quinta-feira, 5 de julho de 2018

Ainda preciso escrever sobre Erskine Caldwell

Ando há uns tempos a desenvolver um fascínio por alguns escritores que não são escritores de obras primas, mas que usam a palavra para marcar uma posição forte, incontornável e surpreendente. Escritores que falham, que não escrevem sobre o sublime nem de forma sublime, mas escritores que perceberam o poder da palavra depois de impressa.

Um destes escritores é Erskine Caldwell (EUA 1903 - 1987). A última vez que foi publicado em Portugal foi numa (muito feia) edição da Saída de Emergência e antes disso tinham saído umas edições soltas nas duas últimas décadas do século passado. Até aos anos 70 teve atenção das maiores editoras portuguesas. O seu grande livro é a Estrada do Tabaco, transformado em filme por John Ford, um filme que retira do livro alguns dos momentos mais poderosos da narrativa. É considerado um dos grandes escritores americanos que acabou por ser também ele silenciado por uma América que, sendo (tendo sido) a terra da liberdade tem ainda assim alguma dificuldade em lidar com confrontos directos, humanos, como os conflitos que Caldwell soube tão bem escrever.

Caldwell é o escritor da parte mais podre da América. Começa a escrever em 1929, ano do crash da bolsa de NY, acontecimento que lança o país numa miséria profunda. E não estamos aqui a falar de miséria enquanto pobreza inerente às cidades. É mais do que isso. A América foi lançada numa miséria onde os homens e mulheres do interior do país são abandonados à sua sorte. O interior dos Estados Unidos fica sem nada. Não há comida, há muita especulação, há climas pouco propícios às plantações. É esse país que Caldwell procura e descreve. O país que está nos antípodas do Sonho Americano. O país dos vencidos, dos doentes, um país onde a humanidade é posta à prova e onde surgem as figuras mais estranhas e obscuras. Todas as personagens de Caldwell incomodam, causam desconforto, sobretudo numa época de prosperidade como a nossa.

Caldwell escreveu a sua autobiografia em 1951, Call It Experience, e ler este livro mostra-nos de forma mais acutilante as particularidades deste escritor. Muito jovem Caldwell decide ser escritor. De forma racional e com clareza percebe que não é possível ser escritor enquanto experimenta ser outra coisa qualquer. Assim, torna-se escritor e jornalista, achando que ambas as profissões se relacionavam, apesar de muito cedo ter percebido que eram até antagónicas. Durante dez anos passou fome e frio, viveu com muitas dificuldades, enviou centenas de contos para dezenas de revistas. Caldwell criou-se enquanto escritor. Viveu anos com as personagens a crescer na cabeça dele, imaginou-as, conviveu com elas, pensou-as. E depois escreveu o primeiro romance, A Estrada do Tabaco, (de que já falei neste blog), uma obra magistral sobre o fim da humanidade e sobre a desumanidade (ambas muito diferentes). Depois escreve o segundo romance, A Jeira de Deus, um livro perturbador que nos mostra, em apenas duas ou três páginas, das mulheres mais fortes que já vi em toda a literatura, uma mulher que parece ser a grande vítima dos homens e que, rapidamente, se torna na figura mais poderosa do livro, com um discurso brilhante sobre o amor e o erotismo. Caldwell era um reconhecido feminista, as mulheres de Caldwell são independentes, fortes e lutadoras. Mas não são as mulheres convencionais. No seu livro O Dedo de Deus a personagem principal é uma mulher que fornece à vila umas "injecções de vitaminas" que as deixam felizes e com os problemas absolutamente relativizados. É a mulher heroína e ao mesmo tempo a prostituta, divorciada, mãe sozinha. Uma mulher que nunca se deixa cair. Ainda que, como em todos os livros de Caldwell, só no final se revele verdadeiramente.

Mas não se deixem enganar, não há empatia com as personagens de Caldwell. Elas não nos são simpáticas, épicas, grandiosas. Nada em Caldwell o é verdadeiramente. Aqui não há heróis no clássico sentido da palavra. Há sobreviventes com muito poder. Há pessoas sem estereótipo que sobrevivem a uma América racista, exploradora e preconceituosa. Nenhuma personagem é, aparentemente, "the girl next door". E no final todas são. Porque a humanidade não é estereotipada. E o Caldwell viu isso da melhor forma de todas, através da literatura. E mesmo que não tenha escrito absolutas obras de arte, Caldwell escreveu algo muito mais importante que isso, falou de nós, e de tudo aquilo que tememos ao olhar para o lado. Falou do que, na humanidade, nos habituámos a calar.





sexta-feira, 8 de junho de 2018

You Have Seen Their Faces

Um livro de Erskine Caldwell & Margaret Bourke-White, fotógrafa.
Os dois percorreram o sul dos Estados Unidos à procura de caras para frases de personagens de anteriores romances do Caldwell.
“The South has always been shoved around like a country cousin. It buys mill-ends and it wears hand-me-downs. It sits at second-table and is fed short-rations. It is the place where the ordinary will do, where the makeshift is good enough. It is that dogtown on the other side of the railroad tracks that smells so badly every time the wind changes. It is the Southern Extremity of America, the Empire of the Sun, the Cotton States; it is the Deep South, Down South; it is The South.”





terça-feira, 8 de maio de 2018

Dark Chambers #01

Uma noite de Dark Poetry e Dark Music, na Cossoul.

[O Dark Chambers é uma proposta de exploração poética, literária e musical de ambientes e temas sombrios, ocultos ou fantásticos. Faz-se do encontro entre a poesia de autores como William Blake, com a sua corte de cores escuras, e de música com afinidades com o dark folk ou o dark ambient. O bar da Cossoul abre as hostilidades com leituras encenadas de poesia de um dos mais sombrios franceses, Charles Baudelaire (por Rosa Azevedo), de um quase desconhecido norte-americano adoptado por um casal blavatskiano, Robert Duncan (por Ana Salomé) e do supremo vocalista de Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, com o seu livro 'Todas as Ruas do Mundo' (editado pela Do lado esquerdo, 2013) (por André Carvalho). Recebe também Peter Wood para um concerto de blues com ventos nocturnos. Apareçam!]




21:30
Warm up

21:50
Baudelaire, por Rosa Azevedo

22:40
Robert Duncan, por Ana Salomé

23:00
Adolfo Luxúria Canibal, por André Carvalho

23:30
Concerto Peter Wood

Peter Wood criou-se no Cacém. Com a imaginação inflamada pela guitarra primitiva de John Fahey e Frank Ferreira, compõe música que cruza o blues poeirento com o uivo saudoso do comboio inter-regional na noite lúgubre do subúrbio. A guitarra acústica, sem mistura, domina o repertório. Por vezes solta a voz invocar os ciprestes do Mississippi ou os barqueiros do Volga.
Gregário, é por vezes avistado em bandos, por exemplo, com Joana Guerra, com quem forma os Hidden Circus dos Asimov. Segundo uma tradição antiga, chegou mesmo a ser Brainwashed by Amalia. Traz música nova e histórias para contar (enquanto afina a guitarra), bem como exemplares recentemente resgatados do cd-r de estreia (2015), com capa linogravada pelo artista sobre desenho da traça desconhecida.

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REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES


Por mais um ano consecutivo, a Cossoul organiza o REVERSO – ENCONTRO DE AUTORES, ARTISTAS E EDITORES INDEPENDENTES. De 17 a 19 de Maio, as nossas portas voltam a abrir-se para receber editores e criadores das diversas áreas artísticas – da poesia e da literatura ao teatro, da música às artes plásticas e ao cinema. Será a última edição no n.º 61 da Avenida D. Carlos I, em Santos, uma vez que a Cossoul mudará de instalações. A entrada é gratuita.


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QUINTA, 17 DE MAIO
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17h30 ◇ Sala da Biblioteca, Sala Raul Solnado, Bar
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❐ Abertura das exposições e início das projecções:
‣ Cartazes de Homem do Saco [Sala da Biblioteca]
‣ «The girl with the veil», de Vitorino Coragem [Bar]
‣ Serigrafia de Mattia Denisse [Sala Raul Solnado]
‣ Episódios do vídeo-documentário Arquipélago [Sala da Biblioteca]

18h00-19h00 ◇ Bar
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❐ Apresentação de projectos:
‣ Comicalate, por Miguel Leão
‣ Letreiro Galeria, por Paulo Barata e Rita Múrias
‣ Revista online Jogos Florais, por Maria Sequeira Mendes

19h00-20h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Mesa redonda: «Compor a Escuta»,
moderada por Ernesto Donoso, com Bruno Gabirro, Nuno Jacinto, Pedro Pinto Figueiredo e Rui Magno Pinto

21h00-22h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Exibição de curtas-metragens de Ricardo Vieira Lisboa e conversa com o autor conduzida por Luís Miguel Oliveira

22h00-23h00 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
Leitura de inéditos de Alberto Lacerda, por Cláudio Henriques, Paulo Tavares e Sara Felício (Colectivo Prisma)
❐ Leitura de excerto d’Os Irmãos Karamázov, de F. Dostoievski, por Carla Maciel

23h00-23h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
André David

23h30 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
David Henriques


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SEXTA, 18 DE MAIO
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18h00-19h00 ◇ Bar
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❐ Apresentação de projectos:
‣ Cinema Ideal, por Pedro Borges
‣ ETIC – Escola de Tecnologias, Inovação e Criação, por Manuela Carlos
‣ Faísca Teatro, por Beatriz Silva, Fábio Vaz e João Pires

19h00-20h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Mesa redonda: «Cultura descentralizada»,
com Jaime Rocha (Poesia, um dia), Duarte Pereira (Snob), Isaque Ferreira (Realizar:poesia), Joaquim Gonçalves (A das Artes) e Sónia Silva (Distopia)

21h00-22h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Filme de animação «Razão Entre Dois Volumes», de Catarina Sobral

22h30-23h30 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
‣ Apresentação do livro «Diálogos Marados», de Rui Caeiro, com o autor, Jorge Roque, Rosa Azevedo e Rui Nunes
‣ Apresentação e leituras de «Antologia Poética», de Carl Sandburg, por Vasco Gato, Isaque Ferreira e Miguel Santos

23h30-00h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
Jake Shane

00h00 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
Cinderella's Big Score


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SÁBADO, 19 DE MAIO
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17h00-18h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Vídeo/cinema:
Sessão do Ciclo de Cinema «Imagens do Teatro», com exibição do documentário «Ainda não Acabámos: Como se Fosse uma Carta», de Jorge Silva Melo, com apresentação de Cláudia Marques e Luís Miguel Oliveira

19h00-20h30 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Apresentação de projectos:
‣ À Pala de Walsh, por Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa
‣ Sombras de Alguém, por Filipe Bonito
‣ Revista Electra, por António Guerreiro
‣ Carpintarias de São Lázaro, por Marcos Barbosa
‣ Do trapézio, sem rede, por Luís Filipe Parrado

21h30-23h30 ◇ Bar
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❐ Lançamentos, apresentações, leituras, performances:
‣ Lançamento do livro Os Crimes Montanhosos, de António Cabrita e Mbate Pedro, com a presença dos autores
‣ O POETA COMPARECEU EM PESO
Leitura e conversa em torno da poesia de Manuel Resende, com a presença do autor e convidados: Ana Gomes, Filipe Guerra (a confirmar), Margarida Vale de Gato, Rosa Azevedo, Rui Manuel Amaral, Zé Lima

23h30-00h00 ◇ Sala Raul Solnado
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❐ Sessão musical:
‣ Galmadrua

00h00 ◇ Sala da Biblioteca
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❐ Playlist:
‣ Grémio Nefelibata


Evento facebook

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Curso de literatura portuguesa séc XXI

cartaz Menina Limão
4 sessões às 5ª feiras (90min)
24 e 31 de Maio
7 e 21 de Junho
19h30
50€
com rosa azevedo

Inscrições e outras informações: rosa.b.azev@gmail.com

















Evento facebook: https://www.facebook.com/events/188377581792181/


Falar sobre literatura contemporânea é apenas uma forma de partilhar leituras. Não há forma de nos apoiarmos nos anos que passam sobre esta escrita, não há cânones, história, preconceitos. Não há filtros. Estamos sempre perante uma visão de uma literatura que muito longe de estar terminada está não só em crescimento como em profunda transformação.
É um imenso privilégio sabermos acompanhar a literatura no momento em que ela acontece. Com tudo o que isso implica, a responsabilidade de estarmos a viver a história da literatura juntamente com a possibilidade de nos obrigarmos a mudar de rumo enquanto leitores ou apenas de nos deixarmos surpreender.
Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, reflectindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.

Autores
Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Manuel Resende, Marta Navarro, José Miguel Silva, Ana Teresa Pereira, António Cabrita, Miguel Manso, Manuel de Freitas, Andreia Faria, Sandra Andrade, Daniel Faria, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Daniel Jonas, Vasco Gato, entre muitos outros.

rosa azevedo
Formada em Literatura Portuguesa e Francesa tem curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso – encontro de autores, artistas e editores independentes, do Colectivo Prisma e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, onde é também moderadora. Colabora com a direcção da Cossoul em questões de produção, programação e associativismo. Mantém o blog estórias com livros.
É livreira, produtora, formadora, editora, revisora e divulgadora da área dos livros. Na verdade, aquilo que gosta de fazer é ler.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A MINHA MUSA

É mais casta do que eu
e só bebe água mineral.
Furtiva, insolente, caprichosa,
às vezes desaparece-me de casa
durante meses. Apetece-me
bater-lhe. Mas talvez a culpa
seja minha. Passo tanto tempo
a coçar a cabeça ou no terraço
a ver passar os aviões.
É natural que se farte de mim,
raramente estou em casa
quando chega, prefiro dormir
a ver televisão com ela
sentada nos meus joelhos.

Amiúde me pergunto
se compensam os tormentos
a que me força.
Meteu na cabeça fazer
de mim poeta, quando
o que eu gostaria era de ser
aviador. (Mas tenho medo
das alturas, e ela sabe-o.
Aproveita-se da minha debilidade.)

Obriga-me a ficar de olhos abertos
durante o sono, a estudar os
caninos que a vida me mostra,
o manual dos elementos, a história
calamitosa dos meus erros.
É preciso ter estômago
para tanta solidão. Não admira
que muitas vezes a traia
com a Helena, com o bourbon
dos amigos, com o voo violeta
do jacarandá no Largo do Viriato.
Mas não adianta, não sente ciúmes,
ela própria me empurra
para os braços do mundo.

É tão exigente, tão snob, tão
tinhosa. Por ela, não havia
domingos nem feriados,
não havia verão. Era sempre
toda a vida um quarto escuro
com filmes de série B e
uma banda sonora de tiros, soluços,
gargalhadas de teatro anatómico.
Marca-me duelos – é louca! –
com temíveis espadachins,
à vista dos quais a minha alma
treme dos pés à cabeça. Diz que
me faz bem sangrar um bocado,
que é minha amiga, talvez.

Fria, severa, calculadora,
tenta o que pode para contrariar
a minha natureza ruidosa,
paciente, sentimental.
Diz que é uma porcaria
escrever com lágrimas, recita
Mallarmé, levanta-se de noite
para me rasgar os poemas.
Não é fácil aturá-la.

Só para me irritar, muda
o nome de todas as coisas:
se vê um massacre chama-lhe
acre de terra lavrada,
vê um mendigo chama-lhe
trigo, vê uma porta
e chama-lhe susto.
Às vezes pergunto-me
se não será parva.

A verdade é que não sou feliz
com ela, apenas um pouco
mais solitário.
Mas sem ela – vejam que
tristeza, que abandono, que.

Ulisses Já Não Mora Aqui
& etc., 2002, José Miguel Silva

quarta-feira, 18 de abril de 2018

segunda-feira, 9 de abril de 2018

sobre a Literatura Portuguesa contemporânea

Há uma grande falácia na modernidade tecnológica. Não estamos cada vez mais perto do mundo, estamos antes com vários olhos postos em quem está ao nosso lado. A arte existia quando era produto de uma cabeça consciente dos seus limites físicos. Como se tivesse maiores possibilidades artísticas quando o produto artístico era um objecto auto-suficiente antes de pensar nas restantes possibilidades. Hoje estamos perante uma forte mutação dessa realidade.

A literatura contemporânea portuguesa está neste momento a atravessar um deserto longo e penoso do ponto de vista artístico, porque há muito tempo que a literatura desistiu de se posicionar. A pós-modernidade trouxe ao pensamento artístico algumas teias perigosas, mas muitas possibilidades artísticas, infinitas. E dessas tantas possibilidades a literatura portuguesa tem-se deixado arrastar por uma literatura que rejeita por um lado a ideia da arte e por outro a ideia de identidade. Poucas são as obras que trazem um verdadeiro questionamento do imenso poder da palavra, da capacidade revolucionária de um livro, da capacidade que a obra de arte tem em atingir um qualquer ponto fulcral.

É natural que ao lerem este texto a vossa cabeça se posicione criticamente de forma negativa perante o que aqui está. Porque o séc. XXI é o século que, na literatura, nos traz a ideia de que tudo é permitido. Ainda numa espécie de ressaca de regimes totalitários (artísticos e não), acreditamos que não nos devemos posicionar, que devemos deixar o livro existir na forma que quiser. Mas esse posicionamento é o oposto da opressão e é o sinónimo da liberdade. Escolhermos o sítio da arte, defendermos e conhecermos o impacto do que escrevemos, é o apogeu da liberdade criativa. A nossa literatura tem a doença da aceitação e aceitação pode rapidamente tornar-se quantitativa. Essa aceitação tem sido o contrário da liberdade criativa.

Há excepções, claro. Poemas soltos, ideias, noites longas, copos de vinho. Amigos. Alguns livros. Alguns livros redescobertos. Mas falta-nos vontade de quebrar barreiras e este século tem sido muito frutífero em criá-las. A tecnologia é uma delas, as rotinas, o capitalismo, a falta de opções, outras.

Mas é uma fase, claro. Só que é uma fase mais longa porque é muito confortável. Porque a vida pode ser muito simples. Porque a verdadeira criação artística provoca-nos questionamentos que não são necessariamente sofrimentos, mas são processos transformativos e evolutivos. Talvez os nossos poetas e escritores sejam apenas muitos, pode ser isso. Mas é difícil ser optimista perante isto, e talvez o optimismo não seja a postura necessária. Devemos ao mundo uma constante sensação de desconforto para que nunca nenhum momento nos pareça finalizado.








quinta-feira, 5 de abril de 2018

Pedro Oom

A poesia não necessita de "ser salva" porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar "a natureza" e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue o homem da técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém de uma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.

Pedro Oom

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulheres e Revolução


Mulheres e Revolução
Maria Velho da Costa

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

in Cravo (1976).

Ainda preciso escrever sobre Erskine Caldwell

Ando há uns tempos a desenvolver um fascínio por alguns escritores que não são escritores de obras primas, mas que usam a palavra para mar...