, se bem que é a única que dá diplomas. não acredito em absoluto (eu tenho um diploma de edição e estou longe de o ser). os melhores editores que conheço e que o são com toda a propriedade são editores que aprenderam a ser editores a ler, muito, a criar critérios, a envergonharem-se de alguns livros, a trabalhar, a pensar, a conviver com escritores. se calhar com isto estou a afirmar que conheço a minha linha ténue, ainda que não a consiga definir. será que há alguma forma de o fazer?

quinta-feira, 19 de março de 2015

SOBRE O ISBN

gravação áudio do Projeto de Resolução 1187/XII / Preservação do serviço de ISBN (pelo Bloco de Esquerda) a partir partir do minuto 36.
já nos estamos a mexer! é importante que esta discussão saia do espaço da Assembleia e parta para a esfera pública. questões para rosa.b.azev@gmail.com.

ouvir aqui.

consultar aqui a documentação da Assembleia.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

a condição da edição independente [entre aspas], hoje

Zona Autónoma Temporária
Hakim Bey
a amizade e o carinho podem trazer consigo um perigoso e falível discurso crítico. desde que comecei a minha investigação sobre pequenas editoras houve muita coisa que mudou, conheci muitas pessoas, mudei o meu norte, todos os meus pontos de vista, os quotidianos. acabei por de alguma forma começar a viver dentro dos meus editores e livreiros mais do que a trabalhar sobre eles. a cabeça multiplica-se com pensamentos e questões sobre estes temas, sendo as questões o ponto fundamental - o interminável questionamento, o pôr em causa o que preferíamos que fosse de outra forma mas que na verdade não é.

publicar em pequenas editoras terá sempre dois lados de uma só questão - a independência perante as rigorosas leis do mercado cada vez mais castradoras. por um lado isto permite-nos delinear em absoluto a nossa linha editorial, escolher os autores e os textos. por outro lado retira-nos alguns anti-corpos contra a contaminação dos grupos, amigos e inter-influências contra as quais estamos desarmados. o mercado como qualquer outra forma de autoridade ajuda-nos a delinear de forma externa a nós um esquema de actuação. a liberdade editorial permite que não tenhamos de viver sob esse jugo mas que então sejamos absolutamente responsáveis pelos leitores que formamos, pelos autores que escolhemos editar. esta liberdade é fascinante por estar a delinear um futuro absolutamente incerto do que será o panorama editorial dos primeiros vinte anos deste século mas à liberdade vem sempre associada uma grande dose de responsabilidade, já o diziam os existencialistas que tanto admiravam estes autónomos movimentos culturais. e o que tenho descoberto e aprendido com os piores e mais negativos discursos relativos a esta gente toda é que é fácil cair numa lógica que envolve à volta do livro tudo o que está para além do texto, perdendo assim o que realmente importa. a um livro ligamos um lançamento, as críticas dos amigos, fotografias nas redes sociais, problemas de distribuição, questões financeiras, encontros e outros eventos. e o carácter sagrado do texto e da sua criação perde-se no meio de um mar contaminado de outros focos de luz.

não quero com este texto mostrar uma postura negativa, não foi isso que ganhei com estes primeiros seis meses de investigação. o que percebi foi que é também dos leitores a responsabilidade que vem da liberdade do meio editorial. que os leitores estão mais próximos destes livros e destes autores, que os conhecem de perto, podem ler os textos com uma luz diferente e mais esclarecida. e que um leitor atento pode assim perceber as excepções ao que acabei a dizer - aliás se interessa a alguém perceber estas questões é mesmo ao leitor porque é o texto que lhe chega que pode vir contaminado. e percebemos rapidamente que quando descobrimos um editor que se foca no texto e no autor e posteriormente no leitor, desfocando-se de tudo o que está para além disso, sabemos que estamos perante um editor raro. e perante um autor raro e tornamo-nos assim leitores profícuos e maiores. e tudo isto porque acredito fortemente que um texto que recebe estas contaminações não nos chega nas condições que poderia chegar se não as tivesse - ainda que seja questionável esta afirmação.

o tão falado amor aos livros tem de ser substituído pelo amor ao texto. e é necessário recuperar nessa relação de amor a intimidade nossa, leitores, com o texto. e não estou com isto a abolir as leituras públicas, os lançamentos e as festas, estou só a dizer que não é aí que está o foco. e felizmente para muitos dos meus editores (e muitos dos que estão agora a nascer) aquilo que estou a dizer é absolutamente linear. e é com esses livros que ando na mochila.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

o Parto de Manuel Cintra

apresentei ontem no Povo o novo livro do Manuel Cintra, Parto, editado na editora do próprio, Palavras por Dentro.

Vou a muitos lançamentos mas este foi especial, não só pelo convite que o Manuel me fez mas por perceber que ele juntou os amigos que viviam dentro da poesia e da obra dele para fazerem parte deste dia. foi por isso um enorme privilégio este convite.

ouvi algumas vezes o Manuel falar deste livro. o que foi sempre claro em todas as conversas é que era necessário que este livro saísse agora, mais de 30 anos depois de ter começado a ser escrito. foi um parto lento e certeiro. é o livro que faz sentido nesta altura, no percurso que o Manel fez, na obra que foi escrevendo que se confunde tanto com a vida que viveu.

o livro apresenta-nos Pedro, que ao longo dos anos se transforma em Anjo ao mesmo tempo que parece enlouquecer. a personagem de Pedro tem a mesma evolução que o próprio Manuel vai tendo na sua escrita ao longo deste últimos 30 e tantos anos - um caminho que indica loucura, desumanização, fim da lógica narrativa. Pedro e o Manuel querem voar. e este livro é o grande e belo voo do Manuel.

chama-se a este livro o primeiro romance de Manuel Cintra. mas nem este é só um romance nem o que foi escrito até agora foi só poesia. esta é a obra do Manuel, do poeta errante da cidade de Lisboa. este é o livro que se segue aos outros livros. assim como a vida do poeta não se enquadra em categorias também a sua obra não se pode fechar em nenhuma caixa.

mas é importante que se preparem. este é um livro violento, escatológico. é-o sobretudo porque faz com que questionemos e nos deparemos com alguns dos nossos piores tabus e fantasmas. se não fosse por mais nada este livro já valia por isso. mas vale por uma enormidade de outras razões. e merece cada um dos leitores que tiver.

há uns meses o José Anjos escreveu sobre o poeta o texto que transcrevo em baixo. sem ter lido o Parto o Zé soube explicar melhor do que eu conseguiria o que é o parto, não só neste livro como em toda a obra e vida do Manuel Cintra.

"Na semana passada tive a honra de abrir o lançamento do livro do Manuel Cintra dizendo um poema dele. Um de que gosto particularmente. Há vários, aliás. Mas ficou algo por dizer acerca do Manuel. Sem caganças. O Manuel Cintra é um dos meus poetas preferidos de sempre. Mas é acima de tudo - e de muitos também e de lado e por vezes por todo o lado - um poeta do presente, o poeta do agora em todos os sentidos e com todos os sentidos que cabem no agora. E os que não cabem também, que o Manuel Cintra é muito maior do que o seu próprio traço, talvez até maior do que a liberdade de quem é mãe e filha ao mesmo tempo. E os poemas que caem no berço do seu regaço de escaravelho em papel de placenta são dores, dores furiosas desse parto repetido, a cada momento, agora e agora outra vez, da liberdade. Das mais belas e bem sofridas dores de parto, digo eu, que não sou parteira. A prova que o ser humano existe e respira nesta cidade e nasceu outra vez e neste preciso momento. E Agora. Um abraço pintado Manuel."
José Anjos

as Edições Guilhotina quando ainda não o eram


 Foi apenas uma ocasião feliz que me tenha encontrado numa noite quente de Verão com as que viriam a ser as editoras da Guilhotina: Diana Pimentel, Maria Quintans e Cláudia Lucas Chéu. Todas têm caminhos editoriais variados quer enquanto editoras ou enquanto autoras para além de viverem as três dentro da realidade editorial pelo percurso pessoal que foram formando. Conhecem o meio, as formas e os livros que querem defender. Sabem que caminho fazer, têm convicção, bons princípios e ideias claras. E assim depois de percursos diversos chegaram as três juntas à Guilhotina. Uma editora que promete muitas surpresas e um caminho único, do qual falarei (muito, acredito) nos próximos tempos.
Quando conversamos à volta de um copo de vinho branco o discurso das editoras flutua entre o positivo e o negativo, de forma apesar disso equilibrada. Admitem que os editores já não trazem prestígio aos autores como há uns anos atrás. Procura-se uma marca que prestigie. E isso não acontece por acaso – não se procura o editor porque essa figura foi desaparecendo. Diana Pimentel acredita que o que distingue esses editores dos outros é que o interesse ao receber uma proposta de livro para editar se centra apenas no texto. Apesar de esta formulação parecer clara, a verdade é que não o é. A construção de um escritor passa hoje por um gigante leque de condicionantes contextuais, os leitores têm exigências diferentes na procura do livro para ler, muitos são clientes e não leitores. Muitas vezes os editores regem-se por estas fórmulas tentando assim obter sucessos nas vendas. As figuras que medeiam a leitura já não são as mesmas, já não se procura um texto como se procurava há uns anos atrás quando os escritores não estavam envoltos numa teia de contextos tão complexa como esta - notoriedade, figura pública, prémios, polémicas, relações externas ao livro, entre outros.
É assim fundamental focarmo-nos na realidade do leitor. Podemos pensar esta questão das editoras pequenas ou editoras independentes de vários pontos de vista mas o do leitor é pouco reflectido. As editoras mais pequenas, ao serem dependentes do texto para o fazer vender – não podendo recorrer a estratégias comerciais para as quais não têm fundo de maneio e para as quais, no limite, nem têm interesse (uma vez que os objectivos passam apenas por tornar os livros sustentáveis por si) – apresentam-nos o texto de forma inócua, deixando-nos livremente a escolha do mesmo, que vive assim, ainda de forma mais presente, a força do próprio texto. Quem escolhe o que vai ler é o leitor e não o mercado, os livros são disponibilizados e não impostos por uma lógica comercial. Assim a Guilhotina promete uma escolha criteriosa de textos aos quais teremos acesso de forma activa enquanto leitores e, (posso apenas acreditar porque ainda não os li) de forma absolutamente apaixonada. 

A editora Guilhotina será apresentada esta sexta-feira, 21 de Novembro, no Primeiro Andar em Lisboa e serão lançados os três primeiros livros:
aerogramas, de Diana Pimentel, com apresentação de Fernanda Freitas e leituras de Raquel Marinho.
A Mala, de Valério Romão, com apresentação de Frederico Pedreira e leituras de Paula Lobo Antunes.
Trespasse, Cláudia Lucas Chéu, com apresentação de Miguel Real e leituras de Albano Jerónimo. 

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

a Flanzine do Azul

foto de Mar Babo

 era de noite, no Porto, uma noite de chuva. andava por ali com o João Pedro Azul, editor da Flanzine e da Flan de Tal, uma editora que se lança agora no seu primeiro livro Poemanifesto. a Flanzine, essa, já vai no número #5, a caminho do #6 que sai em Dezembro, com o tema FOME.

entrámos num bar, Duas de Letra, um dos tantos onde a Flanzine foi apresentada no Porto, pedimos uma bebida e fizemos fortes e prédios com as peças de Lego que havia em cima da mesa. e se fizéssemos agora a entrevista? sugere ele. eu pus a gravar aquela que seria até agora a mais descontraída de todas as entrevistas, afinal estávamos dois amigos num bar e havia Legos e Martini. talvez também por isso, pela intimidade e descontracção, foi fácil começar ali a desenhar o perfil deste editor que, ao assumir-se como editor de um fanzine, prefere não adoptar as características de um editor de livros. a Flan de Tal fica para uma próxima conversa, é uma editora que está agora a fazer-se crescer e a formar uma linha editorial. em construção.

ao fazermos uma revista ou um fanzine há características que lhe são próprias. o editor convida escritores, autores, ilustradores sabendo que ali lhes está a oferecer um espaço. o trabalho do editor fica limitado (no que a palavra "limitado" tem de bom) pela autonomia do próprio autor que, ao ser convidado, tem uma liberdade de acção que está também relacionada com o facto de aquele texto vir acompanhado de outros que não são seus. assim, cria-se na Flanzine um espaço de risco, autonomia e experimentação, que torna o fanzine não só um espaço de surpresa como também um espaço de encontro de escritas que não se encontram em outros sítios.

todos os números da Flanzine têm um tema diferente. até agora mala, medo, boca, carrossel, cama e fome, no número de Dezembro. no entanto o Azul afirma que não há uma linha literária no fanzine, apenas esse tema. enquanto juntos questionávamos essa ideia, tantas vezes obscura, do que é uma linha literária apercebemo-nos de que há duas formas de marcar uma linha numa publicação: por um lado ter alguém à frente que convida escritores ou poetas que identifique com a linha que pretende, por outro alguém que selecciona textos entre vários, tentando que estes se liguem ao mesmo imaginário, entre eles. na Flanzine escolhem-se autores por empatia, por relações de amizade e proximidade, por se acreditar no potencial literário e artístico dos convidados. o Azul acredita que a forma de retribuir o trabalho e dedicação dos seus autores é através de um enamoramento, uma relação de proximidade que se vê em todo o processo do fanzine. é esse o funcionamento deste editor tão particular, que cria linhas invisíveis entre todas as tantas pessoas que colaboram com a Flanzine, criando relações que se baseiam na confiança, gratidão e admiração. talvez por isso o Azul tenha sido o primeiro a dizer que não há editores independentes e sim editores interdependentes. e tem razão.


podem assinar / comprar a Flanzine através do email: zine.flanzine@gmail.com ou encontrá-la em alguns dos mais belos pontos de venda independente do país. 

página fb da Flanzine

página fb da Flan de Tal


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

a abysmo do cotrim


 quando trabalho com um autor quero sempre trabalhar com ele.
um editor ideal é uma série de "eus"
João Paulo Cotrim

fui à abysmo encontrar o João Paulo Cotrim num fim de tarde de Verão. foi uma das primeiras entrevistas. conhecia o trabalho do João Paulo mas não conhecia a pessoa. foi no desenrolar da nossa conversa que percebi o potencial do editor-pessoa. uma das resoluções que tinha definido quando iniciei este projecto de investigação foi que ele se iria desenrolando consoante aquilo que fosse acontecendo durante as entrevistas. e ao conhecer o João Paulo e o seu trabalho na abysmo percebi rapidamente que tínhamos aqui um caso de um profundo equilíbrio entre crescimento e fidelidade a princípios editoriais dos quais não se abdica e que, a abdicar, tirariam o sentido da existência da editora como ela fora pensada.

ainda não cheguei à definição final de denominação destas editoras, ainda me fico pelo "editoras independentes" ou "pequenas editoras". o ter escolhido a abysmo como um dos primeiros casos de estudo não foi visto por todos de forma pacífica. será a abysmo uma pequena editora ou uma editora independente? serão estes conceitos inclusivos? a abysmo mostra que não. que uma editora independente não é obrigatoriamente uma pequena editora (e muito mais tinta teria de correr sobre esta questão do "tamanho". avante.).

João Paulo Cotrim criou a abysmo em Setembro de 2011 por uma circunstância simples e comum ao início de muitas editoras, a vontade de publicar um livro específico, o Branco das Sombras Chinesas neste caso, por sugestão de António Cabrita, autor da abysmo e amigo. depois dessa sugestão percebeu que aquilo que gostava era de fazer livros e que por isso o melhor que podia fazer era fazê-lo profissionalmente mas para ele próprio e não para terceiros. define nessa altura esses princípios editoriais (que são mais do que linhas ou posições) que passam por um compromisso total com o texto. esse compromisso dita as regras editoriais de escolha de originais. o facto de terem surgido no início de uma crise económica muito violenta para qualquer negócio colocou-os num sítio onde muitas editoras se colocaram nestes últimos três anos - um sítio de liberdade onde se vão testando barreiras e limites, onde se arrisca a publicação de novos autores. durante a conversa fomos revelando algumas das características mais determinantes da abysmo. o texto é escolhido por um lado pela sensação do editor que lhe transmite a qualidade literária do mesmo e depois tendo como base a confiança em alguns amigos que lhe sugerem autores. o autor que entra para abysmo torna-se família e acaba por participar nos processos da editora quer nos seus livros quer no conjunto editorial. os autores tornam-se leitores para a editora e amigos da casa, construindo assim a unidade e coerência visível em todo o catálogo.

uma característica que distingue a abysmo das outras editoras é o facto de cedo ter percebido que se o livro não se promover por si não vai ter vendas. e aqui a promoção é entendida de um ponto de vista diferente da promoção que vemos em grandes grupos editoriais que têm por trás uma gigante máquina de marketing e fundos que a alimentam. neste caso o João Paulo percebeu que o livro tem qualidade por si e que o que a editora tem obrigatoriedade de fazer é mantê-lo vivo usando dessa mesma qualidade. e isso pode ser feito através de redes sociais, dinâmicas em que os autores se apresentem em público, exposições ou outros eventos associados ao livro impresso (a abysmo é hoje também uma galeria de exposições).

podemos dizer que o João Paulo não descobriu segredos bem guardados mas observou as diversas formas de se fazer edição e juntou ingredientes de sucesso - o tipo de sucesso que o interessava, o que os permite crescer sem comprometer em nada a qualidade literária. o sucesso advém apenas dessa mesma qualidade. o João Paulo juntou assim novos autores em quem acreditava fortemente, decidiu que não queria criar cânones e sim escritores, juntou com mestria escritores com ilustradores, criou uma família onde transparece amizade e cumplicidade. percebeu também que ao arriscar em novos autores está não só a criar leitores no presente como também leitores do futuro.




site da editora abysmo


facebook da editora abysmo

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sobre as razões da edição



Muitas vezes me disseste que esse livro me transformou à medida que o ia escrevendo. "Depois de o teres concluído, já não eras o mesmo". Penso que te enganavas. Não foi o tê-lo escrito que me permitiu mudar; foi ter produzido um texto publicável e vê-lo publicado. A publicação mudou a minha situação. Conferiu-me um lugar no mundo, conferiu realidade ao que eu pensava, uma realidade que excedia as minhas intenções, que me obrigava a redefinir-me e a ultrapassar-me continuamente, para não ficar prisioneiro nem da imagem que os outros tinham de mim nem de um produto, pela sua realidade objectiva, tornado outra coisa que não eu. Magia da literatura: fazia-me aceder à existência tal qual eu me tinha descrito, escrito na minha recusa de existir. Esse livro era o produto da minha recusa, era essa mesma recusa, e, através da sua publicação, impedia-me de prosseguir nessa recusa. Precisamente o que eu tinha esperado e que só a publicação me poderia dar: ser obrigado a comprometer-me para além do que eu podia pela minha vontade solitária, e a colocar problemas, a prosseguir fins que eu não definira sozinho.

Carta a D.
História de um amor
André Gorz
Pianola

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

a SNOB, a livraria que pertence à minha teia


abriu uma livraria em Guimarães, a Snob, uma livraria que antes de existir já existia pela mão do Duarte, da Emília e do Eduardo, noutros projectos e nas ideias que estão por trás da Snob. esta livraria entra na linha do que tenho andado a ver e ouvir, uma livraria que não é só uma livraria, é uma ideia, assim como tenho encontrado editoras que não são só editoras, são editoras e são ideias. autores que são ideias. e a ideia é que podemos levar avante projectos que necessitam de uma vertente comercial sem abdicar de qualquer vértice de qualidade. já o tinha dito relativamente ao sr teste e a snob é um senhor teste nortenho e não o é por acaso, é-o por se deixar influenciar, por ouvir, aprender e, lá está, ter a mesma ideia.
fui ao Porto este fim-de-semana. conheci o Duarte na Feira do Livro do Porto, na banca da livraria, onde me agrafei uma tarde inteira (o Duarte além de talentoso livreiro&etc é de uma simpatia avassaladora). reconheci os livros todos que estavam expostos e senti que o Duarte estava na teia. é como se todos os da teia partilhássemos um segredo que começa a não ser segredo nem o quer ser. é o segredo do Duarte, do Ricardo, d’a tua mãe* da Marta, da douda do Nuno, da averno da Inês, da texto sentido, da eclusa, da pianola, de tantos outros. um segredo partilhado e mal guardado porque se começa a espalhar em forma de boato. há aí gente boa a escrever, outros a editar e outros a vender. uma teia que só é independente porque se recusa a comprometer a qualidade literária, a pertinência do sentido e a musicalidade dos livros.
foi bom ir ao Porto e ver de perto a Snob. Guimarães será a próxima paragem. aqui em baixo deixo-vos as paragens da Snob e as imagens da banca na Feira do Livro do Porto onde vão ver, claras e fortes, as linhas da teia.

facebook Snob
site Snob







quinta-feira, 4 de setembro de 2014

sobre as editoras independentes

o projecto avança de forma tempestiva, com entrevistas, conversas e planos. em cada entrevista surgem novas ideias e pontos de vista o que me faz prever que se não puser travão a isto posso estar trinta anos a desenvolver esta ideia o que não era mau de todo.
seja como for optei por não publicar nenhuma entrevista (ainda que estejam todas transcritas) para que os entrevistados estejam completamente à vontade com o que dizem e com a forma com que o dizem. vou antes escrever um artigo sobre cada entrevista. o primeiro já saiu os outros vêm a caminho. obrigada a todos pelo apoio, tardes de conversa, ideias, mensagens, e-mails, viagens e livro.


continuem a acompanhar o projecto na página de Facebook Editoras e autores in-dependentes de quê?



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Valério Romão, um dos lados do triângulo

foi num fim de tarde que encontrei o Valério Romão, numa esplanada do nosso bairro. como não era uma pessoa desconhecida (em nenhuma frente) nem uma entrevista nada formal, o gravador começa a gravar a meio de uma frase e acaba por ser esquecido. falo demais, como costuma acontecer quando é um Valério que tenho à minha frente, e duas imperiais. não devia. anotar a falha.

escolhemos ser escritores quando queremos escrever. depois percebemos que queremos ser lidos e que publicar é uma urgência e uma necessidade orgânica e natural. que se encaixa na própria função de se ser escritor. o Valério é um escritor com uma consciência interna da sua própria função. opta por não se ver de fora, de forma exterior, a partir dos olhos dos outros. vive dentro do triângulo escritor - editor - leitor e preserva essa intimidade como a única que interessa. vê a sua independência não como uma bandeira ou manifesto mas como a única forma possível, depende apenas desse triângulo. para isso teve algumas “coincidências generosas” como lhes chama. João Paulo Cotrim, da Abysmo, recebeu das mãos de António Cabrita, amigo comum, a notícia do novo escritor. da coincidência generosa parte uma relação que encaixa não só no perfil do escritor como no perfil do editor. de uma relação profissional nasce uma confiança que equilibra bem e de forma funcional uma óbvia fórmula de sucesso.

não é por acaso que o triângulo funciona. um livro vive de um autor que o escreve para um leitor que o lê e passa por um editor que torna esta relação possível, não apenas como mensageiro mas parte activa do processo. se as três partes se respeitarem e entenderem mutuamente o resultado é positivo.

Valério Romão é hoje um escritor conhecido do público. não sabe bem em que altura se deu o passo que o levou a ser conhecido desta forma. o Valério não acredita em parte da sua popularidade. mantém-se escritor com as mesmas rotinas que tinha antes deste passo. admite no entanto que a Granta e a opção de Carlos Vaz Marques em arriscar a publicação de um escritor com uma obra tão curta e ainda tão desconhecida tiveram um papel decisivo. é público que Carlos Vaz Marques sabe o que faz. neste caso houve mais do que um casamento perfeito: o Carlos que dá o pontapé para que mais gente o leia, o João Paulo que publica os escritores novos em quem acredita intrinsecamente e o Valério que escreve bem, com convicção, sob o olhar atento de pessoas em quem confia como o António Cabrita.

é realmente difícil falar em angústia da influência no caso desta geração. faz parte da forma como eles se criaram enquanto escritores - acreditarem que a sua obra tem de ser única e original, assumindo, no caso do Valério, os ecos imensos de muitas leituras. as editoras pequenas que surgiram neste último ano trouxeram ao mercado editorial dezenas de novos escritores, dando-lhes importância e peso de forma desigual, é verdade, mas sempre confiando nessa mesma capacidade de serem únicos, autênticos e com inegável qualidade literária.

é visível a forma tranquila e honesta com que Valério vive a escrita. lima-lhe todas as arestas mas acredita que o seu conteúdo é orgânico. digo honesta porque o Valério se recusa a sair do triângulo que ele acredita ser o único possível para que um escritor não seja apenas um autor de um livro. o Valério é um escritor. com uma sensibilidade rara, um domínio seguro e claro da língua, os amigos certos, as escolhas certas e um editor que acreditou naquele primeiro livro com a convicção e confiança com que acredita já nos que ainda não estão escritos. o Valério é assim um caso de sucesso literário que só pode significar sucesso editorial. mas que no limite, podia só ser literário que o objectivo daqueles livros estava cumprido. e neste triângulo está o segredo, que não parte de opções por parte de cada um dos lados, e sim de generosas coincidências. e tenho a sensação que o futuro dirá que muitos belos frutos nos trará ainda esta generosidade.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

a livraria que faltava às "minhas" editoras

está para acontecer uma coisa muito bela em Lisboa. uma livraria em bom, com bons livros e, o melhor de tudo, o livreiro mais inteligente e sexy do mundo todo. venham conhecer pessoalmente o Sr Teste e a beleza de livraria que é a dele, dia 6 de Setembro, às 14h.

o convite do Sr Teste


Caros Leitores,
A convite da Cossoul o Sr Teste passará a ser o livreiro de serviço na livraria da associação.
Coincidindo com as comemorações dos 129 anos da Associação Guilherme Cossoul, a abertura será dia 6 de setembro a partir das 14h até haver fôlego.
A livraria insere-se num espaço de sinergias composto por Restaurante/ Bar/ Café Concerto, Teatro, a Editora Artefacto e a estrear a Galeria Cossoul.
A cada dia postarei uma foto da vossa livraria em construção assim como das várias salas da Cossoul e cartaz da primeira exposição colectiva organizada pela vizinha de cima, Sara Rocio.
Contamos com a vossa presença para celebrar e partilhar este espaço criado para todos nós.
PS: Para instigar os Leitores atentos, as prateleiras estarão forradas a livros esgotados, raros, edições especiais e fundos/ novidades das mais especiais editoras a preços convidativos.

SIGC Santos
Av. D. Carlos I, n.º 61
Lisboa



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Gerador

anda por aí uma revista nova, a GERADOR. vi-a numa banca e comprei-a quase instintivamente. sim, é verdade que tenho sempre uma grande curiosidade com revistas, ando sempre a ver o que há de novo. e o cenário é triste e cinzento, com algumas raras e justas excepções.
a GERADOR pretende ser uma revista sobre a cultura portuguesa. o que quer que isso queira dizer. e como é difícil dizer o que isso quer dizer eles tentam dizê-lo. o que transforma esta revista num objecto sigular no tratamento dos conteúdos - por um lado explicam bem o que querem, por outro abrem o leque. e fazem-no com uma grande mestria. 
é nesta abertura que, a meu ver, está um ponto forte da revista e um ponto fraco das outras - há uma total clareza e diálogo com o leitor acerca dos processos necessários ao surgir da revista. por outro lado apresenta todos os colaboradores, contextualizando cada texto. pode parecer menor esta característica da revista mas não é, enquanto a lemos este torna-se talvez um dos seus pontos fortes, a informalidade e o constante diálogo entre a revista e nós, leitores.
a revista terá um tema todos os números e convidados de várias áreas da cultura portuguesa para o abordarem. em bom, claro, se bem que este número destila amor. o tema é declarações de amor e talvez seja excessiva a dedicação ao tema. mas enfim, é tão plural a arte de cada um que a revista fica um monumento. e, claro, quando se convida pessoas para escrever sobre um tema e os convidados não se leram uns aos outros é um risco, sim.
lê-se de um fôlego e pretende ser um objecto de colecção. para mim já é.

página do Facebook

Sobre

O Gerador é uma plataforma de acção e comunicação para a cultura portuguesa!
Descrição
O que é o Gerador?
É uma plataforma de acção e comunicação para a cultura portuguesa.
• Acção porque o Gerador produz iniciativas que promovem os principais motores da cultura portuguesa.
• Comunicação porque criamos os espaços para divulgação das obras e dos seus autores através de uma revista e de uma presença online dinâmica e participativa.

Quais são os nossos propósitos?
O Gerador existe porque tinha de ser. E porque perseguimos 5 ideias que queremos deixar bem vincadas na sociedade portuguesa:
• Lembrar todos que a cultura é identidade e, por isso, é composta por arte, literatura, cinema ou teatro, mas, também, por banda desenhada, gastronomia, ofícios ou costumes populares.
• Sublinhar que a cultura está em todas as ruas e em todas as casas, sem diferença entre o norte e o sul, o interior ou o litoral, as metrópoles ou as aldeias.
• Destacar quem produz e divulga a cultura portuguesa, seja ele um artista plástico, um artesão, um músico, um chef, um graffiter, um futebolista, um cientista, um encenador ou um CEO.
• Criar e produzir iniciativas para a cultura portuguesa a que todos possam aceder e participar, afastando a ideia da cultura difícil, complexa e longínqua.
• Inspirar as pessoas a serem mais participativas, mais disruptivas e a pensarem diferente no seu dia-a-dia profissional, afectivo e de ócio.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Nicotina Zine #5 já nas mãos de quem a apanhar

este texto não serve ninguém. nem a nicotina precisa que se escreva sobre ela. aliás se a nicotina pudesse escolher mandava um apagão neste texto.
mas há uma só forma de se ser fanzineiro que é a rebelião própria de quem há muito sabe que não há desejo ou amor pela escrita de ninguém. ser fanzineiro é ser orgânico. ser nicotineiro também.

Pois afinal de contas a única inquietação que não se deve inibir, a única angústia que não prejudica a saúde mental dos outros, é a da nicotina, saudade justa, coisa sã. [PA]

pois então deixemo-nos de categorizações. a nicotina lança o seu número 5, ou melhor #5, com poetas e não só (não só?). com textos que nada têm a ver com qualquer verdade.

os estados de verdade nada tinham a ver com este desdobrar sem fim “se tu fosses dois mexicanos a dormir num camelo eras uma família de equilibristas chineses” [MN]

então se a questão não é a verdade é possível dizer que a Nicotina se afasta de conceitos grandes, Beleza, Grandeza, Verdade, Deus, Demónio, Impostos. é antes uma pequena transgressão de costas voltadas com a norma mas nada de confrontos directos com esta. estar de costas voltadas é uma transgressão diferente de estarmos contra algo. é como uma escrita ao contrário sem ter nenhum dos lados definidos e por definidos dizemos obrigatórios e por obrigatórios dizemos que vivem à margem de qualquer lei, de qualquer pessoa.

não te afeiçoes muito a cada lado porque estão ambos em mutação - dependem sempre do hemisfério de onde partes e da flutuação do manto de matéria fundidas debaixo dos pés [JA]

mas vale tudo? ou vale pensar tudo? é capaz de ser mais este o ponto de vista. podemos pensar em tudo, escrever como quisermos, escolher um dos lados em absoluta liberdade. já se sabe que os actos têm consequências. a procura do texto certo, a inevitável (será?) intervenção da razão. porque escrevem estes autores nesta fanzine então?

e o mais novo, com mão implacável, metia no fogo papéis dactiloscritos e manuscritos, fotografias de toda uma vida, os insubstituíveis inéditos, tudo ia parar à boca de fogo da salamandra.  […] orgulhoso e cheio de vida, acercou-se da cama do velho e sussurrou-lhe ao ouvido:
morre cabrão!!
[RD]

ser destes fanzineiros é fugir do fogo em comunidade (eu tinha / na ponta de um cigarro / a brasa incandescente que acendi / demasiado tarde [GM]). é pertencer a um espaço de escrita comum que não é na verdade nada do que em cima foi referido. é um espaço de diálogo onde se soube ser silêncio. e o equilíbrio raro de pessoas acompanhadas de um copo de vinho e um cigarro que queima lentamente. é uma fanzine mas não é uma fanzine qualquer, é uma Nicotina. Zine. uma fanzine sempre em estado de gestação, seja qual for a estação do ano.

cercano al abismo
unido por anguilas eléctricas
aquí el silêncio es un estruendo
talismán en gestación
árbol de otoño eterno
cruzado por gaviotas
que parten sin boleto de vuelta


[CG]

[CG] Cristian Garzaro
[GM] Gonçalo Mira
[JA] José Anjos
[MN] Marta Navarro
[PA] Paola d’Agostino
[RD] Rafael Dionísio

quarta-feira, 4 de junho de 2014

as editoras emergentes e os seus autores

na área das humanidades e estudos literários e sociais (assim como em muitas outras áreas, mas avante) há sempre dois momentos que podem ser abordados e estudados: um primeiro sobre o qual já muito se disse e escreveu e um outro, contemporâneo, recente, que se vive agora, no presente, assistindo na primeira fila a mutações contextuais que por serem pensadas no presente têm formas de trabalho próprias e particulares.

na área da edição assistimos hoje a uma explosão de pequenas editoras que não visam o lucro, apenas a sustentabilidade da própria editora no sentido em que se consiga com a venda de livros financiar novas edições. assim, e não tendo o lucro como pano de fundo, estas editoras podem arriscar mais, fugir à visão comercial e à leitura imediata. de repente surgem novos autores com livros publicados. a área da poesia é a mais forte mas não é exclusiva. são editoras que têm no seu centro o autor que publicam pela sua qualidade e pertinência literária e não pelo seu potencial de venda.

durante o próximo ano vou tentar desenhar uma cartografia destas editoras e destes autores. quem são eles? o que pretendem? em que nome publicam / escrevem? quais são, se existem, perspectivas de futuro? vou tentar perceber o impacto que estas editoras estão a ter neste constante mercado em mutação, percebendo como um mercado que muitos acreditam ser cada vez mais comercial vive o surgir destas novas editoras que estão na outra ponta da linha. acredito que o impacto não seja menor e que, apesar disso, há ainda um desconhecimento deste fenómeno, desconhecimento esse que deve também ser combatido.

para isso proponho-me entrevistar os agentes desta mudança, numa primeira fase. depois promover um ciclo de debate e conversas em volta destas novas editoras / autores e por fim publicar conclusões e as entrevistas autorizadas e revistas pelos entrevistados. durante o ano serão promovidos vários eventos paralelos dentro desta área como feiras, conversas, leituras entre outros.

para isso peço a a colaboração de todos. por mais investigação que tenha feito até agora faltam sempre algumas editoras e autores à minha lista. se conhecerem alguém que se encaixe neste quadro, agradecia que me enviassem um email para rosa.b.azev@gmail.com com o nome e, se o puderem disponibilizar, contacto da editora ou autor. gostava que esta investigação fosse o mais alargada, plural e rica possível.

de resto é esperarem por novidades. aqui no blog vou colocar tudo na etiqueta  "editoras independentes". aceitem, como sempre, o meu gigante e festivo obrigada!



terça-feira, 29 de abril de 2014

as pequenas editoras e a alteração do mercado editorial português

nos últimos vinte anos assistimos a uma profunda e marcante alteração do panorama editorial português. não só no meio editorial em si mas na nossa forma de nos posicionarmos perante a edição de um livro. há vinte anos atrás publicar era considerado um passo fundamental no caminho da escrita mas a escrita antecedia a publicação muitas vezes (arrisco mesmo a afirmar que na maioria) durante largos anos. o escritor amadurecia, aprendia, lia e escrevia muito antes de poder publicar.
com a difusão da Internet, no final do século passado, democratizou-se a escrita passando a ser possível dar a ler. esta facilidade com que se dava a ler não só a nossa obra como aquilo que pensávamos e queríamos que fosse ouvido transformou-nos em leitores mais ricos e com mais incentivos literários de sítios nem sempre prováveis. com as redes sociais nomeadamente com o facebook essa democratização expandiu-se.
a esta expansão democrática da escrita podemos associar uma guetização da publicação, da edição de livros. pondo de lado um mundo paralelo e apenas comercial, de que me vou escusar a falar por agora, vou centrar-me nas edições de autores reais, aqueles que não escrevem fora do intuito da própria escrita. esta democratização da escrita acabou por tornar o livro um objecto mais raro, uma vez que não era necessário para que a obra fosse lida, ainda que este fenómeno não fosse óbvio. podíamos aliás pensar que se passaria algo oposto, como um crescente desinteresse pelo livro impresso. no entanto o livro sacralizou-se, tornou-se uma assinatura do autor por fora e a cima de todas as outras publicações em rede.
a falta de poder de compra trazida pela crise poderia ser também vista como um entrave a esse crescimento do livro impresso, mas é aqui que, a meu ver, se opera o mais incrível movimento literário associado ao mundo editorial destes nossos últimos vinte anos. começaram a surgir editoras pequenas, sem fins lucrativos, que têm no seu centro apenas a publicação do autor enquanto autor e do seu texto enquanto texto. acompanhando esta mesma sacralização as editoras formaram-se sabendo que estavam a acompanhar uma vontade de publicação para além de outro interesse que não fosse o assinar por fora e acima das publicações em rede de um autor. a publicação tornou-se um ritual de vida literária e as editoras a sua ponte. um ritual acarinhado e fundamental, mas ao contrário do que se passava antes, já não necessário à vida pública de um texto.
falo-vos deste fenómeno porque acho este movimento um grande salto da nossa forma de viver a literatura e que me parece que, aparentemente, ainda não é reconhecida por muitos leitores. é um fenómeno, infelizmente, mais ligado à poesia. digo infelizmente não por desprimor à poesia, claro, mas porque creio que seria interessante ver o mesmo acontecer com a prosa, a filosofia e outras áreas literárias ou científicas. mas termos isto a acontecer na poesia é uma forma de termos maior e mais bela poesia. porque é uma poesia que tem vontade de ser lida e de existir dentro do livro impresso como uma marca de eternização. e são editores que percebem que o que recebem de volta dessa mesma leitura da poesia que dão a ler valoriza, justifica e credibiliza todo o trabalho editorial que sobrevive longe de uma lógica de lucro.
foram vinte anos de grandes mudanças no panorama editorial. muito continua igual, claro, a leitura também se democratizou, muita gente bastante improvável passou a publicar, multiplicaram-se as razões para se publicar um livro. mas num mercado pequeno, paralelo e alternativo, há editoras sem distribuição, dinheiro para promoção e com pouca tiragem que fazem pela poesia neste pequeno país muito mais do que tantas outras editoras com tantos outros recursos conseguiram fazer.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Vitor Silva Tavares na LER de Dezembro

há várias coisas boas no vítor silva tavares. provoca sem dó nem piedade por ninguém e de alguma maneira faz com que muitos digam que é provocação gratuita. e ele não podia querer saber menos dessas opiniões. nesta entrevista mostra o que é ser editor sem preconceitos, nem mesmo o outro lado do preconceito que é a própria marginalidade. mostra que assumir que ter preconceitos é natural e deve ser vivido com naturalidade acaba por contrariar a própria noção de preconceito.  não aceita todos, edita amigos e pessoas de quem gosta, acha possível não editar alguém ou não gostar de alguém pela cara e aspecto. quando o carlos vaz marques lhe tira o tapete de baixo dos pés mostrando as aparentes incoerências do que diz ele dá-lhe sempre uma segunda volta e justifica sempre as incoerências e com lógica. é uma bela entrevista que mostra que ainda andam pachecos e césar monteiros, que há gerações mal comportadas que ainda não desapareceram e que há mal comportados que o são no mais intrínseco e natural e não por opção apenas, ou escolha.

vítor silva tavares não se denomina um editor, no entanto é exactamente isso que ele é. do lado oposto das editoras comercias a &etc é ainda um caso de sucesso, sem olho ao lucro. uma editora onde ainda conseguimos perceber que título a título estamos a espreitar pelo olho do editor. o que já começa a ser raro.

"Porque é que eu hei-de ser marginal? Marginal a quê? Alternativo a quê? O que eu sou é paralelo!" com esta frase carlos vaz marques abre a entrevista. ser marginal pressupõe um centro, um lado maior e preponderante. ao sermos marginais temos esse centro como referência. e vitor silva tavares pretende assim destacar-se do centro, sendo paralelo e não mantendo qualquer ponto de contacto.

uma entrevista que é um documento histórico, de uma pessoa que não pretende ser visto mas não se importa de o ser. que não pretende fazer discurso mas não se importa de o fazer. que a cima de tudo sabe por onde nunca se há-de vergar. e será sempre no que para nós são os sítios mais inesperados.