segunda-feira, 12 de maio de 2014

Alquimia do verbo, de Arthur Rimbaud

Agora eu. A história de uma das minhas loucuras.
Há muito que afirmava claramente possuir todas as paisagens possíveis, e considerava pobres as grandes figuras da pintura e da poesia modernas.
Amava as pinturas tortas, debaixo de portas, cenários, telas de saltimbancos, ensinamentos, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, refrões monocórdicos, ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, viagens de grandes descobertas onde não existissem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião asfixiadas, revoluções de costumes, deslocar de raças e continentes: acreditava em todos os encantamentos.
Inventava a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde.  Criava regras para a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, escolhia orgulhosamente um verbo poético, acessível, num ou noutro dia, mas para todos os sentidos. Reservava a mim a tradução.
Mas tudo era apenas um estudo. Escrevia silêncios, noites, decifrava o inexprimível. Fixava vertigens.





















[até que um dia me ponha a escrever novamente, vou traduzindo os meus]

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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997