quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Hospital II: ter os amigos debaixo da cama

Não tenho escrito porque não sei o que guardar disto. Guardo o que vem de fora, o que se espera, o que se sabe. Todas as manhãs, quando as janelas se abrem (que não é sempre) ponho a cabeça de fora para me sentir mais inteira no espaço. O frio é parte do que vocês são, das vossas rotinas. Penso que isto não custa, que podia ser pior se eu fosse outra pessoa e estivesse dentro de outra cabeça. Hoje até cantei de manhã e eu nunca canto em casa. E ouvi o Tristão e Isolda do Wagner a pensar neste texto. E nunca faço isso em casa. E comovo-me com histórias que nunca pensei existirem. Histórias que nunca vos vou contar porque nem sei reproduzir. Se já aprendi alguma coisa esta semana é que se pudesse levava estas pessoas todas para casa comigo e lá ia ser diferente. O mundo está cheio de pessoas, em todos os lados. E de histórias que alguém devia escrever nas paredes desta cidade.Depois este canto que nunca mais me deixa ir embora e que já está tão cheio de tantas pessoas, desenhos, amigos imaginários (olha os sintomas...), flores, livros, jogos... As pessoas estão todas aqui dentro, algumas sempre estiveram outras aparecem agora e isto nunca fica apertado. Não há silêncio com as vossas conversas. Nunca houve silêncio. E o descanso só faz sentido sem silêncio e com o tapete debaixo dos pés. E as pessoas são tantas aqui comigo e todos os dias são mais que só oiço o coro das vossas vozes. Preciso só de ânimo para começar a tomar notas. Para não me esquecer. Porque há coisas que não se podem esquecer.
"E um homem não conhece a sua verdadeira ambição até passar por uma tragédia forte, uma tragédia pessoal. Só se sabe olhar depois de se aprender. E olha-se melhor no primeiro momento a seguir ao sono. Ter os olhos fechados é afinar a pontaria, é preparar a iris negra para a rápida claridade que nos foge." (Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia)
Não que isto seja uma tragédia. É mais um tropeçar. Um afinar a pontaria. Cada desencanto pode ser visto como uma tragédia pessoal. Se a soubermos reescrever sem pressas nem ansiedades. Se a soubermos ler e entender. A tragédia verdadeira é deixarmos passar por nós estes momentos e querermos esquecê-los.
Comecei este texto com a ideia de vos dizer como está a ser isto, pegunta de todos os dias. Não sei bem explicar. Imaginem-se fechados 10 dias no vosso quarto. Agora imaginem que não é o vosso quarto. É um quarto de hospital. Agora acrescentem das vistas mais bonitas de Lisboa. Acrescentem 6 pessoas doentes no quarto mais uma que todos os dias os médicos dizem ser o último. Agora acrescentem muita comida boa e alguma comida de hospital. Depois os amigos, a família, sempre cá, a fintar enfermeiros, todo o dia. Depois os recados, os telefonemas, os mimos, os textos. Agora acrescentem tempo para pensar, reflectir, ler, ver filmes. Depois acrescentem o poder ajudar pessoas às vezes, rir com as enfermeiras. Acrescentem a Casa dos Segredos, todos os dias, com as enfermeiras e auxiliares e doentes à volta da televisão e a explicarem-me o que se passa que eu estou noutra, escondida atrás do computador. Podia ser tão pior, não podia? Porque o melhor que podia ser há-de ser, gozado a todos os minutos do dia e da noite, aí fora.

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Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água