Estórias com Livros
"Não faças Terrorismo Poético para outros artistas, fá-lo para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que acabaste de fazer é arte." Hakim Bey
Terça-feira, 6 de Março de 2012
"novos autores e novas escritas em Portugal" parte um | os autores e as pessoas
Este tema parece sobejamente falado e debatido. Desde os tempos de escola que se discute se fará diferença conhecer a vida do autor, as suas nuances pessoais, para o compreender melhor. Creio que a maioria responde que não, que a obra vale por si. Outros respondem que acrescenta dados às leituras e interpretações. Em autores como Fernando Pessoa a vida pessoal é a própria obra, ou melhor, aquilo que se considera saber sobre a vida pessoal pode bem ser obra. Serão sempre especulações. Em autores como o Luiz Pacheco a vida dele é tantas vezes mais conhecida do que a obra. E o amor que lemos na Comunidade é muito maior porque "aquele" Luiz Pacheco o sentiu e escreveu.
Mas quando falamos dos novos autores, nossos contemporâneos e, claro, vivos, podemos falar do que é conhecê-los, não só através de entrevistas e aparições públicas mas também pessoalmente. Um escritor nunca vai ser uma figura pública como as outras a não ser que não sejamos seus leitores. Mas tenho a ideia romântica de que só olhamos para um escritor enquanto tal depois de o ter lido. É como um segredo entre nós e eles. Nesse sentido aquilo que sabemos sobre ele será sempre mais do que ele sabe sobre nós. Esta, para mim, é uma das linhas que distingue um escritor muito bom. Quando estamos a falar com ele pela primeira vez e quase sentimos desconforto por saber que lhe conhecemos as entranhas. Que sabemos os cantos negros do que pensa, que lhe conhecemos a poesia. Quando sentimos carinho por ele nas primeiras palavras porque imaginamos que quem escreve aquilo tem de ser naturalmente encantador. Isto não é linear mas a mim nunca me enganaram. Até hoje. Os que se mostraram desinteressantes, vazios de sentido, os que pareceram figuras mais públicas do que de escrita são apanhadas em poucas linhas. Podem ter arte mas falta-lhes sangue. E um escritor tem de ter sangue no que escreve. Seja em forma de desenho, poema, texto infantil, ficção. Seja no que for, porque na sua medida única a escrita deve ser um espelho, uma história que existe no mesmo espaço que a folha e o escritor e depois com os leitores. Um escritor em bom faz-nos querer conversar com ele com uma folha escondida.
Só assim a escrita cumpre o seu objectivo final de passar uma mensagem, para quem a quiser receber. Porque um público deve escolher o seu escritor e não o contrário. Discordem de mim se acharem que não tenho razão.
A conferência "novos autores e novas escritas em Portugal" acontece dia 23 de Março, às 21h30 no MAEDS, Avenida Luísa Todi, nº162, Setúbal, a convite da Synapsis.
“novos autores e novas escritas em Portugal” em Setúbal
Quem são os novos autores portugueses? O que os une e o que os separa? Em que nome escrevem e em que nome surgem em público? Numa época de novas tecnologias, novas formas de aparecer em público, crise económica, intelectual e ideológica, o que é preciso para se ser um escritor?
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, a cima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?
23 de Março, 21h30
Synapsis e MAEDS apresentam
novos autores e novas escritas em Portugal
com rosa azevedo
MAEDS
Avenida Luisa Todi, nº162
2900-451 Setúbal
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, a cima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?
23 de Março, 21h30
Synapsis e MAEDS apresentam
novos autores e novas escritas em Portugal
com rosa azevedo
MAEDS
Avenida Luisa Todi, nº162
2900-451 Setúbal
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
depois de
Acho que chegou a altura
de parar outra vez. Pensar tudo o que pensei outra vez naquelas três
semanas de "cativeiro". Percebi que me tinha esquecido de tudo quando
fui ler o que escrevi. E não pode acontecer porque não podemos
desaprender mesmo que queiramos esquecer as provações mais tristes.
Porque triste é o que se tornam os dias sem saber o que aprendi ali.
Descubro que não tenho tempo. Que não vejo o rio desde aquela altura, com os dois olhos abertos. Que não penso com o nascer do sol. Que me custa acordar e que me custa adormecer. Que me custa muito esta batalha dos dias. E descrevi os dias como uma batalha e achei que estava a ser destrutiva mas não estou. Porque é mesmo isso que são todos os dias. O dia que deixar de ser uma batalha é o dia em que me deixo arrastar e deixo que me ditem as regras. E às vezes a pele é fraca, os sentidos estão dormentes. E na batalha não estão. Na batalha os sentidos estão alerta e encantados.
Tenho medo. De saber o que me aconteceu. De que me aconteça outra vez. De fazer os mesmos erros do passado. De não ser apaixonante. Da solidão. Tenho medo da solidão. Mas tenho mais medo de desistir. Nunca em nenhum dia desisti. E quando parecer que estou num sítio onde não me cabem os movimentos dos braços quero ter as palavras que tive lá a ressoar na cabeça e no coração. Não vou desistir de nada, mesmo que quem me cuida me peça desistências para que a minha cabeça descanse. Tenho a minha não desistência como a certeza da inevitabilidade da beleza disto tudo. E a minha cabeça nunca quis descansar. Mesmo quando esteve exausta. Mesmo quando saiu de lá e nada era como dantes.
Há quem diga que o hospital me trouxe mais espiritualidade, me aproximou da religião e do desconhecido. Não foi isso que aconteceu mas esteve perto disso. Apercebi-me do não limite do nosso corpo. Percebi que há um mundo inteiro que nunca vi. Que talvez o nosso tempo seja curto. Que o nosso tempo é sempre curto. Que há muitas pessoas a quem podemos ajudar só com uma hora de conversa. Que temos um poder ilimitado na relação com os outros.
E depois percebi o que devo às pessoas. Que quando o meu mundo começar a desfazer-se eu monto-o mais forte que antes para que os outros não me vejam falhar. E que só quando os outros se recompuserem eu vou poder permitir-me cair um pouco, o tempo exacto de alguém começar a cair. Porque a amizade funciona desta forma, como uma montanha russa. Nunca tem duas pessoas em baixo.
E depois percebi o amor. Que não se faz de encontros furtivos, nem de meses contados. O amor é encontrar a pessoa com quem nunca temos de fingir, a única que pode ir ao fundo ao mesmo tempo que nós, porque lá em baixo somos sem pele nem mentiras nem segredos. E onde encontramos nessa nudez total o sítio certo onde nos sentimos bem. É encontrar a pessoa que todos os dias nos pensa e imagina no melhor de nós. E precisa de todos os dias fazer seja o que for para nos amaciar as dores. E que é o único que nos vê por vezes sem dores nenhumas. E o amor já não pode ser menos do que isto nem o será muitas vezes na vida porque é demasiado raro.
Agora preciso de pegar em todos estes ensinamentos e deixar que eles me guiem. Mesmo que a batalha me canse e por vezes oiça aquela voz dentro da cabeça "estou cansada estou cansada estou cansada". Há sempre um sítio secreto onde descansar.
Hoje sou indesistível. Sou com vocês indesistível. Nao me peçam menos que eu não sei dar. Os dias são grandes e a vida é bonita. E todos os dias têm uma poesia que fala nisso. Só é preciso encontrá-la.
Descubro que não tenho tempo. Que não vejo o rio desde aquela altura, com os dois olhos abertos. Que não penso com o nascer do sol. Que me custa acordar e que me custa adormecer. Que me custa muito esta batalha dos dias. E descrevi os dias como uma batalha e achei que estava a ser destrutiva mas não estou. Porque é mesmo isso que são todos os dias. O dia que deixar de ser uma batalha é o dia em que me deixo arrastar e deixo que me ditem as regras. E às vezes a pele é fraca, os sentidos estão dormentes. E na batalha não estão. Na batalha os sentidos estão alerta e encantados.
Tenho medo. De saber o que me aconteceu. De que me aconteça outra vez. De fazer os mesmos erros do passado. De não ser apaixonante. Da solidão. Tenho medo da solidão. Mas tenho mais medo de desistir. Nunca em nenhum dia desisti. E quando parecer que estou num sítio onde não me cabem os movimentos dos braços quero ter as palavras que tive lá a ressoar na cabeça e no coração. Não vou desistir de nada, mesmo que quem me cuida me peça desistências para que a minha cabeça descanse. Tenho a minha não desistência como a certeza da inevitabilidade da beleza disto tudo. E a minha cabeça nunca quis descansar. Mesmo quando esteve exausta. Mesmo quando saiu de lá e nada era como dantes.
Há quem diga que o hospital me trouxe mais espiritualidade, me aproximou da religião e do desconhecido. Não foi isso que aconteceu mas esteve perto disso. Apercebi-me do não limite do nosso corpo. Percebi que há um mundo inteiro que nunca vi. Que talvez o nosso tempo seja curto. Que o nosso tempo é sempre curto. Que há muitas pessoas a quem podemos ajudar só com uma hora de conversa. Que temos um poder ilimitado na relação com os outros.
E depois percebi o que devo às pessoas. Que quando o meu mundo começar a desfazer-se eu monto-o mais forte que antes para que os outros não me vejam falhar. E que só quando os outros se recompuserem eu vou poder permitir-me cair um pouco, o tempo exacto de alguém começar a cair. Porque a amizade funciona desta forma, como uma montanha russa. Nunca tem duas pessoas em baixo.
E depois percebi o amor. Que não se faz de encontros furtivos, nem de meses contados. O amor é encontrar a pessoa com quem nunca temos de fingir, a única que pode ir ao fundo ao mesmo tempo que nós, porque lá em baixo somos sem pele nem mentiras nem segredos. E onde encontramos nessa nudez total o sítio certo onde nos sentimos bem. É encontrar a pessoa que todos os dias nos pensa e imagina no melhor de nós. E precisa de todos os dias fazer seja o que for para nos amaciar as dores. E que é o único que nos vê por vezes sem dores nenhumas. E o amor já não pode ser menos do que isto nem o será muitas vezes na vida porque é demasiado raro.
Agora preciso de pegar em todos estes ensinamentos e deixar que eles me guiem. Mesmo que a batalha me canse e por vezes oiça aquela voz dentro da cabeça "estou cansada estou cansada estou cansada". Há sempre um sítio secreto onde descansar.
Hoje sou indesistível. Sou com vocês indesistível. Nao me peçam menos que eu não sei dar. Os dias são grandes e a vida é bonita. E todos os dias têm uma poesia que fala nisso. Só é preciso encontrá-la.
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
vamos fazer um espectáculo oh vamos borisvianar
amigos,
há projectos que passamos a vida a adiar. Eu faço isso muitas vezes, porque nem sempre as razões para os iniciar são as melhores razões.
Faz agora três anos eu e a J. apresentámos um mini espectáculo no bairro alto sobre o Boris Vian. Com uma cortina vermelha, livros e algumas notas falávamos da vida dele, líamos textos, adoptávamos algum do espírito surrealista tão borisvianista, tudo ao som da música dele.
Desde aí que me apetece fazer um espectáculo todo ele Boris Vian mas um bocado mais desenvolvido do que este. Com mais aspectos da vida dele, curiosidades, sentido de humor. Quero perceber melhor a cabeça dele, o génio, o que o levava a escrever assim, quem foi esta personagem ao mesmo tempo tão doce, escatológica, fria, imaginativa e com um sentido de humor irrepetível. Já comecei muitas vezes a pensar este espectáculo, sozinha e com outras pessoas, mas nunca o terminei. Já li muitas coisas, aprendi muitas coisas mas serão sempre mais as que me faltam aprender do que as que sei.
É aí que vocês entram. Decidi escrever este espectáculo sozinha e depois procurar "as minhas pessoas" para o representarem comigo. Mas já sabem que não faço nada realmente sozinha até porque anda certamente por aí muito boa opinião sobre Boris Vian. E imagens, e músicas. E quem o deteste. E quem saiba segredos. E quem queira só falar comigo. Eu quero falar sobre ele. Podemos fazer isso em cafés, em chats, no meu palácio, ou por e-mail (rosa.b.azev@gmail.com), ou pelo blog.
Vamos pensar Boris Vian. Falar de Boris Vian. Ouvir Boris Vian. Vamos borisvianar.
há projectos que passamos a vida a adiar. Eu faço isso muitas vezes, porque nem sempre as razões para os iniciar são as melhores razões.
Faz agora três anos eu e a J. apresentámos um mini espectáculo no bairro alto sobre o Boris Vian. Com uma cortina vermelha, livros e algumas notas falávamos da vida dele, líamos textos, adoptávamos algum do espírito surrealista tão borisvianista, tudo ao som da música dele.
Desde aí que me apetece fazer um espectáculo todo ele Boris Vian mas um bocado mais desenvolvido do que este. Com mais aspectos da vida dele, curiosidades, sentido de humor. Quero perceber melhor a cabeça dele, o génio, o que o levava a escrever assim, quem foi esta personagem ao mesmo tempo tão doce, escatológica, fria, imaginativa e com um sentido de humor irrepetível. Já comecei muitas vezes a pensar este espectáculo, sozinha e com outras pessoas, mas nunca o terminei. Já li muitas coisas, aprendi muitas coisas mas serão sempre mais as que me faltam aprender do que as que sei.
É aí que vocês entram. Decidi escrever este espectáculo sozinha e depois procurar "as minhas pessoas" para o representarem comigo. Mas já sabem que não faço nada realmente sozinha até porque anda certamente por aí muito boa opinião sobre Boris Vian. E imagens, e músicas. E quem o deteste. E quem saiba segredos. E quem queira só falar comigo. Eu quero falar sobre ele. Podemos fazer isso em cafés, em chats, no meu palácio, ou por e-mail (rosa.b.azev@gmail.com), ou pelo blog.
Vamos pensar Boris Vian. Falar de Boris Vian. Ouvir Boris Vian. Vamos borisvianar.
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
O Círculo da Felicidade
Há uns tempos escrevi um livro para crianças que se chamava O Círculo da Felicidade. Mais do que livro era um jogo para as crianças. Que nasceu com os adultos. O princípio é o mais simples de todos. As crianças pensam em todas as coisas que mais gostam, que as fazem sentir mesmo felizes. Saem as frases mais mirabolantes, os conceitos mais bonitos e também os mais divertidos. Esse livro está pronto, com ilustrador e tudo à espera de ver a luz do dia.
Entretanto às vezes falo nele com pessoas que já não são crianças. E penso nele eu também. E aprendi ao longo destes quatro anos em que o penso a viver a par com o meu círculo da felicidade. A ir buscá-lo a qualquer hora.
Desde que saí do hospital que aconteceram muitas coisas, para além do hospital em si e do efeito da medicação, que me fizeram precisar e pensar muito no meu círculo da felicidade. E vi-o em Sintra quando a R. me ofereceu a Nossa Senhora das Mentes Iluminadas para que a minha cabeça se mantenha bonita com esta fé que é a nossa e que se encontra nos labirintos que quiser e na forma que quiser; na L. a gritar ao fundo do corredor quando me sente entrar "tia rosiiiiinha tia rosiiiiinha já não vais mais para o hospital que eu tive tantas tantas saudades tuas"; ontem a trocar segredos com a I. enroladas em mantas e aquecedores e ela dizer que o que nós precisamos é de café com leite condensado (magro claro) e depois de uma razão qualquer para acabar com a lata; ao segurar a S. ao colo que nem dois meses tinha e ficar a ver a cabeça dela aninhar-se no meu pescoço; no ouvir o Fossanova a atravessar o rio sozinha na minha carripana, a caminho do Samouco onde as crianças gritam pela casa e vêm a correr buscar-me à porta e não me saem do pescoço o dia todo; no estar em frente ao mar com a F., a J., o F., o N. deitados na areia e sentir a água do mar passar pelos kgs de roupa que nos vão proteger do frio dessa noite; no ouvir a voz do L. e ter a pele dele ao pé da minha; no ler um texto do Pullman que põe Jesus a falar, revoltado e triste, com Deus e sentir aquela excitação do "caramba...", que nem me deixou dormir; no voltar a escrever um poema mesmo que arranhado e torto; ontem sair do médico e ter a R. no café; a ouvir o FMI do José Mário Branco depois de vir do LIDL de Odemira e pensar que é mesmo isto.
"Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"
A questão é mesmo esta. O Círculo da Felicidade tem um só lado. Não podemos ficar em casa a imaginar que em tempos houve coisas que tínhamos dentro do círculo e que já saíram. Toca a mexer. A procurar. A vida é gigante e o mundo não pode ter fossos onde possamos cair. "Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro."
Entretanto às vezes falo nele com pessoas que já não são crianças. E penso nele eu também. E aprendi ao longo destes quatro anos em que o penso a viver a par com o meu círculo da felicidade. A ir buscá-lo a qualquer hora.
Desde que saí do hospital que aconteceram muitas coisas, para além do hospital em si e do efeito da medicação, que me fizeram precisar e pensar muito no meu círculo da felicidade. E vi-o em Sintra quando a R. me ofereceu a Nossa Senhora das Mentes Iluminadas para que a minha cabeça se mantenha bonita com esta fé que é a nossa e que se encontra nos labirintos que quiser e na forma que quiser; na L. a gritar ao fundo do corredor quando me sente entrar "tia rosiiiiinha tia rosiiiiinha já não vais mais para o hospital que eu tive tantas tantas saudades tuas"; ontem a trocar segredos com a I. enroladas em mantas e aquecedores e ela dizer que o que nós precisamos é de café com leite condensado (magro claro) e depois de uma razão qualquer para acabar com a lata; ao segurar a S. ao colo que nem dois meses tinha e ficar a ver a cabeça dela aninhar-se no meu pescoço; no ouvir o Fossanova a atravessar o rio sozinha na minha carripana, a caminho do Samouco onde as crianças gritam pela casa e vêm a correr buscar-me à porta e não me saem do pescoço o dia todo; no estar em frente ao mar com a F., a J., o F., o N. deitados na areia e sentir a água do mar passar pelos kgs de roupa que nos vão proteger do frio dessa noite; no ouvir a voz do L. e ter a pele dele ao pé da minha; no ler um texto do Pullman que põe Jesus a falar, revoltado e triste, com Deus e sentir aquela excitação do "caramba...", que nem me deixou dormir; no voltar a escrever um poema mesmo que arranhado e torto; ontem sair do médico e ter a R. no café; a ouvir o FMI do José Mário Branco depois de vir do LIDL de Odemira e pensar que é mesmo isto.
"Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"
A questão é mesmo esta. O Círculo da Felicidade tem um só lado. Não podemos ficar em casa a imaginar que em tempos houve coisas que tínhamos dentro do círculo e que já saíram. Toca a mexer. A procurar. A vida é gigante e o mundo não pode ter fossos onde possamos cair. "Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro."
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
III ENCONTRO LIVREIRO , homenagem e apelo à participação
Com o inconfundível traço de Pedro Vieira, apresentamos hoje o cartaz do III Encontro Livreiro, a realizar na livraria Culsete, em Setúbal, no próximo dia 25 de Março de 2012, domingo, a partir das 15 horas. Obrigado, Pedro.
Este ano a proposta é realizarmos o nosso encontro anual sob o signo da
ESPERANÇA
NO FUTURO DA LEITURA, DO LIVRO, DA LIVRARIA
Assim:
INICIAMOS em 2012 a atribuição anual do diploma «Livreiros da Esperança», querendo com isso homenagear quem, de entre as «gentes do livro», seja merecedor de público reconhecimento e de louvor.
Depois
da iniciativa da «Carta Aberta de “Gentes do Livro”», pedindo o público
reconhecimento do trabalho e do exemplo do livreiro da Livraria
Esperança (Funchal) - «alguém
que é um exemplo, não só para a classe profissional dos livreiros
portugueses, mas também para todas as “gentes do livro”, pela história
de que é herdeiro e pelo exemplo de vida, de persistência, de
resistência e de visão e esperança de futuro que continua a transmitir
às gerações actuais e vindouras […] Porque soube manter e desenvolver os
sonhos de seu avô Jacintho e de seu pai José, mas também preparar o
futuro, mantendo a esperança na Leitura, no Livro e na Livraria.» -, e inspirando-nos no nome da livraria, decidimos atribuir o título de
LIVREIRO DA ESPERANÇA 2012
ao livreiro
JORGE FIGUEIRA DE SOUSA
PEDIMOS a todos os que se considerem “gentes do livro” (leitores, bibliotecários, livreiros, autores, tradutores, editores, distribuidores, etc., etc.) que, até à data da realização do III Encontro Livreiro, nos façam chegar as suas reflexões, tendo como ponto de partida o tema acima enunciado.
Chamamos a estes contributos, aqui no blogue,
«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA».
Nessa reflexão, para além da apresentação de aspectos negativos e de soluções possíveis para os ultrapassar, sugere-se que
se revelem experiências e histórias positivas que possam servir de
modelo para a tão urgente e necessária ultrapassagem da crise, superando-a pela positiva e não pelo azedume, pela desistência e pelo queixume.
Os textos deverão ser enviados para o endereço do Encontro Livreiro, encontro.livreiro@gmail.com, referindo nome e profissão, bem como, se bem que facultativamente, empresa, site / blogue / facebook.
APELAMOS
a que todos, através dos contactos e meios de que disponham, colaborem
na divulgação do conteúdo desta comunicação e do III Encontro Livreiro e
que se organizem em grupos (de amigos, de profissão, de empresa, etc.) e
se desloquem a Setúbal, se o desejarem e se possível almoçando um bom
peixe e, a seguir, encaminhando-se para o Convívio e o Encontro na
Livraria Culsete – Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B –, a partir das 15
horas do dia 25 de Março de 2012.
Venham daí e tragam outros amigos também. Uma coisa é cada vez mais certa: Isto Não Fica Assim!
Encontro-Livreiro
Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros
Chegámos ao tempo dos exageros, potenciado pelas redes sociais e novas tecnologias. Os amantes dos livros têm o pêlo eriçado por tudo o que ameaça o livro na sua forma tradicional. As piores ameaças apontadas são os e-books e a morte das chamadas livrarias tradicionais ou de bairro, sendo que esta última é claramente mais trágica do que a primeira. Esta vem muitas vezes acompanhada pela equiparada morte do “livreiro”, essa profissão tantas vezes menosprezada. Associa-se com facilidade o bom livreiro à livraria tradicional e o mau livreiro às livrarias de grupo.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço.
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
LIVRO DE CABECEIRA com Pedro Vieira e Samuel Velho
9 de Fevereiro, 19h
Book House, no ISPA, Rua Jardim do Tabaco, 34, Lisboa
com que livros dormem eles? que livros comem ao pequeno almoço?
aqui estão eles:
Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago
O Processo, Kafka
A Espuma dos Dias, Boris Vian
Lunário, Al Berto
A Boca na Cinza, Rui Nunes
Musicofilia, Oliver Sacks
e depois é lançar perguntas e provocações. ouvir e falar sem pudor e sem regras, como se quer.
este é o primeiro dos LIVROS DE CABECEIRA, de 15 em 15 dias encontramo-nos no ISPA para falar dos livros que dormem com os nossos. nós convidamos um, ele convida outro.
acompanhem aqui os desenvolvimentos, resumos, comentários e próximas sessões.
qualquer dúvida, sugestão de convidados ou um outro qualquer estamos em rosa.b.azev@gmail.com.
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
III Encontro Livreiro
Está a chegar o III Encontro Livreiro. Perdi o I com pena minha mas a experiência do II foi muito gigante para os meus metros quadrados como o são os livros.
Fui com a Vanda que eu não via há muito tempo e que é sempre "amiga dos livros", a primeira do dia.
Chegamos a Setúbal, à Culsete e vemos o Luís ao longe e um monte de gente à volta do Livreiro Velho, belo anfitrião de um encontro na sua não menos bela livraria. Depois de alguma conversa entramos ao som da música, uma surpresa para o Livreiro e depois algumas pessoas falam. De algumas pessoas passamos a muitas pessoas para depois passar a todas as pessoas. Todas passam pelo microfone. Algumas pensaram no que iam dizer, outras não, umas têm um discurso mais composto, outras mais comovido, outras riem-se, atiram provocações, repetem depoimentos, fazem perguntas. Depois bebe-se moscatel e a conversa dura até ser de noite, o Livreiro Velho conta histórias, compram-se livros. As pessoas encantam-se.
O Encontro Livreiro é assim porque é informal e hoje já se fazem poucos encontros informais sobre os livros. Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais. O Encontro Livreiro é único na forma e no conteúdo. Foi lá que pela primeira vez ouvi alguém que não me conhecia falar deste blog. Foi lá que conheci muita gente que hoje está cada vez mais próxima. Foi lá que muitos de nós se juntaram em comunidade.
E está quase. É no último domingo de Março, vamo-nos juntar todos e oferecer boleias de Lisboa.
Fui com a Vanda que eu não via há muito tempo e que é sempre "amiga dos livros", a primeira do dia.
Chegamos a Setúbal, à Culsete e vemos o Luís ao longe e um monte de gente à volta do Livreiro Velho, belo anfitrião de um encontro na sua não menos bela livraria. Depois de alguma conversa entramos ao som da música, uma surpresa para o Livreiro e depois algumas pessoas falam. De algumas pessoas passamos a muitas pessoas para depois passar a todas as pessoas. Todas passam pelo microfone. Algumas pensaram no que iam dizer, outras não, umas têm um discurso mais composto, outras mais comovido, outras riem-se, atiram provocações, repetem depoimentos, fazem perguntas. Depois bebe-se moscatel e a conversa dura até ser de noite, o Livreiro Velho conta histórias, compram-se livros. As pessoas encantam-se.
O Encontro Livreiro é assim porque é informal e hoje já se fazem poucos encontros informais sobre os livros. Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais. O Encontro Livreiro é único na forma e no conteúdo. Foi lá que pela primeira vez ouvi alguém que não me conhecia falar deste blog. Foi lá que conheci muita gente que hoje está cada vez mais próxima. Foi lá que muitos de nós se juntaram em comunidade.
E está quase. É no último domingo de Março, vamo-nos juntar todos e oferecer boleias de Lisboa.
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
mudar de vida V
ouvir música quando estou sozinha em casa, pensar, amar desmesuradamente, ler desmesuradamente, escrever e detestar, apagar, voltar a escrever, detestar mas deixar estar, pensar nas pessoas que me fazem falta, querer algumas a viver no meu sofá. imaginar sempre outra coisa. pensar em formas de mudar de vida, mais radicais, talvez. nunca parar de pensar em como se muda de vida, se é isso que se quer.
mudar de vida IV
pensar que quando começar a conferência sobre novos autores portugueses não vou falar deles mas dar pistas sobre como criar sobre eles uma leitura própria. escrever a conferência, pensar a conferência.
mudar de vida III
terminar de "montar" como prometido já a quatro pessoas (que neste contexto é muito) o meu livro e pô-lo noutras mãos.
"a fazer-me à vida. urge o amor e a poesia e não há mais tempo a perder."
"a fazer-me à vida. urge o amor e a poesia e não há mais tempo a perder."
mudar de vida II
esquecer o conforto dos dias passivos e dizer o que penso sobre este amor, mesmo que isso me faça ser uma pessoa que gosto menos, se correr mal.
"a fazer-me à vida. urge o amor e a poesia e não há mais tempo a perder."
"a fazer-me à vida. urge o amor e a poesia e não há mais tempo a perder."
mudar de vida I
começar a aproveitar os fins de tarde outra vez e ler nos cafés. Se não podemos ir a Buenos Aires, Buenos Aires vem até nós. aproveitar o que os livros foram em Buenos Aires, o que a solidão foi em Buenos Aires. mas agora em Lisboa.
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
hoje mudei o cabeçalho e deixo-vos o Hakim Bey
Capítulo de "Caos, os Panfletos do Anarquismo Ontológico" (parte um de "Z. A. T."),
de Hakim Bey
ESTRANHAS DANÇAS NOS SAGUÕES de Bancos 24 Horas. Espetáculos pirotécnicos não autorizados. Arte terrestre, trabalhos- telúricos como bizarros artefactos alienígenas espalhados em Parques Nacionais. Arromba casas mas, ao invés de roubar, deixa objectos Poético-Terroristas. Rapta alguém e fá-lo feliz. Escolhe alguém aleatoriamente e convence-o de que ele é herdeiro de uma enorme, fantástica e inútil fortuna: digamos 8000 quilómetros quadrados da Antártida, ou um velho elefante de circo, ou um orfanato em Bombaí, ou uma coleção de manuscritos alquímicos. Mais tarde, ele irá dar-se conta de que acreditou por alguns poucos momentos em algo extraordinário, & talvez, como resultado, seja levado a procurar uma forma mais intensa de viver.
Prega placas comemorativas em locais (públicos ou privados) onde experimentaste uma revelação ou tiveste uma experiência sexual particularmente especial, etc.
Anda nu por aí.
Organiza uma greve na tua escola ou local de trabalho, com a justificativa de que não estão a ser satisfeitas as tuas necessidades de indolência & beleza espiritual.
A Arte do grafitti emprestou alguma graça à metros horrendos & rígidos monumentos públicos. A arte Poético-Terrorista também pode ser criada em locais públicos: poemas rabiscados em casas de banho de tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte distribuída em pára-brisa de carros estacionados, Slogans em Letras Grandes em muros de playgrounds, cartas anónimas enviadas a destinatários aleatórios ou escolhidos (fraude postal), transmissões piratas de rádio, cimento fresco...
A reacção da audiência ou o choque estético produzido pelo Terrorismo Poético deve ser pelo menos tão forte quanto a emoção do terror: nojo poderoso, excitação sexual, admiração supersticiosa, inspiração intuitiva repentina, angústia dadaísta - não importa se o Terrorismo Poético é direcionado a uma ou a várias pessoas, não importa se é "assinado" ou anónimo; se ele não muda a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.
O Terrorismo Poético é um acto no Teatro de Crueldade que não tem palco, nem bancos, bilheteira ou paredes. Para funcionar, o TP deve ser categoricamente divorciado de todas as estruturas convencionais de consumo de arte (galerias, publicações, media). Mesmo as tácticas guerrilheiras Situacionistas de teatro de rua já estão muito bem conhecidas e esperadas, actualmente.
Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um acto consciente de uma vida deliberademente mais bela: este pode ser o Terrorismo Poético definitivo. O Terrorista Poético comporta-se como um aproveitador barato cuja meta não é dinheiro, mas MUDANÇA.
Não faça TP para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que acabaste de fazer é arte. Evita categorias artísticas reconhecidas, evita a política, não fiques por perto para discutir, não sejas sentimental; sê impiedoso, corre riscos, vandaliza apenas o que precisa ser desfigurado, faz algo que as crianças se lembrem para o resto da vida - mas sê espontâneo apenas quando a Musa do TP te tenha possuído.
Fantasia-te. Deixa um nome falso. Sê lendário. O melhor TP é contra a lei. Arte como crime; crime como arte
de Hakim Bey
ESTRANHAS DANÇAS NOS SAGUÕES de Bancos 24 Horas. Espetáculos pirotécnicos não autorizados. Arte terrestre, trabalhos- telúricos como bizarros artefactos alienígenas espalhados em Parques Nacionais. Arromba casas mas, ao invés de roubar, deixa objectos Poético-Terroristas. Rapta alguém e fá-lo feliz. Escolhe alguém aleatoriamente e convence-o de que ele é herdeiro de uma enorme, fantástica e inútil fortuna: digamos 8000 quilómetros quadrados da Antártida, ou um velho elefante de circo, ou um orfanato em Bombaí, ou uma coleção de manuscritos alquímicos. Mais tarde, ele irá dar-se conta de que acreditou por alguns poucos momentos em algo extraordinário, & talvez, como resultado, seja levado a procurar uma forma mais intensa de viver.
Prega placas comemorativas em locais (públicos ou privados) onde experimentaste uma revelação ou tiveste uma experiência sexual particularmente especial, etc.
Anda nu por aí.
Organiza uma greve na tua escola ou local de trabalho, com a justificativa de que não estão a ser satisfeitas as tuas necessidades de indolência & beleza espiritual.
A Arte do grafitti emprestou alguma graça à metros horrendos & rígidos monumentos públicos. A arte Poético-Terrorista também pode ser criada em locais públicos: poemas rabiscados em casas de banho de tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte distribuída em pára-brisa de carros estacionados, Slogans em Letras Grandes em muros de playgrounds, cartas anónimas enviadas a destinatários aleatórios ou escolhidos (fraude postal), transmissões piratas de rádio, cimento fresco...
A reacção da audiência ou o choque estético produzido pelo Terrorismo Poético deve ser pelo menos tão forte quanto a emoção do terror: nojo poderoso, excitação sexual, admiração supersticiosa, inspiração intuitiva repentina, angústia dadaísta - não importa se o Terrorismo Poético é direcionado a uma ou a várias pessoas, não importa se é "assinado" ou anónimo; se ele não muda a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.
O Terrorismo Poético é um acto no Teatro de Crueldade que não tem palco, nem bancos, bilheteira ou paredes. Para funcionar, o TP deve ser categoricamente divorciado de todas as estruturas convencionais de consumo de arte (galerias, publicações, media). Mesmo as tácticas guerrilheiras Situacionistas de teatro de rua já estão muito bem conhecidas e esperadas, actualmente.
Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um acto consciente de uma vida deliberademente mais bela: este pode ser o Terrorismo Poético definitivo. O Terrorista Poético comporta-se como um aproveitador barato cuja meta não é dinheiro, mas MUDANÇA.
Não faça TP para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que acabaste de fazer é arte. Evita categorias artísticas reconhecidas, evita a política, não fiques por perto para discutir, não sejas sentimental; sê impiedoso, corre riscos, vandaliza apenas o que precisa ser desfigurado, faz algo que as crianças se lembrem para o resto da vida - mas sê espontâneo apenas quando a Musa do TP te tenha possuído.
Fantasia-te. Deixa um nome falso. Sê lendário. O melhor TP é contra a lei. Arte como crime; crime como arte
Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
não, enganei-me, agora é que estou com uma apoplexia
"And don’t worry about losing. If it is right, it happens — The main thing is not to hurry. Nothing good gets away."
Steinbeck a falar ao filho adolescente sobre o amor. Tão sábio, caramba...
O texto todo aqui.
Steinbeck a falar ao filho adolescente sobre o amor. Tão sábio, caramba...
O texto todo aqui.
Este livro é demasiado bom para ser verdade
Passei hoje pela Fnac do Chiado. Justiça lhes seja feita (a livraria roça o que roça mas os meus amigos livreiros estão muito lá em cima), têm livraria de importação em bom e, mais importante de tudo, tem os melhores amigos que percebem mais de livros. Quando preciso mesmo de ajuda passo lá e falo com eles. Hoje queria saber mais do budismo e foi por isso que lá fui. E soube mais e até comprei um livro. A tempo deixarei aqui comentários sobre isso.
Mas de repente tropecei nisto:
Um catálogo da "curiosidade leitora" de Borges. Um volume gigante de mais de 500 páginas de reflexões sobre livros, ensaios, notas, crónicas, prólogos, aulas, conferências. Dos clássicos aos novos.
Ia tendo uma apoplexia. É demasiado bom. Já o tenho aqui. Para comentários posteriores!
Mas de repente tropecei nisto:
Um catálogo da "curiosidade leitora" de Borges. Um volume gigante de mais de 500 páginas de reflexões sobre livros, ensaios, notas, crónicas, prólogos, aulas, conferências. Dos clássicos aos novos.
Ia tendo uma apoplexia. É demasiado bom. Já o tenho aqui. Para comentários posteriores!
Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Os livros são grandes de mais para os meus metros quadrados
Ando há dias a pensar nos livros que leio. No que é ser leitor, mas leitor a sério. Não é devorador de livros ou leitor de praia. É ser leitor, é precisar de ter os livros ao pé. Eu quero saber a história dos livros. Ler não é só ler o que o livro diz, é ler também o próprio livro.
Hoje peguei num livro da Assírio e Alvim mas da Assírio antiga, a do Hermínio. Aquelas capas, o logotipo desenhado daquela forma, aquilo conta-me uma história. A história da primeira vez que o meu pai me mostrou as obras completas de António Maria Lisboa, com a capa cor-de-rosa, ou aquela vez em que me mostrou a Poesia Toda do Herberto, livro que roubei ao meu irmão, colei a capa, e tenho-o lá ao pé de mim e é precioso.
Quando achamos que somos grandes leitores temos sempre certezas. Do que é bom, do que é mau, das "intenções" de escrita de cada escritor. Depois começamos a julgar livros por ideias que temos. Não pela leitura real.
Há um vício que me ficou de livreira, que é ter sempre uma opinião sobre todos os livros, um ponto de vista. Muitas vezes, por mais ridículo que isto seja e é, o público precisa disso. Mas está errado, e devia ficar dentro da livraria. Não temos de ler tudo para imaginar que não vamos gostar, mas não podemos ter certezas sobre escritas antes de olharmos para elas, nem que seja de relance.
Quanto mais o tempo passa, quanto mais leio, menos acho que sei. E mais me fascino com os leitores e quero ser como eles. Mas não quero mais ter conversas com quem sabe antes de saber. Porque a leitura é um acto de amor e o amor não se pode disfarçar de sabedoria. Porque a esses a rasteira vem rápida e certeira. E o que é aparentemente inteligência pode passar a pedantismo o que é uma pena.
Cada vez tenho menos pessoas para falar de livros. Cada vez tenho mais livros. Cada vez leio mais e de forma mais dispersa. Os livros são grandes demais para os meus metros quadrados. Mas hão de caber todos cá dentro.
Hoje peguei num livro da Assírio e Alvim mas da Assírio antiga, a do Hermínio. Aquelas capas, o logotipo desenhado daquela forma, aquilo conta-me uma história. A história da primeira vez que o meu pai me mostrou as obras completas de António Maria Lisboa, com a capa cor-de-rosa, ou aquela vez em que me mostrou a Poesia Toda do Herberto, livro que roubei ao meu irmão, colei a capa, e tenho-o lá ao pé de mim e é precioso.
Quando achamos que somos grandes leitores temos sempre certezas. Do que é bom, do que é mau, das "intenções" de escrita de cada escritor. Depois começamos a julgar livros por ideias que temos. Não pela leitura real.
Há um vício que me ficou de livreira, que é ter sempre uma opinião sobre todos os livros, um ponto de vista. Muitas vezes, por mais ridículo que isto seja e é, o público precisa disso. Mas está errado, e devia ficar dentro da livraria. Não temos de ler tudo para imaginar que não vamos gostar, mas não podemos ter certezas sobre escritas antes de olharmos para elas, nem que seja de relance.
Quanto mais o tempo passa, quanto mais leio, menos acho que sei. E mais me fascino com os leitores e quero ser como eles. Mas não quero mais ter conversas com quem sabe antes de saber. Porque a leitura é um acto de amor e o amor não se pode disfarçar de sabedoria. Porque a esses a rasteira vem rápida e certeira. E o que é aparentemente inteligência pode passar a pedantismo o que é uma pena.
Cada vez tenho menos pessoas para falar de livros. Cada vez tenho mais livros. Cada vez leio mais e de forma mais dispersa. Os livros são grandes demais para os meus metros quadrados. Mas hão de caber todos cá dentro.
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
Jesus o Bom e Cristo o Patife
Este é um livro que nos apresenta a história do Novo Testamento reescrita. Desdobra Jesus Cristo em dois irmãos gémeos, Jesus e Cristo. Jesus que apregoa a chegada de um novo reino e o irmão, Cristo, que o segue retirando informações sobre não apenas o que diz mas também os milagres que, aparentemente, realiza.
O livro vale pela fábula que é, pela história que reescreve, tão mais plausível e possível que a outra. Jesus não é nunca posto em causa, o que é posto em causa é o aproveitamento que a Igreja faz dessa história. Na verdade este livro mostra como aquilo que Jesus pregava não é aquilo em que se transformou a Igreja, é muitas vezes o seu contrário. E tem um momento alto, obrigatório mesmo para quem não quer ler o livro todo, que é, quase no final, quando Jesus reza a Deus e diz que o silêncio e a postura deste nunca vão levar os homens a caminho do Reino. Explica como gostaria que a Igreja enquanto instituição fosse e diz o que pode falhar. E tudo o que pode falhar é o que sabemos hoje que falhou.
Um livro divertido e importante. Acutilante. No sítio certo.
O livro vale pela fábula que é, pela história que reescreve, tão mais plausível e possível que a outra. Jesus não é nunca posto em causa, o que é posto em causa é o aproveitamento que a Igreja faz dessa história. Na verdade este livro mostra como aquilo que Jesus pregava não é aquilo em que se transformou a Igreja, é muitas vezes o seu contrário. E tem um momento alto, obrigatório mesmo para quem não quer ler o livro todo, que é, quase no final, quando Jesus reza a Deus e diz que o silêncio e a postura deste nunca vão levar os homens a caminho do Reino. Explica como gostaria que a Igreja enquanto instituição fosse e diz o que pode falhar. E tudo o que pode falhar é o que sabemos hoje que falhou.
Um livro divertido e importante. Acutilante. No sítio certo.
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
o encontro Livreiro está de volta
... e promete superar o ano passado. Mais gente boa, livros bons, conversas boas, moscatel dos bons, tudo em bom.
Em Setúbal, na Culsete, com o nosso livreiro Velho, dia 25 de Março, a partir das 15h30.
Porque isto não fica assim!
Em Setúbal, na Culsete, com o nosso livreiro Velho, dia 25 de Março, a partir das 15h30.
Porque isto não fica assim!
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Hospital III: é quase Natal e não está frio e lá fora ainda se vê o rio
Pois é. Às vezes há tanto que tomamos por certo, tanto do nosso quotidiano que tomamos por certo, que já não sabemos o que fazer aos dias se eles não forem nossos. Depois percebemos que eles são de outras pessoas, de outras descobertas, de outros sub-textos que não sabemos ainda que existem. No dia antes de vir para aqui não pedi só para ficar uns dias sem trabalhar. Pedi uma hipótese de parar. De pensar, de pensar outras coisas. De perceber. Uma hipótese de perceber. Nem sabia bem o quê. Porque no atropelar dos dias nunca há hipótese de parar. De me sentar na beira da cama de manhã a ver o rio e pensar janela a janela quem está lá por trás a trabalhar, a acordar.E o Natal é qualquer coisa que nunca soube bem o que era mas que sempre gostei tanto. E agora só me deixam sair daqui o tempo certo de ser muito feliz no Natal. E não é porque saí daqui. É porque vou ter com as minhas pessoas. E porque não há hipótese de isso não ser absolutamente brilhante. E quero fazer coisas que sempre fiz sem ponderar nada. Descer a rua a pé. Beber um café numa esplanada. Correr muito no Samouco até ao rio. Pegar nas crianças e dizer-lhes que ao Natal nunca se falta, como lhes foi prometido. E fazer sonhos com a minha mãe e dizer-lhe que nem me importo de voltar. Que falta pouco para sermos nós outra vez.
E portanto a partir de agora vai ser diferente, minhas caras e meus caros. Não me vou queixar mais. Os meus olhos abriram-se à volta da cabeça e vêem mais longe. E hoje enfeitámos a enfermaria com o T. e a I. e olhamos à volta e é Natal. E à noite a D. trouxe-me sushi, a I. a sobremesa, as amigas trouxeram o Natal ao átrio do elevador. E todos os dias a minha "sala de estar" fica cheia de gente. E preparam-se todos para a minha saída. E o tão ansiado regresso. E são tanta pessoas que todos os dias vão ligando e aparecendo, inês, rita, ana, joana, hugo, lídia, patrícia, nuno, leandro, mãe, pai, mano, avó, raquel, duarte, leonor, afonso, luísa, joana, vera, eurídice, sandra, tiago, francisca, francisco, ricardo, catarina, mário, tia, tio, hipólito, fernando, maria joão, luís, rita, diana, tiago, ricardo, maria, hugo, sara, hugo, sara, joão, célia, sara, inês, miguel, jolanda, ariana, sara, antónio, rita, luís, hugo, ricardo, maria, vanda, carla, sebastião, jorge, ana, carla, lúcia, maria, pedro, catarina, alfredo, maria joão, verónica, ana rita, bruno, tiago, césar, joão, sophia, rita, cristina, vítor, nuno, maria joão, jaime. E tantos mais.
A vocês o que vos desejo a todos é que vejam sempre outras coisas. Sem pressa, nem medo. Para mim foi assustador perceber que aquilo que tomava como certo não era certo. E falo das coisas mais simples mas também posso falar das outras de todos os dias. Mas é bom e vale por tudo. Porque o meu corpo ocupa esta enfermaria toda e, graças a vocês, a maior parte do tempo, sinto-me uma super-mulher. Não há ninguém em lado nenhum como vocês.
E portanto a partir de agora vai ser diferente, minhas caras e meus caros. Não me vou queixar mais. Os meus olhos abriram-se à volta da cabeça e vêem mais longe. E hoje enfeitámos a enfermaria com o T. e a I. e olhamos à volta e é Natal. E à noite a D. trouxe-me sushi, a I. a sobremesa, as amigas trouxeram o Natal ao átrio do elevador. E todos os dias a minha "sala de estar" fica cheia de gente. E preparam-se todos para a minha saída. E o tão ansiado regresso. E são tanta pessoas que todos os dias vão ligando e aparecendo, inês, rita, ana, joana, hugo, lídia, patrícia, nuno, leandro, mãe, pai, mano, avó, raquel, duarte, leonor, afonso, luísa, joana, vera, eurídice, sandra, tiago, francisca, francisco, ricardo, catarina, mário, tia, tio, hipólito, fernando, maria joão, luís, rita, diana, tiago, ricardo, maria, hugo, sara, hugo, sara, joão, célia, sara, inês, miguel, jolanda, ariana, sara, antónio, rita, luís, hugo, ricardo, maria, vanda, carla, sebastião, jorge, ana, carla, lúcia, maria, pedro, catarina, alfredo, maria joão, verónica, ana rita, bruno, tiago, césar, joão, sophia, rita, cristina, vítor, nuno, maria joão, jaime. E tantos mais.
A vocês o que vos desejo a todos é que vejam sempre outras coisas. Sem pressa, nem medo. Para mim foi assustador perceber que aquilo que tomava como certo não era certo. E falo das coisas mais simples mas também posso falar das outras de todos os dias. Mas é bom e vale por tudo. Porque o meu corpo ocupa esta enfermaria toda e, graças a vocês, a maior parte do tempo, sinto-me uma super-mulher. Não há ninguém em lado nenhum como vocês.
Hospital II: ter os amigos debaixo da cama
Não tenho escrito porque não sei o que guardar disto. Guardo o que vem de fora, o que se espera, o que se sabe. Todas as manhãs, quando as janelas se abrem (que não é sempre) ponho a cabeça de fora para me sentir mais inteira no espaço. O frio é parte do que vocês são, das vossas rotinas. Penso que isto não custa, que podia ser pior se eu fosse outra pessoa e estivesse dentro de outra cabeça. Hoje até cantei de manhã e eu nunca canto em casa. E ouvi o Tristão e Isolda do Wagner a pensar neste texto. E nunca faço isso em casa. E comovo-me com histórias que nunca pensei existirem. Histórias que nunca vos vou contar porque nem sei reproduzir. Se já aprendi alguma coisa esta semana é que se pudesse levava estas pessoas todas para casa comigo e lá ia ser diferente. O mundo está cheio de pessoas, em todos os lados. E de histórias que alguém devia escrever nas paredes desta cidade.Depois este canto que nunca mais me deixa ir embora e que já está tão cheio de tantas pessoas, desenhos, amigos imaginários (olha os sintomas...), flores, livros, jogos... As pessoas estão todas aqui dentro, algumas sempre estiveram outras aparecem agora e isto nunca fica apertado. Não há silêncio com as vossas conversas. Nunca houve silêncio. E o descanso só faz sentido sem silêncio e com o tapete debaixo dos pés. E as pessoas são tantas aqui comigo e todos os dias são mais que só oiço o coro das vossas vozes. Preciso só de ânimo para começar a tomar notas. Para não me esquecer. Porque há coisas que não se podem esquecer.
"E um homem não conhece a sua verdadeira ambição até passar por uma tragédia forte, uma tragédia pessoal. Só se sabe olhar depois de se aprender. E olha-se melhor no primeiro momento a seguir ao sono. Ter os olhos fechados é afinar a pontaria, é preparar a iris negra para a rápida claridade que nos foge." (Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia)
Não que isto seja uma tragédia. É mais um tropeçar. Um afinar a pontaria. Cada desencanto pode ser visto como uma tragédia pessoal. Se a soubermos reescrever sem pressas nem ansiedades. Se a soubermos ler e entender. A tragédia verdadeira é deixarmos passar por nós estes momentos e querermos esquecê-los.
Comecei este texto com a ideia de vos dizer como está a ser isto, pegunta de todos os dias. Não sei bem explicar. Imaginem-se fechados 10 dias no vosso quarto. Agora imaginem que não é o vosso quarto. É um quarto de hospital. Agora acrescentem das vistas mais bonitas de Lisboa. Acrescentem 6 pessoas doentes no quarto mais uma que todos os dias os médicos dizem ser o último. Agora acrescentem muita comida boa e alguma comida de hospital. Depois os amigos, a família, sempre cá, a fintar enfermeiros, todo o dia. Depois os recados, os telefonemas, os mimos, os textos. Agora acrescentem tempo para pensar, reflectir, ler, ver filmes. Depois acrescentem o poder ajudar pessoas às vezes, rir com as enfermeiras. Acrescentem a Casa dos Segredos, todos os dias, com as enfermeiras e auxiliares e doentes à volta da televisão e a explicarem-me o que se passa que eu estou noutra, escondida atrás do computador. Podia ser tão pior, não podia? Porque o melhor que podia ser há-de ser, gozado a todos os minutos do dia e da noite, aí fora.
"E um homem não conhece a sua verdadeira ambição até passar por uma tragédia forte, uma tragédia pessoal. Só se sabe olhar depois de se aprender. E olha-se melhor no primeiro momento a seguir ao sono. Ter os olhos fechados é afinar a pontaria, é preparar a iris negra para a rápida claridade que nos foge." (Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia)
Não que isto seja uma tragédia. É mais um tropeçar. Um afinar a pontaria. Cada desencanto pode ser visto como uma tragédia pessoal. Se a soubermos reescrever sem pressas nem ansiedades. Se a soubermos ler e entender. A tragédia verdadeira é deixarmos passar por nós estes momentos e querermos esquecê-los.
Comecei este texto com a ideia de vos dizer como está a ser isto, pegunta de todos os dias. Não sei bem explicar. Imaginem-se fechados 10 dias no vosso quarto. Agora imaginem que não é o vosso quarto. É um quarto de hospital. Agora acrescentem das vistas mais bonitas de Lisboa. Acrescentem 6 pessoas doentes no quarto mais uma que todos os dias os médicos dizem ser o último. Agora acrescentem muita comida boa e alguma comida de hospital. Depois os amigos, a família, sempre cá, a fintar enfermeiros, todo o dia. Depois os recados, os telefonemas, os mimos, os textos. Agora acrescentem tempo para pensar, reflectir, ler, ver filmes. Depois acrescentem o poder ajudar pessoas às vezes, rir com as enfermeiras. Acrescentem a Casa dos Segredos, todos os dias, com as enfermeiras e auxiliares e doentes à volta da televisão e a explicarem-me o que se passa que eu estou noutra, escondida atrás do computador. Podia ser tão pior, não podia? Porque o melhor que podia ser há-de ser, gozado a todos os minutos do dia e da noite, aí fora.
Hospital I: um spa na turquia, aka, hospital dos capuchos
As alvoradas são muitas, quando menos esperamos. O sono é leve, como de vigia. Ouvem-se pessoas que fazem sons a dormir ou porque não dormem. Na última alvorada, aquela onde já há luz lá fora abro a janela junto à cama e tenho o rio ao fundo. E a cidade a acordar. O sol nasce por trás de nós. A vista é só esta. Ontem para fazer um exame passei pela rua a pé. Estava fresco e o ar claro. Aqui não entra uma corrente de ar, uma aragem.Ajudo as pessoas como posso, sou a única que se mexe bem neste quarto de 8 pessoas. Não estou doente, ou melhor, não me sinto doente. "Sempre foi saudável até agora?" Perguntaram-me assim que entrei aqui. Sei lá. É doença se não nos dói, não nos transforma? Se só está lá como uma ameaça?
Os dias seguem-se devagar. Ainda não passaram três. Ainda faltam tantos... Tenho livros, revistas, filmes, séries. E as visitas. Aquele ponto mais bonito do dia. Aquele por que não se anseia porque não tarda em chegar e aquele que não se chora porque está sempre a voltar.
No resto do tempo o silêncio, o pensar, ler, ver o sol, as pessoas. Conversar com estas pessoas, ver se já se sentem melhor. Aquele descanso forçado que tanto se pede como se detesta. Estico-me e esqueço. Descanso a cabeça, o corpo, as ansiedades que deixei no banco das urgências. Aqui tudo se passa com calma e alguma melancolia. Sem pressa nem angústia. E depois, claro, há a família como uma máfia das boas que não nos deixa um minuto de solidão. E os amigos que se multiplicam, todos os dias é mais um que aparece, pergunta, quer saber. Cada dia mais um que se preocupa mais do que eu. Que isto não é nada. Vou sair daqui como entrei. Preparada para o Natal, para o ar fresco, para a comida boa (por favor!). Vai ficar alguma melancolia também por sair, que isto aqui já é como uma família.
Por isso malta, toca a preparar o meu regresso. Com calminha que se não a máfia cai-vos em cima. Mas com mimo. E sal (não é sol, é mesmo sal...). E a minha casa. E a vossa. E a vida normal, por favor, a vida normal. Não há nada melhor, meus caros, que a vida normal. Viver todos os dias é a única aventura que vale a pena. Todos os bocadinhos. E não pensem que isto saiu de um qualquer livro de auto-ajuda. É mesmo o que eu acho. Estou ansiosa por voltar.
Obrigada a todos. Com vocês isto é tudo fácil.
Os dias seguem-se devagar. Ainda não passaram três. Ainda faltam tantos... Tenho livros, revistas, filmes, séries. E as visitas. Aquele ponto mais bonito do dia. Aquele por que não se anseia porque não tarda em chegar e aquele que não se chora porque está sempre a voltar.
No resto do tempo o silêncio, o pensar, ler, ver o sol, as pessoas. Conversar com estas pessoas, ver se já se sentem melhor. Aquele descanso forçado que tanto se pede como se detesta. Estico-me e esqueço. Descanso a cabeça, o corpo, as ansiedades que deixei no banco das urgências. Aqui tudo se passa com calma e alguma melancolia. Sem pressa nem angústia. E depois, claro, há a família como uma máfia das boas que não nos deixa um minuto de solidão. E os amigos que se multiplicam, todos os dias é mais um que aparece, pergunta, quer saber. Cada dia mais um que se preocupa mais do que eu. Que isto não é nada. Vou sair daqui como entrei. Preparada para o Natal, para o ar fresco, para a comida boa (por favor!). Vai ficar alguma melancolia também por sair, que isto aqui já é como uma família.
Por isso malta, toca a preparar o meu regresso. Com calminha que se não a máfia cai-vos em cima. Mas com mimo. E sal (não é sol, é mesmo sal...). E a minha casa. E a vossa. E a vida normal, por favor, a vida normal. Não há nada melhor, meus caros, que a vida normal. Viver todos os dias é a única aventura que vale a pena. Todos os bocadinhos. E não pensem que isto saiu de um qualquer livro de auto-ajuda. É mesmo o que eu acho. Estou ansiosa por voltar.
Obrigada a todos. Com vocês isto é tudo fácil.
Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
o amor
esse tema universal. não é fácil falar do amor. é só fácil pensar nele. os livros estão cheios dele, a rebentar. mas há uns que nos tiram o pio. hoje estou assim. a pensar que amor e que amores são estes, como é que eles existem e co-existem em pessoas tão pequeninas às vezes (como eu). só sei fazer poemas sobre o amor, não sei falar dele. falta-me o tom, as palavras. creio que este último ano passei-o a perceber o amor. a perceber que temos de amar sem limites os que temos ao pé de nós. temos de nem conseguir pôr em palavras um obrigado por um café numa esplanada quente, uma conversa de livros na bica, um jogo de dardos numa noite de sábado. o amor tem de transbordar. o amor tem forma de animal, de papel de carta, de livro, de pessoa, de roupa emprestada, de casa nova. o amor não tem validade, às vezes está anos inteiros à espera de ser reencontrado. e quando aparece parece que nunca desapareceu. depois há o amor que é só para nós. que nos põe no cimo da pirâmide. que nos equilibra. que nos dá respostas. como o amor do Ernesto Sampaio pela Fernanda, em quem penso desde que acordei.
amor é encontrarmos pessoas estilhaçadas que precisam quem as una. como no Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mão, ou na História do Rei Transparente, da Rosa Montero.
é o Bloom e a sua viagem à índia e as pessoas que encontra.
é um cão e uma menina que nunca tem medo e todas as pessoas que tentam salvá-la.
o amor é simples simples simples. é isto:
é um infinito de histórias e fotografias e paredes lá de casa. são fogos de artifício. é a solidão do fim do dia. é a paz e os livros espalhados na cama sem lugar para voltar, a ocupar a almofada do lado. é o rio. são os jogos de tabuleiro. o bolo de iogurte. o saco-cama. um carro velho quase irmão. uma planta que deixa de caber num vaso. a marmelada. a lareira. a flor seca.
amor é encontrarmos pessoas estilhaçadas que precisam quem as una. como no Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mão, ou na História do Rei Transparente, da Rosa Montero.
é o Bloom e a sua viagem à índia e as pessoas que encontra.
é um cão e uma menina que nunca tem medo e todas as pessoas que tentam salvá-la.
o amor é simples simples simples. é isto:
é um infinito de histórias e fotografias e paredes lá de casa. são fogos de artifício. é a solidão do fim do dia. é a paz e os livros espalhados na cama sem lugar para voltar, a ocupar a almofada do lado. é o rio. são os jogos de tabuleiro. o bolo de iogurte. o saco-cama. um carro velho quase irmão. uma planta que deixa de caber num vaso. a marmelada. a lareira. a flor seca.
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011
carta aberta
Se deseja subscrever esta carta aberta, envie-nos uma mensagem para encontro.livreiro@gmail.com com o assunto «subscrevo», indicando nome, profissão, localidade e blogue (se relacionado com o livro e a leitura). Agradecemos toda a colaboração na divulgação junto dos seus contactos entre as «gentes do livro». Obrigado - Encontro Livreiro.
Senhor Presidente da RepúblicaSenhor Primeiro MinistroSenhor Secretário de Estado da CulturaSenhor Representante da República para a Região Autónoma da MadeiraSenhor Presidente do Governo Regional da MadeiraSenhor Secretário Regional da Educação e Cultura da Madeira
No próximo dia 21 de Novembro de 2011 o livreiro Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança - «primeiro estabelecimento comercial no Funchal e na Madeira a vender exclusivamente livros» - completa 80 anos de vida.
Continuador de um sonho e de um projecto iniciado pelo seu avô, Jacintho Figueira de Sousa [1860-1932], e mantido pelo seu pai, José Figueira de Sousa [1899-1960], Jorge Figueira de Sousa, nascido no Funchal no dia 21 de Novembro de 1931, continua firmemente no seu posto e é para todos nós, «gentes do livro», um exemplo de vida e uma figura que muito honra a classe profissional dos livreiros portugueses, por vezes tão esquecida, não obstante o lugar central que ocupa no que deveria ser um fundamental desígnio nacional: a promoção do livro e da leitura como alicerce de um País mais culto, logo mais justo, mais livre e mais feliz.
Porque julgamos que o Livreiro Jorge Figueira de Sousa, pelo seu exemplo de juventude, tenacidade e persistência, é merecedor de público reconhecimento, rogamos a V. Ex.as se dignem honrá-lo com a distinção tida por conveniente e justa nesta circunstância.
Encontro Livreiro, 5 de Novembro de 2011
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Fui ver uma super exposição no CCB
E foi i-na-cre-di-tá-vel. VIK, no CCB até dia 31 de Dezembro. Vik Muniz, um jovem artista brasileiro de 50 anos que cria as suas obras em formatos e com materias não muito usuais: lixo, brinquedos, caramelo, chocolate, diamantes, pó, molho de tomate. Cria formas que fotografa em formato grande e expõe essas fotografias. Não é uma exposição de fotografia e Vik não é fotógrafo, mas a fotografia acabou por entrar nas suas preferências artísticas. Temos assim obras efémeras, fotografadas e imortalizadas. A calda de chocolate demora apenas alguns minutos até solidificar, como exemplo. O pó do aspirador tem de ser trabalhado sem qualquer corrente de ar.
É imperdível, gratuita e em frente ao rio. Não há melhor.
Muitas imagens aqui.
(imagem com diamantes)
É imperdível, gratuita e em frente ao rio. Não há melhor.
Muitas imagens aqui.
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