quinta-feira, 14 de agosto de 2014

quando as crianças contam as histórias do Afonso Cruz

 

num dia de Verão, na praia do Almograve, juntei quatro crianças à volta de uma toalha (e a minha mãe também) e pedi-lhes que contassem a história do livro de ilustração do Afonso Cruz, CAPITAL, da Pato Lógico. entre muitas invenções e trabalho de imaginação saiu esta bela história. Assinam a história  Leonor (14), Afonso (12), Luísa (6), Guilherme (7), Graça (não se diz a idade das senhoras). a fixação do texto é minha, as palavras deles. se tiverem o livro acompanhem com as imagens, torna tudo muito mais divertido. 
 






Era uma vez um homem grande, com mãos gigantes e saltos altos, que ofereceu ao seu neto, Finn, um porco mealheiro. Finn apaixonou-se pelo mealheiro e andava com ele para todo o lado. Chamou-lhe Jake. Às vezes Jake ganhava vida e fazia cocó no chão mas Jake era tão especial que o cocó dele cheirava a rosas da cor do arco-íris e a chocolate. Finn gostava disto porque era daltónico e tinha por isso desenvolvido um extraordinário olfacto. Jake também não dormia porque sentia que tinha de proteger Finn que era asmático. Ficava a noite toda a olhar para ele para ter a certeza de que tinha um sonho tranquilo.

Finn e Jake cresceram juntos. Jake ia crescendo com as moedas que Finn lhe tinha dado, e não eram moedas de chocolate... Finn levava Jake para todo o lado. Levava-o muitas vezes com a avó ao parque, uma senhora com uma figura muito especial, sempre com as suas meias de descanso cinzentas, pelos na cara e puns tão ruidosos que atraíam os estranhos pássaros do parque que a seguiam para todo o lado.

Finn tinha um namorado, Felisberto, e ambos jogavam futebol na praia. Jake era a mascote e assistia a todos os jogos. Nesses passeios ao ar livre Finn jogava com o porco ao busca a moeda. Jake era cada dia mais maluco por moedas e por vezes desaparecia para as procurar durante imenso tempo. Finn teve mesmo de, a certa altura, usar uma trela. Todos o adoravam e lhe faziam festas quando passava.

Jake era insaciável. As moedas que Finn lhe dava começaram a ser insuficientes. Finn decide assim casar com Clarabóia, uma menina de boas famílias que conhecera no parque. Felisberto fica desiludido mas aceita, pois percebe que Jake se tornaria insuportável se não tivesse mais moedas.

Com o passar do tempo Jake começa a ficar agressivo e a comer pessoas, as moedas já não lhe chegavam. Comia pessoas ricas, claro. Felisberto fica preocupado e tenta avisar Finn, que parece bastante confortável com a situação. Finn na verdade começava a enriquecer e tentava, sem grande sucesso ao início, mostrar a Felisberto a beleza desta nova vida. Finn parecia-se cada vez mais com o avô que lhe tinha dado o Jake. As mãos cresciam desmesuradamente. Com o tempo Felisberto começa a ceder e a pensar que talvez Finn tenha mesmo razão, ao ver o luxo e o brilho que rodeavam Finn, que se vestia sempre de forma elegante com fato e gravata e passava o dia a beber champagne. Felisberto acaba por aceder a tornar-se sócio da Empresa do Dinheiro, a empresa de Finn. 

Mas assim que Felisberto enriquece é comido pelo porco Jake. Clarabóia começa a assustar-se com a agressividade do mealheiro e mesmo Finn começa a reparar que este está descontrolado. É o salve-se quem puder. Na verdade Jake está cada vez mais insaciável. Já não lhe chegam as moedas, nem as pessoas, nem as pessoas ricas, nem as casas que come, nem cidades inteiras. Jake acaba por comer o planeta que agora já não existe, existe sim um porco gigante em órbita, à volta do sol.
 







Sem comentários:

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água