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segunda-feira, 9 de abril de 2018

sobre a Literatura Portuguesa contemporânea

Há uma grande falácia na modernidade tecnológica. Não estamos cada vez mais perto do mundo, estamos antes com vários olhos postos em quem está ao nosso lado. A arte existia quando era produto de uma cabeça consciente dos seus limites físicos. Como se tivesse maiores possibilidades artísticas quando o produto artístico era um objecto auto-suficiente antes de pensar nas restantes possibilidades. Hoje estamos perante uma forte mutação dessa realidade.

A literatura contemporânea portuguesa está neste momento a atravessar um deserto longo e penoso do ponto de vista artístico, porque há muito tempo que a literatura desistiu de se posicionar. A pós-modernidade trouxe ao pensamento artístico algumas teias perigosas, mas muitas possibilidades artísticas, infinitas. E dessas tantas possibilidades a literatura portuguesa tem-se deixado arrastar por uma literatura que rejeita por um lado a ideia da arte e por outro a ideia de identidade. Poucas são as obras que trazem um verdadeiro questionamento do imenso poder da palavra, da capacidade revolucionária de um livro, da capacidade que a obra de arte tem em atingir um qualquer ponto fulcral.

É natural que ao lerem este texto a vossa cabeça se posicione criticamente de forma negativa perante o que aqui está. Porque o séc. XXI é o século que, na literatura, nos traz a ideia de que tudo é permitido. Ainda numa espécie de ressaca de regimes totalitários (artísticos e não), acreditamos que não nos devemos posicionar, que devemos deixar o livro existir na forma que quiser. Mas esse posicionamento é o oposto da opressão e é o sinónimo da liberdade. Escolhermos o sítio da arte, defendermos e conhecermos o impacto do que escrevemos, é o apogeu da liberdade criativa. A nossa literatura tem a doença da aceitação e aceitação pode rapidamente tornar-se quantitativa. Essa aceitação tem sido o contrário da liberdade criativa.

Há excepções, claro. Poemas soltos, ideias, noites longas, copos de vinho. Amigos. Alguns livros. Alguns livros redescobertos. Mas falta-nos vontade de quebrar barreiras e este século tem sido muito frutífero em criá-las. A tecnologia é uma delas, as rotinas, o capitalismo, a falta de opções, outras.

Mas é uma fase, claro. Só que é uma fase mais longa porque é muito confortável. Porque a vida pode ser muito simples. Porque a verdadeira criação artística provoca-nos questionamentos que não são necessariamente sofrimentos, mas são processos transformativos e evolutivos. Talvez os nossos poetas e escritores sejam apenas muitos, pode ser isso. Mas é difícil ser optimista perante isto, e talvez o optimismo não seja a postura necessária. Devemos ao mundo uma constante sensação de desconforto para que nunca nenhum momento nos pareça finalizado.








sexta-feira, 18 de março de 2016

da não leitura da crítica à entrada do fim-de-semana

continuamos a viver a ditadura do bem comportado. os livros são produzidos em massa e procuramos sempre perceber as falhas, os sítios onde o livro não cumpriu. é neste ponto que a crítica literária falha, a procura do erro. o terrível encontro entre a perfeição e a harmonia como um dos sítios da boa literatura.

há excepções, não só no livro como no leitor. o que sabe encontrar o sítio do desconforto e perceber o sítio em carne exposta da literatura. e não há leitores e críticos imaculados, vai existindo é quem consiga perceber que a escrita sem erros e sem falhas estruturais é uma literatura que engana.

há umas semanas o Gonçalo M Tavares dizia-me na conversa que tivemos em Setúbal que o erro na nossa forma de ler vem da escola que nos apresenta desafios por fases, só avançando para a fase seguinte se tivermos percebido a anterior. culturalmente habituamo-nos a isso: a perceber, a ver na dúvida um inimigo. literariamente habituamo-nos a ficar "viciados" nos livros, a "amar" os livros. a amar os livros que nos "agarram", que não conseguimos largar.  a ditadura do conforto, do descanso.

não podemos perder o sítio incrível que é aquele que nos desconforta. esse conceito de desconforto e incompreensão desapareceu dos jornais. mas ainda não desapareceu das conversas nem do silêncio. porque é no silêncio que esse sítio se desenvolve, porque os processos de entendimento são sempre processos íntimos, como deveria ser a leitura. 


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

para uma história da leitura ou da impossibilidade do historicismo na literatura

há dias em que algo maior que a leitura quotidiana e vertical dos dias se revela. aconteceu-me hoje com a descoberta casual de um livro de João Gaspar Simões que compila algumas das suas crónicas escritas entre 1942 e 1979. ao folhear o livro vou percebendo que este cronista e crítico literário nos revela aqui algumas das suas intuições quanto a autores desta época - das mais belas e potentes e profícuas épocas da literatura portuguesa. aqui João Gaspar Simões fala, e só como exemplo, do jovem Herberto Helder, um dos mais promissores jovens da literatura portuguesa que acabava de provar que os géneros literários estavam em crise ao publicar o seu Passos em Volta.

ao ler estes artigos percebo que o que mais me faz persistir nesta leitura horizontal da literatura portuguesa, numa perspectiva aparentemente historicista da literatura que só o é para mostrar que não há literatura que possa ser historicista, é a percepção clara de que fazemos parte de uma história da escrita, e com ela, de uma história da leitura. não há ciência que aguente a literatura porque ela é fruto de leituras e as leituras são fruto dos seus leitores, todos eles marcados pela intuição. a nossa leitura é só mais uma que se soma à de Gaspar Simões. lemos Herberto Helder do mesmo sítio de onde também ele o leu, das páginas do livro, mas temos em nós histórias diferentes, só isso. leitores diferentes, também, claro, mas esses existem horizontal ou verticalmente, ao nosso lado ou há 50 anos. não quero com isto afirmar que não é importante o contexto de um escritor, pelo contrário - os leitores que somos têm sempre a consciência de que ao texto muitos elementos se somam e contrapõem, às vezes até se substituem, impedindo a leitura. todos os verdadeiros leitores sabem, ainda que tenham dificuldade em assumi-lo, que um texto não vale sozinho. o que afirmo é que somos todos leitores do mesmo texto e que o que muda, o contexto de cada um, não se altera só historicamente e sim a todos os níveis que influenciam a leitura. daí a impossibilidade do historicismo da literatura.

o que interessa aqui é que a descoberta deste livro me ajuda a perceber a forma como quero ensinar e entender a literatura. como uma linha transversal, uma sequência de livros que se lêem cruzados e simultaneamente. que a história da literatura é muito mais uma história da leitura do que da escrita, da nossa intuição e entendimento do texto que nos é mostrado. 

e o podermos estar atentos à literatura contemporânea não é mais que a possibilidade de sermos uns verdadeiros privilegiados. privilégio em podermos falar dos livros publicados hoje com a tranquilidade e transparência com que Gaspar Simões lê Herberto dizendo deste livro que "os contos de Herberto Helder, não sendo, como não são, verdadeiros contos, peças literárias objectivas plenamente realizadas enquanto arte literária, valem, para nós, mais do que isso, pois neles viemos a encontrar o mea culpa de um poeta que viu na poesia uma espécie de inviabilidade para o libertar de si próprio."  

apesar do ruído resta-nos exercitar a intuição adivinhando os potenciais autores promissores, o que quer que esta palavra, por vezes tão perigosa, queira dizer. este exercício tem, seja como for, pouco interesse. o interesse maior que lhe adivinho é esta insubstituível sensação de que fazemos parte desta história maior e sem ciência, toda feita de intuições e emoções, a história da leitura.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

narrativa poética

é difícil falar de literatura. com a (boa) e plural transformação dos géneros literários tradicionais ficámos de mãos atadas. os hispano-americanos deram-nos a volta com a introdução do conto como género maior e vencedor. os hipsters introduziram a micro-narrativa que se mistura com a ficção mas que se liga ao pensamente e reflexão. os asiáticos chamam à poesia haiku. e porquê tantos nomes? já não há nomes estranhos e indefinidos há variações de nomes estabelecidos há mais de um século: micro-contos, micro-narrativas, poemas narrativos, narrativa poética, romance filosófico, poesia experimental. mas as categorias estão cá de finca-pé: poesia, ficção, ensaio. na ficção o conto, o romance, a novela (tão esquecida a novela, esse género tornado rei através da ana teresa pereira).

não existem em vão estas definições. existem para nos organizar o pensamento (e organizar o pensamento para quê e para quem?). hoje venho falar da definição de narrativa poética. a narrativa prende-se muitas vezes com a ficção se bem que não obrigatoriamente. pode ser ensaística ou auto-biográfica, esse meio caminho entre o ensaio e a ficção. a poesia é sempre difícil de definir, mas a definição mais imediata é com a forma. nada mais criminoso, claro. para mim a poesia define-se (incorrendo em dúvidas e desconfianças) pela posição do leitor perante um texto simbólico, mesmo que numa primeira leitura não pareça. e, em consequência, a narrativa que tem um forte pendor simbólico poderá ser considerado narrativa poética. ah, antigamente é que era fácil quando podíamos recorrer ao termo "lírico" já tão orgânico no nosso pensamento. já não podemos, aliás, é uma palavra a abolir do dicionário.

e pronto, este texto não serviu para nada, efectivamente, porque os estudos literários não deverão servir para dar respostas e sim fazer-nos pensar. preferia que cada leitor atento pegasse numa narrativa e me dissesse qual o seu ponto de equilíbrio entre narrativa e poesia, longe de conceitos esclerosados. afinal estamos no séc XXI, aquele que nasceu para ver uma literatura que não tem pontos de ligação, linhas de continuidade, num grande sofrimento com a angústia da influência. um leitor tem de saber equilibrar autonomia com história literária e fazer das suas leituras não uma leitura isolada e única - porque nada cresce do isolamento absoluto - mas antes uma leitura integrada e atenta. e a partir de agora que comece a discussão sobre narrativa poética.

e deixo um conselho, em caso de dúvida não consultar a wikipédia. assim como não devemos pesquisar doenças porque todas acabam com mortes lentas e dolorosas, também no caso dos géneros literários as consequências não são menos sangrentas. qualquer dúvida enviem-me um mail. eu tratarei de vos dizer que não vos posso ajudar e a pedir-vos para formularem vocês um olhar sobre a vossa própria interpretação do texto que acabaram de ler.

Poesia narrativa 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Poesia narrativa é uma forma de poesia que conta uma história1 , geralmente fazendo uso de vozes de um narrador bem como de personagens; sendo toda escrita em verso. Os poemas que constituem esse gênero podem ser longos ou curtos, em diversos metros. Inclue poesia épica, idílio, balada e poesia lírica.

terça-feira, 29 de abril de 2014

as pequenas editoras e a alteração do mercado editorial português

nos últimos vinte anos assistimos a uma profunda e marcante alteração do panorama editorial português. não só no meio editorial em si mas na nossa forma de nos posicionarmos perante a edição de um livro. há vinte anos atrás publicar era considerado um passo fundamental no caminho da escrita mas a escrita antecedia a publicação muitas vezes (arrisco mesmo a afirmar que na maioria) durante largos anos. o escritor amadurecia, aprendia, lia e escrevia muito antes de poder publicar.
com a difusão da Internet, no final do século passado, democratizou-se a escrita passando a ser possível dar a ler. esta facilidade com que se dava a ler não só a nossa obra como aquilo que pensávamos e queríamos que fosse ouvido transformou-nos em leitores mais ricos e com mais incentivos literários de sítios nem sempre prováveis. com as redes sociais nomeadamente com o facebook essa democratização expandiu-se.
a esta expansão democrática da escrita podemos associar uma guetização da publicação, da edição de livros. pondo de lado um mundo paralelo e apenas comercial, de que me vou escusar a falar por agora, vou centrar-me nas edições de autores reais, aqueles que não escrevem fora do intuito da própria escrita. esta democratização da escrita acabou por tornar o livro um objecto mais raro, uma vez que não era necessário para que a obra fosse lida, ainda que este fenómeno não fosse óbvio. podíamos aliás pensar que se passaria algo oposto, como um crescente desinteresse pelo livro impresso. no entanto o livro sacralizou-se, tornou-se uma assinatura do autor por fora e a cima de todas as outras publicações em rede.
a falta de poder de compra trazida pela crise poderia ser também vista como um entrave a esse crescimento do livro impresso, mas é aqui que, a meu ver, se opera o mais incrível movimento literário associado ao mundo editorial destes nossos últimos vinte anos. começaram a surgir editoras pequenas, sem fins lucrativos, que têm no seu centro apenas a publicação do autor enquanto autor e do seu texto enquanto texto. acompanhando esta mesma sacralização as editoras formaram-se sabendo que estavam a acompanhar uma vontade de publicação para além de outro interesse que não fosse o assinar por fora e acima das publicações em rede de um autor. a publicação tornou-se um ritual de vida literária e as editoras a sua ponte. um ritual acarinhado e fundamental, mas ao contrário do que se passava antes, já não necessário à vida pública de um texto.
falo-vos deste fenómeno porque acho este movimento um grande salto da nossa forma de viver a literatura e que me parece que, aparentemente, ainda não é reconhecida por muitos leitores. é um fenómeno, infelizmente, mais ligado à poesia. digo infelizmente não por desprimor à poesia, claro, mas porque creio que seria interessante ver o mesmo acontecer com a prosa, a filosofia e outras áreas literárias ou científicas. mas termos isto a acontecer na poesia é uma forma de termos maior e mais bela poesia. porque é uma poesia que tem vontade de ser lida e de existir dentro do livro impresso como uma marca de eternização. e são editores que percebem que o que recebem de volta dessa mesma leitura da poesia que dão a ler valoriza, justifica e credibiliza todo o trabalho editorial que sobrevive longe de uma lógica de lucro.
foram vinte anos de grandes mudanças no panorama editorial. muito continua igual, claro, a leitura também se democratizou, muita gente bastante improvável passou a publicar, multiplicaram-se as razões para se publicar um livro. mas num mercado pequeno, paralelo e alternativo, há editoras sem distribuição, dinheiro para promoção e com pouca tiragem que fazem pela poesia neste pequeno país muito mais do que tantas outras editoras com tantos outros recursos conseguiram fazer.

sexta-feira, 28 de março de 2014

não ando desaparecida

ando só em reboot.
li coisas que escrevi neste blog em 2009 e ainda não consegui recuperar do choque. estes dois últimos anos e estes dois últimos meses foram uma bomba atómica. sairei daqui melhor, espero eu. mais cínica, sarcástica. mordaz, exigente. e/mas melhor. ando a ler infinitamente e a pensar infinitamente e a beber copos infinitos de vinho tinto. ando a recomeçar na poesia. ando por aqui, alerta e desperta e em reciclagem.
até já.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

o género e os livros

as questões de género e a procura de equidade estão muito longe de estar resolvidas. entrámos no séc. XXI muito mais esclarecidos e informados, mas o que realmente se coloca aqui em causa é de que forma passou essa informação e de que forma estamos a lidar com ela.
encontrei por essas redes sociais a referência a um novo "movimento", ou, na verdade, um hashtag, a nova forma de movimento cibernético. falava-se de #readwomen2014. procurei o artigo e encontrei-o aqui, no The Guardian. este artigo referia um estudo, este, levado a cabo pelas Women in Literary Arts, que referia a discrepância ainda existente entre mulheres e homens no mundo da edição.
vamos então, primeiro, aos factos. há mais homens a escrever, desde sempre. isso deve-se, no meu entender, a questões históricas em primeiro lugar, porque até há (demasiado) pouco tempo esse não era, culturalmente e socialmente, o lugar da mulher. depois ainda vivemos num mundo, e desenganemo-nos se pensamos o contrário, em que a mulher chama a si mais funções quotidianas quando vivem em família e em comunidade, ainda se dedicam mais aos filhos e à casa e essa tão desejada divisão de tarefas está a anos luz de ser uma realidade.
por outro lado os livros femininos são ainda estereotipados ao nível editorial se bem que aqui em Portugal, mais talvez do que na Inglaterra e nos EUA, por exemplo, isso já não seja tão marcante, as capas femininas (juntamente com a oferta de cachecóis, sacos brilhantes, entre outros) estão sobretudo ligadas a uma escrita de temas femininos que só por si, é já um apelo à discriminação. são livros que pretendem chegar a mulheres que insistem em manter-se nesse sítio dedicado às mulheres, erro de quem escreve, publica e lê. digo erro porque para mim esse mercado é um mercado a abater.
depois, mais difícil de ler e de atingir, temos então a discriminação ainda real e mais enevoada que afasta as mulheres da publicação e que liga as mulheres a má literatura (culpa desse mercado que disse que era para abater, têm aqui a razão). muitas vezes quando vendi livros tive dificuldade em vender uma rosa montero ou até uma carson mccullers por não acreditarem que poderia ser um bom livro.
portanto podemos concluir que há muito trabalho a ser feito. o que a Joanna Walsh faz neste artigo é lançar uma ideia. lermos livros de mulheres, fazermos o ranking mudar, percebermos como na nossa biblioteca também temos mais homens.
para mim esta ideia é perigosa e um verdadeiro tiro ao lado. o trabalho que tem de ser feito nas questões de género na literatura tem de ser muito mais profundo, a um nível mais trabalhoso. não se consegue atingir a equidade fazendo com que se leiam mulheres, porque são mulheres. eu leio mulheres e homens quando as mulheres e homens escrevem o que me interessa. se há menos mulheres a publicar pelas razões apresentadas a cima a minha biblioteca tem menos mulhers que homens. mas o problema não está aí, o problema está na formação de leitores e o que os leva a comprar ou não comprar um livro escrito por uma mulher. é nesse campo que os estudos de género têm de actuar. porque é tão grave não comprar um livro por ser escrito por uma mulher como comprá-lo por ser escrito por uma mulher. a intenção muda mas na base está o mesmo princípio - a discriminação. o trabalho tem de ser continuado até ao dia em que na cabeça de cada um o género não interessa e sim o livro em si. assim como em tudo, a leitura dos géneros é sempre uma realidade (porque eles existem e têm diferenças e essas diferenças não serão nem deverão ser diluídas) mas não um factor de decisão.
imagino que muitas pessoas que leiam este meu texto e os que apresentei a cima pensem que seja como for estou a ser chata, deixem lá a malta procurar livros de mulheres, mal não faz. o problema é que não gosto de soluções simplistas. é preciso pensar sempre as questões em profundidade para sermos certeiros. pode demorar mais tempo e ser muito mais complicado, mas acredito que poderá ser um caminho muito mais eficaz. 



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

a imaginação

o gonçalo m. tavares dizia na passada sexta feira que a imaginação é utilizada para nos criar uma outra vida onde possamos defender-nos do quotidiano, daí conseguirmos estar felizes nas situações mais trágicas assim como o oposto. tenho pensado muito nisso estes três dias. há muitas coisas que nos têm distinguido de tudo o resto que existe no mundo. a imaginação é talvez um resumo de tudo isso que não é alma, ou comoção, ou pensamento.
a própria obra literária ou a própria criação vive da imaginação. não enquanto esse terrível conceito que é a inspiração, não me interpretem mal. mas enquanto a criação de um universo que não nos é intrínseco nem despegado. que está nesse sítio transitório, na mediação de nós com esse que é o único sagrado possível. um sagrado que é já despegado de nós mas não nos é exterior não sendo o limbo que pertence à obra e à criação. é esse sítio transitório e a forma de o alcançar que desenha a obra literária. daí que a escrita ocasional, quotidiana, com objectivos que não se prendam unicamente com esse universo só possam estar aquém. aquém da beleza. e aqui não há crítica que adivinhe, nem fórmulas. não é legível ou palpável, nem sequer fácil de intuir. daí acreditar mesmo que essa beleza está dentro da própria obra e não fora dela. feliz o que conseguir lê-la sem nevoeiro.  

posto isto só nos resta concluir que assim é fácil perceber o fascínio disto tudo. é do caraças. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a genialidade

tudo o que aqui for dito a respeito da literatura é favor adaptar para a área que vos interessar. este blog só não se chama é estórias com outra coisa qualquer.

ando há uns tempos a pensar na genialidade. tenho chegado a algumas conclusões não muito pacíficas mas tentarei, como sempre, expor isto que penso da forma mais pacífica que existe, ou seja, soando a elogio a todas as partes para depois continuarmos todos amigos. não é fácil.
passo os dias todos de cabeça enfiada nos livros. e por livros leia-se cenas com folhas e coisas escritas, poderá até ser, como ontem no barco, um folheto do LIDL com umas cenas gourmet para o natal. tenho pouco tempo para tudo o que queria ler. andamos sempre a pedir uma entorce não dolorosa que nos mande para a cama de baixa para pormos algumas leituras em dia. não resulta. lembro-me a famosa frase que é tantas vezes referida na minha família "cuidado com o que desejas que pode acontecer-te". é verdade. fui lançada para um hospital durante vinte dias sem qualquer sintoma e nem uma linha li (se bem que não ter sintomas físicos é outra história mas avante). havendo pouco tempo tento sempre ler os melhores. e tento ler os melhores em todos os momentos que posso do meu dia. mas.
tenho encontrado na vida muitas pessoas que procuram a perfeição na leitura. uma perfeição certeira e subjectiva mas uma perfeição. recusam-se na sua maioria a ler livros que considerem comerciais, artificiais, e que sirvam outro propósito que não a arte da literatura. não podia estar mais de acordo. não leio livros maus, nunca, e desisto de livros a meio, mais vezes do que gosto de admitir. procuro o meu sítio certo da leitura, e está a ser tramado de encontrar, ando às aranhas.
mas não me identifico com a procura da genialidade. com o patamar onde às vezes subimos e não conseguimos descer. não quero subir a fasquia a um sítio onde grande parte dos livros que me foram importantes não caibam. acho que a qualidade literária se mede por faixas. quando começo a ler um autor encaixo-o numa faixa. se está numa faixa que considero má não o leio. um dia em que um autor suba de faixa é um dia feliz. no dia em que desce sinto-me desiludida como uma traição pessoal. aconteceu com paul auster por exemplo, desceu umas três ou quatro faixas.
no entanto eu quero que essas pessoas existam. esses leitores que procuram a perfeição. às vezes temos de sacrificar muito conforto para atingir um nível semelhante a esse. esses leitores sacrificam. conforto e amabilidade. tornam-se irritantes, roçam o pedantismo e tornam-se insuportáveis, na maior parte do tempo. como muitas vezes nos meus cursos disse relativamente a muitos livros, é importante que estes nos causem sensações extremas, seja de amor ou ódio. a indiferença perante um livro é a pior das leituras. e eu tanto odeio estes leitores como me apaixono tolamente por eles. e o que me apaixona é que eles sacrificam a amabilidade e o conforto mas eu aprendo com eles muito mais do que com leitores como eu. por isso deixem-se estar, irritantes, pedantes e insuportáveis. porque no dia em que acertam é mesmo no sítio certo. e isso é insubstituível. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

em centrifugação literária

cen·tri·fu·ga·ção
(centrifugar + -ção)
substantivo feminino
Separação dos elementos de uma mistura pela aplicação da força centrífuga.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

que tipo de leitor queremos ser?

vou falar hoje de uma conversa muito comum por entre as conversas de cafés sobre livros. aquilo que "tem" de se ler. a pressão aumenta se somos pessoa dos livros. ninguém imagina que não tenhamos lido uma lista infinita de livros e ninguém estará verdadeiramente completo sem ter lido o Ulisses ou o Em Busca do Tempo Perdido. não gosto dessa conversa. e, como imaginam, levo com ela todos os dias.
acho que cada um de nós cria uma biblioteca interior. nessa biblioteca vamos criando os nossos mais que tudo. para isso, e para que a nossa biblioteca não se construa em cima de caos (tão fácil ir por aqui) temos de pensar que tipo de leitor queremos ser (em resposta à C.). temos de saber qual é o nosso caminho nem que a escolha desse caminho seja não termos caminho nenhum. acredito que posso ser ao mesmo tempo leitora de franzen e rui nunes. mas sei que quando leio rui nunes ou lispector ou herberto helder há algo que muda irremediavelmente na minha forma de ler. e que durante um momento é difícil acreditar que posso sair dali. mas saio por escolha, porque me sinto incapaz de ser esse tipo de leitora em exclusivo. tenho um fraquinho poderoso por quem é, mas eu não consigo. preciso de ler outros universos. mas quando penso na leitora que quero ser sei que quero ser uma leitora honesta com o escritor. quero que o diálogo que ele mantém comigo seja de alguma forma transparente. quero perceber que estamos a dialogar um com outro. para isso, e como me ensinou o R. o escritor tem também, assim como eu a ler, de ser honesto a escrever. e essa honestidade não tem de vir dele enquanto pessoa mas enquanto escritor. logo, essa honestidade só se pode entender na leitura de um texto ou de um livro. é um processo íntimo e privado. assim, nesta minha definição de leitora cabe um mundo de livros. mas não cabem livros maus. não leio para me distrair. leio para me acrescentar. por isso, se o livro é mau e não cumpre estes meus parâmetros, eu não o leio.
na minha biblioteca interior cabem os meus mais que tudo. não são muitos se bem que o meu universo de leitura seja alargado. cabe o Steinbeck (e tenho de me lembrar deste discurso para não dizer que quem não leu o A Leste de Paraíso nem devia falar de literatura), cabe o António Ramos Rosa, a Lispector, o Rui Nunes, o Boris Vian, o Cesariny, o Herberto Helder, a Rosa Alice Branco, a Rosa Montero, o Cortázar, o Borges, o Franzen, o Afonso Cruz, a Ana Teresa Pereira, o Juan Rulfo, o Ernesto Sampaio, o Miguel Torga, o Alberto Manguel, o David Vann, o Vergílio Ferreira, o Fante, o Gonçalo M. Tavares, o Mário Henrique Leiria, o Luiz Pacheco, a Maria Zambrano.
estes foram verdadeiros escultores do que eu hoje penso. poderia dizer que é inadmissível não os terem lido, voltando ao início deste texto. mas não vou dizer, vou só dizer que se não os lerem vão estar a cometer um erro disparatado. é que são bombas em forma de livros. e há poucas coisas melhores do que ter um livro que nos rebenta na cabeça e nas mãos.  

segunda-feira, 3 de junho de 2013

carreirismo(s)

há muitas formas de ver o trabalho. a forma como vivi estes últimos dez anos foi exactamente a tentar perceber de que forma eu queria viver o meu trabalho. e ultimamente têm acontecido muitas coisas que me têm feito pensar muito nisto. estar num trabalho do qual não consigo sair por ter boas "condições". o falar hoje de utopia e do que seria uma sociedade utópica para nós. a falta de dinheiro ao fim do mês. o ter amigos que arriscam muito mais do que eu conseguirei alguma vez arriscar. o terem-nos perguntado hoje que legado queremos deixar depois de morrer - pelo que queremos ser lembrados.
eu gosto de trabalhar. gosto da ideia de criar, construir um produto. mas gosto da ideia de o passar aos outros depois. de haver algo de comunitário no que estou a fazer. na construção de um produto útil que acrescente algo importante a quem o recebe. para além do meu emprego todo o trabalho que eu faço é criado por mim, não é encomendado ou pedido externamente. isto tem dois lados muito importantes que não podem ser esquecidos: por um lado é uma liberdade imensa porque depende só de mim (e eu não preciso de "obrigações" ou "prazos" para me meter na arena); por outro lado o meu trabalho não é procurado por ninguém (pelo menos não na larga maioria das vezes) - é procurado depois do produto terminado mas ninguém me procura para que crie esse produto. são dois lados que se equilibram e o resultado final do que tenho feito supera em absoluto qualquer expectativa ou hesitação. ver que nos cursos vão pessoas de outros cursos que compraram os livros de que lhes falei, vê-los a tratar os meus autores por tu. ver que de uma semana para a outra leram livros de que falei para ainda poderem falar deles em aula. ver os eventos cheios de gente que quer que existam mais. ver as perguntas que suscitam, os e-mails, o reconhecimento através da leitura.
hoje pensei muito nisto - muitos acreditam que a carreira é o oposto da vida pessoal. eu não criei uma crença do contrário, criei uma vivência do oposto. eu sou os meus livros, as minhas pessoas e os meus eventos. o meu boris vian e o meu cesariny. e sou a minha família, os meus amigos e os meus filmes. e as minhas viagens. mas neste sítio onde estou agora poucas coisas me agradam mais do que estar aqui uma noite em silêncio de volta dos meus surrealistas a ter, numa noite, um curso inteiro desenhado. há tempo para tudo nos meus dias mas estes são os dias mais meus.
se a minha carreira for ler e pôr pessoas a ler então não é em nada um oposto da minha vida pessoal e emocional. mesmo que não venha daí o dinheiro das contas. e o único legado que pretendo deixar é ter posto pessoas a ler, em bom. e isso é do caraças.

terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do livro

estes dias deveriam ser de celebração e de festa. a postura perante cenários apocalípticos para os livros tem aliás sido essa, e sem grande esforço, porque há sempre um lado nos livros mais presente e preponderante que as análises economicistas da presente conjuntura. no entanto há situações que têm de ser denunciadas e faladas à exaustão, mesmo que estejam espalhadas por todo o lado e tidas como "naturais" e "expectáveis" "face à crise".
em primeiro lugar vou-me repetir e dizer que os livros não são meros objectos de distracção, não servem como acompanhamento de momentos de pausa e de descontracção. hoje não me está a apetecer ser politicamente correcta (porque mais ninguém o tem sido no ataque aos apoios à cultura e nomeadamente aos apoios ao negócio dos livros) e portanto quero lá saber do "também pode ser para descontrair e sei lá mais o quê". vou saltar essa parte olimpicamente.
os livros fazem parte em absoluto da forma de moldar o nosso pensamento. cada livro que lemos ensina-nos um mundo de coisas, quer seja por vontade explícita do texto, quer seja por identificação com o que lemos, uma vez que cada livro tem um autor e cada autor uma vivência e um ponto de vista. não acredito na leitura como um valor em si próprio porque a leitura ensina a molda-nos o pensamento, logo, nem todas as leituras são positivas por si só.
a cultura faz parte de um modo de vida saudável e inteligente - a inteligência torna-nos mais conscientes, logo, capazes de agir em consciência, assenta-nos nos carris e torna-nos mais confiantes nas nossas escolhas e na validade do nosso quotidiano. é cretino e nada inteligente pensarmos que um estado não apoia a cultura porque o dinheiro que lhe seria devido faz mais falta em outros tipos de apoios. os apoios são todos necessários e não se substituem uns aos outros. o crime não está em querermos ter livros e teatros e cinema (que sim, tem muito público, não sabe quem não vai e se baseia em preconceitos simplistas). o erro não está em termos cortes na cultura ou livrarias a fechar porque não há poder de compra e os livros não são bens de primeira necessidade. o crime está em acharmos que isso não é grave - que não é grave termos livrarias a fechar por causa das novas leis do arrendamento. que não é grave termos um cinema reconhecido mundialmente que está parado em absoluto. termos cadeias livreiras que não respeitam a lei do preço fixo e que podem não o fazer, prejudicando o comércio tradicional. o que é grave, e já não é a primeira vez que o digo, é que se ache que tem de ser assim e que a cultura deve ser auto-suficiente. então daqui a pouco também achamos que quem quer estudar tem de pagar por isso, ou quem quer ter um sistema nacional de saúde eficaz tem de pagar por isso. a cultura meus caros, não é um bem menor. um país informado, culto, consciente, íntegro é um país com um poder incalculável. se calhar o problema é mesmo esse.

hoje é o dia mundial do livro e está marcado pelo cancelamento da feira do livro do porto, pelo fecho de duas gigantes livrarias históricas em lisboa e pelo eminente fecho de outras livrarias um pouco por todo o país. a indiferença face a isto a que assistimos por todo o lado faz-me ficar triste de viver num país que valoriza tão pouco a sua cultura, desvalorizando as suas livrarias. podemos ser um país esmagado por tiranias e que ainda assim resiste é verdade. mas assistirmos a este esmagamento da nossa história cultural de braços cruzados é, a meu ver, vergonhoso e inglório. andamos tão revoltados com o estado do país e depois há situações gravíssimas, menos "generalistas" e "óbvias" que escapam à atenção da grande maioria das pessoas.
não estou a ser muito simpática nem consensual eu sei, mas desta vez, neste dia mundial do livro, apeteceu-me em vez de me unir aos meus amigos livreiros e gentes dos livros a quem esta situação preocupa diariamente, lançar alguma água fria para cima do cinismo anti-cultura que se está a levantar em cada canto. estamos numa época perigosa. e não podemos acreditar que os inimigos são apenas os outros. temos estar atentos para que não nos encham de negativismo e desânimo e, pior que tudo, indiferença. e não podemos nunca deixar de lançar água fria a quem opta por esse caminho de forma sempre tão displicente.  eles são a rapariga da porta ao lado e essa porta está demasiado ao nosso lado para nos ser indiferente.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

hoje

é complicado estarmos sempre em questionamento. mas a verdade é que a exigência que coloco nos ombros faz-me pensar muitas vezes se este caminho que vou escolhendo é ou não o caminho certo. há uma forma de perceber por onde ir - é irmos por onde haja uma vontade irremediável de ir. e tenho sentido isso poucas vezes excepto pelo Boris Vian, que é inegável. o esforço deveria ser no diálogo com o livro e não para chegar ao livro. quando nos sentamos perante vinte pessoas e a única forma de lhes chegarmos é quando falamos pelo lado negativo, algo se passa. falta-me o fogo de artifício. ou melhor, ele não me falta - falta sentar-me diante de vinte pessoas e falar nele.
não digo que o caminho que vou escolhendo esteja errado. é o que eu sei e conheço, o que eu sei defender e de que sei falar. sei até que tenho uma missão de lutar contra alguns preconceitos e pôr pessoas a questionar as suas dúvidas. mas há algo de estável nisto tudo, de plano. e como afirmei hoje esse é o maior dos crimes.
tenho demasiados livros em cima da mesa. tenho demasiadas ideias. tenho poucas pessoas para falar e para me puxarem ideias para fora. tenho demasiado trabalho utilitário. estou num mau sítio literário onde ler todos os dias não chega, preciso andar espantada de ler todos os dias. falta-me poesia. golpes de génio. deposito alguma esperança em livros novos. vamos ver onde me leva este  caminho tão exasperante quanto explosivo. terá de ser a outro lado sem deixar este. terá de ser um caminho a mais.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

para que fique claro

se bem que me parece incrível que tenha de esclarecer algumas mentes sobre isto: o facto de um livro vender muito e ser lido por muitas pessoas não significa que seja um bom livro ou que o facto de ter muitos leitores seja uma mais-valia para a qualidade do livro. meus queridos, vamos pôr os padrõezinhos lá em cima ok?
obrigada.


quinta-feira, 14 de março de 2013

angústias para todas as refeições

escrevo este texto mais para mim do que para qualquer outra pessoa, mas enfim, levam comigo, também não dói.
(neste momento já perdi pelo menos 4 dos 5 leitores deste texto.)
ando numa fase de alinhamento profissional. com um trabalho que não me enche as medidas invento muitos trabalhos para manter a cabeça a funcionar. luto com o cansaço, a falta de tempo, a vontade de ficar a olhar para a parede. leio livros, blogs, sites, penso em permanência em novas ideias. depois fico mentalmente exausta e lido com isso como posso, com dias mais angustiantes do que outros.
ultimamente tenho tido dificuldade em lidar com o meu lado mais emocional. sinto que a emoção vai tomando conta do que escrevo (e agora vou centrar isto nos blogs) e quando um texto tem um lado racional e um lado emocional, normalmente é o lado emocional que é mais forte e que se vê. e esse é falado e comentado, mas mais nenhum lado. e assim fico sem perceber o valor, o propósito, a conveniência do que escrevo. vivo tudo isto com uma imensa solidão, poucos amigos lêem o que escrevo, e os que lêem pouco falam. nestes momentos de crise e de questionamento do que realmente vale o que faço, preciso de uma visão externa.
como dizia há pouco uma amiga, os momentos de crise servem para colocarmos em perspectiva o que fazemos e o que queremos e como queremos fazê-lo. quem me conhece sabe que esses momentos de questionamento são muito mais e mais intensos do que os momentos de tranquilidade. e em perspectiva neste momento só consigo ver que a normalidade não me diz nada. leio dezenas de entradas de blogs de livros por dia e questiono-me sempre: porquê dizer que determinado autor ganhou determinado prémio sem comentar esse prémio? porque raio perder tempo com uma crítica literária a um livro se me limito a contar a história? tenho sempre opiniões, e muitas, sobre tudo. a minha questão é se não pareço uma miúda da escola a falar de livros.
outra questão é se não digo determinadas coisas apenas para provocar determinadas reacções deixando assim de ser absolutamente livre no que escrevo. esta frase relida é idiota eu sei, porque isso é o normal quando se escreve, mas também não vou explicar melhor.
na verdade o que eu devia ser sempre era mais independente. mais do que me tenho pautado sempre por ser. preocupar-me menos que determinadas pessoas se sintam ou não identificadas com o que escrevo. e se esconder a emoção passo a ser um balão em final de festa.
portanto é isso, vou continuar a escrever sobre o que me apetece, e criticar quem me apetece, e a escrever textos que parecem ter sido tirados do armário da sininho quando amo um livro. e quando esta crise passar vou voltar à minha postura. deixem-me só navegar mais uns dias em insegurança e queixumes. vou tentar fazê-lo em silêncio.

quarta-feira, 6 de março de 2013

"books on prescription"

no Reino Unido acaba de ser lançado o programa "books on prescription". o Serviço Nacional de Saúde em parecria com a The Reading Agency definiram uma lista de trinta livros que os doentes podem ler de acordo com a sua patologia. as patologias abordadas não se cingem às doenças mentais e do foro psicológico, contemplam também, e como exemplo, a dor crónica.
está lançada a discussão como imaginam. ao contrário do que tem sido noticiado por aí não estamos perante uma lista de livros de auto-ajuda. são livros muito variados incluindo livros de Jo Brand  e Terry Jones ou dos grandes Mark Haddon e Bill Bryson. já aqui falei do valor terapêutico dos livros e a discussão é sempre a mesma (por discussão leia-se debate) - que livros e para que fins? que livros podem ter o efeito oposto ao que se pensa? que livros são adaptados a que pessoas?
vejo no entanto de forma positiva esta iniciativa. talvez por ver oficializado aquilo que quem lê sabe há muito tempo - que os livros são fundamentais no definir do que somos, sentimos e na forma que temos de nos posicional perante a realidade. e sem efeitos secundários.





vejam aqui a notícia no The Independent.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

solidão literária e auto-produção

há uns anos para cá decidi trabalhar sozinha. por muitas desilusões pessoais e profissionais mas sobretudo porque depois os projectos ficavam a meio e aquilo entristecia-me. é que deixar um projecto a meio encanita-me até à lua. no entanto a escolha de trabalhar sozinha é muito mais uma defesa do que uma escolha efectiva. detesto avançar, descobrir pérolas, imaginar um espectáculo, um curso, um evento sem ter ninguém com quem partilhar o que se vai passando. assim vou arranjando amigos (cada vez menos efectivamente) com verdadeira paciência para ouvirem o que ando a fazer. numa época em que as minhas pessoas se viram cada vez mais para dentro e para as suas vidas eu vou realmente ficando mais sozinha no processo criativo e no processo de crescimento de ideias. salvo honrosas excepções, claro, ainda esta semana num café com um amigo pedi para trabalharmos juntos só para que ele estivesse ao meu lado na altura em que eu tivesse (potencialmente) uma epifania. ele disse que sim. ele tem muita paciência para mim. é querido.

claro que para além disso tenho os blogs. se quiserem lêem, se não quiserem não lêem mas eu escrevo e partilho.
e hoje queria partilhar com vocês o meu novo processo de auto-produção, uma técnica muito aconselhada para quem tiver comportamentos obsessivos como o meu no que o obsessivo tem de positivo. uma técnica muito comum mas que eu vou agora teorizar, porque me apetece partilhar isto com vocês.
lembro-me de ter 7 ou 8 anos e já ser assim, auto-produtora do meu tempo. almoçava sempre à mesma hora, na casa da minha avó e sentava-me sempre à mesma hora na mesma cadeira, na mesma posição e fazia os trabalhos de casa até exactamente à mesma hora, que era cedíssimo, tipo 15h. depois saía porta fora e ia para casa das avós da I. brincar. que na casa da minha avó não podíamos nem mexer numa almofada na casa da avó da I. tínhamos um quarto só para nós e fazíamos bolos de terra. depois cresci e na escola era ultra organizada. era muito boa aluna mas não era excepcional no entanto nunca fazia noitadas, nunca tinha stresses, era tudo pensado antecipadamente como os produtores devem fazer. só descambou muito mais tarde, no mestrado onde trabalhava ininterruptamente das 8h às 23h quando caía desfalecida de cansaço, sem folgas nem fins de semana. aliás lembro-me muito pouco do que aconteceu esses meses, tenho um buraco na memória. mas até aí quando o Zink me disse que tinha de entregar a tese já no dia a seguir, dois dias antes do previsto, eu tive um colapso nervoso mas na verdade a tese estava pronta. eu é que não estava pronta.

no outro dia voltei a colapsar. fiquei duas horas a olhar para a televisão sem estar a ver televisão, a ver imagens e sons a passar e sem conseguir pensar em absolutamente nada. e então reavivei o processo de auto-produção que me tinha salvo na altura dos exames nacionais, ainda na escola. muita gente me pergunta como consigo eu fazer tanta coisa ao mesmo tempo, se tenho tempo para respirar e o que lhes digo é, sem qualqure falsa modéstia, que o que tenho para fazer não é assim tanto e faz-se muito bem ao longo do dia sem ter de abdicar de absolutamente nada. o dia é gigante se for pensado na totalidade. portanto este processo tornou-se fácil de gerir. a técnica é sair de dentro da minha cabeça e perceber, como se fosse um amigo a tentar ajudar-me, tudo o que tenho de fazer. e, meus caros, quando digo tudo o que tenho para fazer, é tudo. desde separar capítulos dos livros numerando-os, lê-los, enviar e-mails, pesquisar falhas do curso anterior ara que não falhe agora, ler artigos, entrevistas, preparar livros para o LEVA (este tem notas e não podem ser lidas na totalidade), recolher textos do Vian já seleccionados, a reformular apontamentos dos cursos, registar voluntários, etc.. depois organizar cada uma das coisas por dias, numa lista, ou melhor em duas listas. numa, num calendário mensal, com os avanços do trabalho. outra, sem datas, das coisas paralelas que não me posso esquecer de fazer. a ideia é que a cabeça não volte a colapsar, ou melhor, que no dia em que tiver de colapsar, o possa fazer em paz, porque o trabalho já foi organizado antecipadamente e portanto não é necessário estar todos os dias em sentido. e o trabalho flui.

isto funciona. não cumpro diariamente mas há um dia em que consigo recuperar o atraso e é um alívio gigante. agora sim consigo ver alguma luz ao fundo do túnel com o espectáculo do Boris Vian para o qual tenho ainda de ler uns nove ou dez livros para escolher textos antes de começar a desenhar o espectáculo.

eu sei que isto roça a patologia mas a verdade é que desde que comecei a produzir-me a mim própria ando muito mais descansadinha. se precisarem de ajuda, já sabem, peçam-me a mim que também vos posso "produzir". em troca venham trabalhar para o café comigo para que, se voltar a ler um texto como o que postei aqui do Boris Vian tenha a quem mostrar. é que até dei saltinhos. e dar saltinhos sozinha é ridículo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

a leitura está fora de moda

há alguma animosidade com os livros. já sabem que tento sair da minha bolha para entender e analisar os movimentos sociais que se geram à volta da ideia da leitura mas que seja como for será sempre a minha bolha. um pouco alargada, vá. foquemos nesse ponto de vista.
a leitura de um livro pressupõe sempre uma enorme diversidade de sensações, universais (sim, universais dentro de um universo de leitores, universo onde me vou centrar, para além da minha bolha). temos o enredo e a escrita, que muitas vezes não se relacionam, ou, pelo menos, não se interligam em absoluto. depois temos a leitura emocional e a leitura crítica onde se opera o mesmo fenómeno de uma não interligação nem imediata nem obrigatória. socialmente a leitura e a partilha de "leituras" tem caído em desuso, cada vez mais a leitura é um processo solitário. muito longe da música e do cinema por exemplo (se bem que a faceta literária do cinema caia no mesmo problema) onde toda a gente partilha e mostra e quer falar disso. é comum vermos conversas de muito tempo sobre a música que gostamos e partilhas de downloads e de vídeos do youtube e de CD's físicos. com livros assistimos a um mercado negro de partilha de livros sem grandes alaridos ou comentários, quase como se fosse uma actividade clandestina. tornou-se desconfortável e desagradável estar muito tempo a falar de livros. das características que falei em cima há umas que se vão sobrepondo. a história é mais fácil de receber, entender e assimilar do que a escrita. neste mesmo sentido a leitura crítica perde terreno para a leitura emocional que também é mais fácil de assimilar porque é instintiva.
ler e ler muito e falar sobre isso tornou-se elitista. pensar os livros está fora de moda. ou gostamos ou não gostamos e pronto, e se gostamos passamos ao próximo e ficamos por aí. a crítica literária aproxima-se dramaticamente da descrição do enredo com pequenos apontamentos para a escrita (salvo raras e honrosas excepções). já lá vai o tempo em que se assumia com naturalidade que o eça não podia estar mais a borrifar-se para a história dos irmãos maias e que aquilo que verdadeiramente lhe interessava era a forma com eles reagiam a essa história. como eles, enquanto lisboetas do final do século XIX reagiam a essa história. era assumido que era assim. os leitores do século XX passavam muitas vezes aquilo que se costumou chamar "páginas de descrição" (??) à frente para chegarem à história de amor. se calhar era mais fácil ler um nicholas sparks que é mais pequeno e ele já fez esse favor ao leitor. ler um livro não deveria ser sacar dele aquilo que nos interessa. é um exercício cansativo e frustrante, assassina os livros e não nos traz nada de novo. os livros, na minha modesta opinião, servem e existem para nos fazer evoluir. para nos acrescentar alguma coisa. se fintarmos o que nos livros nos provoca esse efeito não me ofende, de todo. mas transforma o tempo de quem o faz em tempo perdido e a cabecinha num elo mais fraco.

o que queria referir aqui é que já não há boas conversas sobre livros (na minha bolha entenda-se). tenho saudades daqueles momentos de conversas que nunca seriam elitistas porque aí a leitura não era elitista em que falávamos horas sobre os livros que tínhamos lido e os livros que queríamos que os outros lessem. sem "cenas". só nós e os nossos livros a falarmos sobre isso. sinto uma grande solidão hoje em dia na minha vida que, arrisco dizer, tem em si os livros como a marca mais forte. se calhar por isso é que tenho este blog, que por alguma razão tem tão poucos comentários. os livros estão fora de moda. ou melhor, não quero ser injusta. a leitura, a verdadeira, está fora de moda.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

a melancolia escreve?

há assuntos recorrentes, seja em conversas sérias seja na reinação com os amigos escritores. este é um deles.
começo já por ser suspeita porque dediquei o primeiro livro que (não) escrevi à melancolia. para verem que terei de sair um bocado da minha realidade para conseguir pensar bem sobre isto.
será que um bom escritor não pode ser feliz? será a felicidade inimiga da criatividade?
vamos primeiro a factos (sim, muita gente move-se a factos científicos por isso venham eles). há realmente um grande número de escritores que se suicidou e é ainda maior a lista de escritores com perturbações mentais. para além disso as doenças mentais sempre tiveram uma relação estreita com a criatividade e a criação.
depois há outros factos menos exactos mas que são os que observo. a felicidade leva-nos para uma realidade mais quotidiana. torna-nos mais confortáveis e apaziguados com a nossa realidade. para além disso torna-nos mais predispostos ao contacto humano e social. a melancolia e a tristeza (que, atenção, não são de todo a mesma coisa!) levam-nos a um questionamento constante, o questionamento leva-nos à necessidade de olharmos para dentro, de nos tornarmos um novelo enrolado para dentro, e a escrita, em última instância (excluindo escritas que agora vou fingir que nem existem) vem dessa necessidade de verbalizar um questionamento interior. a escrita criativa entenda-se.
não vou fazer declarações preto no branco porque não é o meu género ou não quero que seja. mas a melancolia e o estado de questionamento estão definitivamente ligados a uma escrita que cumpre esse propósito de questionamento.
se podemos ser felizes e escrever? podemos, claro e muitos podem fazê-lo e fazem-no. mas o exercício da escrita será muitas vezes, nesses casos, muito mais cansativo e doloroso porque teríamos sempre de forçar esse questionamento melancólico.

(antes da chuva de pedras volto a referir que falo apenas de um tipo de escrita, que não preciso de dizer qual é, vocês são espertos)


"Even as adults, some writers take the easiest route through life—avoiding risks, playing it safe, and being nauseatingly wholesome. Can they be great writers? Sure... but only if they want to write that marketing copy for a yogurt company. Being a great writer in the sense that you understand the intricacies of grammar and are able to convey your thoughts with clarity is different from being an outstanding storyteller. Being a storyteller requires you to truly live, to go out on the edge, to deal with the pain when it comes, to fight through the sadness, to embrace the joy, and to come out the other side with amazing stories to tell. "

(este parágrafo, ilustração e tudo o que me fez pensar nisto aqui, neste artigo. sublinhados meus)