Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão que o que acabaste de fazer é arte. Hakim Bey
terça-feira, 27 de agosto de 2013
CABUUUUUUM!!!
“os prémios literários significam sempre o prémio do bem escrever e são sumamente ridículos pois se, como creio, o génio é incompatível com a habilidade, à humanidade só os génios interessam por muito que se esfreguem os talentos à porta da humanidade” Cesariny
surrealisticando
You are welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
Pena Capital
Lisboa, Assírio & Alvim, 1982
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Psyche, de Leandro Morgado, no Fringe Festival
fui a Edimburgo ver o novo espectáculo do Leandro, o Psyche. assisti a três apresentações mas deu para ficar com uma ideia do que era. umas poucas semanas antes do início do Festival assistimos na Malaposta ao try-out do espectáculo e notou-se uma grande evolução nesta forma "final" (sempre entre aspas).
o Psyche fala sobre o cérebro. não sobre a massa que ele é mas sobre a mente, a forma como ela nos manipula e como pode ser manipulada. o Leandro apresenta-nos o que não ficamos bem a saber se é um espectáculo de magia, comédia, mind-reading ou outra coisa qualquer. como muitas vezes disse para descrever outros espectáculos, este é o espectáculo dele. como sempre o ponto forte é o conceito, a forma como ele nos fala do cérebro. a presença do conceito é de tal maneira forte que a mim me habituou a um tipo de espectáculo que aumenta de facto a fasquia. um espectáculo de magia e comédia que poderia ser incrível deixa-me agora a perguntar o porquê de o ter ido ver (eu tenho alguma comichão com o simples entertenimento, quem me conhece sabe isso, acho válido mas interessa-me pouco, em diversas áreas artísticas). o espectáculo Psyche acrescenta-nos algo, explicando alguns fenómenos e passando-nos algumas informações sobre a forma como o cérebro funciona, ilustrando essas informações com truques e personagens. torna-se interessante verificar que o Leandro não pretende enganar ninguém dizendo que a mente dele é diferente da nossa, ou com poderes especiais, ele não lê mentes. não faz o fácil caminho do show do mentalista que adivinha que palavra se forma na cabeça de alguém. aliás o Leandro satiriza os próprios mentalistas através de uma das suas personagens não deixando no entanto de surpreender ao adivinhar uma palavra escolhida ao acaso num livro inteiro (talvez o truque mais forte do espectáculo).
com truques fortes, insuspeitos, momentos hilariantes de contacto com o público, este foi um espectáculo que funcionou de forma intimista. havia uma relação muito intensa entre as pessoas que estavam na sala e o espectáculo que estava a decorrer, sentia-se empatia com as personagens que iam surgindo, inclusive com Gustav, o Macaco Mentalista. esta intimidade foi talvez o que considero o ponto mais forte do espectáculo no Fringe. ajudou uma merecida e constante sala cheia e composta.
durante duas semanas, as primeiras do Leandro no Fringe (primeiras de muitas outras esperamos nós), foi possível perceber o humor diferente do nosso, testar o que funciona e que não funciona, os ritmos diferentes que tem de usar enquanto mágico e comediante sobretudo. será aconselhável numa próxima vez um try-out para aqueles lados para que ele possa testar antecipadamente o que pode funcionar menos bem. eu cheguei nos últimos três dias e vi um espectáculo coeso e interessante. hilariante e charmoso. e vi um artista de palco que sabe trabalhar sozinho, sabe que o público é parte das suas armas de trabalho e que não está, em nenhum momento, longe das pessoas.
fica-nos na curiosidade o que se seguirá. o que se pode dizer é que o Leandro superou a prova Fringe. uma primeira experiência que só pode dizer o melhor do trabalho dele e dele próprio. afinal pensemos bem nisto, pela primeira vez, um português sozinho, nos palcos do Fringe (na rua já tínhamos portugueses), constrói um one man show (with a monkey), sem nunca ter feito no Reino Unido um espectáculo semelhante e, ainda assim, funciona desta forma. eram 2500 espectáculos e ele era um deles e teve sempre sala mais do que pronta para receber o espectáculo. só tenho uma coisa a dizer, irritando de passagem quem não gosta de tantas expressões "de fora", it was fukin great.
o Psyche fala sobre o cérebro. não sobre a massa que ele é mas sobre a mente, a forma como ela nos manipula e como pode ser manipulada. o Leandro apresenta-nos o que não ficamos bem a saber se é um espectáculo de magia, comédia, mind-reading ou outra coisa qualquer. como muitas vezes disse para descrever outros espectáculos, este é o espectáculo dele. como sempre o ponto forte é o conceito, a forma como ele nos fala do cérebro. a presença do conceito é de tal maneira forte que a mim me habituou a um tipo de espectáculo que aumenta de facto a fasquia. um espectáculo de magia e comédia que poderia ser incrível deixa-me agora a perguntar o porquê de o ter ido ver (eu tenho alguma comichão com o simples entertenimento, quem me conhece sabe isso, acho válido mas interessa-me pouco, em diversas áreas artísticas). o espectáculo Psyche acrescenta-nos algo, explicando alguns fenómenos e passando-nos algumas informações sobre a forma como o cérebro funciona, ilustrando essas informações com truques e personagens. torna-se interessante verificar que o Leandro não pretende enganar ninguém dizendo que a mente dele é diferente da nossa, ou com poderes especiais, ele não lê mentes. não faz o fácil caminho do show do mentalista que adivinha que palavra se forma na cabeça de alguém. aliás o Leandro satiriza os próprios mentalistas através de uma das suas personagens não deixando no entanto de surpreender ao adivinhar uma palavra escolhida ao acaso num livro inteiro (talvez o truque mais forte do espectáculo).
com truques fortes, insuspeitos, momentos hilariantes de contacto com o público, este foi um espectáculo que funcionou de forma intimista. havia uma relação muito intensa entre as pessoas que estavam na sala e o espectáculo que estava a decorrer, sentia-se empatia com as personagens que iam surgindo, inclusive com Gustav, o Macaco Mentalista. esta intimidade foi talvez o que considero o ponto mais forte do espectáculo no Fringe. ajudou uma merecida e constante sala cheia e composta.
durante duas semanas, as primeiras do Leandro no Fringe (primeiras de muitas outras esperamos nós), foi possível perceber o humor diferente do nosso, testar o que funciona e que não funciona, os ritmos diferentes que tem de usar enquanto mágico e comediante sobretudo. será aconselhável numa próxima vez um try-out para aqueles lados para que ele possa testar antecipadamente o que pode funcionar menos bem. eu cheguei nos últimos três dias e vi um espectáculo coeso e interessante. hilariante e charmoso. e vi um artista de palco que sabe trabalhar sozinho, sabe que o público é parte das suas armas de trabalho e que não está, em nenhum momento, longe das pessoas.
fica-nos na curiosidade o que se seguirá. o que se pode dizer é que o Leandro superou a prova Fringe. uma primeira experiência que só pode dizer o melhor do trabalho dele e dele próprio. afinal pensemos bem nisto, pela primeira vez, um português sozinho, nos palcos do Fringe (na rua já tínhamos portugueses), constrói um one man show (with a monkey), sem nunca ter feito no Reino Unido um espectáculo semelhante e, ainda assim, funciona desta forma. eram 2500 espectáculos e ele era um deles e teve sempre sala mais do que pronta para receber o espectáculo. só tenho uma coisa a dizer, irritando de passagem quem não gosta de tantas expressões "de fora", it was fukin great.
(fotos andré santos)
domingo, 18 de agosto de 2013
estive em edimburgo a acompanhar o espectáculo do leandro e foi assim isto um relance do que vi
e já falo das ideias que começaram a borbulhar. boris vian volta a desenhar-se na cabeça!
Paul Currie
East End Cabaret
BLAM! - Kristján Ingimarsson / Neander
Pete Firman
The Colour Ham
terça-feira, 6 de agosto de 2013
as maravilhas que encontramos numa feira de antiguidades em santa cruz
vendidas por uns adolescentes que, claramente, se estavam a desfazer da biblioteca do avô. raridades atrás de raridades!
Manuel de Lima
quem tem um pai que adora Manuel de Lima e nos traz os livros todos num saco só porque soube que queria ler mais do autor, tem tudo.
A Amante Holandesa
li o rentes de carvalho porque muitos me falavam dele e senti como uma falha. creio que elevei as expectativas e isso é algo que me começa a não poder fazer uma vez que poucos livros me enchem as medidas quando o faço. não vou dizer que não gostei da amante holandesa e para o mostrar por palavras vou dizer quais os pontos fortes do livro. por um lado a limpeza na escrita, muito difícil de encontrar hoje em dia. tão limpa que quase poderia roçar o demasiado plana se não fosse facilmente identificável o discurso com a personagem principal, um homem que acredita que a sua presença e personalidade são exactamente assim - planas e aborrecidas. ao fundir a personagem com a história o livro torna-se ainda mais uma história contada pelo próprio narrador e não tanto um livro do autor - o autor dissolve-se no narrador.
senti apenas que contava, acima de tudo, uma história e talvez seja aí, nesse sítio, que não me tenho ultimamente posicionado como leitora. os livros, a meu ver, têm de traduzir pessoas, recados, partilha de identidades e marcas definidoras e surpreendentes dessa mesma identidade. deixa de me interessar um livro em que a história assume o papel principal. pode ser boa ou não, interessante, surpreendente, o que seja - não é aí que se deverá centrar o ponto forte do livro. aqui senti que era o que acontecia e a história, além de plana, tem alguns buracos que não fazem verdadeiramente muito sentido.
não me distanciei de todo deste autor e tenho falado com muitas pessoas que gostam dele para entender o que me terá falhado mas a conclusão final é apenas que, neste momento, ele não se encaixa no meu espaço de leitora e sim no daqueles que gostaram muito dele. vou deixá-lo descansar e quem sabe noutra altura poderá fazer todo o sentido.
senti apenas que contava, acima de tudo, uma história e talvez seja aí, nesse sítio, que não me tenho ultimamente posicionado como leitora. os livros, a meu ver, têm de traduzir pessoas, recados, partilha de identidades e marcas definidoras e surpreendentes dessa mesma identidade. deixa de me interessar um livro em que a história assume o papel principal. pode ser boa ou não, interessante, surpreendente, o que seja - não é aí que se deverá centrar o ponto forte do livro. aqui senti que era o que acontecia e a história, além de plana, tem alguns buracos que não fazem verdadeiramente muito sentido.
não me distanciei de todo deste autor e tenho falado com muitas pessoas que gostam dele para entender o que me terá falhado mas a conclusão final é apenas que, neste momento, ele não se encaixa no meu espaço de leitora e sim no daqueles que gostaram muito dele. vou deixá-lo descansar e quem sabe noutra altura poderá fazer todo o sentido.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Livreiro da Esperança "Especial Culsete - 40 Anos"
Manuel Medeiros chegou a Setúbal vindo dos Açores, sua terra natal, para logo se envolver em projectos de animação e divulgação da leitura. Um ano antes do 25 de Abril, aproveitando o balanço de uma cooperativa de livros que a Pide não tinha conseguido encerrar, funda com Fátima Ribeiro de Medeiros a livraria Culsete, que permanece hoje como uma das mais activas livrarias independentes do país.
Ao longo destes 40 anos, Manuel e Fátima Medeiros fizeram crescer a Culsete no espaço das suas estantes – onde se encontra um fundo de catálogo completo e escolhido com o cuidado de quem conhece as páginas que vende, para além das novidades que vão chegando ao mercado –, tanto como para fora dos metros quadrados que delimitam a livraria. Pela Culsete têm passado escritores, ilustradores, editores, promotores da leitura, jornalistas, outros livreiros, muitos leitores, enfim, gentes do livro. É na Culsete que se realiza o Encontro-Livreiro e tem sido na Culsete que várias gerações de leitores setubalenses encontram o seu alimento em letra de forma, sempre bem aconselhados pelos dois livreiros.
Nos 40 anos da Culsete, e porque é de elementar justiça fazê-lo (esta é a primeira decisão que, no âmbito do Encontro-Livreiro, não conta com a participação do Manuel e da Fátima), decidimos atribuir o diploma
LIVREIRO DA ESPERANÇA
"ESPECIAL CULSETE - 40 ANOS"
a
Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros
a
Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros
e convidar todos quantos se queiram associar a esta singela homenagem a subscrevê-la, até ao dia 1 de Outubro de 2013 (dia em que se completam os 40 anos da abertura da livraria), enviando para encontro.livreiro@gmail.com uma mensagem com indicação de NOME, PROFISSÃO/EMPRESA e LOCALIDADE. Apelamos ainda a que, por esta via ou directamente no blogue, nos façam chegar depoimentos e comentários.
Bem hajam, Manuel e Fátima!
Sara Figueiredo Costa - Blogue «Cadeirão Voltaire», jornalista e crítica literária (Lisboa)
Joaquim Gonçalves - Livreiro, A das Artes (Sines)
Rosa Azevedo - Blogue «Estórias com Livros», ex-livreira, produtora na Ordem dos Arquitectos (Lisboa)
António Alberto Alves - Livreiro, Traga-Mundos (Vila Real)
José Teófilo Duarte - Designer gráfico (Lisboa)
Luís Guerra - Sistema Solar (Lisboa)
1 de Agosto de 2013
sábado, 3 de agosto de 2013
O da Joana, Valério Romão, Abysmo
Valério Romão começou a prometer,
aos meus olhos, no primeiro número da Granta. o Autismo vem a
caminho, em breve falarei dele.
O da Joana conta um só episódio
traumático para Joana e para Jorge, o marido. depois de uma primeira
cena genial, envolvente e misteriosa que nos embarca numa cena que
nos corta a respiração entramos numa história onde achamos, durante
poucas linhas, que podemos respirar do ambiente em que embarcámos na
primeira cena. mas não. a espiral descendente deste livro começa
logo no início e não termina. nunca percebemos o ponto de vista
real do livro, o que, a meu ver, é o que de mais interessante e
inovador podemos ler neste livro – ao nunca percebermos o ponto de
vista que estamos a ler nunca sabemos o que é real e o que é fruto
da crescente loucura da personagem. nunca percebemos em que universo
estamos. é uma escrita corrida e respirada. Ao mesmo tempo
asfixiante e dolorosa. um exercício de estilo e uma forte
manipulação psicológica. uma manipulação que nos faz amar e
detestar a Joana, sentir piedade e medo, angústia e uma doce
simpatia. nada é pacífico naquele livro que se lê rápido e nos
deixa um rasto de angústia duradouro. um livro que alterna entre profundidade
e tona de água. o que acontece à própria Joana, que vem por vezes à tona de
água da realidade. mas nós nunca percebemos onde está a sua, logo, a nossa realidade. só podemos adivinhar.
não é um livro fácil mas é um livro
necessário para quem gosta de escritores. e o Valério Romão é
daqueles bons escritores que prometem muito. E isso é tão raro como
incrível. Fazia falta o Valério Romão antes de saber que existia. fazia falta alguém que usasse a arte crua das palavras sendo
escritor sem a arte do enfeite. aquilo é a verdade – a pior das verdades,
mas a verdade. e poucas vezes é fácil falar da verdade. e ele consegue. sem medos.
domingo, 21 de julho de 2013
o dia em que se falou do fecho da Sá da Costa
hoje foi o dia de irmos à sá da costa, que vai fechar. as largas dezenas de pessoas impediam-nos de ouvir com clareza o que se discutia. mas era claro que a "reunião" não era apenas um espaço de lamúrias mas uma tentativa de arranjar soluções para que a livraria não tenha de fechar.
hoje, sendo o dia de pensar a sá da costa, foi também o dia de pensar as livrarias.
as livrarias são um negócio. e como qualquer negócio que fecha, várias são as condicionantes que levam a este desfecho. apesar do amor que criamos aos livros não o criamos da mesma forma com todas as livrarias. começo já por dizer que aquilo que me atrai a uma livraria não é, de todo, a "simpatia" das pessoas (argumento para muito boa gente frequentar ou não as livrarias). os "meus" livreiros não são fontes de simpatia. são pessoas que me deixam confortável naquele espaço. a Trama, a Pó dos Livros ou a Culsete são casas onde me habituei a viver e trabalhar. costumamos dizer que os livros não são mercearias mas podemos sofrer tanto com o fecho de uma livraria como da mercearia onde costumávamos gastar a mesada e onde o merceeiro era pai do amigo da escola primária e onde passávamos as tardes. é aqui que as livrarias têm de ser competitivas. encontrar o espaço que os clientes procuram. porque não basta os clientes quererem livros - têm de se sentir confortáveis no espaço.
mas nunca será suficiente. é o mais angustiante em todo este panorama. a questão que se colocava hoje numa conversa sobre este assunto era que seriam o "eles" que nos fecharam a sá da costa, de acordo com o cartaz. ou que fecharam qualquer uma das outras livrarias. os "eles" somos nós todos, em primeiro lugar - quem não comprou lá, quem preferiu comprar livros noutros locais. depois são estes novos grupos editoriais com opções que não valorizam nem apoiam as pequenas livrarias, deixando-as na cauda da distribuição e das boas margens ou abolindo-as em absoluto. e depois desta tão falada crise, de impostos duríssimos, de novas leis das rendas, do tirar poder de compra a quem antes ainda tinha nos livros um objecto de compra quotidiano.
é preciso perceber aqui o que podemos fazer. nós todos podemos apoiar pequenas livrarias, comprar lá os livros em vez de os comprar em outros locais. e volto a frisar, porque nada disto é novo a quem me conhece, que as grandes superfícies e fnacs e bertrands também têm muitos e bons livreiros, não está aí a falha destes espaços comerciais. a venda dos livros em nada os favorece a eles e sim uma lógica empresarial assassina para a qualidade literária dos livros e por isso essas livrarias têm de ser retiradas do nosso horizonte.
não apoio em tudo os textos que correm por aí sobre os fechos progressivos das livrarias. temos de ser realistas e perceber o que aqui deve ser criticado, alterado e em que é que a nossa atitude pode mudar este panorama. mas um aspecto é incontornável. não há cidade sem livrarias. os livros são os objectos culturais físicos e insubstituíveis e infelizmente neste país cada vez mais há cidades e regiões inteiras sem uma única livraria. e em nada compensa nessas cidades essa falha. e eu que vivo e trabalho no Chiado tenho dificuldade em encontrar o meu espaço de conforto. perfiro atravessar a cidade e ir à Pó dos Livros ou até ir a Setúbal e ter a sensação incrível de que a Culsete é um espaço de pertença como se sempre os tivesse conhecido e não apenas em 2011. tenho a Letra Livre ao lado de casa, mas pouco mais. tenho a A das Artes que nunca conheci pessoalmente mas que acompanho diariamente com admiração.
não consegui o manifesto vou buscá-lo na semana que vem e voltarei então a falar do dia de hoje. hoje fico com a sensação de tristeza pelo fecho da livraria e algum calor ao lembrar como foi bom subir a calçada do combro sozinha para lá chegar e saber que lá encontraria dezenas de amigos. estamos todos num mesmo barco. temos é de saber o que fazer para que ele não se afunde mais. é deixarmo-nos de lamúrias e começarmos a pensar em soluções. o Encontro Livreiro tem exactamente esse objectivo e cada ano que passa faz mais sentido.
hoje, sendo o dia de pensar a sá da costa, foi também o dia de pensar as livrarias.
as livrarias são um negócio. e como qualquer negócio que fecha, várias são as condicionantes que levam a este desfecho. apesar do amor que criamos aos livros não o criamos da mesma forma com todas as livrarias. começo já por dizer que aquilo que me atrai a uma livraria não é, de todo, a "simpatia" das pessoas (argumento para muito boa gente frequentar ou não as livrarias). os "meus" livreiros não são fontes de simpatia. são pessoas que me deixam confortável naquele espaço. a Trama, a Pó dos Livros ou a Culsete são casas onde me habituei a viver e trabalhar. costumamos dizer que os livros não são mercearias mas podemos sofrer tanto com o fecho de uma livraria como da mercearia onde costumávamos gastar a mesada e onde o merceeiro era pai do amigo da escola primária e onde passávamos as tardes. é aqui que as livrarias têm de ser competitivas. encontrar o espaço que os clientes procuram. porque não basta os clientes quererem livros - têm de se sentir confortáveis no espaço.
mas nunca será suficiente. é o mais angustiante em todo este panorama. a questão que se colocava hoje numa conversa sobre este assunto era que seriam o "eles" que nos fecharam a sá da costa, de acordo com o cartaz. ou que fecharam qualquer uma das outras livrarias. os "eles" somos nós todos, em primeiro lugar - quem não comprou lá, quem preferiu comprar livros noutros locais. depois são estes novos grupos editoriais com opções que não valorizam nem apoiam as pequenas livrarias, deixando-as na cauda da distribuição e das boas margens ou abolindo-as em absoluto. e depois desta tão falada crise, de impostos duríssimos, de novas leis das rendas, do tirar poder de compra a quem antes ainda tinha nos livros um objecto de compra quotidiano.
é preciso perceber aqui o que podemos fazer. nós todos podemos apoiar pequenas livrarias, comprar lá os livros em vez de os comprar em outros locais. e volto a frisar, porque nada disto é novo a quem me conhece, que as grandes superfícies e fnacs e bertrands também têm muitos e bons livreiros, não está aí a falha destes espaços comerciais. a venda dos livros em nada os favorece a eles e sim uma lógica empresarial assassina para a qualidade literária dos livros e por isso essas livrarias têm de ser retiradas do nosso horizonte.
não apoio em tudo os textos que correm por aí sobre os fechos progressivos das livrarias. temos de ser realistas e perceber o que aqui deve ser criticado, alterado e em que é que a nossa atitude pode mudar este panorama. mas um aspecto é incontornável. não há cidade sem livrarias. os livros são os objectos culturais físicos e insubstituíveis e infelizmente neste país cada vez mais há cidades e regiões inteiras sem uma única livraria. e em nada compensa nessas cidades essa falha. e eu que vivo e trabalho no Chiado tenho dificuldade em encontrar o meu espaço de conforto. perfiro atravessar a cidade e ir à Pó dos Livros ou até ir a Setúbal e ter a sensação incrível de que a Culsete é um espaço de pertença como se sempre os tivesse conhecido e não apenas em 2011. tenho a Letra Livre ao lado de casa, mas pouco mais. tenho a A das Artes que nunca conheci pessoalmente mas que acompanho diariamente com admiração.
não consegui o manifesto vou buscá-lo na semana que vem e voltarei então a falar do dia de hoje. hoje fico com a sensação de tristeza pelo fecho da livraria e algum calor ao lembrar como foi bom subir a calçada do combro sozinha para lá chegar e saber que lá encontraria dezenas de amigos. estamos todos num mesmo barco. temos é de saber o que fazer para que ele não se afunde mais. é deixarmo-nos de lamúrias e começarmos a pensar em soluções. o Encontro Livreiro tem exactamente esse objectivo e cada ano que passa faz mais sentido.
sábado, 13 de julho de 2013
cá está o meu mais novo
A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas (António Maria Lisboa)
Vamos ter Cesariny, Pacheco, O'Neill, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa e outros. Vamos ter surrealismos e dadaísmos e outros ismos inventados por nós. Vamos conviver surrealisticamente. Vamos pensar surrealisticamente. Vamos surrealisticar. Podem vir a horas ou chegar atrasados. Podem vir ao contrário. Podem não vir.
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