segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

baú do meu palácio #2

José Donoso é o segundo livro sacado do baú e na verdade é sacado muitas vezes. José Donoso é um escritor chileno e por isso é um dos escritores de que falo no Curso de Literatura Hispano-americana (já com nova edição a espreitar).
Este livro conta uma hisória sem data nem local. Podemos imaginar, pelas descrições, que estamos algures na América Latina, ali pelo início do século passado.
Numa casa de campo passam férias vários casais de uma mesma família com os seus filhos, todos primos ou irmãos entre eles, com idades que vão, sensivelmente, dos 4 aos 17 anos. de manhã os pais saem e deixam as crianças sozinhas. é aí que entramos num não-tempo, apenas dominado pelas crianças e pelo seu entendimento que faz com que aquele tempo que passam sozinhos se estenda por aquilo que parecem ser muitos dias. as crianças, sozinhas com os empregados da casa, organizam-se anarquicamente e de uma forma tão selvática como natural, sempre com o lado de lá do muro da casa como o local proibido e desejado. assistimos nesta organização e vivência anárquica ao desabrochar de pulsões eróticas e violentas, num ambiente febril que se vai enevoando e tornando intransponível. desengane-se quem espera uma história com uma confortável lógica final, este livro constrói-se em espiral e uma vez lançados os dados da auto-gestão e total autonomia do controlo do espaço pelos miúdos dificilmente será possível voltar à ordem estipulada. uma metáfora? claro. e uma metáfora do caraças.

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criatividade na primeira pessoa

já aqui disse muitas vezes que penso muito. saio de casa sozinha ao fim de semana e ando a pé a ouvir música. penso no sentido da solidão (assunto para outro texto). penso no que gostaria de estar a fazer se não estivesse ali. e hoje pensei como muitas vezes penso que a vida tem de ser um bocadinho mais do que isto. e pela primeira vez isso aconteceu-me numa altura de conforto. o que normalmente não acontece.
passo os dias apaixonada. passo os dias a ler, a escrever, a pensar. a pôr o LEVA a andar. a jantar com amigos, a pôr a minha casa bonita. a estar com a família, a atravessar o rio para os ver, ou a ir aos subúrbios. mas há uma coisa que nunca faço, nunca. ser criativa. tenho muita confiança em muitas áreas da minha vida mas não tenho nesta. tenho muito medo de que a minha criatividade faça apenas sentido para mim. na entrevista que dei pelo LEVA ao DN perguntaram-me como ia conseguir levar isto avante se ia ser como ter outro emprego. pensei que não custava nada, que com todas as horas que dou a isso, aos cursos e a tudo o resto de que falei sobra-me tempo e tempo e tempo. onde sou feliz a olhar para a parede, mas que posso encher com essa criatividade.
e lembrei-me do boris vian. do espectáculo que estava a construir para o boris vian. e lembrei-me da vontade gigante de voltar a estar num palco, não no sentido de lá estar como um produto acabado mas no sentido da construção. quem já fez teatro comigo sabe que construo o espectáculo como um todo estético antes de pensar nas palavras. penso nas roupas e nas maquilhagens, na entrada, no cenário, nas salas, no público. porque um espectáculo constrói-se como um todo desde o início. eh pá arrisco tanto a ser agora muito pirosa mas até senti fogo de artifício dentro da cabeça, do estômago e do coração. o boris vian. não é uma peça de teatro. é um espectáculo onde mostro quem ele foi, com cenas e textos e músicas dele. interrompi a construção deste espectáculo quando vim morar para aqui, precisei de enfiar a cabeça também dentro de caixotes (malino 2012). e hoje, quando preparei a mochila para as minhas deambulações pus lá o meu querido boris. e a cabeça a repetir ena pá ena pá ena pá.
já tenho alguma coisa feita mas falta muito trabalho, muitas leituras, muitas pesquisas mas ele vai chegar. faço esta parte mais sozinha para que ninguém me faça desistir. depois pego nos meus miúdos e vamos todos subir ao palco e vamos borisvianar. vamos borisvianar. vamos borisvianar. vamos borisvianar. ena pá.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

LEVA no DN

a quem tiver interesse o DN deste Domingo traz uma reportagem sobre o LEVA. na próxima semana vou digitalizar para todos lerem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

a ler surrealistas com os cabeçudos

pois é, o tempo voa e já falta muito pouco.
a Cabeçudos vai receber os "grandes" (e os pequeninos também que eles adoram surrealisticar) para lermos os meus queridos surrealistas.
então agarrem nos vossos surrealistas, no que para vocês forem surrealistas, que isto os surrealistas adoram não ter muitas regras. eu levo os meus e falo um bocadinho deles, não muito, qb, vá, e ainda vou preparar uns surrealismos para surrealisticarmos surrealisticamente. cliquem aqui para saber o que por este blog já se andou a falar de surrealistas.
podem vir só ler, podem vir só ouvir, podem vir ao contrário, podem não vir.

8 de Fevereiro
22h
Livraria Cabeçudos
Rua António Lopes Ribeiro, 7A - 1750-312 Lisboa
Mapa 
Entrada: 5€

surrealistiquemos!





terça-feira, 22 de janeiro de 2013

o que já está a correr mal

nas resoluções de ano novo, que podem ver aqui.

etiquetas no blog - check (com uma pequena batota que não interessa a ninguém)
entregar a proposta dos livros no metro à EGEAC (falha apocalíptica)
acabar o Liberdade (falha apocalíptica)
acabar o Lobo Antunes (ahahahahahahahahahahah)
acabar o Banquete (falha apocalíptica)


circunstâncias da vida 4 - 1 rosa

volto no final de fevereiro. duvido que melhore.

 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

baú do meu palácio #1

(a partir de hoje, às segundas-feiras livros que me dão ganas de ler outra vez)



A Metáfora do Coração e outros escritos
de Maria Zambrano 
Edição/reimpressão: 1993
Páginas: 160
Editor: Assírio & Alvim
 
Li esta bonita filósofa espanhola que viveu em muitos países europeus e da América Latina com uma emoção que não vos sei reproduzir. Sem lírismos excessivos, sem palavras a mais, sem ideias encriptadas escreve poesia filosófica e diz mais do que o essencial, diz verdades que se atropelam. Sobre vários temas, mas este é sobre a escrita, sobretudo. Prometo que nas próximas segundas-feiras serei mais escorreita a falar dos livros. Este é isto. Este e os outros. Agora ando a ler o Homem e o Divino, título que poderia ser, segundo a própria autora, o título de tudo o que escreveu. É disso que ela fala, da relação do que somos com esse divino que não é religioso mas com o qual convivemos tantas vezes com tanta dificuldade. Mais do que isto só o que diz Cioran, era mesmo isso que queria dizer, ele disse primeiro:

"Quem como ela, adiantando-se à nossa inquietação e à nossa busca, tem o dom de deixar cair a palavra imprevisível e decisiva, a resposta de subtis repercussões? Por isso desejaríamos consultá-la ao chegarmos a uma encruzilhada da vida, ao limiar de uma conversão, de uma ruptura, de uma traição, numa hora de íntimas confidências, grávidas e comprometedoras, para que ela nos revele e explique a nós próprios, para que nos conceda uma espécie de absolvição especulativa e nos reconcilie tanto com as nossas impurezas como com as nossas indecisões e perplexidade."
E. M. Cioran
 
"[o escritor] Quer dizer o segredo; o que não pode dizer-se com a voz por ser demasiado verdade; as grandes verdades não costumam dizer-se a falar. A verdade do que se passa no secreto seio do tempo é o silêncio das vidas, e que não pode dizer-se. «Há coisas que não podem dizer-se», e é verdade. Mas isto que não pode dizer-se é o que tem de escrever-se."  
in A Metáfora do Coração e outros escritos

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

a melancolia escreve?

há assuntos recorrentes, seja em conversas sérias seja na reinação com os amigos escritores. este é um deles.
começo já por ser suspeita porque dediquei o primeiro livro que (não) escrevi à melancolia. para verem que terei de sair um bocado da minha realidade para conseguir pensar bem sobre isto.
será que um bom escritor não pode ser feliz? será a felicidade inimiga da criatividade?
vamos primeiro a factos (sim, muita gente move-se a factos científicos por isso venham eles). há realmente um grande número de escritores que se suicidou e é ainda maior a lista de escritores com perturbações mentais. para além disso as doenças mentais sempre tiveram uma relação estreita com a criatividade e a criação.
depois há outros factos menos exactos mas que são os que observo. a felicidade leva-nos para uma realidade mais quotidiana. torna-nos mais confortáveis e apaziguados com a nossa realidade. para além disso torna-nos mais predispostos ao contacto humano e social. a melancolia e a tristeza (que, atenção, não são de todo a mesma coisa!) levam-nos a um questionamento constante, o questionamento leva-nos à necessidade de olharmos para dentro, de nos tornarmos um novelo enrolado para dentro, e a escrita, em última instância (excluindo escritas que agora vou fingir que nem existem) vem dessa necessidade de verbalizar um questionamento interior. a escrita criativa entenda-se.
não vou fazer declarações preto no branco porque não é o meu género ou não quero que seja. mas a melancolia e o estado de questionamento estão definitivamente ligados a uma escrita que cumpre esse propósito de questionamento.
se podemos ser felizes e escrever? podemos, claro e muitos podem fazê-lo e fazem-no. mas o exercício da escrita será muitas vezes, nesses casos, muito mais cansativo e doloroso porque teríamos sempre de forçar esse questionamento melancólico.

(antes da chuva de pedras volto a referir que falo apenas de um tipo de escrita, que não preciso de dizer qual é, vocês são espertos)


"Even as adults, some writers take the easiest route through life—avoiding risks, playing it safe, and being nauseatingly wholesome. Can they be great writers? Sure... but only if they want to write that marketing copy for a yogurt company. Being a great writer in the sense that you understand the intricacies of grammar and are able to convey your thoughts with clarity is different from being an outstanding storyteller. Being a storyteller requires you to truly live, to go out on the edge, to deal with the pain when it comes, to fight through the sadness, to embrace the joy, and to come out the other side with amazing stories to tell. "

(este parágrafo, ilustração e tudo o que me fez pensar nisto aqui, neste artigo. sublinhados meus)

eu sei que roça o ser ruim

mas quando leio que o problema do tolstoi é usar "nomes esquesitóides" vou às lágrimas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Na folha de São Paulo

"Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas
(clicar para ler a página)


Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).
Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a "linguagem coloquial".
Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico "Daily Telegraph", mostram que a atividade do cérebro "dispara" quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.
Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.
Os especialistas descobriram que a poesia "é mais útil que os livros de autoajuda", já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.
"A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças", explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.
Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens."

my new blog

http://mal-comportados.blogspot.pt/