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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

baú do meu palácio #1

(a partir de hoje, às segundas-feiras livros que me dão ganas de ler outra vez)



A Metáfora do Coração e outros escritos
de Maria Zambrano 
Edição/reimpressão: 1993
Páginas: 160
Editor: Assírio & Alvim
 
Li esta bonita filósofa espanhola que viveu em muitos países europeus e da América Latina com uma emoção que não vos sei reproduzir. Sem lírismos excessivos, sem palavras a mais, sem ideias encriptadas escreve poesia filosófica e diz mais do que o essencial, diz verdades que se atropelam. Sobre vários temas, mas este é sobre a escrita, sobretudo. Prometo que nas próximas segundas-feiras serei mais escorreita a falar dos livros. Este é isto. Este e os outros. Agora ando a ler o Homem e o Divino, título que poderia ser, segundo a própria autora, o título de tudo o que escreveu. É disso que ela fala, da relação do que somos com esse divino que não é religioso mas com o qual convivemos tantas vezes com tanta dificuldade. Mais do que isto só o que diz Cioran, era mesmo isso que queria dizer, ele disse primeiro:

"Quem como ela, adiantando-se à nossa inquietação e à nossa busca, tem o dom de deixar cair a palavra imprevisível e decisiva, a resposta de subtis repercussões? Por isso desejaríamos consultá-la ao chegarmos a uma encruzilhada da vida, ao limiar de uma conversão, de uma ruptura, de uma traição, numa hora de íntimas confidências, grávidas e comprometedoras, para que ela nos revele e explique a nós próprios, para que nos conceda uma espécie de absolvição especulativa e nos reconcilie tanto com as nossas impurezas como com as nossas indecisões e perplexidade."
E. M. Cioran
 
"[o escritor] Quer dizer o segredo; o que não pode dizer-se com a voz por ser demasiado verdade; as grandes verdades não costumam dizer-se a falar. A verdade do que se passa no secreto seio do tempo é o silêncio das vidas, e que não pode dizer-se. «Há coisas que não podem dizer-se», e é verdade. Mas isto que não pode dizer-se é o que tem de escrever-se."  
in A Metáfora do Coração e outros escritos

quarta-feira, 18 de julho de 2012

«Pois há-de ser pela música que no inimaginável coração do tempo vem permanecer tudo o que se passou, tudo o que passa sem poder acabar de passar, o que não teve nenhum substância, mas sim um certo ser ou avidez de tê-la. Tudo o que se interpôs no fluir temporal, detendo-o. Tudo o que não seguiu o curso do tempo com os seus desertos, onde tantos abismos se abrem; o que não concordou com o seu invisível ser, que somente se nos dá a sentir e a ouvir, mas não a ver - o ver aquilo que o tempo causou é já um juízo. Pranto também esta música do decorrer, como se o incrível coração do tempo tivesse recolhido o pranto de tudo o que se passou e do que não chegou a dar-se. E o gemido da possibilidade salvadora, e o que que foi negado aos que estão sob o tempo. Parece-me que é o sentir do próprio tempo aquilo que se desarma musicalmente sobre o sentir de quem escuta ao padecê-lo. Uma musica que vem dar-se no modo da oração.»


Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D`Água, 1995   

Roubado daqui.