As razões da escrita são quase em mesmo número que os escritores. Cada escritor escreve por razões diversas, cada um com as suas. Mas há objectivos que se misturam com consequências naturais da escrita. A escrita de que aqui falamos (que não é de todo a maior parte do que é realmente escrito e visto como tal) é a que é publicada. A que chega a nós através dos novos autores. A publicação pressupõe a venda de livros. A venda pressupõe que alguém faça um negócio posterior ao acto da escrita. Aqui entram em conflito diversas questões. Como em qualquer negócio é necessário efectuar vendas. Para que editoras e livrarias possam sobreviver. Há poucos escritores a viver de livros, apesar de haver muitos a viver do que anda à volta da escrita - prémios, crónicas em jornais, conferências e outros convites. A ideia de best seller é hoje uma ideia muito deturpada e diferente do que era há uns anos. Hoje há mais leitores. Toda a gente lê um livro, o que não acontecia há 30 / 40 anos atrás. Assim, no momento em que a leitura se massificou, muitos leitores "novos" procuraram "conselhos" de leitura fora de circuitos familiares e próximos pois muitas vezes quem os rodeava não tinha os mesmos hábitos de leitura. Assim tornou-se cada vez mais importante apostar no marketing do livro. Hoje é certo que um livro que seja referido positivamente em jornais ou revistas de grande tiragem, ou num telejornal de um canal de televisão com muita audiência é um livro que vai vendrer muito nesse dia e dias seguintes numa livraria. Uma questão importante é qual a diferença entre quem lê e quem compra, visto ser claro que não é, de todo, a mesma realidade. Há uns anos atrás o brilhante livro de Cortázar, Rayuela, traduzido pela Cavalo de Ferro com o nome de Jogo do Mundo esteve várias semanas nos top's nacionais de vendas. Garanto que apenas uma percentagem muito pequena das pessoas realmente leu o livro (e quem o leu sabe porque digo isto). Para as vendas, efectivamente, o livro foi um sucesso. Mas sera que cumpriu o seu objectivo primeiro? E aí começam as perguntas. Qual é o objectivo da escrita? Chegar a alguém, ser lida. Sim. Mas será que para todos os escritores o objectivo primeiro da escrita é ser lido? Ou é a escrita em si? Aqui podemos entrar em conjecturas. E do alto da nossa infinita sabedoria de leitores podemos considerar que sabemos bem qual a diferença entre quem escreve "para vender / para ser lido" e quem escreve "para si próprio / pela própria escrita". O que é mais fácil de avaliar é que os contratos das editoras com os escritores os obrigam a fazer sair os seus livros com uma periodicidade mais ou menos fixa. Não acontece com todos. Nem significa que o livro que acaba de sair tenha acabado de ser escrito.
São muitas as variantes. Não podemos com isto esquecer que há também aquilo que o escritor diz. Júlio Magalhães nas correntes d'escritas deste ano, admitiu abertamente e de forma honesta que o propósito da sua escrita é chegar aos leitores de forma descontraída, sem grandes ambições literárias.
Podíamos discutir este tema sem fim, com muitas opiniões diversas, e chegar mesmo à apoteose da discussão quando começássemos a referir nomes. Mas este segredo está absolutamente guardado e inacessível. A nossa liberdade limita-se às conjecturas. E venham elas!
A conferência "novos autores e novas escritas em Portugal" acontece dia 23 de Março, às 21h30 no MAEDS, Avenida Luísa Todi, nº162, Setúbal, a convite da Synapsis.
Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
terça-feira, 13 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
III Encontro Livreiro - já faltou mais
Já só faltam duas semanas para o Encontro Livreiro. Não é necessário repetir o que já aqui foi dito. Quero apenas reforçar a ideia de que não é um encontro "de livreiros" e sim um encontro "livreiro" (não digo isto por acaso, os mal entendidos são muitos), encontro de gentes do livro. É um dia de encontros e conversas boas, intervenções e amizades. Pessoas dos livros, e o mundo inteiro que isso significa. A Culsete tem espaço para todos.
A todos os que queiram propomos que nos enviem um texto escrito para o blog do Encontro, o Isto não fica assim. Falem-nos do tema deste ano, esperança no futuro da leitura, do livro e da livraria, escrevam e pensem em conjunto connosco. O mais bonito e, arrisco dizer, mais revolucionário deste encontro face a tudo o resto que existe por aí é que não tem mesas, nem convidados, nem palco. Tem pessoas e um microfone e uma livraria anfitriã.
Se quiserem podem dar o vosso nome e ocupação / profissão para registarmos os nomes dos nossos ilustríssimos presentes, para o e-mail encontro.livreiro@gmail.com. Claro que podem sempre aparecer sem registo!
Não posso deixar de relembrar a nossa homenagem ao querido livreiro Jorge Figueira de Sousa, que recebe neste Encontro o título de Livreiro da Esperança 2012 pelo trabalho único na divulgação dos livros e da leitura na sua livraria Esperança, no Funchal.
Dia 25 de Março, a partir das 15h, todos a Setúbal. Já sabem que ofereço boleias!
Até lá!
A todos os que queiram propomos que nos enviem um texto escrito para o blog do Encontro, o Isto não fica assim. Falem-nos do tema deste ano, esperança no futuro da leitura, do livro e da livraria, escrevam e pensem em conjunto connosco. O mais bonito e, arrisco dizer, mais revolucionário deste encontro face a tudo o resto que existe por aí é que não tem mesas, nem convidados, nem palco. Tem pessoas e um microfone e uma livraria anfitriã.
Se quiserem podem dar o vosso nome e ocupação / profissão para registarmos os nomes dos nossos ilustríssimos presentes, para o e-mail encontro.livreiro@gmail.com. Claro que podem sempre aparecer sem registo!
Não posso deixar de relembrar a nossa homenagem ao querido livreiro Jorge Figueira de Sousa, que recebe neste Encontro o título de Livreiro da Esperança 2012 pelo trabalho único na divulgação dos livros e da leitura na sua livraria Esperança, no Funchal.
Dia 25 de Março, a partir das 15h, todos a Setúbal. Já sabem que ofereço boleias!
Até lá!
terça-feira, 6 de março de 2012
"novos autores e novas escritas em Portugal" parte um | os autores e as pessoas
Este tema parece sobejamente falado e debatido. Desde os tempos de escola que se discute se fará diferença conhecer a vida do autor, as suas nuances pessoais, para o compreender melhor. Creio que a maioria responde que não, que a obra vale por si. Outros respondem que acrescenta dados às leituras e interpretações. Em autores como Fernando Pessoa a vida pessoal é a própria obra, ou melhor, aquilo que se considera saber sobre a vida pessoal pode bem ser obra. Serão sempre especulações. Em autores como o Luiz Pacheco a vida dele é tantas vezes mais conhecida do que a obra. E o amor que lemos na Comunidade é muito maior porque "aquele" Luiz Pacheco o sentiu e escreveu.
Mas quando falamos dos novos autores, nossos contemporâneos e, claro, vivos, podemos falar do que é conhecê-los, não só através de entrevistas e aparições públicas mas também pessoalmente. Um escritor nunca vai ser uma figura pública como as outras a não ser que não sejamos seus leitores. Mas tenho a ideia romântica de que só olhamos para um escritor enquanto tal depois de o ter lido. É como um segredo entre nós e eles. Nesse sentido aquilo que sabemos sobre ele será sempre mais do que ele sabe sobre nós. Esta, para mim, é uma das linhas que distingue um escritor muito bom. Quando estamos a falar com ele pela primeira vez e quase sentimos desconforto por saber que lhe conhecemos as entranhas. Que sabemos os cantos negros do que pensa, que lhe conhecemos a poesia. Quando sentimos carinho por ele nas primeiras palavras porque imaginamos que quem escreve aquilo tem de ser naturalmente encantador. Isto não é linear mas a mim nunca me enganaram. Até hoje. Os que se mostraram desinteressantes, vazios de sentido, os que pareceram figuras mais públicas do que de escrita são apanhadas em poucas linhas. Podem ter arte mas falta-lhes sangue. E um escritor tem de ter sangue no que escreve. Seja em forma de desenho, poema, texto infantil, ficção. Seja no que for, porque na sua medida única a escrita deve ser um espelho, uma história que existe no mesmo espaço que a folha e o escritor e depois com os leitores. Um escritor em bom faz-nos querer conversar com ele com uma folha escondida.
Só assim a escrita cumpre o seu objectivo final de passar uma mensagem, para quem a quiser receber. Porque um público deve escolher o seu escritor e não o contrário. Discordem de mim se acharem que não tenho razão.
A conferência "novos autores e novas escritas em Portugal" acontece dia 23 de Março, às 21h30 no MAEDS, Avenida Luísa Todi, nº162, Setúbal, a convite da Synapsis.
“novos autores e novas escritas em Portugal” em Setúbal
Quem são os novos autores portugueses? O que os une e o que os separa? Em que nome escrevem e em que nome surgem em público? Numa época de novas tecnologias, novas formas de aparecer em público, crise económica, intelectual e ideológica, o que é preciso para se ser um escritor?
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, a cima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?
23 de Março, 21h30
Synapsis e MAEDS apresentam
novos autores e novas escritas em Portugal
com rosa azevedo
MAEDS
Avenida Luisa Todi, nº162
2900-451 Setúbal
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, a cima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?
23 de Março, 21h30
Synapsis e MAEDS apresentam
novos autores e novas escritas em Portugal
com rosa azevedo
MAEDS
Avenida Luisa Todi, nº162
2900-451 Setúbal
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
depois de
Acho que chegou a altura
de parar outra vez. Pensar tudo o que pensei outra vez naquelas três
semanas de "cativeiro". Percebi que me tinha esquecido de tudo quando
fui ler o que escrevi. E não pode acontecer porque não podemos
desaprender mesmo que queiramos esquecer as provações mais tristes.
Porque triste é o que se tornam os dias sem saber o que aprendi ali.
Descubro que não tenho tempo. Que não vejo o rio desde aquela altura, com os dois olhos abertos. Que não penso com o nascer do sol. Que me custa acordar e que me custa adormecer. Que me custa muito esta batalha dos dias. E descrevi os dias como uma batalha e achei que estava a ser destrutiva mas não estou. Porque é mesmo isso que são todos os dias. O dia que deixar de ser uma batalha é o dia em que me deixo arrastar e deixo que me ditem as regras. E às vezes a pele é fraca, os sentidos estão dormentes. E na batalha não estão. Na batalha os sentidos estão alerta e encantados.
Tenho medo. De saber o que me aconteceu. De que me aconteça outra vez. De fazer os mesmos erros do passado. De não ser apaixonante. Da solidão. Tenho medo da solidão. Mas tenho mais medo de desistir. Nunca em nenhum dia desisti. E quando parecer que estou num sítio onde não me cabem os movimentos dos braços quero ter as palavras que tive lá a ressoar na cabeça e no coração. Não vou desistir de nada, mesmo que quem me cuida me peça desistências para que a minha cabeça descanse. Tenho a minha não desistência como a certeza da inevitabilidade da beleza disto tudo. E a minha cabeça nunca quis descansar. Mesmo quando esteve exausta. Mesmo quando saiu de lá e nada era como dantes.
Há quem diga que o hospital me trouxe mais espiritualidade, me aproximou da religião e do desconhecido. Não foi isso que aconteceu mas esteve perto disso. Apercebi-me do não limite do nosso corpo. Percebi que há um mundo inteiro que nunca vi. Que talvez o nosso tempo seja curto. Que o nosso tempo é sempre curto. Que há muitas pessoas a quem podemos ajudar só com uma hora de conversa. Que temos um poder ilimitado na relação com os outros.
E depois percebi o que devo às pessoas. Que quando o meu mundo começar a desfazer-se eu monto-o mais forte que antes para que os outros não me vejam falhar. E que só quando os outros se recompuserem eu vou poder permitir-me cair um pouco, o tempo exacto de alguém começar a cair. Porque a amizade funciona desta forma, como uma montanha russa. Nunca tem duas pessoas em baixo.
E depois percebi o amor. Que não se faz de encontros furtivos, nem de meses contados. O amor é encontrar a pessoa com quem nunca temos de fingir, a única que pode ir ao fundo ao mesmo tempo que nós, porque lá em baixo somos sem pele nem mentiras nem segredos. E onde encontramos nessa nudez total o sítio certo onde nos sentimos bem. É encontrar a pessoa que todos os dias nos pensa e imagina no melhor de nós. E precisa de todos os dias fazer seja o que for para nos amaciar as dores. E que é o único que nos vê por vezes sem dores nenhumas. E o amor já não pode ser menos do que isto nem o será muitas vezes na vida porque é demasiado raro.
Agora preciso de pegar em todos estes ensinamentos e deixar que eles me guiem. Mesmo que a batalha me canse e por vezes oiça aquela voz dentro da cabeça "estou cansada estou cansada estou cansada". Há sempre um sítio secreto onde descansar.
Hoje sou indesistível. Sou com vocês indesistível. Nao me peçam menos que eu não sei dar. Os dias são grandes e a vida é bonita. E todos os dias têm uma poesia que fala nisso. Só é preciso encontrá-la.
Descubro que não tenho tempo. Que não vejo o rio desde aquela altura, com os dois olhos abertos. Que não penso com o nascer do sol. Que me custa acordar e que me custa adormecer. Que me custa muito esta batalha dos dias. E descrevi os dias como uma batalha e achei que estava a ser destrutiva mas não estou. Porque é mesmo isso que são todos os dias. O dia que deixar de ser uma batalha é o dia em que me deixo arrastar e deixo que me ditem as regras. E às vezes a pele é fraca, os sentidos estão dormentes. E na batalha não estão. Na batalha os sentidos estão alerta e encantados.
Tenho medo. De saber o que me aconteceu. De que me aconteça outra vez. De fazer os mesmos erros do passado. De não ser apaixonante. Da solidão. Tenho medo da solidão. Mas tenho mais medo de desistir. Nunca em nenhum dia desisti. E quando parecer que estou num sítio onde não me cabem os movimentos dos braços quero ter as palavras que tive lá a ressoar na cabeça e no coração. Não vou desistir de nada, mesmo que quem me cuida me peça desistências para que a minha cabeça descanse. Tenho a minha não desistência como a certeza da inevitabilidade da beleza disto tudo. E a minha cabeça nunca quis descansar. Mesmo quando esteve exausta. Mesmo quando saiu de lá e nada era como dantes.
Há quem diga que o hospital me trouxe mais espiritualidade, me aproximou da religião e do desconhecido. Não foi isso que aconteceu mas esteve perto disso. Apercebi-me do não limite do nosso corpo. Percebi que há um mundo inteiro que nunca vi. Que talvez o nosso tempo seja curto. Que o nosso tempo é sempre curto. Que há muitas pessoas a quem podemos ajudar só com uma hora de conversa. Que temos um poder ilimitado na relação com os outros.
E depois percebi o que devo às pessoas. Que quando o meu mundo começar a desfazer-se eu monto-o mais forte que antes para que os outros não me vejam falhar. E que só quando os outros se recompuserem eu vou poder permitir-me cair um pouco, o tempo exacto de alguém começar a cair. Porque a amizade funciona desta forma, como uma montanha russa. Nunca tem duas pessoas em baixo.
E depois percebi o amor. Que não se faz de encontros furtivos, nem de meses contados. O amor é encontrar a pessoa com quem nunca temos de fingir, a única que pode ir ao fundo ao mesmo tempo que nós, porque lá em baixo somos sem pele nem mentiras nem segredos. E onde encontramos nessa nudez total o sítio certo onde nos sentimos bem. É encontrar a pessoa que todos os dias nos pensa e imagina no melhor de nós. E precisa de todos os dias fazer seja o que for para nos amaciar as dores. E que é o único que nos vê por vezes sem dores nenhumas. E o amor já não pode ser menos do que isto nem o será muitas vezes na vida porque é demasiado raro.
Agora preciso de pegar em todos estes ensinamentos e deixar que eles me guiem. Mesmo que a batalha me canse e por vezes oiça aquela voz dentro da cabeça "estou cansada estou cansada estou cansada". Há sempre um sítio secreto onde descansar.
Hoje sou indesistível. Sou com vocês indesistível. Nao me peçam menos que eu não sei dar. Os dias são grandes e a vida é bonita. E todos os dias têm uma poesia que fala nisso. Só é preciso encontrá-la.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
vamos fazer um espectáculo oh vamos borisvianar
amigos,
há projectos que passamos a vida a adiar. Eu faço isso muitas vezes, porque nem sempre as razões para os iniciar são as melhores razões.
Faz agora três anos eu e a J. apresentámos um mini espectáculo no bairro alto sobre o Boris Vian. Com uma cortina vermelha, livros e algumas notas falávamos da vida dele, líamos textos, adoptávamos algum do espírito surrealista tão borisvianista, tudo ao som da música dele.
Desde aí que me apetece fazer um espectáculo todo ele Boris Vian mas um bocado mais desenvolvido do que este. Com mais aspectos da vida dele, curiosidades, sentido de humor. Quero perceber melhor a cabeça dele, o génio, o que o levava a escrever assim, quem foi esta personagem ao mesmo tempo tão doce, escatológica, fria, imaginativa e com um sentido de humor irrepetível. Já comecei muitas vezes a pensar este espectáculo, sozinha e com outras pessoas, mas nunca o terminei. Já li muitas coisas, aprendi muitas coisas mas serão sempre mais as que me faltam aprender do que as que sei.
É aí que vocês entram. Decidi escrever este espectáculo sozinha e depois procurar "as minhas pessoas" para o representarem comigo. Mas já sabem que não faço nada realmente sozinha até porque anda certamente por aí muito boa opinião sobre Boris Vian. E imagens, e músicas. E quem o deteste. E quem saiba segredos. E quem queira só falar comigo. Eu quero falar sobre ele. Podemos fazer isso em cafés, em chats, no meu palácio, ou por e-mail (rosa.b.azev@gmail.com), ou pelo blog.
Vamos pensar Boris Vian. Falar de Boris Vian. Ouvir Boris Vian. Vamos borisvianar.
há projectos que passamos a vida a adiar. Eu faço isso muitas vezes, porque nem sempre as razões para os iniciar são as melhores razões.
Faz agora três anos eu e a J. apresentámos um mini espectáculo no bairro alto sobre o Boris Vian. Com uma cortina vermelha, livros e algumas notas falávamos da vida dele, líamos textos, adoptávamos algum do espírito surrealista tão borisvianista, tudo ao som da música dele.
Desde aí que me apetece fazer um espectáculo todo ele Boris Vian mas um bocado mais desenvolvido do que este. Com mais aspectos da vida dele, curiosidades, sentido de humor. Quero perceber melhor a cabeça dele, o génio, o que o levava a escrever assim, quem foi esta personagem ao mesmo tempo tão doce, escatológica, fria, imaginativa e com um sentido de humor irrepetível. Já comecei muitas vezes a pensar este espectáculo, sozinha e com outras pessoas, mas nunca o terminei. Já li muitas coisas, aprendi muitas coisas mas serão sempre mais as que me faltam aprender do que as que sei.
É aí que vocês entram. Decidi escrever este espectáculo sozinha e depois procurar "as minhas pessoas" para o representarem comigo. Mas já sabem que não faço nada realmente sozinha até porque anda certamente por aí muito boa opinião sobre Boris Vian. E imagens, e músicas. E quem o deteste. E quem saiba segredos. E quem queira só falar comigo. Eu quero falar sobre ele. Podemos fazer isso em cafés, em chats, no meu palácio, ou por e-mail (rosa.b.azev@gmail.com), ou pelo blog.
Vamos pensar Boris Vian. Falar de Boris Vian. Ouvir Boris Vian. Vamos borisvianar.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O Círculo da Felicidade
Há uns tempos escrevi um livro para crianças que se chamava O Círculo da Felicidade. Mais do que livro era um jogo para as crianças. Que nasceu com os adultos. O princípio é o mais simples de todos. As crianças pensam em todas as coisas que mais gostam, que as fazem sentir mesmo felizes. Saem as frases mais mirabolantes, os conceitos mais bonitos e também os mais divertidos. Esse livro está pronto, com ilustrador e tudo à espera de ver a luz do dia.
Entretanto às vezes falo nele com pessoas que já não são crianças. E penso nele eu também. E aprendi ao longo destes quatro anos em que o penso a viver a par com o meu círculo da felicidade. A ir buscá-lo a qualquer hora.
Desde que saí do hospital que aconteceram muitas coisas, para além do hospital em si e do efeito da medicação, que me fizeram precisar e pensar muito no meu círculo da felicidade. E vi-o em Sintra quando a R. me ofereceu a Nossa Senhora das Mentes Iluminadas para que a minha cabeça se mantenha bonita com esta fé que é a nossa e que se encontra nos labirintos que quiser e na forma que quiser; na L. a gritar ao fundo do corredor quando me sente entrar "tia rosiiiiinha tia rosiiiiinha já não vais mais para o hospital que eu tive tantas tantas saudades tuas"; ontem a trocar segredos com a I. enroladas em mantas e aquecedores e ela dizer que o que nós precisamos é de café com leite condensado (magro claro) e depois de uma razão qualquer para acabar com a lata; ao segurar a S. ao colo que nem dois meses tinha e ficar a ver a cabeça dela aninhar-se no meu pescoço; no ouvir o Fossanova a atravessar o rio sozinha na minha carripana, a caminho do Samouco onde as crianças gritam pela casa e vêm a correr buscar-me à porta e não me saem do pescoço o dia todo; no estar em frente ao mar com a F., a J., o F., o N. deitados na areia e sentir a água do mar passar pelos kgs de roupa que nos vão proteger do frio dessa noite; no ouvir a voz do L. e ter a pele dele ao pé da minha; no ler um texto do Pullman que põe Jesus a falar, revoltado e triste, com Deus e sentir aquela excitação do "caramba...", que nem me deixou dormir; no voltar a escrever um poema mesmo que arranhado e torto; ontem sair do médico e ter a R. no café; a ouvir o FMI do José Mário Branco depois de vir do LIDL de Odemira e pensar que é mesmo isto.
"Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"
A questão é mesmo esta. O Círculo da Felicidade tem um só lado. Não podemos ficar em casa a imaginar que em tempos houve coisas que tínhamos dentro do círculo e que já saíram. Toca a mexer. A procurar. A vida é gigante e o mundo não pode ter fossos onde possamos cair. "Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro."
Entretanto às vezes falo nele com pessoas que já não são crianças. E penso nele eu também. E aprendi ao longo destes quatro anos em que o penso a viver a par com o meu círculo da felicidade. A ir buscá-lo a qualquer hora.
Desde que saí do hospital que aconteceram muitas coisas, para além do hospital em si e do efeito da medicação, que me fizeram precisar e pensar muito no meu círculo da felicidade. E vi-o em Sintra quando a R. me ofereceu a Nossa Senhora das Mentes Iluminadas para que a minha cabeça se mantenha bonita com esta fé que é a nossa e que se encontra nos labirintos que quiser e na forma que quiser; na L. a gritar ao fundo do corredor quando me sente entrar "tia rosiiiiinha tia rosiiiiinha já não vais mais para o hospital que eu tive tantas tantas saudades tuas"; ontem a trocar segredos com a I. enroladas em mantas e aquecedores e ela dizer que o que nós precisamos é de café com leite condensado (magro claro) e depois de uma razão qualquer para acabar com a lata; ao segurar a S. ao colo que nem dois meses tinha e ficar a ver a cabeça dela aninhar-se no meu pescoço; no ouvir o Fossanova a atravessar o rio sozinha na minha carripana, a caminho do Samouco onde as crianças gritam pela casa e vêm a correr buscar-me à porta e não me saem do pescoço o dia todo; no estar em frente ao mar com a F., a J., o F., o N. deitados na areia e sentir a água do mar passar pelos kgs de roupa que nos vão proteger do frio dessa noite; no ouvir a voz do L. e ter a pele dele ao pé da minha; no ler um texto do Pullman que põe Jesus a falar, revoltado e triste, com Deus e sentir aquela excitação do "caramba...", que nem me deixou dormir; no voltar a escrever um poema mesmo que arranhado e torto; ontem sair do médico e ter a R. no café; a ouvir o FMI do José Mário Branco depois de vir do LIDL de Odemira e pensar que é mesmo isto.
"Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"
A questão é mesmo esta. O Círculo da Felicidade tem um só lado. Não podemos ficar em casa a imaginar que em tempos houve coisas que tínhamos dentro do círculo e que já saíram. Toca a mexer. A procurar. A vida é gigante e o mundo não pode ter fossos onde possamos cair. "Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro."
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
III ENCONTRO LIVREIRO , homenagem e apelo à participação
Com o inconfundível traço de Pedro Vieira, apresentamos hoje o cartaz do III Encontro Livreiro, a realizar na livraria Culsete, em Setúbal, no próximo dia 25 de Março de 2012, domingo, a partir das 15 horas. Obrigado, Pedro.
Este ano a proposta é realizarmos o nosso encontro anual sob o signo da
ESPERANÇA
NO FUTURO DA LEITURA, DO LIVRO, DA LIVRARIA
Assim:
INICIAMOS em 2012 a atribuição anual do diploma «Livreiros da Esperança», querendo com isso homenagear quem, de entre as «gentes do livro», seja merecedor de público reconhecimento e de louvor.
Depois
da iniciativa da «Carta Aberta de “Gentes do Livro”», pedindo o público
reconhecimento do trabalho e do exemplo do livreiro da Livraria
Esperança (Funchal) - «alguém
que é um exemplo, não só para a classe profissional dos livreiros
portugueses, mas também para todas as “gentes do livro”, pela história
de que é herdeiro e pelo exemplo de vida, de persistência, de
resistência e de visão e esperança de futuro que continua a transmitir
às gerações actuais e vindouras […] Porque soube manter e desenvolver os
sonhos de seu avô Jacintho e de seu pai José, mas também preparar o
futuro, mantendo a esperança na Leitura, no Livro e na Livraria.» -, e inspirando-nos no nome da livraria, decidimos atribuir o título de
LIVREIRO DA ESPERANÇA 2012
ao livreiro
JORGE FIGUEIRA DE SOUSA
PEDIMOS a todos os que se considerem “gentes do livro” (leitores, bibliotecários, livreiros, autores, tradutores, editores, distribuidores, etc., etc.) que, até à data da realização do III Encontro Livreiro, nos façam chegar as suas reflexões, tendo como ponto de partida o tema acima enunciado.
Chamamos a estes contributos, aqui no blogue,
«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA».
Nessa reflexão, para além da apresentação de aspectos negativos e de soluções possíveis para os ultrapassar, sugere-se que
se revelem experiências e histórias positivas que possam servir de
modelo para a tão urgente e necessária ultrapassagem da crise, superando-a pela positiva e não pelo azedume, pela desistência e pelo queixume.
Os textos deverão ser enviados para o endereço do Encontro Livreiro, encontro.livreiro@gmail.com, referindo nome e profissão, bem como, se bem que facultativamente, empresa, site / blogue / facebook.
APELAMOS
a que todos, através dos contactos e meios de que disponham, colaborem
na divulgação do conteúdo desta comunicação e do III Encontro Livreiro e
que se organizem em grupos (de amigos, de profissão, de empresa, etc.) e
se desloquem a Setúbal, se o desejarem e se possível almoçando um bom
peixe e, a seguir, encaminhando-se para o Convívio e o Encontro na
Livraria Culsete – Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B –, a partir das 15
horas do dia 25 de Março de 2012.
Venham daí e tragam outros amigos também. Uma coisa é cada vez mais certa: Isto Não Fica Assim!
Encontro-Livreiro
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros
Chegámos ao tempo dos exageros, potenciado pelas redes sociais e novas tecnologias. Os amantes dos livros têm o pêlo eriçado por tudo o que ameaça o livro na sua forma tradicional. As piores ameaças apontadas são os e-books e a morte das chamadas livrarias tradicionais ou de bairro, sendo que esta última é claramente mais trágica do que a primeira. Esta vem muitas vezes acompanhada pela equiparada morte do “livreiro”, essa profissão tantas vezes menosprezada. Associa-se com facilidade o bom livreiro à livraria tradicional e o mau livreiro às livrarias de grupo.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
LIVRO DE CABECEIRA com Pedro Vieira e Samuel Velho
9 de Fevereiro, 19h
Book House, no ISPA, Rua Jardim do Tabaco, 34, Lisboa
com que livros dormem eles? que livros comem ao pequeno almoço?
aqui estão eles:
Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago
O Processo, Kafka
A Espuma dos Dias, Boris Vian
Lunário, Al Berto
A Boca na Cinza, Rui Nunes
Musicofilia, Oliver Sacks
e depois é lançar perguntas e provocações. ouvir e falar sem pudor e sem regras, como se quer.
este é o primeiro dos LIVROS DE CABECEIRA, de 15 em 15 dias encontramo-nos no ISPA para falar dos livros que dormem com os nossos. nós convidamos um, ele convida outro.
acompanhem aqui os desenvolvimentos, resumos, comentários e próximas sessões.
qualquer dúvida, sugestão de convidados ou um outro qualquer estamos em rosa.b.azev@gmail.com.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
III Encontro Livreiro
Está a chegar o III Encontro Livreiro. Perdi o I com pena minha mas a experiência do II foi muito gigante para os meus metros quadrados como o são os livros.
Fui com a Vanda que eu não via há muito tempo e que é sempre "amiga dos livros", a primeira do dia.
Chegamos a Setúbal, à Culsete e vemos o Luís ao longe e um monte de gente à volta do Livreiro Velho, belo anfitrião de um encontro na sua não menos bela livraria. Depois de alguma conversa entramos ao som da música, uma surpresa para o Livreiro e depois algumas pessoas falam. De algumas pessoas passamos a muitas pessoas para depois passar a todas as pessoas. Todas passam pelo microfone. Algumas pensaram no que iam dizer, outras não, umas têm um discurso mais composto, outras mais comovido, outras riem-se, atiram provocações, repetem depoimentos, fazem perguntas. Depois bebe-se moscatel e a conversa dura até ser de noite, o Livreiro Velho conta histórias, compram-se livros. As pessoas encantam-se.
O Encontro Livreiro é assim porque é informal e hoje já se fazem poucos encontros informais sobre os livros. Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais. O Encontro Livreiro é único na forma e no conteúdo. Foi lá que pela primeira vez ouvi alguém que não me conhecia falar deste blog. Foi lá que conheci muita gente que hoje está cada vez mais próxima. Foi lá que muitos de nós se juntaram em comunidade.
E está quase. É no último domingo de Março, vamo-nos juntar todos e oferecer boleias de Lisboa.
Fui com a Vanda que eu não via há muito tempo e que é sempre "amiga dos livros", a primeira do dia.
Chegamos a Setúbal, à Culsete e vemos o Luís ao longe e um monte de gente à volta do Livreiro Velho, belo anfitrião de um encontro na sua não menos bela livraria. Depois de alguma conversa entramos ao som da música, uma surpresa para o Livreiro e depois algumas pessoas falam. De algumas pessoas passamos a muitas pessoas para depois passar a todas as pessoas. Todas passam pelo microfone. Algumas pensaram no que iam dizer, outras não, umas têm um discurso mais composto, outras mais comovido, outras riem-se, atiram provocações, repetem depoimentos, fazem perguntas. Depois bebe-se moscatel e a conversa dura até ser de noite, o Livreiro Velho conta histórias, compram-se livros. As pessoas encantam-se.
O Encontro Livreiro é assim porque é informal e hoje já se fazem poucos encontros informais sobre os livros. Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais. O Encontro Livreiro é único na forma e no conteúdo. Foi lá que pela primeira vez ouvi alguém que não me conhecia falar deste blog. Foi lá que conheci muita gente que hoje está cada vez mais próxima. Foi lá que muitos de nós se juntaram em comunidade.
E está quase. É no último domingo de Março, vamo-nos juntar todos e oferecer boleias de Lisboa.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
mudar de vida V
ouvir música quando estou sozinha em casa, pensar, amar desmesuradamente, ler desmesuradamente, escrever e detestar, apagar, voltar a escrever, detestar mas deixar estar, pensar nas pessoas que me fazem falta, querer algumas a viver no meu sofá. imaginar sempre outra coisa. pensar em formas de mudar de vida, mais radicais, talvez. nunca parar de pensar em como se muda de vida, se é isso que se quer.
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