terça-feira, 30 de março de 2010

Luiz Pacheco e a sua Comunidade

Todos nós temos com os livros falhas de estimação. Eu nunca tinha lido a Comunidade. O livro esgotado há anos. E há livros que não se pedem emprestados, porque são raros, e um dia chegamos à estante e o livro não está lá e não nos lembramos a quem emprestámos e há aquela tristeza [barra] frustração de quem tem nos livros uma continuidade dos dedos, da cama, do lavatório da casa de banho, do fogão, do sofá da sala, do candeeiro antigo. De quem tem nos livros a propriedade maior.
O que é especial neste livro é que é certo que o Pacheco não se tenha esforçado por escrever aquilo. E quando a escrita não é pensada para ser uma escrita de amor e é, torna-se muito mais verdadeira. Quando não se ama obrigatoriamente um filho porque é um filho e mesmo assim se escreve o que ele escreveu é ainda uma escrita mais preciosa. Quando se é o Pacheco e quando é o Pacheco quem escreve a Comunidade torna-se ainda mais arrebatador. Não porque o Pacheco não fosse capaz de escrever este livro mas porque não seria de esperar que o fizesse e, certamente, não fez qualquer esforço para o fazer. Há qualquer coisa de visceral. Aquilo é assim. Foi assim que aquilo se passou. E aquela família é tão triste como luminosa. E real é a palavra certa para este livro se todos os livros tiverem uma palavra. E a força dele vem desse real inesperado e despido que nos deixa a todos surpreendidos com a vontade que temos em ter um dia uma família [barra] uma cama assim.

Texto integral da Comunidade e tantas outras coisas do Pacheco aqui.

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