quarta-feira, 26 de agosto de 2015

para uma história da leitura ou da impossibilidade do historicismo na literatura

há dias em que algo maior que a leitura quotidiana e vertical dos dias se revela. aconteceu-me hoje com a descoberta casual de um livro de João Gaspar Simões que compila algumas das suas crónicas escritas entre 1942 e 1979. ao folhear o livro vou percebendo que este cronista e crítico literário nos revela aqui algumas das suas intuições quanto a autores desta época - das mais belas e potentes e profícuas épocas da literatura portuguesa. aqui João Gaspar Simões fala, e só como exemplo, do jovem Herberto Helder, um dos mais promissores jovens da literatura portuguesa que acabava de provar que os géneros literários estavam em crise ao publicar o seu Passos em Volta.

ao ler estes artigos percebo que o que mais me faz persistir nesta leitura horizontal da literatura portuguesa, numa perspectiva aparentemente historicista da literatura que só o é para mostrar que não há literatura que possa ser historicista, é a percepção clara de que fazemos parte de uma história da escrita, e com ela, de uma história da leitura. não há ciência que aguente a literatura porque ela é fruto de leituras e as leituras são fruto dos seus leitores, todos eles marcados pela intuição. a nossa leitura é só mais uma que se soma à de Gaspar Simões. lemos Herberto Helder do mesmo sítio de onde também ele o leu, das páginas do livro, mas temos em nós histórias diferentes, só isso. leitores diferentes, também, claro, mas esses existem horizontal ou verticalmente, ao nosso lado ou há 50 anos. não quero com isto afirmar que não é importante o contexto de um escritor, pelo contrário - os leitores que somos têm sempre a consciência de que ao texto muitos elementos se somam e contrapõem, às vezes até se substituem, impedindo a leitura. todos os verdadeiros leitores sabem, ainda que tenham dificuldade em assumi-lo, que um texto não vale sozinho. o que afirmo é que somos todos leitores do mesmo texto e que o que muda, o contexto de cada um, não se altera só historicamente e sim a todos os níveis que influenciam a leitura. daí a impossibilidade do historicismo da literatura.

o que interessa aqui é que a descoberta deste livro me ajuda a perceber a forma como quero ensinar e entender a literatura. como uma linha transversal, uma sequência de livros que se lêem cruzados e simultaneamente. que a história da literatura é muito mais uma história da leitura do que da escrita, da nossa intuição e entendimento do texto que nos é mostrado. 

e o podermos estar atentos à literatura contemporânea não é mais que a possibilidade de sermos uns verdadeiros privilegiados. privilégio em podermos falar dos livros publicados hoje com a tranquilidade e transparência com que Gaspar Simões lê Herberto dizendo deste livro que "os contos de Herberto Helder, não sendo, como não são, verdadeiros contos, peças literárias objectivas plenamente realizadas enquanto arte literária, valem, para nós, mais do que isso, pois neles viemos a encontrar o mea culpa de um poeta que viu na poesia uma espécie de inviabilidade para o libertar de si próprio."  

apesar do ruído resta-nos exercitar a intuição adivinhando os potenciais autores promissores, o que quer que esta palavra, por vezes tão perigosa, queira dizer. este exercício tem, seja como for, pouco interesse. o interesse maior que lhe adivinho é esta insubstituível sensação de que fazemos parte desta história maior e sem ciência, toda feita de intuições e emoções, a história da leitura.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

curso de Literatura Portuguesa, em Setembro, em Lisboa

cá está ele! durante quase dois meses vou falar com vocês de literatura portuguesa, da provável à improvável, com leituras e conversas, na Leituria, em Lisboa. começa a 16 de Setembro, desconto para quem se inscrever até 10 de Setembro.



1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, modernismo
2ª sessão
surrealismo
3ª sessão
ainda o surrealismo
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara
4ª e 5ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca
6ª sessão
a literatura do agora, a que resiste e a que há-de resistir
7ª sessão
leituras e conversas

autores
eça de queirós, cesário verde, ângelo de lima, fernando pessoa e heterónimos, mário de sá-carneiro, mário cesariny, antónio josé forte, mário henrique-leiria, antónio maria lisboa, manuel de lima, herberto helder, manuel da fonseca, manuel de castro, luiz pacheco, alexandre o’neill, carlos de oliveira, mário dionísio, maria velho da costa, rui nunes, vergílio ferreira, jorge de sousa braga, maria gabriela llansol, nuno bragança, josé saramago, joão miguel fernandes jorge, ana teresa pereira, teresa veiga, antónio ramos rosa, valério romão, gonçalo m. tavares entre outros

evento facebook

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Manuel de Castro na IDEIA

há coisas inacreditáveis que me passam ao lado. esta revista é um exemplo disso. o número duplo 73-74 da Revista IDEIA [revista de cultura libertária] é dedicado ao grupo do café Gelo e muito especialmente ao poeta Manuel de Castro, uma das vozes mais fortes e esquecidas do grupo, agora relembradas (e bem) com a edição de Bonsoir, Madame, editado pela Língua Morta / Alexandria. um poeta que fomenta o mistério e que, a ser surrealista seria por, nas palavras de Ramos Rosa, ser um poeta ilegível mas nunca inaudível.

apesar de ter lido muito pouco ainda, até agora um dos textos que mais me impressionou foi o artigo da Maria Estela Guedes por nos abrir um infindável mundo de portas para o entendimento do poeta e dos poetas que lhe pertencem.

a revista pode ser lida aqui. mais sobre a revista IDEIA aqui


domingo, 16 de agosto de 2015

Teresa Veiga

a escrita desta senhora é dos mais belos segredos da nossa literatura

novo curso

a partir de 16 de Setembro vou estar em Lisboa, na livraria LEITURIA com um curso de literatura portuguesa do séc. XX. guardem os vossos fins de tarde de 4ª feira até fim de Outubro. pela minha mesa os trabalhos já começaram.
(mais notícias em breve)

Alejandra Pizarnik


versões de Maria Sousa


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

o dia em que a kristof nos falou da mentira

agota kristof é um nome que soa a poucos. foi, em Portugal, uma aposta de poucos para um público pequeno. mas há nesta escritora húngara um segredo que merece ser dito em forma de leitura. o segredo que conhece quem lê.

este é um livro sobre a mentira, que é como quem diz, um livro sobre a verdade. o que é a verdade? o que na ficção nos é dito como sendo verdade? assumimos a ficção como invenção e nunca como mentira. e se nos fosse apresentado como mentira o que até agora acreditamos ser apenas ficção?

kristof tira-nos o chão, envolve-nos numa trama que não sabe ser linear ou transparente. a nossa relação com as personagens não é de reconhecimento nem de desconfiança. é de terror, medo, e sobretudo, claustrofobia. tudo é claustrofóbico em kristof e na Trilogia da Cidade de K.

quando lemos kristof tudo começa a ser diferente. a realidade e a literatura e as pontes entre elas. há momentos que nos ressoam claustrofóbicos quando antes eram felizes. crianças a desenhar, pessoas nos bancos do jardim, jardins com canteiros, cortinas. a literatura aqui entra dentro do quotidiano mas não por identificação e sim por desconforto. kristof torna o mundo desconfortável e aquela história passa a ser unicamente contada a nós, o que torna maior o sentimento de asfixia. e perscrutamos os olhares dos outros que lêem o mesmo livro que nós tentando imaginar se sentem o nosso temor. se sentem a segurança inicial que depois nos é retirada. se entendem como nós o efeito de cada uma daquelas personagens.

e por fim acabamos por estar perante um livro inclassificável que no final percebemos que se calhar nem é escrito pela kristof, tão personagem como as suas personagens. este livro muda inequivocamente a nossa forma de ver a escrita. nunca mais um livro será apenas um livro depois da leitura da Trilogia da Cidade de K.



a Trilogia da Cidade de K foi publicada pela Asa inicialmente em três volumes separados sendo que é mais que obrigatório lê-los todos e pela ordem certa. tanto os três livros como a Trilogia estão esgotados. procura-se um exemplar desesperadamente.

Quartos Alugados, Alexandre Andrade

Escrever sobre Alexandre Andrade é uma tarefa ingrata porque há escritores de quem apetece guardar silêncio. Isto porque são escritores d...