quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Hospital I: um spa na turquia, aka, hospital dos capuchos

As alvoradas são muitas, quando menos esperamos. O sono é leve, como de vigia. Ouvem-se pessoas que fazem sons a dormir ou porque não dormem. Na última alvorada, aquela onde já há luz lá fora abro a janela junto à cama e tenho o rio ao fundo. E a cidade a acordar. O sol nasce por trás de nós. A vista é só esta. Ontem para fazer um exame passei pela rua a pé. Estava fresco e o ar claro. Aqui não entra uma corrente de ar, uma aragem.Ajudo as pessoas como posso, sou a única que se mexe bem neste quarto de 8 pessoas. Não estou doente, ou melhor, não me sinto doente. "Sempre foi saudável até agora?" Perguntaram-me assim que entrei aqui. Sei lá. É doença se não nos dói, não nos transforma? Se só está lá como uma ameaça?
Os dias seguem-se devagar. Ainda não passaram três. Ainda faltam tantos... Tenho livros, revistas, filmes, séries. E as visitas. Aquele ponto mais bonito do dia. Aquele por que não se anseia porque não tarda em chegar e aquele que não se chora porque está sempre a voltar.
No resto do tempo o silêncio, o pensar, ler, ver o sol, as pessoas. Conversar com estas pessoas, ver se já se sentem melhor. Aquele descanso forçado que tanto se pede como se detesta. Estico-me e esqueço. Descanso a cabeça, o corpo, as ansiedades que deixei no banco das urgências. Aqui tudo se passa com calma e alguma melancolia. Sem pressa nem angústia. E depois, claro, há a família como uma máfia das boas que não nos deixa um minuto de solidão. E os amigos que se multiplicam, todos os dias é mais um que aparece, pergunta, quer saber. Cada dia mais um que se preocupa mais do que eu. Que isto não é nada. Vou sair daqui como entrei. Preparada para o Natal, para o ar fresco, para a comida boa (por favor!). Vai ficar alguma melancolia também por sair, que isto aqui já é como uma família.
Por isso malta, toca a preparar o meu regresso. Com calminha que se não a máfia cai-vos em cima. Mas com mimo. E sal (não é sol, é mesmo sal...). E a minha casa. E a vossa. E a vida normal, por favor, a vida normal. Não há nada melhor, meus caros, que a vida normal. Viver todos os dias é a única aventura que vale a pena. Todos os bocadinhos. E não pensem que isto saiu de um qualquer livro de auto-ajuda. É mesmo o que eu acho. Estou ansiosa por voltar.
Obrigada a todos. Com vocês isto é tudo fácil.

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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997