terça-feira, 1 de julho de 2014

Nicotina Zine #5 já nas mãos de quem a apanhar

este texto não serve ninguém. nem a nicotina precisa que se escreva sobre ela. aliás se a nicotina pudesse escolher mandava um apagão neste texto.
mas há uma só forma de se ser fanzineiro que é a rebelião própria de quem há muito sabe que não há desejo ou amor pela escrita de ninguém. ser fanzineiro é ser orgânico. ser nicotineiro também.

Pois afinal de contas a única inquietação que não se deve inibir, a única angústia que não prejudica a saúde mental dos outros, é a da nicotina, saudade justa, coisa sã. [PA]

pois então deixemo-nos de categorizações. a nicotina lança o seu número 5, ou melhor #5, com poetas e não só (não só?). com textos que nada têm a ver com qualquer verdade.

os estados de verdade nada tinham a ver com este desdobrar sem fim “se tu fosses dois mexicanos a dormir num camelo eras uma família de equilibristas chineses” [MN]

então se a questão não é a verdade é possível dizer que a Nicotina se afasta de conceitos grandes, Beleza, Grandeza, Verdade, Deus, Demónio, Impostos. é antes uma pequena transgressão de costas voltadas com a norma mas nada de confrontos directos com esta. estar de costas voltadas é uma transgressão diferente de estarmos contra algo. é como uma escrita ao contrário sem ter nenhum dos lados definidos e por definidos dizemos obrigatórios e por obrigatórios dizemos que vivem à margem de qualquer lei, de qualquer pessoa.

não te afeiçoes muito a cada lado porque estão ambos em mutação - dependem sempre do hemisfério de onde partes e da flutuação do manto de matéria fundidas debaixo dos pés [JA]

mas vale tudo? ou vale pensar tudo? é capaz de ser mais este o ponto de vista. podemos pensar em tudo, escrever como quisermos, escolher um dos lados em absoluta liberdade. já se sabe que os actos têm consequências. a procura do texto certo, a inevitável (será?) intervenção da razão. porque escrevem estes autores nesta fanzine então?

e o mais novo, com mão implacável, metia no fogo papéis dactiloscritos e manuscritos, fotografias de toda uma vida, os insubstituíveis inéditos, tudo ia parar à boca de fogo da salamandra.  […] orgulhoso e cheio de vida, acercou-se da cama do velho e sussurrou-lhe ao ouvido:
morre cabrão!!
[RD]

ser destes fanzineiros é fugir do fogo em comunidade (eu tinha / na ponta de um cigarro / a brasa incandescente que acendi / demasiado tarde [GM]). é pertencer a um espaço de escrita comum que não é na verdade nada do que em cima foi referido. é um espaço de diálogo onde se soube ser silêncio. e o equilíbrio raro de pessoas acompanhadas de um copo de vinho e um cigarro que queima lentamente. é uma fanzine mas não é uma fanzine qualquer, é uma Nicotina. Zine. uma fanzine sempre em estado de gestação, seja qual for a estação do ano.

cercano al abismo
unido por anguilas eléctricas
aquí el silêncio es un estruendo
talismán en gestación
árbol de otoño eterno
cruzado por gaviotas
que parten sin boleto de vuelta


[CG]

[CG] Cristian Garzaro
[GM] Gonçalo Mira
[JA] José Anjos
[MN] Marta Navarro
[PA] Paola d’Agostino
[RD] Rafael Dionísio

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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997