sexta-feira, 13 de setembro de 2013

do documento à ficção real

Autismo
Valério Romão
Abysmo

cada vez que escrevo sobre um novo livro penso numa questão que tem sido fundamental em muitas discussões que tenho tido sobre isto de "avaliar" ou até apenas "gostar" de um livro. quando leio um livro leio-o dentro de um contexto próprio e em categorias não claramente definidas mas que existem. autores com pouca obra publicada é uma dessas categorias. gosto de ler e acompanhar novos autores para adivinhar o que prometem, o que trazem de novo, se têm ou não medo de influências (têm quase sempre). o valério romão é um desses novos autores. tem dois livros publicados. já aqui falei do segundo, agora li o primeiro, o Autismo.
a primeira sensação que tive ao ler o Autismo foi de alguma asfixia. percebemos a tragédia tão cedo como percebemos n'O da Joana e há ali um sentimento de ligação e de ponte que se torna irrespirável, logo nas primeiras páginas. não fossem parte de uma trilogia chamada "paternidades falhadas", que claramente testam os limites dessa mesma paternidade, e seria de questionar de forma mais profunda a necessidade desta ligação à tragédia.
não vou falar de forma convencional do Autismo, vi antes de ler demasiadas referências que me deixaram a leitura suspensa. por isso vou apenas pegar no lado documental do livro que, a meu ver, ganha em dois pontos muito fortes. por um lado o autismo, essa doença que não é doença, essa perturbação do comportamento que tem tantas variantes que se torna indefinível. este livro documenta o autismo em primeiro lugar textualmente, com algumas referências claras e fundamentais para quem quer conhecer a doença e, depois, é fundamental sabermos que o autor experienciou esta realidade, o que torna o livro, em absoluto, credível. no entanto é exactamente nessa credibilidade que o livro fere mais e nos faz ter a necessidade de relembrar, em todos os momentos, que não estamos perante uma reportagem sobre a vida do autor. e não queremos estar, pedimos para não estar tal é a violência do que é dito.
é muito comum assistirmos a uma grande dificuldade em assumir que aqueles que amamos muitas vezes nos cansam, complicam a vida. é difícil viver com essa aceitação, a culpa que nos é imposta, a ideia de que não nos devemos queixar, e que, como marta (a mãe) no romance parece acreditar, ou se ama a pessoa por quem aparentemente nos sacrificamos ou vivemos em sacrifício por ela. rogério, o pai, mostra o contrário, põe a nu o sofrimento e os "ses", e o que é mais interessante no livro é ver que não o faz para nós, fá-lo em privado. para a mulher, para um blog que ninguém sabe que escreve, para si próprio, para o pai. conseguimos perceber que o rogério, ao contrário da marta, avalia as imensas possibilidades que existem para além do henrique, o filho, numa desesperada procura de redenção e sobrevivência. rogério só quer estar à tona de água. é uma personagem ambígua e obscura, com uma forma que se vai desenhando dolorosamente até ao final.
e, segundo lugar, este é um livro que não documenta só o henrique, documenta o rogério e a marta. coloca em discurso directo questões que nunca são do domínio público e que ninguém conhece estando do lado de fora. mostra como o sofrimento profundo e a falta de esperança, quando chega ao limite, não procura ninguém que esteja fora desse mesmo caminho. a energia da marta não se pode dispersar. a do rogério também não. e não estão aparentemente (ressalvo o aparentemente) no mesmo sítio.
este é um romance poderoso. tive com ele semanas difíceis em que me foi difícil virar as páginas. tive com ele uma relação de angústia e violência. é um romance obrigatório para quem não tem medo da verdade. é a ferida que realmente existe neste romance - por mais que tentemos fingir e procurar zonas de conforto, este romance está pejado de verdade. e se o rogério e a marta não têm direito a zonas de conforto, nós também não podemos ter, não enquanto lermos a história deles. e a respiração demora a voltar mas com ela volta uma maior empatia com tanta gente que precisa dela. este romance cumpre assim o que para mim deverá ser um dos mais importantes objectivos da literatura - abrir as nossas janelas e tornar-nos empáticos com os outros, aqueles que normalmente vemos rápido passar por nós e nos esquecemos uns minutos depois.

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