sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Curso de Literatura Portuguesa séc. XX e XXI

cartaz de Menina Limão

Este curso organiza-se em quatro módulos independentes:

17 NOV
Movimentos finesseculares e início do séc XX

24 NOV
Surrealismo 

1 DEZ
Anos 50 a 70 

8 DEZ
Literatura Contemporânea 

Sábados
11h-17h
oferta de almoço (vegetariano)
Os módulos podem ser seleccionados sem sequência obrigatória, podem fazer os módulos que quiserem. 

1 módulo: 60€
2 módulos: 100€
3 módulos: 130€
4 módulos: 150€

Sócios da Cossoul têm 10% de desconto*.
Inscrições e informações rosa.b.azev@gmail.com (Rosa Azevedo)

*Ser sócio da Cossoul custa 18€ por ano + 2€ de inscrição no primeiro ano


Movimentos finesseculares e início do séc XX

O curso vai debruçar-se sobre a literatura portuguesa do início do séc. XX, de um ponto de vista generalista num caminho pela eclética e contrastante história da nossa literatura, sempre com o foco no leitor e na importância que a estreita relação do autor com o seu leitor teve no desenrolar dessa mesma história. Neste primeiro módulo vamos um pouco para trás pois a história de cada século começa uns anos anos e o séc XX começou a desenhar-se a partir de 1870. Vamos falar de Realismo, Naturalismo, Simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o Modernismo, Presença e do Neo-realismo.

Surrealismo Português
 
«A actividade surrealista não é uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha, mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas.»
António Maria Lisboa


Vamos ter Cesariny, Pacheco, O'Neill, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa e outros. Vamos ter surrealismos e dadaísmos e outros ismos. Vamos perceber onde começou e para onde foi aquele que Breton considerou o mais completo surrealismo mundial. 

Anos 50 a 70 

A partir de 1950 a história da literatura Portuguesa começa a ramificar-se por caminhos ecléticos e diferenciados. A escolha neste módulo recai na literatura que rasgou as convenções e anunciou as imensas possibilidades da literatura a partir desta época. Vamos falar da Poesia experimental, da escrita fragmentária, da literatura proibida e do nascimento do romance. Falaremos de Vergílio Ferreira, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, Maria Gabriela Llansol, os poetas do Cartuxo, entre muitos outros. Falaremos também de muitas mulheres que não vingaram nos livros de História da Literatura Portuguesa pelas mais diversas razões: Maria Judite de Carvalho, Graça Pina de Morais, Celeste Andrade, entre muitas outras.
 
Literatura Contemporânea 

Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação. 
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender. 
Este módulo pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Os incêndios são a metáfora do mundo

(prefácio de O Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, tradução de Manuel João Neto, editado pela Snob, em pré-venda até dia 16 de Setembro)


Capa de Pedro Simões com pintura de João Alves

Uma das facetas simultaneamente mais trágicas e gloriosas do mundo da literatura, ao ponto de recentemente se ter cristalizado sob a forma de teoria literária, diz respeito a uma constelação mitológica formada por um certo género de livros significativamente mais comentados do que propriamente lidos. Obras que viajam em comboios invisíveis e que se inscrevem no imaginário colectivo sem precisarem de leitores, uma vez que agarram as ideias-chave, quer filosóficas quer iconográficas, da cultura vigente. Porém, não menos interessantes, embora por razões diametralmente opostas, são aqueles que são remetidos para a mais silenciosa e exclusiva categoria dos livros mais lidos do que propriamente comentados. Textos que vivem vidas secretas e exiladas, comentadas em murmúrios de perplexidade, e que sobrevivem quase incógnitos ao tempo, transfigurando-se consoante a época em que são lidos. Livros subtilmente premonitórios e, por isso, tangencialmente desfasados da sua época histórica, desfasados, na verdade, de qualquer época histórica em que existam. É precisamente nessa galáxia literária quase privada que a obra de Nathanael West, ele próprio uma difusa personalidade de rasto discreto, e mais concretamente o romance O Dia do Gafanhoto, orbitam.

Descendente de judeus lituanos em fuga dos pogroms da Rússia czarista, West nasceu em Nova Iorque em 1903 e, depois um percurso académico pouco mais do que medíocre durante o qual, tanto quanto nos é possível saber, não se terá interessado por outra coisa senão ler livros, dedicou-se sobretudo à escrita, actividade que desenvolvia em paralelo com empregos menores, tendo vivido também por um breve período de tempo em Paris, fase em que, segundo se diz, terá sido muito próximo de Max Ernst. Apenas a partir do momento em que West é contratado como argumentista de cinema em Hollywood, território geográfico e simbólico nuclear no universo mitológico deste autor, se começa a desenhar na sua vida a perspectiva de uma espécie de carreira. Tinha alguns amigos no meio literário, entre eles William Carlos Williams e F. Scott Fitzgerald, e interessava-se por misticismo e pela história das religiões. Morreu com apenas trinta e sete anos num desastre de aviação, que vitimou também a sua esposa, aproximadamente um ano depois de ter publicado O Dia do Gafanhoto. 

A vida de Nathanael West foi, portanto, tão aparentemente banal e secreta como a sua obra. Não seria correcto, no entanto, confundir essa clandestinidade com ausência de reconhecimento crítico, uma vez que ele é actualmente considerado um dos autores canónicos da literatura norte-americana do século XX, graças sobretudo a “Miss Lonelyhearts”, o seu mais célebre romance. Além do mais, a sua influência é detectátvel em autores do pós-modernismo norte-americano e, não por acaso, no universo cinematográfico: “O Dia do Gafanhoto” foi adaptado para cinema sensivelmente trinta anos depois da sua publicação e é difícil, hoje, não reconhecer nos filmes de David Lynch reminiscências dos ambientes insólitos e das personagens bizarras que habitam as narrativas de Nathanael West.

         West é muitas vezes caracterizado como “o mais impessoal dos escritores americanos”, uma característica objectiva que dificulta a classificação da sua obra. No caso de O Dia do Gafanhoto, a força da escrita não reside, efectivamente, nem nas personagens, nem nas suas emoções, nem sequer na dramatização de dilemas existenciais ou problemáticas político-filosóficas. Baseado em recursos simples e numa engrenagem narrativa quase mecânica, este romance corresponde a uma literatura que não pertence nem aos espaços íntimos nem se projecta em visões sociais panorâmicas, antes propondo-se ser uma pura literatura de imagens (ou de visões) — não surpreende, portanto, que nele se coloque tão explicitamente em comparação as imagéticas próprias do cinema e da pintura. Porém, e apesar do tom distanciado e contido e da artificialidade aparente das personagens e dos eventos narrativos que compõe o enredo de O Dia do Gafanhoto, não é verdadeiramente uma impessoalidade literal que transparece do texto, mas a simulação de uma impessoalidade por meio de um jogo de sombras. Na verdade, a personificação é um vício das próprias personagens do livro, e nos cenários por onde elas circulam todos os elementos parecem encenar-se permanentemente a si mesmos. Por todo o lado se vêm máscaras, disfarces e falsificações, e nunca sabemos exactamente quem é a voz por detrás das palavras, uma vez que o prisma narrativo está constantemente a mudar, como se o autor nunca estivesse realmente dentro da sua história mas antes a tropeçar para fora do livro, ou para fora da realidade.

O enredo de O Dia do Gafanhoto é de uma simplicidade desconcertante: a narração num tom quase neutro de uma série vagamente desconexa de acontecimentos protagonizados por um grupo de personagens aleatórios sem, aparentemente, qualquer elo em comum entre si a não ser o de habitarem o mesmo perverso território de uma Los Angeles dominada pela indústria cinematográfica. Este grupo de personagens inclui um desenhador de cenários, um actor de vaudeville, uma aspirante a actriz, um contabilista, dois cowboys que trabalham em rodeos e como figurantes em filmes, um empresário-anão, entre outros. No entanto, tão importante como eles é a multidão em fuga que corre, histérica e selvagem, pelas avenidas da cidade, hipnotizada pelo sonho babilónico do cinema. 
 
Tod Hackett, o desenhador de cenários que é o protagonista do romance, deambula pelos cenários artificiais de Hollywood, à procura de inspiração para a pintura O Incêndio de Los Angeles. Este quadro é a sua grande obsessão artística, que ele pretende ver consagrada no futuro como a reencarnação moderna das paisagens desoladoras de pintores obscuros do século XVII, como Salvator Rosa, Francesco Guardi e Monsu Desiderio – os grandes artistas “da Decadência e do Mistério”, segundo West. Na pintura estão representados os incendiários, aqueles que vão para a Califórnia para morrer, enfeitiçados pelas visões quase místicas da abundância e da ficção no deserto mitológico por excelência da cultura moderna de massas, onde, como seria previsível, nada acontece, nada, pelo menos, capaz de aliviar o desejo irreprimível e latente de violência da multidão. Pelos interstícios da turba, num estado mental entre o sonho e o sono da realidade, vagueiam os inadaptados, aqueles que são incapazes ou que se recusam a deixar ser capturados pela magia satânica dos tempos, em fuga desesperada do tumulto apocalíptico. O quadro O Incêndio de Los Angeles, à semelhança do próprio livro, sugere a representação do colapso civilizacional de que a multidão é a mensageira e os marginais os desertores, um mundo artificial de miragens e fantasmagorias cinemáticas onde predomina a frustração e o tédio.

         De superfície aparentemente inócua e impessoal, porque sufocada pelas suas próprias máscaras, esta obra de ficção descreve uma premonição da catástrofe, cujos sinais se encontram disseminados por todo o texto, desde as macabras lutas de galos até aos colossais montes de lixo acumulados nos estúdios de cinema, passando pela alusão à praga bíblica do título do livro e pelo uivo da sirene da ambulância da cena final do livro. Com a distância do tempo, é-nos legítimo interpretar “O Dia do Gafanhoto” como uma parábola da atmosfera de tensão e mal-estar que precedeu a Segunda Guerra Mundial, uma vez que nele ecoa o rumor silencioso dos sobressaltos de massas de que o nazismo era, na época, a manifestação mais poderosa. Podemos também reconhecer na obra uma evocação da célebre Dust Bowl, as tempestades de areia negra que se seguiram à seca que atingiu as Grandes Planícies dos Estados Unidos da América logo após à Grande Depressão, causando um desastre ambiental, agrícola e social de grande escala que motivou uma onda deslocações migratórias em massa, sobretudo em diáspora rumo à Califórnia. É inegável que por entre atmosfera vagamente surrealista do enredo, reminiscente do surrealismo simultaneamente onírico e inquietante de Max Ernst, se pressente uma frequência de onda sinistra e ressonante desse rumor críptico do tempo. Porém, perante uma obra de ficção tão elíptica e alusiva como esta, qualquer interpretação não pode senão ser assumida como circunstancial e balizada pelo seu tempo.

Analisado em perspectiva, este livro parece ecoar ele próprio no presente, sendo essa precisamente a grande linha de força das visões tumultuosas e grotescas que nele se projectam e que o poeta W. H. Auden, grande admirador de West, considera serem as parábolas de um “Reino do Inferno”. As actuais circunstâncias políticas e sociais parecem estranhamente similares às da época em que O Dia do Gafanhoto foi escrito: a crise financeira de 2008, cujos efeitos sísmicos ainda hoje se fazem sentir, a atmosfera de alarme perante alterações climáticas e a convulsiva e potencialmente apocalíptica situação geopolítica num período histórico de aparente transição de poder. Em 2018, tal como em 1939, ouvem-se os tambores ocultos da civilização e sopram ventos que pressagiam tempestades, e no terceiro milénio, tal como na primeira metade do século XX, confrontamo-nos com alterações tecnológicas que estão a provocar a emergência de uma nova era cibernética baseada em simulações virtuais da realidade. Se em tempos imemoriais as ambições do homem se afundavam tragicamente nos oceanos, transformando-se então no sublime “sargaço da imaginação”, em Hollywood, por seu turno, os sonhos que nos assombram morrem nas lixeiras dos estúdios. No terceiro milénio, os sonhos também nascem e morrem num ecrã, mas agora num ecrã tridimensional e imersivo que, no entanto, nunca cumpre a sua profecia de imortalidade. No presente, assim como num período histórico do século passado não tão distante como hoje nos parecerá, as imagens que nos chegam do mundo compõem um quadro mental de uma civilização pré-caótica na iminência de um desastre que, porém, como em Blanchot, não chega nunca a ocorrer realmente, excepto na sua dimensão alegórica e burlesca.

West parece querer anunciar-nos que a catástrofe do futuro (o incêndio terminal, o grande “holocausto de chamas”) será total ou não será mais do que o espectro da catástrofe por vir do último homem da história, ficcionando-se a si mesmo no infinito arquivo morto de reproduções e personificações de uma realidade já anacrónica, ultrapassada pelos duplos de si própria. A vertigem contemporânea, à semelhança da vertigem da representação (ou, mais precisamente, da ficção) em que se lançam as personagens deste livro, parece capturar-nos num sono do qual, tal como Homer Simpson, a personagem mais icónica de O Dia do Gafanhoto, receamos não conseguir acordar, isto é, um sono que pode potencialmente transformar-se em morte sem que disso nos apercebamos. Na era da ficção absoluta, esta nova forma de morte corresponde a um puro estado de transição, suave e indolor, para uma realidade expandida em que, aparentemente, a única linha de fuga que entrevemos no horizonte é a do “voo uterino” da letargia e da auto-absorção do humano no sonho de si mesmo. No vasto “lá fora”, porém, a atmosfera prá-apocalíptica é a emanação visível do pânico da humanidade perante a eventualidade de ser forçada a reabitar a sua própria vida, descobrindo nela o vazio que a paralisa e a faz naufragar num mundo de miragens insubstanciais que são o combustível do incêndio da catarse e da regeneração do homem pela violência.

O Dia do Gafanhoto exorta-nos a observar a paisagem e a decifrar os sinais. Prepare-se, leitor: neste livro não se passa nada.


Manuel João Neto


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

E cá estão mais dois livrinhos lançados pela nossa Snob



Escritor Fracassado e outros contos
de Roberto Arlt*

Tradução de Miguel Filipe Mochila
Desenho da capa e design do livro de Pedro Simões

Colecção Pedante


O Dia do Gafanhoto
de Nathanael West**

Tradução de Manuel João Neto
Pintura da capa de João Alves
Design de Pedro Simões
Colecção Baldio (nova colecção)

Os livros estão em pré-venda até dia 16 de Setembro. O nome de todos os que o(s) comprarem antecipadamente figurará na última página do(s) livro(s). São nossos e vossos.

O livros estão em pré-venda pelo valor de 11€ (cada um - os dois a €20), com portes de envio incluídos para Portugal Continental. Mas também enviamos para qualquer parte do mundo. Para isso deverão transferir o valor de 11€ (ou €20) para o IBAN: PT50 0035 0995 00674695530 36 (José Duarte da Silva Pereira), enviando comprovativo e nome e título do livro pretendido - para figurar nos agradecimentos - para os livreiros por mensagem facebook, comentários a este post ou para coleccaopedante@gmail.com. Podem também manifestar a vossa vontade na caixa de comentários.

Envios e entregas a partir de dia 28 de Setembro e há lançamentos marcados para Porto e Lisboa.

Desde já um grande bem haja a quem nos acompanha, ajuda e, acima de tudo, a quem continua a ler connosco.

* Escritor argentino do início do séc XX, que nos oferece aqui contos bizarros que questionam a ordem e o politicamente correcto. Textos sobre a malformação humana, que surpreendem pelo ponto de vista perante a humanidade onde o escritor se posiciona, um ponto de vista que mostra o mais improvável de vermos revelado sobre nós.

** Escritor norte-americano do início do séc. XX que escreve aqui um romance alucinado onde a escrita acompanha a febre da época em que Hollywood começou a estender o tapete ao sonho americano. Um livro de personagens estranhas e improváveis.

Os dois livros têm em comum a bizarria das personagens, a forma genial como a literatura pode retratar um real que nos recusamos a considerar possível. E falam os dois de anões. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A esperança e a Maria Judite de Carvalho



O que é em tudo mais fascinante na Maria Judite de Carvalho não é aquilo que escreve, não é cada uma daquelas histórias tristes, desesperançadas, de uma triste beleza atroz. É a esperança que está em cada um dos contos. É a humanidade e a sobrevivência de cada uma das personagens confrontadas tantas vezes com caminhos sem saída. A Maria Judite está-nos a ensinar a resistir. Escreve sobre a esperança por debaixo do terramoto de uma humanidade virada para um único fim comum, a morte. Mas dentro de cada história as personagens evitam o caminho comum e constroem a sua estrutura com o que têm em mãos, que quase nunca é o mundo externo que os condena, é outra coisa. Ler Maria Judite é estar sempre a encontrar essa outra coisa.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Ainda preciso escrever sobre Erskine Caldwell

Ando há uns tempos a desenvolver um fascínio por alguns escritores que não são escritores de obras primas, mas que usam a palavra para marcar uma posição forte, incontornável e surpreendente. Escritores que falham, que não escrevem sobre o sublime nem de forma sublime, mas escritores que perceberam o poder da palavra depois de impressa.

Um destes escritores é Erskine Caldwell (EUA 1903 - 1987). A última vez que foi publicado em Portugal foi numa (muito feia) edição da Saída de Emergência e antes disso tinham saído umas edições soltas nas duas últimas décadas do século passado. Até aos anos 70 teve atenção das maiores editoras portuguesas. O seu grande livro é a Estrada do Tabaco, transformado em filme por John Ford, um filme que retira do livro alguns dos momentos mais poderosos da narrativa. É considerado um dos grandes escritores americanos que acabou por ser também ele silenciado por uma América que, sendo (tendo sido) a terra da liberdade tem ainda assim alguma dificuldade em lidar com confrontos directos, humanos, como os conflitos que Caldwell soube tão bem escrever.

Caldwell é o escritor da parte mais podre da América. Começa a escrever em 1929, ano do crash da bolsa de NY, acontecimento que lança o país numa miséria profunda. E não estamos aqui a falar de miséria enquanto pobreza inerente às cidades. É mais do que isso. A América foi lançada numa miséria onde os homens e mulheres do interior do país são abandonados à sua sorte. O interior dos Estados Unidos fica sem nada. Não há comida, há muita especulação, há climas pouco propícios às plantações. É esse país que Caldwell procura e descreve. O país que está nos antípodas do Sonho Americano. O país dos vencidos, dos doentes, um país onde a humanidade é posta à prova e onde surgem as figuras mais estranhas e obscuras. Todas as personagens de Caldwell incomodam, causam desconforto, sobretudo numa época de prosperidade como a nossa.

Caldwell escreveu a sua autobiografia em 1951, Call It Experience, e ler este livro mostra-nos de forma mais acutilante as particularidades deste escritor. Muito jovem Caldwell decide ser escritor. De forma racional e com clareza percebe que não é possível ser escritor enquanto experimenta ser outra coisa qualquer. Assim, torna-se escritor e jornalista, achando que ambas as profissões se relacionavam, apesar de muito cedo ter percebido que eram até antagónicas. Durante dez anos passou fome e frio, viveu com muitas dificuldades, enviou centenas de contos para dezenas de revistas. Caldwell criou-se enquanto escritor. Viveu anos com as personagens a crescer na cabeça dele, imaginou-as, conviveu com elas, pensou-as. E depois escreveu o primeiro romance, A Estrada do Tabaco, (de que já falei neste blog), uma obra magistral sobre o fim da humanidade e sobre a desumanidade (ambas muito diferentes). Depois escreve o segundo romance, A Jeira de Deus, um livro perturbador que nos mostra, em apenas duas ou três páginas, das mulheres mais fortes que já vi em toda a literatura, uma mulher que parece ser a grande vítima dos homens e que, rapidamente, se torna na figura mais poderosa do livro, com um discurso brilhante sobre o amor e o erotismo. Caldwell era um reconhecido feminista, as mulheres de Caldwell são independentes, fortes e lutadoras. Mas não são as mulheres convencionais. No seu livro O Dedo de Deus a personagem principal é uma mulher que fornece à vila umas "injecções de vitaminas" que as deixam felizes e com os problemas absolutamente relativizados. É a mulher heroína e ao mesmo tempo a prostituta, divorciada, mãe sozinha. Uma mulher que nunca se deixa cair. Ainda que, como em todos os livros de Caldwell, só no final se revele verdadeiramente.

Mas não se deixem enganar, não há empatia com as personagens de Caldwell. Elas não nos são simpáticas, épicas, grandiosas. Nada em Caldwell o é verdadeiramente. Aqui não há heróis no clássico sentido da palavra. Há sobreviventes com muito poder. Há pessoas sem estereótipo que sobrevivem a uma América racista, exploradora e preconceituosa. Nenhuma personagem é, aparentemente, "the girl next door". E no final todas são. Porque a humanidade não é estereotipada. E o Caldwell viu isso da melhor forma de todas, através da literatura. E mesmo que não tenha escrito absolutas obras de arte, Caldwell escreveu algo muito mais importante que isso, falou de nós, e de tudo aquilo que tememos ao olhar para o lado. Falou do que, na humanidade, nos habituámos a calar.





sexta-feira, 8 de junho de 2018

You Have Seen Their Faces

Um livro de Erskine Caldwell & Margaret Bourke-White, fotógrafa.
Os dois percorreram o sul dos Estados Unidos à procura de caras para frases de personagens de anteriores romances do Caldwell.
“The South has always been shoved around like a country cousin. It buys mill-ends and it wears hand-me-downs. It sits at second-table and is fed short-rations. It is the place where the ordinary will do, where the makeshift is good enough. It is that dogtown on the other side of the railroad tracks that smells so badly every time the wind changes. It is the Southern Extremity of America, the Empire of the Sun, the Cotton States; it is the Deep South, Down South; it is The South.”





terça-feira, 8 de maio de 2018

Dark Chambers #01

Uma noite de Dark Poetry e Dark Music, na Cossoul.

[O Dark Chambers é uma proposta de exploração poética, literária e musical de ambientes e temas sombrios, ocultos ou fantásticos. Faz-se do encontro entre a poesia de autores como William Blake, com a sua corte de cores escuras, e de música com afinidades com o dark folk ou o dark ambient. O bar da Cossoul abre as hostilidades com leituras encenadas de poesia de um dos mais sombrios franceses, Charles Baudelaire (por Rosa Azevedo), de um quase desconhecido norte-americano adoptado por um casal blavatskiano, Robert Duncan (por Ana Salomé) e do supremo vocalista de Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, com o seu livro 'Todas as Ruas do Mundo' (editado pela Do lado esquerdo, 2013) (por André Carvalho). Recebe também Peter Wood para um concerto de blues com ventos nocturnos. Apareçam!]




21:30
Warm up

21:50
Baudelaire, por Rosa Azevedo

22:40
Robert Duncan, por Ana Salomé

23:00
Adolfo Luxúria Canibal, por André Carvalho

23:30
Concerto Peter Wood

Peter Wood criou-se no Cacém. Com a imaginação inflamada pela guitarra primitiva de John Fahey e Frank Ferreira, compõe música que cruza o blues poeirento com o uivo saudoso do comboio inter-regional na noite lúgubre do subúrbio. A guitarra acústica, sem mistura, domina o repertório. Por vezes solta a voz invocar os ciprestes do Mississippi ou os barqueiros do Volga.
Gregário, é por vezes avistado em bandos, por exemplo, com Joana Guerra, com quem forma os Hidden Circus dos Asimov. Segundo uma tradição antiga, chegou mesmo a ser Brainwashed by Amalia. Traz música nova e histórias para contar (enquanto afina a guitarra), bem como exemplares recentemente resgatados do cd-r de estreia (2015), com capa linogravada pelo artista sobre desenho da traça desconhecida.

Evento facebook

REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES


Por mais um ano consecutivo, a Cossoul organiza o REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES. De 17 a 19 de Maio, as nossas portas voltam a abrir-se para receber editores e criadores das diversas áreas artísticas – da poesia e da literatura ao teatro, da música às artes plásticas e ao cinema. Será a última edição no n.º 61 da Avenida D. Carlos I, em Santos, uma vez que a Cossoul mudará de instalações. A entrada é gratuita.


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QUINTA, 17 DE MAIO
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17h30 ◇ Sala da Biblioteca, Sala Raul Solnado, Bar
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❐ Abertura das exposições e início das projecções:
‣ Cartazes de Homem do Saco [Sala da Biblioteca]
‣ «The girl with the veil», de Vitorino Coragem [Bar]
‣ Serigrafia de Mattia Denisse [Sala Raul Solnado]
‣ Episódios do vídeo-documentário Arquipélago [Sala da Biblioteca]

18h00-19h00 ◇ Bar
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❐ Apresentação de projectos:
‣ Comicalate, por Miguel Leão
‣ Letreiro Galeria, por Paulo Barata e Rita Múrias
‣ Revista online Jogos Florais, por Maria Sequeira Mendes

19h00-20h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Mesa redonda: «Compor a Escuta»,
moderada por Ernesto Donoso, com Bruno Gabirro, Nuno Jacinto, Pedro Pinto Figueiredo e Rui Magno Pinto

21h00-22h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Exibição de curtas-metragens de Ricardo Vieira Lisboa e conversa com o autor conduzida por Luís Miguel Oliveira

22h00-23h00 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
Leitura de inéditos de Alberto Lacerda, por Cláudio Henriques, Paulo Tavares e Sara Felício (Colectivo Prisma)
❐ Leitura de excerto d’Os Irmãos Karamázov, de F. Dostoievski, por Carla Maciel

23h00-23h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
André David

23h30 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
David Henriques


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SEXTA, 18 DE MAIO
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18h00-19h00 ◇ Bar
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❐ Apresentação de projectos:
‣ Cinema Ideal, por Pedro Borges
‣ ETIC – Escola de Tecnologias, Inovação e Criação, por Manuela Carlos
‣ Faísca Teatro, por Beatriz Silva, Fábio Vaz e João Pires

19h00-20h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Mesa redonda: «Cultura descentralizada»,
com Jaime Rocha (Poesia, um dia), Duarte Pereira (Snob), Isaque Ferreira (Realizar:poesia), Joaquim Gonçalves (A das Artes) e Sónia Silva (Distopia)

21h00-22h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Filme de animação «Razão Entre Dois Volumes», de Catarina Sobral

22h30-23h30 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
‣ Apresentação do livro «Diálogos Marados», de Rui Caeiro, com o autor, Jorge Roque, Rosa Azevedo e Rui Nunes
‣ Apresentação e leituras de «Antologia Poética», de Carl Sandburg, por Vasco Gato, Isaque Ferreira e Miguel Santos

23h30-00h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
Jake Shane

00h00 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
Cinderella's Big Score


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SÁBADO, 19 DE MAIO
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17h00-18h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Sessão do Ciclo de Cinema «Imagens do Teatro», com exibição do documentário «Ainda não Acabámos: Como se Fosse uma Carta», de Jorge Silva Melo, com apresentação de Cláudia Marques e Luís Miguel Oliveira

19h00-20h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Apresentação de projectos:
‣ À Pala de Walsh, por Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa
‣ Sombras de Alguém, por Filipe Bonito
‣ Revista Electra, por António Guerreiro
‣ Carpintarias de São Lázaro, por Marcos Barbosa
‣ Do trapézio, sem rede, por Luís Filipe Parrado

21h30-23h30 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
‣ Lançamento do livro Os Crimes Montanhosos, de António Cabrita e Mbate Pedro, com a presença dos autores
‣ O POETA COMPARECEU EM PESO
Leitura e conversa em torno da poesia de Manuel Resende, com a presença do autor e convidados: Ana Gomes, Filipe Guerra (a confirmar), Margarida Vale de Gato, Rosa Azevedo, Rui Manuel Amaral, Zé Lima

23h30-00h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
‣ Galmadrua

00h00 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
‣ Grémio Nefelibata


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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Curso de literatura portuguesa séc XXI

cartaz Menina Limão
4 sessões às 5ª feiras (90min)
24 e 31 de Maio
7 e 21 de Junho
19h30
50€
com rosa azevedo

Inscrições e outras informações: rosa.b.azev@gmail.com

















Evento facebook: https://www.facebook.com/events/188377581792181/


Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender.
Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.

Autores
Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Manuel Resende, Marta Navarro, José Miguel Silva, Ana Teresa Pereira, António Cabrita, Miguel Manso, Manuel de Freitas, Andreia Faria, Sandra Andrade, Daniel Faria, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Daniel Jonas, Vasco Gato, entre muitos outros.

rosa azevedo
Formada em Literatura Portuguesa e Francesa tem curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso – encontro de autores, artistas e editores independentes, do Colectivo Prisma e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, onde é também moderadora. Colabora com a direcção da Cossoul em questões de produção, programação e associativismo. Mantém o blog estórias com livros.
É livreira, produtora, formadora, editora, revisora e divulgadora da área dos livros. Na verdade, aquilo que gosta de fazer é ler.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A MINHA MUSA

É mais casta do que eu
e só bebe água mineral.
Furtiva, insolente, caprichosa,
às vezes desaparece-me de casa
durante meses. Apetece-me
bater-lhe. Mas talvez a culpa
seja minha. Passo tanto tempo
a coçar a cabeça ou no terraço
a ver passar os aviões.
É natural que se farte de mim,
raramente estou em casa
quando chega, prefiro dormir
a ver televisão com ela
sentada nos meus joelhos.

Amiúde me pergunto
se compensam os tormentos
a que me força.
Meteu na cabeça fazer
de mim poeta, quando
o que eu gostaria era de ser
aviador. (Mas tenho medo
das alturas, e ela sabe-o.
Aproveita-se da minha debilidade.)

Obriga-me a ficar de olhos abertos
durante o sono, a estudar os
caninos que a vida me mostra,
o manual dos elementos, a história
calamitosa dos meus erros.
É preciso ter estômago
para tanta solidão. Não admira
que muitas vezes a traia
com a Helena, com o bourbon
dos amigos, com o voo violeta
do jacarandá no Largo do Viriato.
Mas não adianta, não sente ciúmes,
ela própria me empurra
para os braços do mundo.

É tão exigente, tão snob, tão
tinhosa. Por ela, não havia
domingos nem feriados,
não havia verão. Era sempre
toda a vida um quarto escuro
com filmes de série B e
uma banda sonora de tiros, soluços,
gargalhadas de teatro anatómico.
Marca-me duelos – é louca! –
com temíveis espadachins,
à vista dos quais a minha alma
treme dos pés à cabeça. Diz que
me faz bem sangrar um bocado,
que é minha amiga, talvez.

Fria, severa, calculadora,
tenta o que pode para contrariar
a minha natureza ruidosa,
paciente, sentimental.
Diz que é uma porcaria
escrever com lágrimas, recita
Mallarmé, levanta-se de noite
para me rasgar os poemas.
Não é fácil aturá-la.

Só para me irritar, muda
o nome de todas as coisas:
se vê um massacre chama-lhe
acre de terra lavrada,
vê um mendigo chama-lhe
trigo, vê uma porta
e chama-lhe susto.
Às vezes pergunto-me
se não será parva.

A verdade é que não sou feliz
com ela, apenas um pouco
mais solitário.
Mas sem ela – vejam que
tristeza, que abandono, que.

Ulisses Já Não Mora Aqui
& etc., 2002, José Miguel Silva

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Curso de Literatura Portuguesa séc. XX e XXI

cartaz de Menina Limão Este curso organiza-se em quatro módulos independentes: 17 NOV Movimentos finesseculares e início do séc XX 24...