quarta-feira, 9 de julho de 2014

sobre um poema meu

estou há alguns dias com esta janela aberta a tentar escrever um texto sobre a minha escrita. não por timidez ou falta de coragem mas por me estar a aperceber que dentro deste blog eu não escrevo, eu "falo de". como se fosse uma parte apartada de mim, uma despersonalização - a que escreve e a que "fala de". isto leva-me a algumas reflexões que tentarei desenvolver neste post. a primeira é que para se "falar de" num blog é preciso escrever. a escrita tem muitas formas, assim como a leitura.

(lembro-me da última aula do meu último curso "se acham mesmo que a leitura é um bem em si próprio não leiam livros maus, leiam bulas de medicamentos")

depois de muito pensar nisto e questionar a minha posição com as minhas "manufacturas", o meu artesanato artístico, percebo que a relação não só não é pacífica como é verdadeiramente perturbadora. por um lado não gosto de nada que tenha escrito até hoje, seja na poesia, seja por aqui, seja por onde for, por outro sei mesmo que em muitas vezes não é apenas uma questão sensitiva, é mesmo falta de qualidade (aposto que o querido anónimo vai deixar neste post um comentário assez desagradável sobre a minha ecrita, não pode ver uma aberta, o rapaz).

diz-se muitas vezes, sabedoria popular, que quando deixamos de sofrer por algo que nunca mais acontece (uma qualquer transformação que me fizesse gostar do que escrevo, ou vá, se perder a cabeça com desejos, escrever mesmo bem) esse algo acontece em força. de repente, apenas nesta semana, tive a caixa de mensagens inundada por pessoas que me falavam deste blog. inesperadamente, porque ele existe há já alguns anos. não eram mensagens elogiosas, eram mensagens que mostravam que o meu objectivo estava a ser cumprido, eu estava realmente a comunicar as ideias que queria, as pessoas liam e percebiam, subscreviam, queriam falar mais sobre isso.

na mesma semana, numa leitura de poesia, uma pessoa leu em voz alta um poema meu publicado numa Nicotina. não só não me lembrava de ter publicado este texto como tive dificuldade, na primeira leitura, em reconhecer aquelas palavras. em relação à poesia a minha história é mais dolorosa. é-me impossível reler o que escrevi e sou de uma exigência sofrida com cada palavra que tento escrever. coloquei esse capítulo numa gaveta e decidi que ia ser leitora. que nunca mais ia conseguir escrever. gostei daquele texto, seja como for lembro-me bem do esforço que foi enviá-lo e das leituras que fiz e refiz à exaustão. as pessoas gostaram do poema, algumas sem saber que era meu (que as teias da amizade são mais fortes do que eu consigo intuir) e demorei uns dias a encaixar isto. ainda não encaixei e por isso resolvi fazer esta reflexão, aqui, neste blog que não fala nunca de mim, e que tão cedo não falará. eu gosto de ser leitora, é o meu espaço de conforto. gosto do silêncio em que me deixo muitos dias a imaginar um texto que vou escrever sobre um livro ou sobre um tema. gosto de revirar os livros que leio em vários ângulos. gosto deste quase anonimato do leitor.

deixo aqui o poema de que falei. é o primeiro poema meu publicado aqui (que escondi o blog onde estão os outros até acabar este meu processo, se é que vai acabar). não me é confortável publicar textos meus mas, afinal, este blog está cheio deles.

obrigada aos amigos que me pediram mais textos. ainda não vai ser já. mas com os vossos pedidos guardo estrelas que não são só até 5 e onde regresso cada vez que sentir que o que escrevo é digno de um livro da Chiado, com folhas e flores na capa.


Sem comentários:

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água