segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Escritoras esquecidas do séc XX

As leituras que faço levam-me por muitos caminhos, diferentes uns dos outros. E às vezes há sítios onde me deixo ficar, desenvolvendo uma pequena obsessão que começa, normalmente, por desfazer um novelo que depois chega a uma multiplicidade de fios entrelaçados com os quais perco ainda mais tempo. Foi assim que cheguei a esta vontade de perceber porque é que há tantas mulheres escritoras de que pouco mais se sabe do que o nome, no séc. XX.

Foi preciso ouvir dizer que Maria Judite de Carvalho era a única mulher existencialista em Portugal, perceber que a Celeste Andrade tem um livro que já ninguém lê, que Isabel da Nóbrega é ainda vista como a musa abandonada por Saramago (na verdade muitas delas são referenciadas como mulheres de alguém), que a Natércia Freire recebeu muito mais aplausos que a Sophia no Teste do Fernando Ribeiro de Melo. Foi preciso começar a encontrar as muito poucas pessoas que falam delas, normalmente com a nostalgia que cabe aos esquecidos: era a Maria Archer, a Natália Nunes, a Fernanda Botelho, a Irene Lisboa, a Maria Ondina Braga, a Graça Pina de Morais.

E que conceito de "esquecidas" é este? Tem sido comum encontrar pessoas com conceitos diferentes do meu. Podem ser apenas referidas muito ao de leve nas conceituadas publicações académicas da Literatura Portuguesa mas podiam andar nos olhos dos leitores, e não estão. Há pessoas que discretamente as lêem avidamente, numa esfera privada. São escritoras que criaram com os leitores relações íntimas, silenciosas. Quem me conhece sabe que prezo essa relação silenciosa e não pretendo com isto que ela se quebre. Pretendo alargá-la. Resgatar este imaginário feminino de um séc XX profundamente preconceituoso artisticamente e tentar encontrar as perguntas certas (as perguntas são sempre o caminho certo, e depois encontrar alunos que tragam as respostas): será verdade que estas escritoras foram abafadas por uma sociedade centrada no homem escritor e intelectual? seria tão difícil sair da esfera privada onde as mulheres iam sendo, desde o séc XIX, intelectualmente aceites? quereriam estas mullheres uma visibilidade diferente? para quem escreviam elas e porquê? o que mudou para a escrita no feminino, hoje? o que as distingue das mulheres que marcaram o cenário literário do séc. XX? bastará um editor lembrar-se de as publicar para que elas tenham o lugar merecido?

As perguntas são muitas, com respostas que, apesar de parecer, não são nada óbvias, e chega aqui o meu pedido de ajuda. Para 2018 vou lançar um novo curso sobre as escritoras esquecidas do séc XX. Vou falar delas e tentar encontrar um caminho para estas dúvidas. Como nos outros cursos que dou vou tentar criar com os vários grupos um mapa de questões e apresentar-lhes cada uma delas, pedindo-lhes que, enquanto leitores, façam com elas o que acharem por bem.

Para isso preciso da vossa ajuda. Como já vem sendo hábito as minhas pequenas obsessões desenvolvem-se à volta de temas onde não há praticamente nada escrito. Preciso que me falem das vossas escritoras esquecidas, que me enviem textos, cópias, links, tudo o que tiverem sobre elas ou sobre esta temática. Fico desde já tão agradecida e vou dando notícias dos avanços da investigação neste blog. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Reverso // Encontro de autores, artistas e editores independentes regressa à Cossoul


DIA 18 DE MAIO, QUINTA-FEIRA

17h00 | Galeria, Sala da Biblioteca, Bar
Inauguração das exposições:
Nocturama, de Agência Calipo
Tem cuidado quando entrares no meu corpo: só tenho um coração, de Alexandre Esgaio
Impressões e cartazes, de Homem do Saco
O dom e a ruína, de Vasco Gato e Vitorino Coragem
Do Avesso, de Miss Print

17h30-19h00 | Sala Raul Solnado
Vídeo:
Projecção Secção Apostas – Jovens Realizadores
Fantasmas (Ricardo Alves, 2016)
Berlenga Grande (Vítor Carvalho, 2014)
Escadote (Nuno Lacerda, 2016)
Visita (Rui Esperança, 2015)
Heroísmo (Helena Estrela Vasconcelos, 2015)
Pedra (Gonçalo Robalo, 2015)

19h00-20h30 | Sala Raul Solnado
Apresentação de projectos:
Casa Fernando Pessoa, por Clara Riso
Festival Silêncio, por Marta Gamito
Livraria da Cossoul, por Duarte Pereira
Miss Print, por Rita Canas Mendes
Fábrica de Braço de Prata, por Nuno Nabais

20h30-23h30 | Sala Raul Solnado
Vídeo:
Apresentação e projecção do documentário Saudade Burra, de Nuno Costa Santos (assinalando os 80 anos do nascimento de Fernando Assis Pacheco)
Lançamentos, apresentações e leituras:
Apresentação do livro «Ficção – Obras Completas, Volume I», de Mário-Henrique Leiria (E-Primatur), com apresentação de Tania Martuscelli e leituras por Miguel Santos;
Lançamento do livro «Querer do corpo, peso (e outros textos)», de Sónia Baptista (não edições), com presença da autora e do editor, apresentação de Maria Sequeira Mendes;
Lançamento do livro «Odes Olímpicas», de Píndaro, tradução de António de Castro Caeiro (Abysmo), com apresentação de José Pedro Serra e Paulo José Miranda e leituras por José Anjos

23h30-00h00 | Sala Raul Solnado
Sessão musical:
003 (Gonçalo Prazeres, Samuel Lercher e Rui Pereira)

00h00 | Sala da Biblioteca
Playlist:
Gustavo de Matos Sequeira

DIA 19 DE MAIO, SEXTA-FEIRA

18h00-18h30 | Sala Raul Solnado
Apresentação de projectos:
25 anos do Teatro Meridional, por Miguel Seabra e Natália Luiza

18h30-20h30 | Sala Raul Solnado
Apresentação de projectos:
Traça/Videoteca de Lisboa, por Inês Sapeta Dias e Fátima Ribeiro
Desisto, por Margarida Borges e Ricardo Martins
Homem do Saco, por Luís França
Largo Residências, por Marta Silva
Agência Calipo, por Agência Calipo

Mesa redonda:
Tradução e escrita, moderada por António Mega Ferreira,
com Daniel Jonas, Golgona Anghel, José Maria Vieira Mendes e Paola d’Agostino

21h30-23h00 | Sala Raul Solnado
Apresentações, leituras e performances:
Selecção de textos de Raul Brandão, por Colectivo Prisma (Cláudio Henriques, Rosa Azevedo e Sara Felício);
Poesia Colombiana, com apresentação de Lauren Mendinueta, leituras por Lauren Mendinueta e Teresa Coutinho, com acompanhamento musical (saxofone) de Edouard Rambourg;
Leituras do livro «Canícula», de Daniel Jonas (Língua Morta), pelo autor e convidados

23h00-00h00 | Sala Raul Solnado
Sessões musicais:
ROQUE (João Roque e André David)
AISHA (Telma Pereira e Olmo Marin)

00h00 | Sala da Biblioteca
Playlist:
Dj Marujo

DIA 20 DE MAIO, SÁBADO

16h00-18h30 | Sala Raul Solnado
Vídeo:
Série de projecções Novos Vídeo-Ensaios,
de Clara Alves, Ricardo Magalhães, Maria Ganem, Adriana Delgado, Paulo Porfírio, Leonor Areal, Sofia Yala Rodrigues, Lúcia Lima, André Agostinho, Patrícia Andrade, João Costa e Guilherme Rodriguez

18h30-20h30 | Sala Raul Solnado
Apresentação de projectos:
A poesia não tem grades, por Filipe Lopes
Terças de poesia clandestina, por Vasco Macedo
Editora Antítese, por Diogo Fernandes e Gonçalo Losada Rodrigues
Tem cuidado..., por Alexandre Esgaio
Revista Caliban, por João Oliveira Duarte

Mesa redonda:
Compor a Escuta, moderada por Rui Magno Pinto,
com Ernesto Donoso (Espanha), Gonçalo Gato (Portugal), Pedro Janela (Portugal) e Ricardo Bernardes (Brasil)

21h30-23h00 | Sala Raul Solnado
Vídeo:
Projecção do vídeo-documentário Arquipélago, Episódio 6: Eucanaã Ferraz – Redundância, errância, perfeição
Leituras:
A poesia não tem grades, por Filipe Lopes e convidados
Leituras/Performance:
«Clube dos Haxixins», por Nuno Moura

23h00-00h00 | Sala Raul Solnado
Sessões musicais:
CRIME (Nazaré da Silva, Samuel Dias e João Paulo Esteves da Silva)
Paulo Curado e Miguel Mira

00h00 | Sala da Biblioteca
Playlist:
Grémio Nefelibata

terça-feira, 9 de maio de 2017

Livraria da Cossoul reabre com livros da Snob

Estes dias têm sido uma correria entre aulas, viagens, lançamento do nosso segundo livro, trabalho. Tudo muito bom mas na verdade há um acontecimento gigante que é a abertura desta nossa mini-casa, minha, do Duarte, da Snob e da Cossoul, sítio que ainda não existe e já não se cansa de surpreender. Abre hoje, às 18h e tem festa grande esta sexta, pelas 18h. O Duarte, o grande livreiro, dono maior desta casa e desta Snob, cabeça e coração desta livraria itinerante, estará lá estes dias a receber-vos, eu estarei sempre que conseguir, os nossos livros esses estão sempre lá. Até dia 20 de Maio, último dia do também nosso Reverso temos descontos em todos os livros. O horário de abertura é das 18h às 22h. 

E nunca é demais uma palavra de agradecimento aos amigos que se encheram de pó para nos ajudarem a ter esta casa de pé hoje! Sois os maiores! 
A Livraria da Cossoul fica na Av. D Carlos I, 61, em Lisboa.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quartos Alugados, Alexandre Andrade

Escrever sobre Alexandre Andrade é uma tarefa ingrata porque há escritores de quem apetece guardar silêncio. Isto porque são escritores do silêncio por ofício, porque defendem, ainda que intuitivamente, a relação autor-leitor como a única relação possível. Defendem a solidão dos dois, a mensagem passada entre um e outro, a independência do texto face a qualquer influência que não seja a própria leitura.
Há um leitor de hoje, exigente, que procura esse espaço de leitura e que, em consequência, procura esses autores que, não sendo raros, têm de ser procurados.
O nosso século trouxe-nos uma nova forma de ver a literatura. Os autores transformam-se em figuras públicas, um livro é comprado sem a certeza de que será lido, vítima do consumo imediato proporcionado pelas redes sociais e pelas festas do livro, lançamentos e apresentações, que se multiplicam. Há muita celebração à volta de um livro, o que não seria grave se não fossem, muitas vezes, auto-suficientes, independentes do texto. Se acrescentassem leitores aos livros, se não funcionasse apenas como montra fechada do mesmo. É fácil perceber que um leitor exigente e atento, e ainda há muitos, queira estabelecer e dar prioridade a essa relação íntima com o autor. Os leitores reais compreendem e valorizam essa intimidade e foram eles que descobriram o Alexandre Andrade.
Na verdade, este não é o primeiro livro do Alexandre Andrade mas foi aquele que o pôs no centro das conversas literárias. Este é o seu terceiro livro de contos e tem ainda dois romances, mas foi com este livro que apareceu em tops nacionais, listas de melhores livros do ano (as terríveis e ingratas listas), tornou-se um fenómeno. Há muitos outros fenómenos literários do género que tiveram diversas origens, muitos deles depois de o autor já ter publicado inúmeros livros. O que é estranho neste caso é o porquê desta popularidade, uma vez que o Alexandre Andrade não cabe em nenhuma dessas categorias. No meio literário actual são raros os fenómenos literários que se devem exclusivamente à qualidade do texto. Aqui talvez estejamos perante um desses casos. Este livro é, apenas, consequência de si próprio.
Editado pelo Exclamação é o único autor vivo da colecção Avesso. Esta colecção começou com o propósito de publicar dez livros de dez autores, portugueses e estrangeiros, sendo que a lista dos dez aparece desde o primeiro livro. Não propondo uma ordem anunciou que os dez livros sairiam conforme fossem estando prontos. Alexandre Andrade surge ao lado de nomes como Lima Barreto ou Alphonse Allais, autores que Rui Manuel Amaral, responsável pela colecção, diz serem autores obrigatórios mas muito esquecidos na actual edição portuguesa. É a própria editora que se refugia nos textos e defende que são eles quem tem de criar uma voz própria, que os defenda e represente. Não elaboram estratégias de promoção, de nenhum tipo. Querem que o texto seja o que é, efectivamente, o livro.
Parece-nos indiscutível que foi o texto dos Quartos Alugados quem trouxe os leitores. O segredo do Alexandre Andrade foi-se espalhando, a partir de uns poucos que já tinham percebido o seu potencial. A literatura portuguesa saturou-se de lugares comuns. Como afirmámos em cima a explosão editorial do início do século trouxe ao leitor uma necessidade de se tornar mais exigente, logo, mais crítico e inteligente. O excesso de lixo literário juntamente com uma exposição pública de processos editoriais de textos que ainda não deveriam ser publicados traz-nos um trabalho de respigadores que se torna, no final, muito recompensador. Quando alguns bons leitores descobrem um bom livro e espalham a notícia os leitores multiplicam-se e transformam o livro num sucesso de vendas exclusivamente textual.

É neste contexto que surge a prosa de Alexandre Andrade. Quartos Alugados reúne uma série de contos que têm em comum o que o título indica. O quarto aparece aqui com duas dimensões: como parte decepada da casa, uma parte de um todo que pouco ou nada se conhece, por um lado, e espaço transitório, efémero, por outro.
Enquanto cenário de casa decepada deparamo-nos com personagens que procuram uma parte qualquer que está para além do quarto, secreta. Parte de si, ou exterior a si, normalmente ligada à casa. O que importa aqui é perceber que estamos sempre na esfera do privado nessa procura do mistério. Há transversalmente a todos os contos um segredo não revelado. A personagem procura esse segredo de forma compenetrada, quase obsessiva. Entramos de forma discreta mas absoluta na intimidade de cada personagem, no sentido em que as nossas obsessões são o que existe de mais privado.
Enquanto cenário transitório encontramos personagens que passam pelo espaço tentando entendê-lo e revelá-lo com a urgência própria de quem sabe que o tempo que vai ocupar aquele espaço é limitado. A obsessão mantém-se, também neste segundo caso. Os tempos são curtos. Os quartos são nossos transitoriamente, não há neles espaço de apropriação ou de enraizamento. O olhar sobre eles é quase sempre despegado, inóspito e muito livre.
Em qualquer um dos cenários estamos perante um mistério. E o mistério de qualquer um dos contos vale por si próprio, não se revela. O autor tenta aqui personalizar e ficcionar o mistério, é ele a personagem principal dos contos - nunca o seu fim mas a sua existência real. É natural a tendência de querer resolver problemas, e é essa tendência que o autor pretende contornar nestes contos. Por norma um problema é visto como um pedido de resposta, o questionamento é um meio e não um fim. A resposta ficcional às histórias de Alexandre Andrade não é a resposta tradicional. Não assume forma de resposta, usa o questionamento como o fim. Não há um fim para o mistério mas há, no entanto, um encerramento, na aceitação do próprio mistério, ou seja, os contos encerram-se em si próprios, não ficam abertos ou suspensos. Há um ciclo que se fecha em cada um deles. Há um abismo negro e silencioso, estranhamente reconfortante em cada uma das histórias de Quartos Alugados. Há uma suspensão do tempo característica do ambiente inexplicável e quase místico que o autor cria: “Eu respirava o tempo como um gás intoxicante, estava sentado numa cadeira de ferro e inspirava o tempo, expirava-o com medo do seu poder. O tempo. Agora limito-me a estar atento aos seus abcessos contaminados pela memória e pelo remorso, de pé sobre esta terra que piso sem deixar marca.” Suspensão entre um tempo que, apesar de ser interior, existe também fora das personagens, num universo nada transparente, antes opaco e quente, como descrito no início do conto Voi Che Sapete: “Há quem afirme que as vagas de calor demasiado intensas têm o poder de diluir a virtude e a moral num caso moroso de acasos e acidentes.”. Estamos dentro de um ambiente obscuro, cru e objectivo que, apesar do que seria expectável, no final é reconfortante e deslumbrante.
Porque acima de tudo há realmente um deslumbramento inteligível, que contrasta com a absoluta pureza da linguagem, facilmente confundida com frieza, mas que é na verdade uma extrema depuração. A procura da palavra exacta, essencial, necessária. Nada é excessivo na escrita de Alexandre Andrade. Nada existe para decorar ou adoçar o texto. Tudo nos chega com as palavras certas, mesmo que a mensagem que nos chega seja encriptada. Alexandre Andrade revela-se um prosador de excelência, que domina de forma perfeita técnicas literárias e ficcionais o que o transforma, mais do que num escritor de encantamento, num escritor necessário.
 
Quartos Alugados 
Alexandre Andrade
Editora Exclamação, 2015
 Colecção Avesso
 


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Erskine Caldwell ou o fim da humanidade

Já aqui falei do Caldwell. De como encontrei estes livros velhos e imóveis da casa de onde a minha avó teve de sair. Trouxe três para minha casa, fui lendo um a um, até chegar a este.

Não sabia muito do Caldwell e não li nada sobre este livro quando o comecei a ler. E agora que o acabei, e que tinha tanto que dizer, fui ver o que andaram a escrever. E é tudo curto, insuficiente, e nenhum texto foi ao sítio que era o sítio onde era preciso encontrar o Caldwell. Este livro não é sobre o pós-crash, sobre a América abandonada e pobre. Esse é só o tempo onde a história acontece. Mas a história acontece num sítio, na beira da estrada do tabaco, numa casa que pertence a uma família "enquanto se mantiver de pé". E essa família teve 17 filhos e só sobram dois. E nenhum os visita, nem nunca mais voltou a casa. Nesta casa sobram cinco pessoas sem traço de humanidade. E aqui que o livro se coloca. Na terra de ninguém onde não há comida, nenhuma, nem humanidade. Há apenas um feroz tom erótico que mostra a animalidade latente. E depois o nada. O único traço de amor é o amor de Jeeter, o pai, à terra. As personagens são feias, com deficiências físicas, a roupa prende-se ao corpo com cordas para que não se desfaça no caminho, a avó tarda em morrer, e há uma filha, a mais linda menina do mundo, que foi forçada a casar com Lov com doze anos e que sem dizer uma palavra, sem nunca aparecer em cena,  prova ter sido o último traço de humanidade a abandonar a casa em ruínas. De resto estamos perante monstros, animais esfomeados.
O livro passa-se em cinco dias apocalípticos. O leitor diverte-se com o excesso de desumanidade e logo depois sofre por ser incapaz. Por perceber que se são humanos tem de haver neles qualquer tipo de sofrimento. E esse sofrimento vem uma vez só. E ainda assim Caldwell faz questão de não o nomear. Porque aqui há cinco dias para deixar que o mundo acabe. E esperar que das cinzas, dos filhos que não chegámos a ver, da não memória que sobra da Estrada do Tabaco, sobre qualquer resto de humano. Mas, ainda assim, é só nossa a esperança. Nunca será essa a mensagem do Estrada do Tabaco. Aqui só sobra o silêncio e o som de uma buzina, insistente, ao longe, do carro que nunca mais voltará a assomar ao fundo da colina.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Curso de Literatura Portuguesa séc XXI

2ª feira
19h às 20h
de 20 de Março a 17 de Abril (5 sessões)
50€
(40€ para grupos de mais de cinco pessoas, estudantes e desempregados)


Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender.
Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.



lista preliminar de autores:
Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Marta Navarro, José Miguel Silva, Claudia R Sampaio, António Cabrita, Miguel Manso, Manuel de Freitas, Andreia Faria, Sandra Andrade, Daniel Faria, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Daniel Jonas, Vasco Gato, Valério Romão, entre outros.


 
inscrições para rosa.b.azev@gmail.com ou geral@leituria.com

sábado, 11 de fevereiro de 2017

pedido de ajuda . Literatura Portuguesa do Séc XXI

Há alturas em que o caminho do trabalho segue outros caminhos e outras lógicas muito mais improvisadas do que pensamos inicialmente. Depois de anos a dar cursos sobre a literatura do século passado agora é altura de falar de hoje, do que se faz e escreve, pensar nos porquês, nos caminhos, nas editoras, nos poetas. Sempre do único ponto de vista que interessa, o da leitura. 

Tenho até à primeira sessão (novidades em breve) perto de um mês para juntar toda a informação em falta, daí pedir a vossa ajuda. Falar sobre o que se passa hoje é arriscado, volátil, duvidoso, temperamental. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há crivo nem filtros. É um salto no escuro para mim que falo mas muito maior para quem ouve e assiste ao curso, que acompanha a minha visão de leitora, mais pessoal, em directo, no momento em que a literatura acontece. Como sempre este curso é virado para a visão do leitor, abrindo o leque e dando à escolha vários caminhos e interpretações desse mesmo leque. Vamos em conjunto aprender a posicionarmo-nos perante uma escrita que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação. 

Gostava por isso de vos pedir textos, opiniões, recensões que tenham escrito / lido sobre esta literatura de hoje. Pode ser do ponto de vista literário ou sociológico. A melhor forma de pegar na literatura de hoje é através do diálogo e troca de experiências de leitura. 

É importante referir que este curso tem o seu início em 1980. Foi este fim de século que desenhou o séc XXI. A literatura não se coloca em categorias nem na história, constrói-se organicamente enleada em si mesma em constante transformação. 

Enviem-me assim toda a informação que tenham sobre este tempo dos livros. Em breve disponibilizo lista de autores, temas, dias, hora e local. Podem enviar-me para o mail rosa.b.azev@gmail.com. A todos um grande obrigada!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

o caminho de um livro

 A minha avó sempre gostou de ler, já aqui falei dela. Mostrou-me livros, ofereceu-me alguns. Mas desde que me lembro dela, desde que nasci, que já não lia muito. Era o meu avô que lia mais. Mas foi ela quem manteve uma estante na sala onde eu e o meu irmão crescemos, onde passávamos as tardes todas, onde fomos voltando ao crescer, ao lado do sofá onde eu me sentava a conversar com ela das últimas vezes que a fui ver. Há pouco tempo a minha avó foi para um lar. A memória foi-se deteriorando nos últimos anos, os livros já tinha largado há muito, depois largou as revistas, depois a televisão. A memória foi-se torcendo, misturando, falamos com ela sem saber com que avó estamos a falar. E no outro dia disse-me que um dos piores aspectos do sítio onde estava era não ter tranquilidade para ler os livros dela. Livros que há muito tempo não lê mas tempo que para ela não tem a mesma dimensão que para nós.

No outro dia, com umas mudanças que fizemos em casa dela, fiz o exercício de olhar para as estantes da sala. Reconhecia todas as cores, as formas, até as texturas. Mas não os títulos. E eu que tinha construído a minha vida à volta dos livros percebi que aquelas lombadas não eram para mim livros como estes que falo. Eram a estante da minha avó, a sala da minha avó, a casa da minha avó, a rua dela.  

Ao passar os olhos reparei em vários livros do Erskine Caldwell. Não estranhei o nome, mas não o reconheci. Pesquisei um bocado e percebi que estava na linha dos meus mais queridos autores, os mesmos de quem a minha avó me tinha falado tanto em pequena. Trouxe este pequeno livro para casa, andei com ele uns dias na mala e no outro dia abri-o. Isto porque de repente (o mundo às vezes tem destas coisas) várias pessoas me falavam do Caldwell, e da forma como ele era imprescindível. O livro já não era só o livro da minha avó era o livro dos meus amigos, dos leitores que tanto gostavam do livro.

Vi que tinha tradução e prefácio de Jorge de Sena e o prefácio acabava assim:

"O apelo neste caso toma a forma de uma voz de criança perdida na noite e implorando a toda a humanidade (de que o leitor, rindo-se dele, da família dele e dos que o rodeiam, faz parte integrante) que o deixe ser livre e conscientemente um homem. Ainda quando não concordamos com a afinação da voz, ou ela nos não pareça portentosa, é uma voz humanizada.
E se não é para assim nos ouvirmos uns aos outros que por aqui andamos, não se percebe muito bem porque seremos tantos e teremos voz".

E se calhar o livro nem era da minha avó, era do meu avô, ou do meu tio, ou do meu pai. Mas essa não é a história que eu conto deste livro. É a minha memória da avó humanizada.  E agora este é o meu Caldwell, porque se calhar a minha avó já nem se lembra do Caldwell e eu farei por me lembrar por ela.




Escritoras esquecidas do séc XX

As leituras que faço levam-me por muitos caminhos, diferentes uns dos outros. E às vezes há sítios onde me deixo ficar, desenvolvendo uma pe...