segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Coração, Solitário Caçador, de Carson McCullers

Acabei de ler um livro que abalou os meus pilares (e isso é tão bom!). Coração, Solitário Caçador, de Carson McCullers. Um livro sobre a solidão. Ou melhor, um livro que combate a solidão, que fala da nossa emergência de comunicar, a nossa necessidade dos amigos, do amor, de um quarto com alguém lá dentro que guarde os nossos segredos, como uma caixa de Pandora.
O livro conta a história de um surdo, Mr. Singer, que consegue ler nos lábios, e que recebe no seu quarto diversas personagens que o procuram para falar das suas inquitações e frustrações, dos seus medos e pequenas conquistas. São eles, a saber:
- a adolescente Mick, a personagem mais intrigante e forte de McCullers, que inscreveu esta obra na rota das obras sobre a adolescência norte-americanas. Mick sente uma ansiedade grande com o crescimento e com as transformações que a adolescência acarreta, quer a nível emocional, quer a nível físico. Recusa tornar-se "uma senhora" mas procura o amor. McCullers descreve de forma impressionante as inquietações de alma de uma adolescente em transformação. As inquietações mais profundas e que até agora sempre considerei indescritíveis e inenarráveis. É preciso ler a Mick de Carson McCullers. Foi para mim uma viagem de uma profundidade que julguei impossível até agora. Foi preciso um conhecimento grande do que é isto de ser adolescente (CM escreveu este romance entre os 18 e os 22 anos... O que é um feito e uma explicação.)
- Bill Brannon, dono do café que todas as personages frequentam, é a personagem mais distante de Mr. Singer, mas observa-o diariamente, observando todas as suas movimentações. Depois da morte da mulher procura o amor incesantemente, quer no amor filial à sobrinha de 4 anos, quer ao amor proibido por Mick, amor que nunca se chega a compreender, nem nós nem ele.
- Dr Copeland, um médico negro numa América em guerra racial aberta nos anos 40. Numa luta identitária muito forte vemos o Dr. Copeland envelhecer deixando-se cair no apoio da família que em tempos perdera.
- Jack Blunt, um bêbedo que vê em Mr. Singer a única hipótese de redenção e o reduto da humanidade.
No entanto Mr. Singer parece não encarar a amizade de todos eles da mesma forma vivendo obsessivamente (ou apaixonadamente) à procura de um amigo grego, Antopoulos, que logo no início da acção da história é internado num lar a muitos kilómetros de distância.
Este livro escrito à moda americana pós-crash, sem floreados ou grandes tiradas líricas acaba por ser um espelho da alma destas personagens que se cruzam numa pequena cidade do Sul. CM exprime-se com uma mestria única e comovente.
A ler.

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Escrever sobre Alexandre Andrade é uma tarefa ingrata porque há escritores de quem apetece guardar silêncio. Isto porque são escritores d...